Seguidores

Mostrar mensagens com a etiqueta problema. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta problema. Mostrar todas as mensagens

10.6.20

ISABEL - PARTE XXI






A caminho de casa, Isabel interrogava-se. Que raio se passava com ela? Seria o aproximar dos quarenta anos? Um problema hormonal? 
Entrou no prédio e dirigiu-se ao elevador
- Boa tarde menina, - saudou a porteira que se dirigia para a porta da rua com um balde e uma esfregona.
- Boa tarde dona Rosa. Desculpe não a tinha visto. E dizendo isto abriu a porta do elevador.
- Não faz mal menina. Tenha cuidado ao sair do elevador, o chão pode não estar seco ainda.
- Terei cuidado. Até logo e obrigada pelo aviso
- Até logo menina. Vá com Deus.
A conversa com a porteira tivera o condão de a desviar dos seus pensamentos e sentia-se agora mais calma.
Quando dez anos antes, ela fora morar para aquele prédio, já a dona Rosa lá estava. Era uma mulher sozinha. O marido morrera há anos e o único filho que tivera emigrara para França. Queria fugir dum futuro sem esperanças. Lá casou e lá foi pai por duas vezes. A princípio vinha sempre a Portugal, todos os anos em Agosto. Depois os filhos começaram a crescer, foram para a escola, arranjaram amigos e foram-se desinteressando das férias em Portugal. Afinal lá é que era a sua terra e lá estava o seu futuro. Se a nora fosse portuguesa, decerto faria pressão para vir ver a família. Mas não era. Aos poucos as visitas foram rareando. A última vez que viu o filho e os netos foi no funeral do marido. Nessa altura o filho insistiu em levá-la, tinha lá boa vida, boa casa que comprara há poucos meses, e até tinha um quartinho para a mãe. Mas ela não quis. Costumava dizer “Vivi aqui toda a vida, quero morrer aqui". E depois eles têm lá a sua vida, os seus costumes e eu ia para lá servir de estorvo. São outras terras, outras modas."E burro velho não aprende línguas". "Aqui, tenho a sorte de ter este trabalho, tenho a casa, não pago renda, os inquilinos são como amigos, tratam-me com carinho que mais hei-de querer?”
Um dia Isabel perguntou-lhe: - Mas não tem saudades deles?
-Ai menina, se tenho. É uma mágoa sem tamanho. Mas sabe a minha avó sempre dizia. Quando casamos uma filha, ganhamos um filho, quando casamos um filho perde-mo-lo.
- Nem sempre dona Rosa, nem sempre.
- Claro, menina há excepções. Mas do mesmo modo que uma filha puxa o marido para nós, a nora também puxa o marido para a família dela. É a ordem natural das coisas, não há como fugir dela.
Isabel tinha um carinho especial pela porteira. Talvez fosse a solidão das duas que as aproximava, ou porque de certo modo a senhora lhe fazia lembrar da sua falecida mãe. 
Tomou um duche rápido, envolveu-se num roupão de seda e dirigiu-se à cozinha.
Não lhe apetecia cozinhar. Procurou no frigorífico as sobras da véspera. Tinha um pouquinho de frango assado. Também um resto de arroz branco. Meia alface, um pimento, e um tomate.
Na dispensa havia sempre uma lata de milho. Decidida fez uma salada de frango.                             

18.7.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE I

reedição


O homem abriu a porta, e fechou-a atrás de si com um toque de calcanhar. Carregou no interruptor e o espaço encheu-se de luz. Estava numa pequena sala de entrada, com um único móvel de madeira escura, com tampo de mármore encimado por um quadro a óleo.
Junto à porta um bengaleiro.
 Despiu o casaco e pendurou-o. Depois em passos largos encaminhou-se para a divisão seguinte.
Acendeu a luz, e sem se deter caminhou até um pequeno bar e segurando um copo serviu-se de uma dose de Uísque. De um pequeno frigorífico incrustado e dissimulado no bar, retirou e colocou no copo, duas pedras de gelo.  Com o copo na mão sentou-se num dos brancos sofás que compunham a sala. 
O homem que devia andar perto dos quarenta anos, era alto, e bem constituído. Tinha uns olhos escuros e cabelos pretos, mas nas suas têmporas, apareciam já alguns fios brancos. O rosto, moreno, dir-se-ia ter sido esculpido por um talentoso escultor dada a sua perfeição.
Vestia roupas de corte elegante de bom tecido. Decididamente era um homem rico, e bonito, capaz de ter tudo o que desejava, mas naquele momento, recostado no sofá, de olhos semicerrados e aspeto cansado, não aparentava ser um homem feliz. Pelo contrário, se por ali houvesse um pintor, em busca do tema ideal para retratar a solidão, decerto acharia que tinha encontrado o modelo perfeito.
Apesar do seu porte atlético, parecia demasiado pequeno na grande sala com os dois enormes sofás brancos, a parede atrás de si completamente coberta de livros, o bar do seu lado esquerdo, e o reposteiro que cobria toda a parede da frente possivelmente envidraçada.
Ouviu-se o som de um telemóvel. O homem abriu os olhos e procurou o aparelho. Lembrou que o tinha poisado, no móvel da sala de entrada.
Sem vontade, levantou-se e foi até lá. Atendeu. Era Diogo, o advogado.
-Que se passa? – Perguntou com brusquidão.
- Queria lembrar a hora da reunião amanhã com os donos da “Tudilar”
- Que é às dezassete, já me tinhas dito.- Replicou aborrecido. Espero que tenhas tudo pronto, Quero efetuar a compra amanhã. Estou a pensar viajar de novo em breve.
- Está tudo em ordem. Creio que não vai haver problema. Eles estão com a corda na garganta. É a venda ou a falência.
-.Está bem. Espero-te no meu escritório às quinze para revermos isso.
- Lá estarei, Mário.







27.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXXIV




Os cinco dias até ao Natal passaram a correr. O casal aproveitou para fazer as compras para a época, umas vezes acompanhados por Natália e a menina, outras deixando-as em casa. Um dia, compraram uma árvore de Natal, que quase tocava o teto da sala, muitas bolas coloridas e correntes luminosas. Depois de montada e decorada, a alegria e admiração da pequenita, foi a melhor recompensa dos adultos, embora não a deixassem sozinha na sala, com medo de que provocasse algum acidente.
Isabel falara com Ricardo acerca da consoada, dizendo-lhe que desde a morte da mãe, ela e a irmã sempre passaram a noite de Natal com Natália e o marido. E mesmo depois que ela ficou viúva o hábito manteve-se.
A vizinha fora a sua força, o seu apoio, desde que a mãe morrera. E gostaria de continuar com esse convívio até porque Natália era uma mulher solitária, não tinha ninguém de família, a não ser um sobrinho por parte do marido que tinha emigrado há muitos anos para a Austrália e nunca mais dera notícias. Por isso, gostaria de  a convidar para passar a consoada com eles. Ricardo respondera, que não via qualquer problema, e que também ele iria convidar Artur, que era um amigo de longa data, fora o seu padrinho de casamento, e também era um homem muito solitário. Além disso, tinha reparado no dia do casamento, que parecia haver uma certa empatia entre eles. E acrescentara:
-Era engraçado se eles se entendessem.
- A Natália é uma mulher muito simpática, mas não sei se estará recetiva a uma nova relação. Dava-se muito bem com o marido, está viúva, há oito anos e tem sempre respeitado a memória do falecido.
- Acredito. O Artur nunca se casou, mas confessou-me há dias que se sente muito sozinho…
-Para quem não acredita no amor estás muito casamenteiro, - disse ela.
- O casamento pode surgir por muitas outras razões que não o amor. Nós somos a prova disso- retorquiu ele.
Não voltaram a falar no assunto, mas os amigos foram convidados.
Natália veio logo ao fim da manhã, a fim de ajudar Isabel a fazer as iguarias da ceia. Ricardo teria preferido dirigir-se a um dos hotéis que promovem a data e passar lá a noite. Ele podia permitir-se essa despesa, e ninguém se cansava, mas as duas diziam, que era uma data para estar em família e que as coisas feitas em casa tinham outro sabor. De modo que ele limitou-se a ser a ama da menina, deixando que elas tivessem o tempo necessário para fazerem o que tinham projetado. Artur chegou pouco depois do anoitecer. Vestido de pai Natal, entregou à criança as prendas que os pais lhe tinham comprado, e que Ricardo lhe entregara nessa manhã, para que ele fizesse essa entrega. Uma boneca, um conjunto de peças de construção, bem coloridas, um cavalo de baloiço quase maior que ela, livros de bonecos e lápis de cor para colorir. Depois enquanto a criança foi jantar, Artur foi à casa de banho despir o fato de Pai Natal que vestira em cima do seu fato cinzento. Voltou com o disfarce num saco de plástico dizendo:
-Vou lá abaixo meter isto no carro, não vá a Matilde ainda dar com o fato e ficar toda baralhada.
Quando voltou, a menina já tinha jantado e balançava-se radiante no seu cavalinho. Ricardo serviu uma bebida ao amigo e sentaram-se no sofá a conversar. Pouco depois, Matilde começou a mostrar-se sonolenta, e Ricardo pegou-lhe ao colo para a ir deitar.
- Desculpa, tenho que a ir deitar. As senhoras já terminaram a sua labuta na cozinha, foram arranjar-se. Podes vir comigo ou ficar aí a ver TV.
-Vou contigo. Ver como te desenrascas na tua nova condição de pai, é coisa que não quero perder.



21.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXIV





O homem, preocupado, sem saber que fazer, e quase sem tempo para adiar uma resolução, pois a data agendada para a próxima exposição aproximava-se. A jovem, assustada, perdida, sabe-se lá em que infernos interiores, quase não jantaram nessa noite, apesar de toda a simpatia do empregado do restaurante e do belo aspecto do peixe assado pedido para o jantar. Depois em casa, rapidamente a jovem recolheu ao quarto. Mas estranhamente, ou não, a porta do quarto ficou aberta, e a luz acesa, acabando por adormecer assim.
Na sala Miguel continuava perdido nos seus pensamentos, buscando uma solução para o problema em que se tinha metido.
O melhor, cogitou, será levá-la para Lisboa. Lá existem bons psiquiatras, poderá ser tratada lá. Depois se verá. Mas levá-la daqui, que pode ser a sua terra, não será demasiado arriscado? – Interrogava-se.
Por fim tomou uma decisão. No dia seguinte teria uma conversa franca com o médico, e faria o que ele achasse melhor para a jovem, ainda que isso o contrariasse. Mais calmo, preparou-se para dormir. Como a porta do quarto estava aberta e a luz acesa, chamou pela jovem julgando-a acordada. Ela não respondeu. Hesitou, um pouco e depois dirigiu-se ao quarto. Ela dormia, meia destapada, a farta cabeleira espalhada na almofada. Por alguns instantes ficou contemplando-a. A imagem era demasiado bela para o  olhar de qualquer homem, mas Miguel atribuiu a sua admiração ao facto  de ser pintor. Os seus olhos estavam treinados para tudo o que era belo. E o abandono da jovem que dormia confiante, era de grande beleza. Depois suavemente puxou-lhe a roupa para cima, apagou a luz, e saiu do quarto murmurando:
-Tão jovem e tão sofrida!
Acordou perto das onze. Sentou-se no sofá, e enquanto calçava os chinelos, olhou para o quarto. A porta continuava aberta, mas a cama estava feita, pelo que deduziu que a jovem se teria levantado à muito.
Encontrou-a sentada à mesa da cozinha fazendo rabiscos no caderno de desenho. Vestia, umas calças de ganga, e um camiseiro turquesa. O cabelo apanhado numa só trança, caía-lhe sobre o ombro direito.
“Caramba, parece uma miúda”, pensou enquanto saudava:
-Bom dia Mariana. Dormiu bem?
- Bom dia Miguel. Dormi sim. E parece que o Miguel também. Pelo menos quando me levantei, dormia.
- Adormeci tarde, - desculpou-se sorrindo. Bom, vou tomar o meu duche. Temos que almoçar mais cedo, por causa da consulta. Está preparada?
Ela assentiu com a cabeça.
-Ainda bem.
E saiu dirigindo-se à arrecadação junto à casa de banho. 
Dias depois da chegada da jovem, ele  tinha comprado um armário, que mandou colocar na arrecadação, para onde mudou todas as suas roupas. Não tinha lógica, e nem lhe parecia  correto,  ir para o quarto da jovem, sempre que precisava mudar de roupa. 
Mariana fechou o caderno e dirigiu-se à sala. Apanhou a roupa espalhada no chão, sacudiu-a,  dobrou-a cuidadosamente, guardando-a no gavetão do sofá. Depois fechou-o e colocou-lhe por cima a manta alentejana, e as almofadas de croché.   



  




13.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XV




Terminada a refeição que decorreu em amena camaradagem, como se os dois se conhecessem desde sempre, tomaram o rumo do centro da cidade.
Miguel estava espantado. A jovem que o acompanhava em nada se parecia com a do dia anterior, ou mesmo dessa manhã. Que se passara entretanto para uma mudança tão radical? Era como se a jovem se tivesse esquecido do seu problema. Mas a pergunta que lhe fizera, antes de entrarem no restaurante, demonstrava o contrário. Apesar de gostar de a ver assim, estranhava-lhe, a atitude.
Na baixa, Miguel procurou o consultório do tal psiquiatra, que lhe tinha sido recomendado. Infelizmente não tinha vagas para toda aquela semana. Miguel insistiu, era urgente, se fosse possível uma vaga. Não era possível. Só na próxima semana. Segunda-feira às 15 horas. Miguel acabara de marcar a consulta, quando o telefone tocou. A empregada atendeu e depois chamou-os ,quando os dois já se preparavam para sair..
- Parece que hoje, é o seu dia de sorte,- disse sorrindo. A marcação das dezassete horas, acaba de desistir da consulta. Pode ficar para os senhores . Em que nome fica a marcação?
E agora? Miguel procurou os olhos da jovem e só viu neles medo. Decidido deu o seu nome.
-Miguel Fernandes
-Então senhor Fernandes, a consulta está marcada para as dezassete.
- Obrigado. Voltarei a essa hora.
Uma vez na rua, disse.
- São duas e vinte. Vamos lá comprar os chinelos. Entretanto, talvez precise de outras coisas. Um creme, um perfume, eu sei lá. Não entendo nada das vossas necessidades.
Esperava um sorriso da jovem, mas o rosto dela tinha voltado a ficar taciturno.
Compraram os chinelos, e umas calças que lhe despertaram o interesse.  Depois parou junto de uma montra, cheia de bonitas malas de senhora. Porém quando Miguel lhe disse para escolher uma, a jovem encolheu os ombros e respondeu com tristeza:
-Para quê? Não tenho nada para pôr lá dentro.
Por fim, foram a uma perfumaria e depois de vários testes, escolheu o Angel, de Thierry Mugler.
Miguel, olhou o relógio. Dezasseis e trinta. Tinham apenas tempo para um bolo ou gelado antes da consulta. Porém a jovem estava demasiado nervosa e não quis nada, pelo que se dirigiram para o consultório




16.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXXI




Pela primeira vez desde que se tinha tornado um adulto, Cláudio sentiu que o pai lhe estava a esconder alguma coisa.  Conhecia-o bem. Talvez fosse algum problema com o casal, ou quem sabe o médico dissera-lhe alguma coisa sobre a saúde da mulher que ele não lhe queria contar para não o preocupar. Porque com os negócios não era. Nunca tinham corrido tão bem como no ano anterior, e este ano, a menos que acontecesse uma catástrofe natural, como chuvas intensas ou queda de granizo, que naquela época e com as uvas quase na fase das vindimas seria realmente uma grave perda, o ano ia ser muito profícuo.  Porém o tempo estava bom e o prognóstico do IPMA para os próximos dez dias não podia ser melhor. Teria que telefonar ao seu amigo Doutor Ricardo Souto, para saber se havia alguma coisa de errado com a mãe.
Até ele chegaram as onze badaladas do sino da Igreja. Devia ir deitar-se, tinha muito trabalho no dia seguinte. Mas a noite estava quente, o céu estrelado, e não se ouvia outro ruído que não o cantar dos grilos na sua ária de sedução para atrair a fêmea. E as cigarras. Cláudio gostava de ficar ali em silêncio, a sós consigo mesmo e com os seus pensamentos mais íntimos, que ultimamente tinham um nome. Helena.
Porque teria a jovem fugido dele? Porque não lhe dera, nem dera a si própria a hipótese de se conhecerem melhor? Será que tinha alguém a quem não queria trair? Um namorado, um noivo?
Porque havia ela de ter aparecido na sua vida, se não tinha intenção de ficar? E porque raio ele não conseguia esquecê-la? Mal se abstraía do que estava a fazer e logo ela chegava, e se instalava nos seus pensamentos como dona e senhora.
À noite, sozinho no enorme leito de casal, parecia-lhe sentir o seu perfume, a doçura dos seus lábios. Começava a sentir o peso da solidão. Estava na altura de procurar uma companheira. O pior é que até conhecer Helena, não se interessara por nenhuma, e agora, só a jovem lhe interessava. Mas como encontrá-la? Não podia andar, como os arautos da idade média, de cidade em cidade, gritando o seu nome.
Levantou-se aborrecido consigo próprio. Desde quando, ele, Cláudio Guerreiro, pensava parvoíces, tais como andar de cidade em cidade a gritar o nome de uma mulher? O melhor que tinha a fazer era ir deitar-se e tentar dormir. De dia, com os imensos afazeres, é muito mais fácil esquecer. E talvez a recordação da jovem lhe desse tréguas.
Pouco depois dormia profundamente. Acordou sobressaltado com a sensação de que não estava sozinho. Abriu os olhos e ficou espantado ao ver Helena, envergando uma curta e sensual camisa de dormir. Estava de pé junto à cama e sorria para ele.
"Não é possível, estou a dormir, isto é um sonho,"- pensou enquanto esfregava os olhos, esperando que a visão desaparecesse, mas quando os abriu, ficou espantado ao ver a jovem não só não tinha desaparecido, como naquele momento, se deitava a seu lado.
- Que fazes aqui? – Perguntou estupefacto.
- Chamaste-me e eu vim, - respondeu-lhe num sussurro.
Ainda sem entender como era possível, ele estendeu os braços e ela aninhou-se neles. Começaram a beijar-se. Primeiro docemente, depois com toda a força da paixão que os possuía. Beijavam-se, e despiam-se mutuamente, mãos e bocas percorrendo os corpos em carícias loucas, até que não podendo mais protelar o momento. Cláudio entrou nela e os dois iniciaram a dança mais antiga da humanidade.
No momento sublime em que ela gritou o seu nome, acordou encharcado em suor, deitado sobre a almofada. Acendeu a luz. Quatro horas da madrugada. Sentou-se na cama e procurou os chinelos. Precisava com urgência de um duche. 



Gente estão cansados da história? É que está tudo a falar no final!... E a procissão ainda só está no adro. 


A quem pergunta pela minha saúde, estou a fazer fisioterapia e estou melhor, embora longe de estar bem.
Esta tarde, fui a uma consulta de oftalmologia, pois notei que estava a deixar de ver do olho direito e como a mãe tinha glaucoma e o irmão tem glaucoma e quando descobriu já estava cego da um olho e com apenas metade de visão no outro, fiquei assustada e fui logo de manhã marcar uma consulta.
Pois bem o farol direito está com uma catarata que já me está a roubar 50% da visão. Mas não há nenhum sinal de glaucoma.
Aconselhou a operação até ao fim do ano.

14.5.18

RENASCER - XXXVI







E hoje foi um dia especial. estive em Lisboa no lançamento de uma antologia de poesia, onde participo com dois poemas,
Mostro aqui o livro bem com a primeira parte dos poemas, pois os dois ocupam quatro páginas.








25.9.17

A RODA DO DESTINO - PARTE I




Afastou a cadeira e levantou-se. Estava cansado. Há horas que lia e relia aquele processo e não conseguia concentrar-se. Foi até à janela. Pensativo passou a mão pela testa. Tinha que se concentrar. O julgamento era dentro de três dias e o seu opositor era um advogado de renome. Santiago Castro, um dos nomes mais fortes da história atual, na advocacia, um homem frio que nunca perdia um caso.
Salvador Rodrigues, estava no mesmo barco. Também nunca tinha perdido um caso, mas os dois nunca se tinham enfrentado, até aquela data. Ia ser o julgamento do ano, já que um deles seria derrotado pela primeira vez, e os dois temiam-se por igual.
Salvador no entanto sabia que não era o julgamento que o deixara naquele estado. O problema era pessoal, e isso é que o estava a impedir de se concentrar na defesa do seu cliente, em cuja inocência ele acreditava piamente.
Não se perdoaria se por erro seu, o cliente, fosse condenado. Ouviram-se umas pancadas na porta e de seguida uma mulher entrou na sala.
- Vou ao café. Queres que te traga algo para comeres? Há horas que estás aqui fechado, nem sequer foste almoçar.
Raquel a sua secretária, era uma mulher de baixa estatura, corpo roliço e rosto simpático. Rondava os cinquenta anos, e conhecia Salvador desde menino. Estava no escritório, há quase trinta anos. Fora secretária do seu pai, e continuara no escritório, quando ele se reformara e passara para o filho mais novo o escritório e a sua carteira de clientes. Raúl o mais velho dos dois irmãos não quis saber da advocacia. Aliás ele não quis saber da Universidade. Largou os estudos mal terminou o Secundário. Sempre se interessou pelo desporto e se bem que nunca pensou ser profissional, nem competiu em nenhuma modalidade, na hora em que recebeu a parte da herança da mãe, abriu um estabelecimento de artigos desportivos, em Cascais e as coisas estavam a correr tão bem que em breve pensava abrir uma filial, numa cidade no Algarve, estando ainda a pesquisar o melhor local para ela.
-Obrigada, Raquel. Não me apetece comer. Se puderes trazer-me um café, antes de ires…
-Não. Só se comeres alguma coisa antes. Já te trouxe seis cafés, desde que chegaste. Queres sofrer uma “overdose” de cafeína? Não acredito que esteja assim tão difícil essa defesa.
- Não. Eu é que estou com os níveis de concentração muito em baixo. Vai lá então e traz-me uma sandes de presunto e uma água mineral.
 - Ok. Não me demoro. Vou passar a ligação telefónica para o teu gabinete enquanto me ausento.
Saiu deixando-o só. Cinco minutos depois, estava de volta. O que não admirava já que o café se situava no piso inferior do mesmo edifício do escritório.


NOTA. ACABOU-SE A INSPIRAÇÃO PARA O TITULO DESTE CONTO. ASSIM IRÁ SER PUBLICADO COM SEM TITULO. PEÇO A VOSSA COLABORAÇÃO. QUEM ME VAI AJUDAR A ENCONTRAR-LHE UM TITULO?
AGUARDO AS VOSSAS SUGESTÕES

22.6.17

SONHO AO LUAR - PARTE VI


Isabel abriu o portão e disse ao homem que estava no jardim que ia por causa da vaga de secretária. Ele pediu-lhe para esperar, e entrou em casa. Voltou pouco depois e levou-a ao escritório. Ela ia olhando para a casa. Estava bonita, mais moderna, mas mais impessoal. Tão diferente daquilo que ela se recordava.
O homem abriu a porta, deu-lhe passagem e fechou-a atrás dela. Na sua frente, Helder encontrava-se recostado num cadeirão, com o cão a seu lado. Tinha vestido umas calças cinzentas, e um polo azul-escuro.
Mentalmente fez as contas. Se ela tinha vinte e seis anos, ele tinha trinta e seis. Parecia mais velho. Tinha já alguns fios de cabelo branco. O rosto moreno, continuava bonito, apesar dos óculos escuros, que escondiam os outrora brilhantes olhos castanhos.
- Bom-dia, - saudou. - Venho por causa da vaga de secretária.
- Bom-dia. A agência não me informou de que tinham mandado alguém.
- Bom, é que não vim mandada pela agência.
- Como assim?

10.3.16

MANEL DA LENHA PARTE XXIX

        As filhas do Manuel com as coleguinhas. 

Em Outubro de 56 a segunda filha do Manuel foi para a escola. Agora ficava só o filho em casa pois ainda não tinha idade. Arménio, tinha um problema com a fala. Era um miúdo muito inteligente, que com terra e água, se entretinha em grandes construções, mas pronunciava mal as palavras,  Entendia toda a gente, mas poucos o entendiam a ele. Chamava as irmãs, Elvira, de Nebida, e Lourdes, de Nudes. E os pais, de Pachino e Machina. Mas havia outras palavras que saíam ainda mais arrevesadas, algumas autênticas asneiras.
Um dia a mãe, levou-o ao médico, que uma vez por semana ia à seca. Porém ele disse que só o tempo o poderia curar, se é que algum dia ficaria curado.
 Uma camarada lá na seca, (ali, mulheres e homens tratavam-se de camaradas, sem a conotação política que mais tarde se lhe atribuiu na política), disse à mãe, para meter o miúdo num fole ª), e correr sete freguesias, carregando-o no dito fole. Porque a mãe não acreditou na mezinha, ou porque não teria forças para carregar o miúdo, as sete freguesias que distavam muito umas das outras,  não o fez.  O certo é que faltava um ano para o catraio ir para a escola, e a sua linguagem era tão arrevesada que às vezes nem a própria mãe o entendia.
Também em Outubro chegaram os navios, e o trabalho na seca recomeçou. O miúdo ia para a seca com a mãe, e o tio, que tomara conta deles enquanto mais pequenos foi trabalhar também, até porque precisava de dinheiro para as suas coisas, e a irmã e o cunhado quase nunca o tinham para lhe dar.
Nesse mesmo ano, ainda Novembro não ia  a meio, um violento temporal abateu-se sobre a seca. O vento parecia ciclónico e as chuvas intensas, "varreram" a Azinheira. O barracão, ficou sem telhado, e a chuva encharcou tudo o que havia para encharcar. Felizmente que as duas meninas estavam na escola, e o pequenito tinha ido com a mãe para o trabalho. O Manuel também estava no trabalho bem como o cunhado, o que fez com que pelo menos não houvessem danos físicos.
Com pena do Manuel, que não tinha dinheiro para comprar e pôr um telhado novo, o Capitão mandou entregar-lhe telhas de lusalite, iguais às que cobriam os diversos armazéns, e o Manuel lá pôs o "telhado " com a ajuda do cunhado e de um amigo e vizinho. Foi uma trabalheira, mas à noite o barracão estava coberto. Apesar disso, nessa noite, todos dormiram no chão, enrolados em sacos de serapilheira, dos que serviam para ensacar o bacalhau, e que o gerente lhes deu, já que toda a roupa ficara encharcada, e até os colchões de palha de centeio teriam que ser esvaziados e a palha posta a secar ao sol
Pouco tempo depois, com a ajuda do cunhado, Manuel pode enfim comprar um leitão no mercado. Pôs um balde na malta dos homens para recolher os restos de comida, e levar para o porquinho.


ª) saco ou bolsa de couro