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23/02/25

Heroes are hard to find ( 102 )


Bill Fay

( 9 Setembro 1943 - 21 Fevereiro 2025 )

25/01/20

Bill Fay "Countless Branches"




I wanna walk in the hills, of Enniskellen,

I wanna feel my heels touch something real,

I wanna turn my back on the forces from hell

And feel my heels touch something real

Everybody knows it, it’s self-evident

This world ain’t safe in human hands
( “In Human Hands” )

O mundo está feio e perigoso como não acontecia há décadas. Mais do nunca são precisas vozes lúcidas, serenas, perspectivando aquilo que realmente importa agora e, sobretudo, amanhã.

Bill Fay é ( sempre foi ) um trovador inteligente, discreto e, acima de tudo o resto, lúcido. Pagou naturalmente o preço que o mainstream cobra pela ousadia de praticar a integridade ( na edição do passado dia 15, o New York Times escrevia: “Bill Fay was a hidden gem. One musician made finding him a mission”, embora não conste que esse facto o tenha incomodado ou contribuído para inflectir o percurso.

Countless Branches” não se desvia um milímetro do citado percurso. Ainda e sempre sereno, é um disco de causas ( humanas e ambientais ), lírico e intimista, matriz do talento do autor.

Não é contudo um registo apontado a gente apressada ou superficial. Antes o género de disco que envelhece lentamente e que tem ( sublinha-se o “tem” ) de ser escutado no recanto do silêncio e introspecção.



Chamadas de atenção vestidas de lamentos ( “In Human Hands”, “Salt of The Earth”, “How Long, How Long” ) intercaladas de sublimes hinos à esperança ( “I Will Remain Here”, “Filled With Wonder Once Again”, “Love Will Remain” ), dão corpo a um conjunto de canções de inigualável beleza, algo que a nossa memória não retinha desde há muito.

Pormenorizando: dez temas de construção simples e resultado intenso, a que se juntam sete bónus tracks, entre os quais uma nova abordagem de “Don’t Let The Marigolds Die” ( originalmente publicada em 1971 no álbum “Time of The Last Persecution” ) e versões eléctricas de “Filled With Wonder Once Again”, “How Long, How Long” e “Love Will Remain”.

Isto dito, regresso ao inicio, a “In Human Hands”, uma das pérolas maiores de um disco que se nos cola à pele e aos sentidos como poucos hoje o logram fazer.

04/04/19

"Strangers In The Room, A Journey Through The British Folk - Rock Scene 1967 - 73"



Se o Atalho alinhasse - que não alinha - pelo diapasão daqueles que em Janeiro já estão a eleger o melhor disco do ano; diria – embora não o faça – relativamente a “Strangers in the Room” estarmos perante a melhor compilação do ano.


Concentrando-se no período dourado da música popular britânica do século XX, vertente folk-rock, “Strangers In The Room, A Journey Through The British Folk-Rock Scene 1967 – 73” propõe-nos 60 temas de outros tantos nomes, alguns verdadeiramente obscuros, que à época animaram aquela cena.
( Chimera )

Steeleye Span, Trader Horne, Trees, Spirogyra, Pentangle, Prelude, Bridget St. John, Joan Armatrading, C.O.B.,  Shirley Collins, Fairport Convention ( a versão de “Sir Patrick Spens” ainda vocalizada por Sandy Denny não é muito comum, apesar de ter sido já publicada como bonus track na reedição de “Liege and Lief” ) ou Bill Fay ( a demo aqui presente de “Be not so fearful” é pouco menos que sublime ) são nomes reconhecidos e mais ou menos consensuais.

Os Jade de Marian Segal, Alan James Eastwood, Knocker Jungle, Robin Scott, Gary Farr, The Woods Band, Al Jones, , Mike Cooper ou Steve Tilston por exemplo, já não o serão tanto. Os temas recuperados em “Strangers In The Room” poderão funcionar como ponto de partida para a descoberta de obras maiores a que o tempo, generoso,  acrescentou uma significativa camada de patine.
( Lifeblud )

Mas a substância, a verdadeira substância desta compilação, encontramo-la em temas gravados mas não publicados ao tempo. De entre estes o Atalho sublinharia “Sad Song For Winter” ( Chimera ), “Woodstock” ( Matthews Southern Comfort ) numa mistura onde pela primeira vez se podem escutar as guitarras acústicas, “The Man Who Called Himself Jesus” ( Strawbs ) outra mistura inédita, “Pucka-Ri” ( Urban Clearway ), “Riverboat” ( Dando Shaft ), “What I Am” ( Fresh Maggots ), “River of Fortune” ( Heron ), “Beverley market meeting” ( Jude ) ou “Waxing Of The Moon” ( Lifeblud ).

A tudo isto junta-se um booklet elaborado com o rigor cronológico-biográfico a que David Wells já nos habituou, polvilhado aqui e ali por pequenas histórias de ir às lágrimas.


07/09/12

Bill Fay "Life is people"


There is a valley where the trees stand tall / and an icy wind blows / trees don’t speak but they speak to each other / of a people long ago /when the soldiers came and took away their villages one by one / and the fury of that moment they felt / but could only silently look upon…

There is a hill near Jerusalem / that wildflowers grow upon / flowers don’t speak but they speak to each other / of a crucifixion / just because he said he was the son of God / and the fury of that moment they felt / but could only silently look upon …

Every city bar brawl, every fistfight / every bullet from a gun / is written upon the palms of the holy one  ( There is a Valley )


É preciso ter vida vivida e a inerente sabedoria para escrever assim. Bill Fay – talvez o segredo mais precioso da música inglesa das últimas décadas -, tem-na, e profusamente.

Autor de dois álbuns tão extraordinários quanto negligenciados  ( “Bill Fay” de 1970 e “Time of the last persecution” de 1971 ) Fay, dotado de uma personalidade peculiar, nunca recebeu o merecido reconhecimento em devido tempo. Ignorado pela crítica e pelo público, desapareceu por entre os labirintos esconsos da vida. Sabe-se agora, que para sobreviver trabalhou em jardinagem, em limpezas, na apanha de fruta, em cadeias de supermercados … Porém nunca deixou de escrever canções, aquelas canções maiores que a vida, as quais foi criteriosamente guardando. À espera.

Foi assim durante mais de 30 anos. No inicio deste século, alguns músicos, críticos e melómanos mais atentos e curiosos, “descobriram” finalmente Bill Fay. Os dois álbuns atrás referidos foram reeditados e,  enquanto tal, algumas maquetas dispersas no tempo saíram dos arquivos do autor ( “Tomorrow and tomorrow” 2004 e “Still some light” 2010 ). Porém nada fazia prever o que estaria para vir.

Era sabido que Fay continuava a escrever e a gravar, todos os dias. Mas honestamente, quarenta anos depois, julgo que poucos estariam preparados para uma obra como “Life is People”.  Trata-se na verdade de um conjunto de canções  superlativas, extraordinárias ( passe a redundância ). No género, algo do melhor que o Atalho escutou em muitos anos.

Só um poeta, um sábio e um músico de excepçional, poderiam escrever qualquer  um dos 12 temas que compõem este cd. De facto, sabendo-se a história do autor, quando se parte para a audição de “Life is people”, espera-se  talento e inspiração, mas também se espera algum desencanto e muita amargura.  Nada de mais errado.

Bill Fay é um humanista. Em lugar da antecipada comiseração, existe a esperança e uma forma muito carinhosa, tolerante, de olhar para o ser humano. Tudo isto, sem nunca abdicar do seu percurso  -  … this world’s got me on my knees / there was a time when I used to stand tall / too many years in the factories / scrubbing floors and walls …” ( This world ) - , nem da sua forma muito própria de ver o mundo  - “ thousands of windows / I’m scared of what I see / people wired up to telephones / plugged into TV screens / thousands of windows / I’m so scared of what I see …” ( City of dreams ).

E à medida que as audições avançam, percebemos que estas canções que falam da alma humana, das árvores, do silêncio, das crianças, da montanha, da cidade, de Deus …, entranham-se  na pele, conquistam o espírito, como um vírus. Mas um vírus bom.

E no final do dia estamos em paz connosco próprios – “ … at the end of the day / ain’t nobody else / gonna walk in your shoes / quite the way you do /so be at peace with yourself / and keep a Spring in your heel / keep climbing that Hill / and be at peace with yourself …” ( Be at peace with yourself ). A razão e a emoção lado a lado, porventura  por uma única e última vez.

“… Trees don’t speak but they speak to each other …”

27/05/10

Killers, Angels, Refugees ( 14 )


"Sing us one of your songs May" ( Bill Fay )

Sing us one of your songs May,
the ones you know so well
Sing us one of your songs May,
you know we love you well
Dry the tears from your eyes May,
what's it gonna be
For you know he's gone to Heaven May,
though he was only 23
They say he was a brave one May
and we all agree
There never was a finer one May,
that died for his country
Sing us one of your songs May.



A marcial simplicidade com que Bill Fay aborda este tema tem tanto de brilhante quanto de incómodo. Uma das suas mais belas e eloquentes criações, "Sing us one of your songs May" foi publicada pela primeira vez no álbum "Bill Fay" ( Deram Nova SDN 12 ) em 1970.

01/04/10

Bill Fay "Still some light"


Bill Fay é a par de Peter Hammill um dos grandes talentos vivos que a Inglaterra menos valoriza. O líder dos Van der Graaf Generator tem a seu favor isso mesmo, o facto de ser o dínamo de uma das bandas de culto mais antigo e constante na Europa continental e nas Américas. Bill Fay por seu lado, é um genial e lúcido misantropo que, talvez à imagem de Nick Drake, só venha a ser realmente apreciado quando abandonar o mundo dos vivos.

Numa entrevista concedida há uns anos a Richard Morton Jack (Record Collector, Setembro 2004) Fay revelou que os seus dois álbuns de originais – “Bill Fay e “Time of the last persecution” - terão vendido apenas cerca de 2000 exemplares cada. Pouquíssimo tendo em conta o standard da época (1971). A situação hoje seria pouco diferente não fora o interesse e apoio militante de gente como David Tibet (Current 93), Jim O’Rourke, Ben Chasny, Jeff Tweedy ou Richard Morton Jack que, entre outros, ajudaram a colocar as reedições da Eclectic (2005) e da Esoteric (alguns anos após) no centro do mundo. Apesar disso, a escassa obra de Bill Fay permanece um segredo razoavelmente bem guardado.



Daí que todas as oportunidades sejam boas para aplaudir o homem e o artista. Como agora, a propósito de “Still some light”.

Este, particularmente o seu CD2 intitulado “Still some light, Home recorded Album 2009”, é um dos melhores discos que menos gente irá escutar este ano. O CD1, “Piano, Guitar, Bass & Drums 1970-71” consiste na recuperação das maquetas das canções que haveriam de integrar “Bill Fay” ( duas ) e “Time of the last persecution” ( nove ), às quais se juntam seis inéditos. Interessante embora apenas documental, uma vez que o factor surpresa é prejudicado pela assombrosa recordação do que são aqueles dois discos originais.

Ao invés, os 25 temas que integram o CD2 ( estou a excluir “I wonder” uma curiosidade da autoria do irmão John, também responsável pelo artwork e pinturas reproduzidas no booklet e capa do CD ), são preciosidades a consumir com urgência e sem restrições.



O desafio começa em “My eyes open”, um eloquente instrumental de Michael Cashmore ( a conferir no seu EP “The snow abides” de 2006 ) a que Fay acrescentou as palavras e a voz, propulsionando a peça original para outra dimensão, prosseguindo depois entre guitarras, sintetizadores, cordas, órgãos e pianos, através de canções canções, miniaturas de canções, interlúdios ou solilóquios vários.

Dir-se-á que a duração – 25 títulos – é excessiva e que o lirismo e atmosfera de câmara de títulos como “There is a valley”, “Road of hope”, “Time to wake up now”, “All at once” ou “One day” só ganhavam com maturação e um verdadeiro trabalho de produção. Tudo verdade. Porém para aligeirar a audição, perdia-se a espontaneidade e porventura alguma da autenticidade que estas músicas transportam.

E depois, que me recorde, “Bill Fay”, “Silent corner and the empty stage”, “In camera” ou “Over”, também não são propriamente obras fáceis de escutar.