Mostrar mensagens com a etiqueta Green Pajamas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Green Pajamas. Mostrar todas as mensagens

25/05/18

The Green Pajamas "Supernatural Afternoon"


É comum desaconselhar-se o regresso a lugares onde se foi feliz. Uma tradição aforística que ao Atalho pouco ou nada diz.

Regresso a Jeff Kelly e aos Pajamas, sempre. E sempre com o mesmo gosto que experimentei quando da respectiva descoberta.

Desta vez através de "Supernatural Afternoon", uma extraordinária ( palavras devidamente medidas ) compilação de singles e outakes,

Escute-se  a abertura com "January Girl", o longo tema título ( uma mescla entre um Tom Petty secundado pelos Heartbreakers originais e as guitarras de um Rich Hopkins suportado pelos Luminarios ) ou a sensibilidade filigranica que emana de "The Jailor's Song" e talvez se perceba melhor do que falamos quando falamos de Jeff Kelly, um songwriter cujo talento não encontra paralelo fácil entre os seus pares nos últimos 30 anos.

Quanto ao mais é consultar o histórico do Atalho via Green Pajamas, Jeff Kelly ou Goblin Market.


12/09/14

Jeff & Susanne Kelly "By reckless moonlight"




Coffee in Nepal” foi gravado por Jeff e Susanne Kelly entre 1985 e 1987. Captado artesanalmente num 4 track deck, seria publicado em cassete em 1987 e reeditado em vinil cinco anos após, dando inicio a um psychedelic-garage mini culto.

Contemporâneo dos primeiros Green Pajamas, permanece um dos registos mais autênticos e calorosos que Jeff Kelly produziu ao longo da carreira. Espelho de um romance no seu auge, “Coffee in Nepal” afastava-se do paradigma sonoro da Seattle da época, abraçava melodias pop, mesclando-as com elementos da música oriental. Pré anunciava o padrão que os Pajamas e o próprio Kelly viriam a seguir não muito tempo depois.  

27 anos e mais de 400 canções após  “By Reckless Moonlight”   retrata o mesmo romance, agora porventura já menos fogoso e inquieto – “I used to love to hear the rain/Now I’m older and afraid/In your arms I was safe and warm. E aqui a capa escolhida, um coincidente pastiche de “Double Fantasy” de Lennon e Yoko, diz muito, quase tudo.

Depois das edições dos Green Pajamas e Goblin Market em 2012, Kelly optou por fazer uma pausa e “fazer reset ao relógio”. Olhou para trás e, junto com a companheira Susanne ( pintora e autora da maioria das capas dos discos ), decidiu escrever em conformidade. “By Reckless Moonlight” é tudo menos um exercício nostálgico, antes um conjunto de canções que resulta de muito mundo e de vivências cúmplices.

É um trabalho maduro onde não se espera encontrar nada de revolucionário como outrora, mas algo que conforte e aquiete.  Tal, observando os padrões a que os Kelly nos habituaram, já seria bom. Mas este disco acolhe canções tremendas como “In Vanda’s room”, “Robin song”, “I’d rather be filming in Vanda’s room”, “Coming to find you” ou “Honey please come home”. E isso, não sendo surpreendente, só pode ser motivo de celebração.

22/12/13

The Green Pajamas "November"


 
1987. O ano da publicação de “The killer inside me  ( Green on Red ), “Stand up” ( Del Fuegos ) ou “Happy nightmare Baby” ( Opal ).
Após os álbuns “Summer of lust” e “Book of Hours”, a primeira formação dos Green Pajamas,  à data ainda integrando Steven Lawrence e Bruce Haedt, avançou para a gravação de um live show, publicando-o apenas em formato de cassete. As canções já tinham a rodagem feita mas o grupo  não havia projectado trabalhá-las em estúdio. “November” nasceu assim, algo prematuro e numa edição restrita de 200 exemplares.
 
25 anos volvidos e escutadas as fitas remasterizadas, “November” assume-se como uma revelação. A banda de Jeff Kelly encontrava-se no epicentro do Paisley Underground, vivia, escrevia e, sobretudo, tocava como tal.
 
A subtileza que se respira nos trabalhos mais recentes estava distante. O colectivo de Seattle era mais próximo dos Dream Syndicate ou dos Green on Red que dos actuais Pajamas. A marca de água de Jeff Kelly está lá naturalmente; na riqueza dos textos, nas melodias redondas e envolventes. Mas as guitarras, o órgão e os arranjos possuem o adn neo-psicadélico e até o fuzz tem ali espaço reservado.
Contas feitas, 19 temas pujantes e cristalinos, que ajudam a escrever a história de uma das bandas mais injustamente menosprezadas das últimas três décadas.

26/01/13

Green Pajamas "Death by Misadventure" & "Summer of Lust" / Goblin Market "Beneath far Gondal's Foreign Sky"


Vivesse-mos num mundo perfeito e não seria necessário falar dos Green Pajamas. Se justiça houvesse, a banda de Seattle seria enorme, como de resto merece, e estas notas seriam no mínimo redundantes.

Em actividade há mais de 25 anos,  os GP publicaram  cerca de uma vintena de álbuns. Se a estes somarmos  os muitos singles, EPs  e os registos solo de Jeff Kelly,  falamos de um universo que ultrapassa  as 400 canções.

O novo “Death by misadventure inclui 16 temas e tal como os anteriores patenteia imaginação e songwriting de excelência. Os textos permanecem eruditos e demasiado sombrios  para os padrões mainstream. Mas esse é um problema bom e há que aplaudir o facto de Kelly nunca ter cedido às pressões do mercado.

Dito isto, há que referir o facto de “Death by misadventure” ser um trabalho que exige muito a quem o escuta. Enquanto colectivo os GP refinaram. Mais do que uma banda, são hoje uma verdadeira orquestra e por vezes os ( elaborados ) arranjos , funcionam como biombos que escondem deliciosas melodias.  Muito mais do que ouvi-lo é preciso escutá-lo. 

Duas ideias principais: “The Fall of Queen Bee” e “Cruel Dreams, Cruel Things”, oito temas dentro de cada uma delas. Depois, é mergulhar na poesia de Kelly, deixar que a emoção nos conduza, que as guitarras abram caminho por entre o psicadélico, o clássico ou o étnico. E no final, quase sem dar-mos por isso, contundidos, regressamos a pérolas  como “Sky Blue Balloon”, “Wrong Home”, “A piece of a dream”, “Christabel” ou “The Spell”. Vestidas de uma elegância extrema, perfeitas para uma sofisticada tertúlia, musical e lírica.

Em 2000 Jeff Kelly e Laura Weller criaram a side-band Goblin Market.  Projecto de inspiração Pré-Rafaelita, conta já com três álbuns. O recente“Beneath far Gondal’s Foreign Sky” é dedicado à poesia de Emily Bronte e constitui uma absoluta preciosidade. E estou a pesar  as palavras.

Para aqueles que imaginavam nada poder ser mais etéreo do que a música dos GP, então o resultado da colaboração entre Kelly e a guitarrista da banda aí está para o desmentir. Depois de “Ghostland” ( cujo tema era a poesia de Christina Rossetti ) e de “Haunted” (incidindo sobre Joyce Carol Oates ), “Beneath” é uma peça a um tempo nostálgica, cinemática e bela. Belíssima.

O pretérito é aqui mais que perfeito e as melodias, porventura ainda mais “redondas” que nos Pajamas, surgem  aditivas e cintilantes. Sensitivas, as vocalizações de Laura Weller são puro deleite e Kelly demonstra que a fórmula GP está longe de se ter esgotado, ao contrário adapta-se e reinventa-se. No lugar das omnipresentes guitarras, surgem as flautas, as cordas, o órgão/piano. E o romantismo sombrio das irmãs Bronte aplaude. E nós agradecemos, pois “The Night Wind”, “The night is darkening”, “Remembrance”, “Song” ou “If this be all” são das melhores canções que escutámos em 2012.

Para se ter uma ideia de como tudo começou, acaba de ser reeditado “Summer of lust”,  a estreia dos Green Pajamas. Em 1984, muito antes das atenções se virarem para a chamada cena de Seattle, já Kelly, Joe Ross e Karl Wilhelm faziam história dando na região sequência ao que anos antes havia sido o “Paisley Underground” californiano.

Summer of Lust” é uma das mais inspiradas estreias que a memória do Atalho regista. À data mais não foi que um diamante em bruto. O brilho psicadélico foi ofuscado pela sonoridade de garagem e as técnicas de gravação não ajudaram. Ficou mais próximo dos Marshmallow Overcoat que dos Dream Syndicate.

Remasterizado a partir da cassete original, transmite finalmente todo o seu esplendor. É simultaneamente um regalo e uma tristeza. Regalo, porque se trata de uma página gloriosa do psicadelismo; tristeza, porque nunca passou das margens. Mas mais vale tarde do que nunca.  

12/09/10

The Green Pajamas "The Red, Red Rose"


Maus tratos e perseguições no recreio da escola existem desde que me lembro. A internet e as novas tecnologias apenas amplificaram a bestialidade. Parece que agora lhe chamam "bullying"...
A maior incidência mediática, não contribuiu porém para a resolução do problema e Phoebe Prince foi mais um caso. Que infelizmente acabou mal.

"The Red, Red Rose" era a este respeito uma canção que precisava ser escrita. O tema merecia e Jeff Kelly mostrou-se atento e disponível para o fazer. O debate e reflexão acerca da matéria agradecem.

Para além deste aspecto, "The Red, Red Rose" é mais uma magnifica canção na tradição musical dos Green Pajamas. O EP a que dá título inclui mais quatro canções, das quais merecem especial referência: "Just another perfect day" ( uma versão consolidade e mais adulta da demo publicada na edição CD de "Narcotic Kisses" ) e "Raise ravens", dois opus mais a juntar ao melhor "songbook" de um colectivo cujo talento parece inesgotável.

18/08/10

Tony Dale ( 1958 - 2010 )


Possuía um gosto musical absolutamente impecável, espírito visionário, verve fácil e contagiante ( alguns dos seus textos na fanzine Ptolemaic Terrascope constituem leitura essencial ). Apesar do seu principal interesse residir na música, nunca baixava a guarda relativamente a outras matérias de índole cultural ( a dada altura perguntou-me se em Évora ainda existia "aquela magnífica capela dos ossos" e a última vez que me contactou foi para pedir uma tradução para inglês de um texto sobre os United Bible Studies que publiquei aqui no Atalho ).

Ensinou-me(nos) muito e sobretudo através da música que editou na sua Camera Obscura Records, proporcionou-me(nos) indescritíveis momentos de prazer e conhecimento. Basta percorrer a lista dos 85 títulos que publicou entre 1997 e 2009 para se perceber a importância que Tony Dale teve no regenerar da cena folk e psych underground dos últimos anos.

Quanto aos discos, são muitos os favoritos, mas de entre todos, ouso destacar "Narcotic Kisses" dos Green Pajamas, uma fabulosa edição em vinil que só por si espelha o carinho que Tony Dale tinha pela música e pelos músicos.

31/07/10

Killers, Angels, Refugees ( 16 )


"Portugal " ( Jeff Kelly )

You in the water, the sun being high in the sky
You two framed in blue, the rest of the world is white
Both of you naked and tanned, unburned and unmanned
She is nothing but a happy virgin wanting your hand
I am watching as the center of the universe lies down in the sand

You in the water as happy as you've ever been
This is good magic, this must be living in sin
A bottle of wine in the ocean to pour down the lines of your skin
She is nothing but a lovely stranger out of life's dusk
Brought here by the undertow of danger and promises of lust

Summer's here but soon will go away
South to a warmer place for another year
Summer's here, stars come out of night
Your eyes are extra bright and clear

I come to the water bringing my telescope so we
Can scan the horizon for any Russian submarines
You two are tipsy and glowing with kisses and salty sea
I am nothing but a half a singer, half a referee
Wanting this moment to linger, this hour to freeze

Summer's here but soon will go away
South to a warmer place for another year
Summer's here, stars come out of night
Your eyes are extra bright and clear.


"Portugal" foi publicado pela primeira vez em 1990. A cassete ( foto acima ), uma edição única e limitada da obscura Green Monkey, rapidamente desapareceu dos radares.

Em 1999 a Camara Obscura incluiu o álbum na reedição "Melancholy Sun, the home/solo recordings of Jeff kelly (1987-1997)" ( foto abaixo ). Um absoluto festim the inspiração psych/pop ainda relativamente fácil de adquirir.

Nota: um agradecimento especial a Jeff Kelly por me ter disponibilizado o texto integral da canção

06/04/09

Green Pajamas "Hidden minutes" e "Poison in the Russian room"




No passado mês de Março, não fora esta miserável crise para onde todos fomos arrastados por um grupo de peralvilhos sem ética nem escrúpulos, quase se poderia afirmar que vivemos num mundo perfeito. É que, dois álbuns dos Green Pajamas – “Hidden minutes” e “Poison in the Russian room” – publicados quase em simultâneo, só num mundo assim.

Jeff Kelly é um compositor prolífero. Em duas décadas, tem publicadas cerca de 400 canções. Quanto às restantes, de quando em vez, sente necessidade de compilar aquelas que por uma razão ou por outra foram ficando de fora do alinhamento dos álbuns. Aconteceu com “Narcotic Kisses” em 2002, volta a suceder agora com “Hidden minutes”.

“Left offs” são “left offs”, ponto final. Porém depois de escutar “Hidden minutes” apetece perguntar por que razão Jeff Kelly foi deixando cair canções como “Claire’s Knew”, “Valerie Rose”, “Lady of Spain”, “Please come home” ou “Maybe it is not too late”? Só me ocorre uma explicação e essa passa pela abundância e qualidade do songbook do compositor de Seattle.


Hidden Minutes” ( disponível apenas em vinil ) será porventura depois de “Strung behind the Sun” e “Narcotic Kisses” um dos discos mais melódicos dos Pajamas. Na essência quase uma compilação de singles que, insisto, se vivêssemos num universo perfeito deveriam ser presença constante nas ondas da rádio.

Como acontece com 90% dos trabalhos dos Green Pajamas, o design da capa é da autoria da pintora Susanne Kelly ( http://www.susannekelly.com/ ) e desta vez inspira-se em “Alice in Wondeland” de Lewis Carroll, que de resto Jeff revisita no tema “Between yourself and me”.

Em “The lonesome end of the lake”, “Poison in the Russian room” abre com um riff de guitarra absolutamente incendiário, vicioso, suportado pelo groove que se eleva em espiral do baixo de Joe Ross. São 3m 25s de rock puro e duro como não se conhecia aos Green Pajamas e que ou muito me engano ou virá a ser tema de abertura obrigatório em futuros concertos.



Um “killer moment” que se irá repetir ( embora com menor amplitude ) em “This angel’s on fire”, duas “anomalias” que no entanto não são suficientes para colocar em risco o paradigma sonoro do grupo. A maioria das restantes 14 canções regressa à quadratura “Beatles / Kevin Ayers / Go-Betweens / Olivia Tremor Control” ( são possíveis outras combinações ) e aqui e ali detectam-se ainda algumas inovações.

Como em “Suicide Subways”, escrito e interpretado por Eric Lichter, certamente depois de ter escutado um velho disco de Lloyd Cole com os Commotions; ou no magnífico “The sinner in my soul” onde Jeff Kelly estranhamente evoca as paisagens despojadas do Sul interior e cuja melodia, guitarra e voz remetem para os hinos ao desértico Arizona que Rich Hopkins ( num registo diferente, outro herói do Atalho ) periodicamente insiste em inventar.

Quanto ao resto, “Poison in the Russian room” com o subtítulo “In search of the elusive Fairy Queen and some pleasure unknown” ( a capa reproduz uma fotografia de Evelyn Nesbit, uma corista/modelo famosa nos EUA do inicio do século XX , cuja vida poderia inspirar vários argumentos cinematográficos), é mais uma consistente colectânea de canções , na maioria criações de Jeff Kelly cujo talento, só por distracção e comprovado mau gosto pode continuar a ser ignorado por todos aqueles que têm obrigação de o divulgar.

22/06/08

The Green Pajamas "Box of Secrets"

Um dia vai ser necessário realizar um seminário para discutir o conjunto da obra dos Green Pajamas. Depois, vai ser preciso organizar uma bateria de conferências, para se perceber por que razão Jeff Kelly, apesar de já ter escrito, gravado e publicado ( com Green Pajamas, Goblin Market ou a solo ) mais de 300 canções, permanece um autor de culto restrito e objecto de divulgação quase nula.

Sigo a banda de Seattle desde meados dos anos 90 quando, com uma década de estrada, os Pajamas eram já uma instituição do folk-rock psicadélico, ainda que não devidamente reconhecida.

Durante aquele período negro em que Robert Forster e Grant McLennan estiveram de costas voltadas nos Go- Betweens, foi Jeff Kelly, naquele seu jeito inato para criar melodias e atmosferas pop, quem manteve a bandeira hasteada. Só que também aí, quase ninguém deu por isso.

Com um histórico de cerca de duas dezenas de discos onde a subtileza viveu sempre paredes meias com um talento peregrino que, partindo da herança Beatles, demandou paragens tão diversas como as habitadas por Leonard Cohen, Charles Dickens, Nick Cave, Bram Stoker, Rain Parade, Emile Brontë, Byrds ou Go Betweens.

Refiro aqui o álbum “Box of Secrets – Northern Gothic Season Two”, não por ser o melhor ou mais importante, mas apenas por ser o mais recente. Não sendo uma peça dotada da elegância de “Strung behind the Sun” ( 1997 ), talvez o disco em que os Green Pajamas melhor sintetizaram a estética que emergiu dos Beatles ( fase “Revolver” ) ou dos Byrds de “5th dimension”, com os delírios ficcionais dos Spirit de Randy California, “Box of Secrets” recenseia trilhos já anteriormente percorridos e acrescenta ao mapa novos atalhos, por onde passaram as caravanas dos Walkabouts, Triffids ou Olivia Tremor Control. De caminho ainda se dispõe a revisitar as sombras cohenianas ou as clareiras apalachianas dos Iron & Wine ou Woven Hand.

Como em quase todos os registos em que Jeff Kelly participa, “Box of secrets” é como um jogo de sombras que ora nos distrai, ora nos hipnotiza. A sedução essa fica para sempre.