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13/06/26

Jardins do Paraíso ( 90 )



Happiness is everywhere, even in me”, John Phillips ( “I’ll Try For The Rain” ) 

Imaginem um local, espaço onde os trajectos de Donovan e Nick Drake se interceptam. Existe, ou melhor, existiu. Dá pelo nome de John Phillips, não o mentor dos The Mamas & The Papas, antes um súbdito britânico cuja escassa obra foi maioritariamente criada e gravada em Salisbúria na Rodésia (hoje Harare e Zimbabwe, respectivamente). 

John”, o até há pouco único registo conhecido do autor, foi publicado pela editora RPM na África do Sul em 1969. A edição terá sido escassa ( algo entre as 100 e 200 cópias ) e, como tal, o número de exemplares originais em circulação andou sempre próximo do zero. 



Finalmente reeditado, percebe-se agora a razão da recente demanda por parte de coleccionadores e historiadores. Trata-se com efeito de um extraordinário conjunto de canções, perfeitamente enquadrado na época em que foi criado. Instrumentalmente roça o espartano, porém a beleza das melodias convoca Donovan, enquanto a sensibilidade dos temas remete para Drake. O somatório destas características resulta na perfeição e as canções / melodias pairam na cabeça do ouvinte muito depois de terminarem. 

Entre espanto e admiração, é de resto aquela a principal sensação que emerge depois de se escutarem “Peppermint Wind”, “Scaramouche”, “Pre Ante Pen Ultimatum”, “Mulberry Avenue”, “Sylvia” ou “Look At The Time Fly”. 

Songs of Gentleness 1969 – 1976” agora publicado pela canadiana Strawberry Rain, reedita “John” e acrescenta-lhe três outros álbuns de gravações inéditas: “John 1972”, “John 1976” e “Demos”. 



John 1972”, reúne maquetes gravadas nos APL Studios de Salisburia com a colaboração do guitarrista John Oakley-Smith. Mantem as influências anteriores ( a versão amputada de “Season of the witch” comprova-o ) e afirma-se como um conjunto de temas de folk britânico a que se acrescentam influências blues / americana ( “Mary Jane” ) e africanas ( “Iwe Neni Tinenamo” ). 

Devidamente trabalhados e produzidos os temas incluídos em “John 1972” não só estariam ao nível do disco anterior como eventualmente figurariam na galeria do melhor folk inglês da época; apesar de escassamente produzidos, “Parting is never forever goodbye”, “Looking Glass”, “Quavatina” ou “Pretty Garlands” são ainda assim canções superlativas, como aliás se pode parcialmente comprovar no disco imediatamente a seguir na linha do tempo.



De facto, quatro anos volvidos, “John 1976” gravado a solo no mesmo estúdio em Fevereiro de 1976 mas objecto de uma mais cuidada captação áudio, acolhe de novo as canções atrás mencionadas, permitindo-nos agora perceber melhor a sua verdadeira dimensão lírica, sendo que a generalidade das restantes afina pelo mesmo diapasão. 

A título de exemplo: em “Time Will Tell”, Phillips como que persegue o legado de Nick Drake no seu tema homónimo e em “Train Song” a introdução da guitarra acústica mimetiza o som de um comboio em movimento. 


 “Demos”, o terceiro disco de inéditos, tal como os dois anteriores recuperado e masterizado a partir de três “reel-to-reel tapes” encontradas no sótão de um familiar, é como o nome induz, um conjunto de doze maquetas de canções que ganham vida e forma através da voz angelical e guitarra acústica ( que por vezes alterna com a auto-harpa ) do autor. Todas, impressivos esboços em filigrana que estimulam a imaginação do ouvinte e que necessariamente alimentam uma dúvida: o que seria de todas estas canções se ao autor tivessem sido dados tempo e meios para as completar? 

Fustigado por diversas tragédias pessoais, reclusivo, John Phillips faleceu em Oxford em Fevereiro de 1995 vítima de cancro. Em vida, ninguém soube da doença que o acometeu.

 

14/04/25

Artefactos ( 139 )





Beautify Junkyards "From The Morning" ( Nick Drake ) / "Fuga Nº 2" ( Os Mutantes )

CD, Edição Promocional, Fruits de Mer Records, 15 Agosto de 2012.

27/02/25

Chris Brain "Bound to rise"

Com dois álbuns publicados (“Bound to rise” e “Steady Away”) e um terceiro ( “New Light”) a caminho, Chris Brain, um nativo do Yorkshire, tem vindo a perfilar-se como um dos herdeiros da tradição folk britânica, particularmente no que concerne ao especialíssimo legado de Bert Jansch e Nick Drake

Ao escutar “Bound to rise” ( 2022 ), os puristas serão tentados a afirmar que Chris Brain, apesar de um talento evidente, mimetiza abundantemente o padrão e a partes significativas da obra de Nick Drake. Será porventura um exagero, mas em “Bound to rise” a maioria das pistas é para ali que apontam, muito mais do que para Jansch. 

Devidamente colocados os pontos nos is, o primeiro álbum de Chris Brain revela-se um delicioso exercício de “folk pastoral” que ora nos convoca para as paisagens rurais que o autor privilegia, ora nos remete para as nossas memórias mais preciosas, sejam elas Drake ( mais ), Jansch ( menos ) ou Saint Joan ( sim procurem o fenomenal “The Wrecker’s Lantern” ). 

Lavrada a acta, ficamos a aguardar os novos atalhos a que o prometido “New Light” nos conduzirá.

 

31/05/24

Jardins do Paraíso ( 84 )

 


He subsequently carved out a succeful career in the ELT (English Language Teaching) field, but as a student at the University of East Anglia in the late Sixties, the young Jeremy Harmer was a Bert Jansch-influenced guitarist and singer/songwriter.

Accompanied by fellow student David Costa, he played at folk clubs and events in the Norwich area before staging a student union concert that led to him recording the album ‘Idiosyncratics And Swallows Wings’ in single-take sessions at a local BBC studio.

Restricted to 99 copies, the album – akin to a homemade version of Nick Drake’s ‘Five Leaves Left’ – featured some beguiling chamber pop arrangements and self-consciously poetic, exquisitely gloomy songs like ‘People Smile With Ghosts In The Land Of Make-believe’, featuring David Costa on second guitar and Sue Humphris on backing vocals.

Costa was significantly affected by the experience (“I knew from that very moment on that was what I wanted to do … I just wanted to play guitar in a band”), dropping out of university and putting together Trees. He attempted to recruit Sue Humphris as lead singer, but she declined, suggesting instead that they audition her sister Celia.”



( Harmer e David Costa )

David Wells disse acima o que de essencial precisa ser dito a propósito de Jeremy Harmer. “Idiosyncratics and Swallows Wings” é um disco diferenciado que, caso tivesse sido objecto de adequado tratamento profissional no momento de captação de som e posteriormente de produção, seria hoje mais do que já é por via da história que o envolve, um marco da música inglesa dos finais dos 60s.

We recorded de LP late at night at the big studio on Anglia TV. It was not really satisfactory. The equipment was not great and the engineer – who did it for free i seem to remember – was not especially experienced as a sound engineer, but rather a TV programme engineer. I can’t remember any mixing conversations etc. But I guess there must have been. I remember being rather worried about the sibilance in the vocal tracks but there was never a chance to do anything about that. And on top of that i wasn’t really very experienced about that kind of thing.”



(Harmer e Nick Drake no Marlborough College, meados de 1965)

Entre a melancolia endémica de Nick Drake, a tristeza de Robert Wyatt e o folk barroco de Duncan Browne, “Pastiche”, o belíssimo “Sad Song”, “Home of Years”, o tocante “Melanie” ou o “pesadelo utópico” ( palavras do autor ) que é “People Smiling With Ghosts In The Land Of Make-believe”, “Idiosyncratics and Swallows Wings” é um disco que não sendo perfeito no que concerne à forma, é absolutamente essencial do ponto de vista criativo e histórico.

Uma última nota, eventualmente do interesse dos audiófilos: “Due to the lack of master tapes, this reissue has been sourced from original vinyl.” ( do folheto que acompanha a reedição )

10/02/24

Welcome to Compiland

 


No decorrer de 1959 Loukas e Margaret Matheou adquiriram em Londres, no número 49 da Greek Street. No imóvel projectavam estabelecer um restaurante especializado em comida, não grega mas francesa. Nos anos que se seguiram e à medida que o negócio fluía, concluíram que o espaço era excessivo para um restaurante. Implementaram alterações, lançando os alicerces para um clube cujo objectivo seria a promoção e divulgação das músicas folk e blues, à época géneros predominantes nos finais de tarde do Soho.

Ainda que sem licença para a actividade, “Les Cousins, Club Continental” abriu as portas no dia 4 de Outubro de 1964, tendo encerrado cerca de seis anos depois em Abril de 1972. Durante o período foi um porto ( palco no caso ) seguro para a grande maioria dos talentos que focados nas linguagens folk e blues, demandavam reconhecimento e sucesso no então artisticamente efervescente bairro londrino.



Americanos: Paul Simon. Tim Hardin, Tom Rush,  Spider John Koerner, Derroll Adams, Jackson C. Frank, Dave Van Ronk, Julie Felix; britânicos: de Bert Jansch a Nick Drake, passando por Sandy Denny, Cat Stevens, Wizz Jones, Shirley Collins, Al Jones, Keith Christmas, Watersons, Shelagh McDonald, Martin Carthy, Kevin Ayers, Ian A. Anderson, John Martyn, Anne Briggs, C.O.B., Alexis Korner, Roy Harper, Bridget St. John, Plainsong, Nadia Cattouse … entre muitos outros, figuram entre os nomes documentados como tendo actuado no Les Cousins.

A compilação “Les Cousins, The Soundtrack of Soho’s Legendary Folk & Blues Club”, curada e magnificamente anotada por Ian A. Anderson, oferece 62 temas de um igual número de artistas.



Não constituindo embora uma total revelação para os que se interessam pelos géneros musicais em análise -  ainda assim e como seria expectável, existem aqui algumas muito agradáveis surpresas ; a título de exemplo relevam-se “Leaf without a tree” de Sam Mitchell apenas publicado na compilação da Music Man “Firepoint, A Collection of Folk Blues Tracks”, “Bye Bye Bohemia” de Tom Yates ou “Memory Book” de Mudge & Clutterbuck, publicado num EP raríssimo da Saydisc em 1968 - , é todavia uma delicia do primeiro ao sexagésimo segundo tema.



Depois das séries “Pebbles” e, sobretudo, após a mítica “Nuggets, Original Artyfacts from the First Psychedelic Era 1965-1968”, resta pouco espaço para compilações com vista para o garage / fuzz norte-americano daqueles anos. No entanto, mais ou menos interessantes, continuam a proliferar validando e eternizando um género que se reconhece importante embora frequentemente sobrevalorizado.

Pushin’ Too Hard, American Garage Punk 1964-1967” é mais um desses exemplos. Porventura demasiado optimista: 94 temas ( 31 no CD1, 32 no CD2 e 31 no CD3 ) maioritariamente em mono ( apenas 7 versões stereo ), revela algumas contraindicações. A saber: a) os textos das sempre necessárias e interessantes notas do booklet estão impressas em tamanho minúsculo, facto que os nossos olhos, já com bastante mais passado do que futuro, não apreciam especialmente; b) ainda que enérgicos mas genericamente carecendo duma sofisticação que sempre dá algum jeito, à medida que a audição vai decorrendo, a sensação que emerge é a de que os temas apresentam poucas diferenças entre si.



Exceptuam-se aqueles que deixaram para trás as óbvias influências da “british invasion” ( Kinks, Yardbirds, Rolling Stones, Pretty Things, etc )  prevalecendo aqueles outros  verdadeiramente bafejados pelo talento dos seus autores. Falamos de clássicos como os Remains, Seeds, Beau Brummels, Paul Revere & The Raiders, 13th Floor Elevators, Electric Prunes, Shadows of Knight,, Sonics, Standells … ou de magníficas surpresas como The McCoys, Fenwyck, The Leaves, The Bees The Squires, The Liberty Bell, The Zakary Thaks ( conferir a compilação publicada em 1982 “Liberty Bell / Zakary Thaks, Texas Reverberations” ), Thursdays Children ( o excelente “You can Forget about that” pode também ser encontrado em “Never Ever Land, Texan Nuggets from International Artists Records 1965-1970” ).

Resumindo, ambiciosa em demasia e exagerando na arqueologia, “Pushin’ Too Hard” é uma daquelas compilações que tem como alvo principal os convertidos, marginalizando os neófitos eventualmente interessados no saudável exercício de iniciação ao género.


 

O universo das “private pressings” - álbuns compostos, interpretados, gravados e usualmente publicados num registo DIY pelos próprios artistas ou por uma editora amadora - , constitui, já  o referimos anteriormente no Atalho, um espaço apaixonante, inesgotável e em permanente registo de descoberta. O senão, nada despiciendo, prende-se com o facto de as edições serem por razões compreensíveis muito limitadas, logo muito raras e como tal dispendiosas.

One Mile From Heaven” propõe-nos duas dezenas de canções retiradas de outros tantos álbuns de artistas norte-americanos e canadianos, os quais por razões conjunturais ou por pura convicção recusaram os ditames da indústria, optando por perpetuar a sua música através das ditas edições privadas.



Exclusivamente focada na década de 70, “One Mile From Heaven”, aborda o nicho dos “singer-songwriters”. O bom gosto que resulta da selecção é superlativo, sendo irrelevante se raízes emergem das sofisticadas Nova Iorque, Los Angeles, Lauren Canyon ou Vermont, ou das rurais Illinois, Indiana, Utah ou Minnesota.

Alguns dos nomes propostos são já medianamente conhecidos ( Gary Higgins, Bob Trimble, Bob Patterson, Jim Sullivan, Merrell Fankhauser, Michael Yonkers ), a maioria todavia constitui uma estimulante descoberta.



Alicia May com “Summer days”, um título delicioso com a voz da autora a hesitar entre as performances vocais de Joni Mitchell e Margaret Morgan dos These Trails; os irmãos Chuck & Mary Perrin e o seu folk rock melancólico; Dan Modlin & Dave Scott cujo álbum “The train don’t stop here anymore” é um dos melhores discos publicados no Indiana; o folk-rock de Billy Hallquist e de Richard Goldman; os arranjos de cordas no tema “More Beautiful” de Naomi Lewis; as óbvias influências “Veedon Fleece” em “In The Sun” o título do canadiano de origem goesa Carm Mascarenhas; o psych-folk de Olav Rixen & Ulrich Fausten, dois alemães radicados em Vancouver …

One Mile From Heaven” fornece um manancial de pistas que os amantes do género retratado seguramente agradecem. Tão cedo vai ser difícil encontrar uma compilação tão bela e equilibrada quanto esta.

15/12/21

Jardins do Paraíso ( LXXI )

 


Na sua auto-biografia, “Beeswing, Fairport, Folk-Rock and Finding My Voice 1967-1975Richard Thompson refere-se inúmeras vezes a Joe Boyd como uma das personagens que mais contribuíram para a consolidação ( eternização ) da renascença do folk britânico e sua posterior miscigenação com a linguagem mais pop / rock na Grã Bretanha.

Decidi entretanto reler “White Bicycles, Making Music in the 1960s” ( Serpent’s Tail, 2005 ) do próprio.



Ao contrário do que à partida cheguei a temer quando li o livro pela primeira vez,
Brian Eno não exagerou no comentário “The best book about music I have read in years”. Trata-se de facto de uma leitura deliciosa e riquíssima do ponto de vista histórico.

Com assinalável detalhe, relata episódios, encontros, desencontros, sucessos e falhanços de uma carreira com enorme longevidade que, no que à vertente histórica directamente concerne, teve o seu pináculo entre os anos de 1966 e 1973 (  http://www.joeboyd.co.uk/discography ).



Ainda que configure exemplo algo pífio e insuficiente da enorme contribuição de Boyd para a música da época ( dos ecos estéticos posteriores nem valerá a pena aqui falar ), a compilação “White Bicycles Making Music in The 1960s” que à data ( 2006 ) procurou ilustrar musicalmente o livro, funciona como espécie de iniciação para a descoberta do património de uma personagem que, não sendo músico, tinha um talento incomum para os compreender, aconselhar e potenciar as respectivas carreiras.

A esmagadora maioria dos 23 temas que integram a compilação são em si mesmas pequenas peças de antologia.



29/05/21

Richard Thompson "Beeswing"

 

Há muito que o homem é credor da admiração do Atalho. Mas depois de ler isto:

In Fairport we loved the response to the Beatles by bands such as the Byrds, the Left Bank and the Lovin’ Spoonful. The great singer-songwriters, like Dylan, Cohen, Ochs and Mitchell, were our true inspitation, as were the Band, with their blend of roots styles that were so familiar to us from records. All around the world, people had grown cynical about American politics, but they loved american music – especially the blues and country music of the Southern poor and the tougher, electrified sounds of the urban disillusioned and disenfranchised.”

 Ou, sobretudo, depois disto: “Later that year ( 1968 ), Sandy ( Denny ) and I received invitations in the post to Paul McCartney’s  birthday party. It shows how much of a musical snob I was at the time that I decided not to go – to me, the Beatles were a ‘pop’ band and not to take seriously.”

Rapidamente o estatuto passou de admirado a venerado.

Um pouco mais a sério: “I saw Bert ( Jansch ), Davey ( Graham ) and Martin ( Carthy ) all play around this time ( 1968 ). There is nothing like seeing someone live and not quite grasping what they are doing, If you understand it, you might just try to copy it; not understanding might lead you to experimente and maybe arrive at something diferente and original. I’m glad i didn’t just slavishly copy any of them, or I might never have crawled out from under their influence.”

E, com isto, fica tudo ou praticamente tudo dito, acerca da personalidade e talento deste verdadeiro tesouro vivo da música britânica.

Beeswing, Fairport, Folk Rock and finding my voice 1967-75” escrito com a ajuda de Scott Timberg, é um livro essencial não apenas para os convertidos, mas acima de tudo para aqueles outros que conhecem menos bem um dos períodos mais fulcrais e estimulantes da música das ilhas britânicas.

Época renascentista, quase arriscaria a escrever. Acrescentando sem grande risco de falhar que, depois de “Whyte Bicycles” de Joe Boyd e do que se espera vir a ser a biografia definitiva de Nick Drake ( a ser preparada por Richard Morton-Jack ), este é um dos mais completos e coerentes testemunhos da época.

Todas as pedras são reviradas e nada fica por contar. Como nasceram, cresceram, viveram e “morreram” os Fairport Convention ( e os Fotheringay já agora ); a forma como foram escritos e gravados os grandes temas;  a personalidade e carácter dos vários talentos que foram passando pela banda; os inevitáveis choques de egos; as amizades e cumplicidades que perduraram independentemente dos caminhos futuros.


Por último a fase da conversão ao sufismo, a ligação familiar e profissional a Linda Peters ( Thompson ), os discos que enquanto Richard & Linda Thompson gravaram entre 1974 e 1979 …

Um testemunho absorvente a que a plenitude e rigor cronológico dos detalhes não são seguramente alheios.

Nota: Aconselha-se vivamente manter por perto todos os álbuns. Com cansativa regularidade, torna-se necessário interromper a leitura para ir escutar ( conferir ) muito do que é referido.

21/03/20

Jardins do Paraíso ( LXI )



Até há poucos meses um dos discos mais difíceis de encontrar ( mesmo para aquela faixa de privilegiados para quem o preço é um detalhe acessório ), “Of Sun and Rain” o primeiro e único álbum do duo Ken Kusudo / Jeff Worth, está finalmente disponível em versão cd, legalmente autorizada e monitorizada pelos próprios.

Na origem - Dezembro de 1968 -, uma edição privada ( consta que de apenas 200 exemplares ) “Of Sun and Rain” é seguramente, e meço a magnitude das palavras, um dos mais importantes registos do folk-rock do final dos 60s. Melancólico, sugerindo uma aparente fragilidade, a espaços lembra Nick Drake; inspirado e repleto de virtuosas prestações de guitarras acústicas, remete para Simon & Garfunkel;  inventivo e psicadélico, cola-se à memória de Donovan ou Tim Buckley.

Simples e complexo em igual proporção, resulta num artefacto sonoro de majestosa beleza. Um conjunto de temas absolutamente extraordinário, servido por vocalizações, arranjos e instrumentação de igual calibre. E, nesse particular, distancia-se e muito da esmagadora maioria das prensagens privadas, habitualmente mais deficitárias nestas matérias.

Nos comentários que já tive oportunidade de ler, é comum o destaque do tema “I Would Like To Hear Your Story”, porta de entrada do álbum para os indefectíveis do psicadelismo. Trata-se com efeito de um título apaixonante; tão complexo e intenso quanto fabuloso. Será todavia necessário deixar claro que todos os restantes temas apresentam também padrões qualitativos muito acima da média ( “Elizabeth” por exemplo teria sido um single estrondoso se publicado ao tempo por uma major ).

Sintetizando: “Of Sun and Rain” entra directamente para a restrita lista de discos que o Atalho levaria para uma ilha deserta. Escolha sustentada no facto de nem os  mais de 50 anos de vida terem esmorecido as suas muitas qualidades, antes pelo contrário, sublinharam-nas para além do que seria expectável.

Por ora, o Atalho vai fazer uma pausa no repeat de “Of Sun and Rain”. Depois deste, o regresso a “I never asked to be your mountain” de Tim Buckley, “The dangling conversation” ou “For Emily whenever I may find her” de Simon & Garfunkel e “A gift from a flower to a garden” de Donovan, tornou-se uma compulsão.

Sabem pois o que têm a fazer …

Nota: Ainda que não sendo um factor determinante para acrescentar importância histórica ao conjunto, esta versão inclui três temas adicionais gravados pelo duo em 2012.

29/07/19

Robert Kirby



Recentemente  perguntaram-me qual o real significado de “Englishness” na música. Estranhamente, hesitei. E no entanto convivo há décadas paredes meias com esse sentimento peculiar, onde se compaginam características tão diversas como sentido de humor, respeito pela tradição, inteligência e estoicismo.

Em simultâneo concreto e abstracto é, na sua magnitude e ambivalência, um estado de espírito difícil de definir com exactidão por um latino. Imagino que seja algo de muito parecido como tentar explicar a “saudade” a um inglês.

Socorri-me primeiramente de Edward Elgar para ilustrar a tentativa de explicação. Depois ocorreu-me que talvez Robert Kirby ( 1948 – 2009 ) pudesse ser um exemplo mais próximo da contemporaneidade. Uma parcela significativa dos seus arranjos e orquestrações definem as virtudes daquela identidade cultural na perfeição.

Hoje, vista ao retrovisor, a impressionante lista de músicos com quem colaborou, tem tradução no que de melhor a música inglesa ofereceu entre 1969 e 2009. Nick Drake, Shelagh McDonald, John Cale, Spriguns, Richard Thompson ou Sandy Denny são disso exemplos perenes.


19/03/18

"When the Day is Done, The Orchestrations of Robert Kirby"



  
A college friend of Nick Drake, Robert Kirby’s first commissioned works as an arranger were his unique autumnal orchestrations for Drake’s “Five Leaves Left”. The sound was English and melancholic, closer to Vaughan Williams than Phil Spector. He was soon in demand and by the end of the 70’s had worked with the cream of the British folk rock world.”

Paul Buckmaster e Robert Kirby são dois nomes fundamentais na música popular britânica dos 70s. Num patamar também habitado por Sandy Robertson, Joe Boyd, Peter Eden ou Tony Visconti; ainda que estes num registo diferente: o da produção.

Enquanto orquestrador, Buckmaster ficou para a história fruto do seu monumental trabalho nos primeiros álbuns de Elton John, aqueles que verdadeiramente interessam: “Tumbleweed Connection”, “Elton John”, “Madman Across the Water”, além de “Space Oddity” de Bowie ou “Songs of Love and Hate” de Leonard Cohen, entre outros.


Kirby, colega de Nick Drake em Cambridge, partilhava com este os mesmos gostos musicais e interesse pela poesia, enquanto planeava ser professor de música. Em 1969, quando da gravação do álbum de estreia “Five Leaves Left”, Nick Drake mostrou-se insatisfeito com os arranjos de Richard Hewson  e convenceu Joe Boyd a chamar o antigo colega. O que daí resultou sabemos hoje todos.  Os discos de Nick Drake nunca seriam o que são e Kirby por seu lado nunca teria tido acesso às oportunidades seguintes.

Ao lirismo do referido Paul Buckmaster, Kirby acrescentava um misto de melancolia e “englishness”. Algo que por um lado o distinguia de todos os outros e, por outro, o mantinha perto da tradição, fosse a de Edward Elgar ou a do folk tradicional.

When the Day is Done, The Orchestrations of Robert Kirby” é a primeira colectânea a debruçar-se sobre o trabalho do músico.  Naturalmente opinativa como todas as compilações, agrega uma vintena de títulos oriundos do chamado “underground” britânico dos 70s, folk-rock sobretudo, mas também alguma música de inspiração progressiva.


Melhor ou pior, a grande maioria dos temas era já familiar a todos os que se interessam por estas coisas; não obstante alguns deles não eram imediatamente identificados com Kirby.

Os trabalhos com Nick Drake, Keith Christmas, Andy Roberts, John Cale, Shelagh McDonald, Spriguns, Sandy Denny ou Vashti Bunyan são clássicos perenes, não acrescentam portanto nenhum espanto. Porém, a subtileza dos arranjos nas canções de Tim Hart and Maddy Prior, Gilliam McPherson e Steve Ashley; a vertente celta conferida a “First Light” de Richard and Linda Thompson, ou as credenciais art-rock  (  resultantes muito provavelmente da experiência de Kirby nos Strawbs, quando episodicamente substituiu um Rick Wakeman de saída para os Yes ) patenteadas nos trabalhos com Audience e Illusion são esses sim distintivos.

No mais e concluindo, “When the Day is Done” é um trabalho notável e indispensável, ponto de partida para a descoberta de muitas outras preciosidades que a carreira de Robert Kirby ( 1948 – 2009 ) seguramente encerra.



27/02/18

Nick Drake


Uma "cover" é sempre uma "cover", por muito talento que tenha ou inspirado que esteja aquele que se dispõe a versionar uma canção.

Os temas que Nick Drake publicou em vida, arrisco, não precisam de rigorosamente mais nada para serem perfeitos.

Compreendendo a necessidade/utilidade destas efemérides, para o Atalho a colectânea acima não traz nada de substancialmente novo.

Dito isto, fica uma ressalva para:

- as versões de "Fly" ( Bridget St. John ) e "Black Eyed Dog" ( Jim Ghedi ); 
- os testemunhos históricos de Linda e Richard Thompson, Joe Boyd e, da referidade Bridget St. John.

 

09/07/17

"English Weather"



Qualquer idiota, mesmo o mais imbecil, receberá toda a minha atenção; bastará para tal que mencione “Refugees” dos Van der Graaf Generator.


Desde há muito considero que o tema de Peter Hammill - a par por exemplo de “Laughing” de David Crosby, “Spanish Guitar” de Gene Clark, “Keep a close watch” de Cale, “Revolution Blues” de Neil Young, “Late November” de Denny, “Day is done” de Drake ou “Road to Cairo” de Ackles - , constitui um padrão a partir do qual se mede o bom gosto musical ou a ausência deste.

Assim uma compilação que inclua qualquer uma das misturas de  “Refugees” merece destaque.  English Weather” porém, justifica-o muito para além disso.

Curado pelos Saint Etienne  Bob Stanley e Pete Wiggs, “English Weather” é o chamado “labour of love”. Por outras palavras, não era possível chegar a este resultado caso não se gostasse genuinamente destas músicas

O tema mais antigo ( Caravan ) data de Janeiro de 69 e o mais recente ( Daevid Allen ) de 1976. Entre eles desfilam mais 16 composições do período iluminista da música inglesa. Umas razoavelmente conhecidas no circuito underground, outras nem tanto.

Stanley conta no booklet que um dia, retido numa discoteca devido a uma intempérie, ( daí o título desta colectânea ) escutou pela primeira vez um disco que o cativou de imediato: “Shape of the rain”, o álbum homónimo da banda de Sheffield. Impressionado, o dono da loja deu-lhe a conhecer de seguida Parlour Band, Aadvark e T2. E, como não há amor como o primeiro, estas bandas têm lugar na compilação. Shape of the Rain, ficamos sem saber porquê, não.

Britânicos até à medula, abaixo são descriminados os 18 títulos de uma edição que se reputa de essencial para quem se interessa pela matéria ou para aqueles para fazem do bom gosto uma forma de estar.


Quanto a “Refugees”, a opção aqui incluída, faz a ponte entre as versões do single e do do álbum “The least we can do is wave to each other”; a mistura no entanto retira algum protagonismo ao sax de David Jackson e evidencia as prestações dos instrumentos de sopro e dos arranjos de cordas. Sumptuoso.

- Caravan “Love song with flute”

- The Roger Webb Sound “Moon bird”

- The Parlour Band “Early morning eyes”

- Scotch Mist “Pamela”

- The Orange Bicycle “Last cloud home”

- T2 “JLT”

- Bill Fay “Til the Christ come back”

- Van der Graaf Generator “Refugees”

- Aardvark ”Very nice of you to call”

- John Cale “Big White cloud”

- Belle Gonzalez “Bottles”

- The Way We Live “Watching White Stars”

- Offspring “Windfall”

- Camel “Never let go”

- Daevid Allen “Wise man in your heart”

- Matching Mole “O Caroline”

- Prelude “Edge of the sea”

- Alan Parker and Alan Hawkshaw “Evening Shade”


06/07/16

Jardins do Paraíso ( L )



Porventura a mais talentosa cantora inglesa da sua geração, tal como Nick Drake, Sandy Denny nunca teve em vida o reconhecimento merecido. Quando faleceu em 1978, a sua carreira estava perto do ocaso, fruto de uma série dramas pessoais e equívocos profissionais. 

E, no entanto, a par de Anne Briggs, Shirley Collins e June Tabor, contribuiu para alterar a forma e o conteúdo da música inglesa de inspiração tradicional. Não apenas por emprestar a sua voz a velhas melodias folk, mas sobretudo por ser uma compositora emérita.

Hoje, as compilações abundam, essenciais umas, nem por isso outras. Uma das abordagens que faltava era juntar num único sítio o espólio acústico da cantora. A solo designadamente, Sandy recriou e escreveu canções fabulosas, mas nem sempre o resultado final ( produção incluída ) esteve à altura.

A voz e o talento de Sandy Denny são de tal forma sensitivos que é no meio do silêncio  que melhor se pode aquilatar da sua verdadeira dimensão. “I’ve always kept a Unicorn, The Acoustic Sandy Denny” são 2 cds e 40 temas que nos oferecem uma perspectiva nova para canções que, pensávamos, já não terem segredos.

De um encanto absoluto.

31/01/14

Molly Drake "Molly Drake"



Publicada 39 anos após o seu desaparecimento, eis que surge finalmente a peça que faltava para melhor compreender o talento de Nick Drake: a poesia e as composições de Mary Lloyd (Molly Drake).
Tal como viria a suceder com o filho, Molly nasceu em Rangoon, Burma. Fazia parte da aristocracia colonial e foi educada nesse quadro, no âmbito dos padrões inerentes ao estrato social a que pertencia. Aperfeiçoou o talento natural para a poesia, música e, mais tarde, já em Inglaterra, gravou de forma empírica as canções que foi escrevendo ao longo dos anos.

Canções essas que finalmente conhecemos em “Molly Drake”. A um tempo simples e sofisticadas, ternas e prosaicas, estão eivadas daquela “englishness” apenas ao alcance dos que podem, não dos que querem.
Tal como sucederia com Nick Drake, cujo talento se percebe um pouco melhor depois de escutar a serena beleza do canto de Molly.

E a edição em vinil é um  artefacto lindíssimo.

16/06/13

Beautify Junkyards "S/t"


 
Pode até parecer, mas realizar um disco de versões, exclusivamente, é tudo menos fácil. Existe um ponto de partida, é verdade. Porém o risco é enorme, eventualmente potenciado pela dimensão ou popularidade do que se pretende recriar. Porque existe um paradigma e porque se pode abordar o tema por duas vertentes distintas: a versão pura e dura, apenas com as alterações que  ao tempo, espaço e protagonistas dizem respeito e, aquela outra, que mexe no caldeirão das idiossincrasias, e que por via disso altera a personalidade e a silhueta das canções. Das primeiras temos exemplos profusos, quase sempre paredes meias com revivalismos bacocos e/ou oportunismos “à la carte”. No que concerne às últimas, a contabilidade é mais escassa, porém mais recompensadora. Peguem, por exemplo, numa colectânea de versões curada por Mark Kozelek e tentem chegar aos originais sem consultar as informações constantes no booklet …

Para a sua estreia em formado CD/LP, os Beautify Junkyards escolheram  a segunda opção. Faz todo o sentido, sobretudo se tivermos em conta  o tremendo peso histórico das nove canções escolhidas. Grande parte delas foram já objecto de versões versões, por vezes sem grande alma ou chama dignas de nota. O que aqui interessava era sair da zona de conforto que a grandeza dos temas proporciona, para chegar a algo de diferente. Eventualmente capaz de retratar a forma como, várias gerações depois, um grupo de músicos lusos olha para um conjunto de canções entalhadas na história, muito provavelmente todas elas escritas muito antes de os próprios terem nascido.

 
Dito isto, convirá sublinhar o bom gosto das escolhas. E se Kraftwerk ou Mutantes não têm grande airplay aqui pelo Atalho, o mesmo já não se passa com amigos mais que prováveis como Vashti Bunyan, Nick Drake, Roy Harper, Heron, Bridget St. John, Linda Perhacs ou até mesmo Donovan.

Quanto ao mais, diria que “From the morning” veste-se de gala para perpetuar Nick Drake, “Rose hip November” leva-nos de volta até ao álbum perdido de Vashti Bunyan, as novas roupagens de “Yellow Roses” são tão coloridas quanto as do original dos Heron, “Ask me no questions” e “Parallelograms” homenageiam bem St. John e Perhacs, enquanto esse hino à vida que é “Another day”, tem aqui uma versão bem mais pungente que a de Andrew John em “The machine stops” e que compara bem coma prestação dos This Mortal Coil de “It’ll end in tears”.  

Aparentemente, o futuro tem tudo para ser brilhante. Esperemos que assim venha a ser.

Nota: com o devido agradecimento a João Branco Kyron.