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10/02/24

Welcome to Compiland

 


No decorrer de 1959 Loukas e Margaret Matheou adquiriram em Londres, no número 49 da Greek Street. No imóvel projectavam estabelecer um restaurante especializado em comida, não grega mas francesa. Nos anos que se seguiram e à medida que o negócio fluía, concluíram que o espaço era excessivo para um restaurante. Implementaram alterações, lançando os alicerces para um clube cujo objectivo seria a promoção e divulgação das músicas folk e blues, à época géneros predominantes nos finais de tarde do Soho.

Ainda que sem licença para a actividade, “Les Cousins, Club Continental” abriu as portas no dia 4 de Outubro de 1964, tendo encerrado cerca de seis anos depois em Abril de 1972. Durante o período foi um porto ( palco no caso ) seguro para a grande maioria dos talentos que focados nas linguagens folk e blues, demandavam reconhecimento e sucesso no então artisticamente efervescente bairro londrino.



Americanos: Paul Simon. Tim Hardin, Tom Rush,  Spider John Koerner, Derroll Adams, Jackson C. Frank, Dave Van Ronk, Julie Felix; britânicos: de Bert Jansch a Nick Drake, passando por Sandy Denny, Cat Stevens, Wizz Jones, Shirley Collins, Al Jones, Keith Christmas, Watersons, Shelagh McDonald, Martin Carthy, Kevin Ayers, Ian A. Anderson, John Martyn, Anne Briggs, C.O.B., Alexis Korner, Roy Harper, Bridget St. John, Plainsong, Nadia Cattouse … entre muitos outros, figuram entre os nomes documentados como tendo actuado no Les Cousins.

A compilação “Les Cousins, The Soundtrack of Soho’s Legendary Folk & Blues Club”, curada e magnificamente anotada por Ian A. Anderson, oferece 62 temas de um igual número de artistas.



Não constituindo embora uma total revelação para os que se interessam pelos géneros musicais em análise -  ainda assim e como seria expectável, existem aqui algumas muito agradáveis surpresas ; a título de exemplo relevam-se “Leaf without a tree” de Sam Mitchell apenas publicado na compilação da Music Man “Firepoint, A Collection of Folk Blues Tracks”, “Bye Bye Bohemia” de Tom Yates ou “Memory Book” de Mudge & Clutterbuck, publicado num EP raríssimo da Saydisc em 1968 - , é todavia uma delicia do primeiro ao sexagésimo segundo tema.



Depois das séries “Pebbles” e, sobretudo, após a mítica “Nuggets, Original Artyfacts from the First Psychedelic Era 1965-1968”, resta pouco espaço para compilações com vista para o garage / fuzz norte-americano daqueles anos. No entanto, mais ou menos interessantes, continuam a proliferar validando e eternizando um género que se reconhece importante embora frequentemente sobrevalorizado.

Pushin’ Too Hard, American Garage Punk 1964-1967” é mais um desses exemplos. Porventura demasiado optimista: 94 temas ( 31 no CD1, 32 no CD2 e 31 no CD3 ) maioritariamente em mono ( apenas 7 versões stereo ), revela algumas contraindicações. A saber: a) os textos das sempre necessárias e interessantes notas do booklet estão impressas em tamanho minúsculo, facto que os nossos olhos, já com bastante mais passado do que futuro, não apreciam especialmente; b) ainda que enérgicos mas genericamente carecendo duma sofisticação que sempre dá algum jeito, à medida que a audição vai decorrendo, a sensação que emerge é a de que os temas apresentam poucas diferenças entre si.



Exceptuam-se aqueles que deixaram para trás as óbvias influências da “british invasion” ( Kinks, Yardbirds, Rolling Stones, Pretty Things, etc )  prevalecendo aqueles outros  verdadeiramente bafejados pelo talento dos seus autores. Falamos de clássicos como os Remains, Seeds, Beau Brummels, Paul Revere & The Raiders, 13th Floor Elevators, Electric Prunes, Shadows of Knight,, Sonics, Standells … ou de magníficas surpresas como The McCoys, Fenwyck, The Leaves, The Bees The Squires, The Liberty Bell, The Zakary Thaks ( conferir a compilação publicada em 1982 “Liberty Bell / Zakary Thaks, Texas Reverberations” ), Thursdays Children ( o excelente “You can Forget about that” pode também ser encontrado em “Never Ever Land, Texan Nuggets from International Artists Records 1965-1970” ).

Resumindo, ambiciosa em demasia e exagerando na arqueologia, “Pushin’ Too Hard” é uma daquelas compilações que tem como alvo principal os convertidos, marginalizando os neófitos eventualmente interessados no saudável exercício de iniciação ao género.


 

O universo das “private pressings” - álbuns compostos, interpretados, gravados e usualmente publicados num registo DIY pelos próprios artistas ou por uma editora amadora - , constitui, já  o referimos anteriormente no Atalho, um espaço apaixonante, inesgotável e em permanente registo de descoberta. O senão, nada despiciendo, prende-se com o facto de as edições serem por razões compreensíveis muito limitadas, logo muito raras e como tal dispendiosas.

One Mile From Heaven” propõe-nos duas dezenas de canções retiradas de outros tantos álbuns de artistas norte-americanos e canadianos, os quais por razões conjunturais ou por pura convicção recusaram os ditames da indústria, optando por perpetuar a sua música através das ditas edições privadas.



Exclusivamente focada na década de 70, “One Mile From Heaven”, aborda o nicho dos “singer-songwriters”. O bom gosto que resulta da selecção é superlativo, sendo irrelevante se raízes emergem das sofisticadas Nova Iorque, Los Angeles, Lauren Canyon ou Vermont, ou das rurais Illinois, Indiana, Utah ou Minnesota.

Alguns dos nomes propostos são já medianamente conhecidos ( Gary Higgins, Bob Trimble, Bob Patterson, Jim Sullivan, Merrell Fankhauser, Michael Yonkers ), a maioria todavia constitui uma estimulante descoberta.



Alicia May com “Summer days”, um título delicioso com a voz da autora a hesitar entre as performances vocais de Joni Mitchell e Margaret Morgan dos These Trails; os irmãos Chuck & Mary Perrin e o seu folk rock melancólico; Dan Modlin & Dave Scott cujo álbum “The train don’t stop here anymore” é um dos melhores discos publicados no Indiana; o folk-rock de Billy Hallquist e de Richard Goldman; os arranjos de cordas no tema “More Beautiful” de Naomi Lewis; as óbvias influências “Veedon Fleece” em “In The Sun” o título do canadiano de origem goesa Carm Mascarenhas; o psych-folk de Olav Rixen & Ulrich Fausten, dois alemães radicados em Vancouver …

One Mile From Heaven” fornece um manancial de pistas que os amantes do género retratado seguramente agradecem. Tão cedo vai ser difícil encontrar uma compilação tão bela e equilibrada quanto esta.

30/06/20

Jack Sharp "Good Times Older"



33 escassos minutos. Porém momentos de uma beleza extrema que cativa pelo inesperado. Oito tradicionais, dois originais e uma versão ( “God Dog” ) de Robin Williamson para a Incredible String Band.

Após ter colocado os Wolf People no mapa do moderno folk-rock, Jack Sharp reemerge com um álbum de uma simplicidade desarmante, como que saído de um outro tempo. Antigo, identificado com as memórias que restaram de Nic Jones ou Michael Blount nos idos de 70, deliberadamente afastado das urgências inconsequentes e superficiais do presente.

Good Times Older” enquanto título, diz tudo ou quase. A guitarra acústica de Sharp, o violoncelo de Edwin Ireland e, ocasionalmente, a concertina de Laura Smyth, dizem-nos o resto.

A atmosfera é nostálgica. Bela todavia, como quase sempre sucede com a música que resulta daquele sentimento. A voz de Sharp não se enquadra no paradigma do folk-rock britânico ( por vezes lembra o Dave Heumann dos Arbouretum ), mas o critério e o talento com os quais aborda estas canções, constituem para o ouvinte um desafio que as sucessivas audições ajudam a normalizar.

“Good Times Older” e “May Morning Dew”, estratégicamente colocadas a abrir e a fechar, são canções ( versões ) memoráveis. Pelo meio encontramos os originais “Soldier Song” e “Treecreeper” e a interpretação cirúrgica de “God Dog” do já referido Williamson e à qual a divina Shirley Collins já dedicou a sua atenção em tempo próprio.

Não fora a atmosfera predominantemente trad-folk e quase se podia afirmar que “Good Times Older” constituía um dos melhores álbuns de um “singer songwriter” britânico desde a época em que os ditos proliferavam.

29/07/19

Robert Kirby



Recentemente  perguntaram-me qual o real significado de “Englishness” na música. Estranhamente, hesitei. E no entanto convivo há décadas paredes meias com esse sentimento peculiar, onde se compaginam características tão diversas como sentido de humor, respeito pela tradição, inteligência e estoicismo.

Em simultâneo concreto e abstracto é, na sua magnitude e ambivalência, um estado de espírito difícil de definir com exactidão por um latino. Imagino que seja algo de muito parecido como tentar explicar a “saudade” a um inglês.

Socorri-me primeiramente de Edward Elgar para ilustrar a tentativa de explicação. Depois ocorreu-me que talvez Robert Kirby ( 1948 – 2009 ) pudesse ser um exemplo mais próximo da contemporaneidade. Uma parcela significativa dos seus arranjos e orquestrações definem as virtudes daquela identidade cultural na perfeição.

Hoje, vista ao retrovisor, a impressionante lista de músicos com quem colaborou, tem tradução no que de melhor a música inglesa ofereceu entre 1969 e 2009. Nick Drake, Shelagh McDonald, John Cale, Spriguns, Richard Thompson ou Sandy Denny são disso exemplos perenes.


20/12/17

The Lords of Thyme "Pellets"



Alvo de apressadas comparações com Pentangle e Fairport Convention, os The Lords of Thyme acabam de reeditar em vinil o seu primeiro álbum “Pellets” datado de 2016.

Colocando de lado a injustiça das similitudes ( porque coloca a fasquia num nível que complica mais do que facilita ) é verdade que existe na música deste quarteto inglês alguma magia; mas, por ora tão só, porque talento puro é outra coisa.

Oriundos dos esotéricos Circulus, Joe Woolley, Tali Trow e Pat Kenneally, recrutaram a vocalista Michelle Woolley e partiram em busca de uma linguagem musical que, dentro do padrão folk-rock, deixe de lado o paganismo e proporcione maior consenso.


A abrir, o tradicional “Bruton Town” está lá com esse fito, porém pouco ou nada acrescenta à maioria das versões conhecidas. A natureza serena de “George Collins” poderá ser uma das razões porque a banda foi convidada a integrar o projecto “Shirley Collins Inspired”. “The bird it sang” mantém a sequência mas, a partir deste, o rumo perde-se e o “song writing” tem dificuldade  em acompanhar o propósito inicial. “Coming down” por exemplo poderá até ser um bom tema mas o recurso ao órgão Hammond e à pedal steel guitar transforma-o num corpo estranho.

Após a necessária reflexão, aguardam-se os próximos capítulos.

03/08/17

House and Land "S/t"


 
Asheville, encaixada num vale confinado ao sopé das Smoky Mountains, é um dos lugares mais encantadores da Carolina do Norte.  

Provavelmente a cidade americana com mais cervejarias e galerias de arte per capita, transpira talento nas ruas geométricas  e arrumadas, quase bostonianas de tão europeias.

Um refúgio perfeito para artistas e criadores que encontram ali uma sofisticação que o sul tradicionalmente conservador não privilegia.  Sally Anne Morgan e Sarah Louise Henson são autóctones. Multi-instrumentistas ambas, a primeira já veterana dos Pelt e Black Twig Pickers, Sarah dando os primeiros passos, optaram por juntar os respectivos talentos e dar corpo ao projecto House and Land.


Construído em percentagens equilibradas de tradição e experimentalismo, o álbum de estreia homónimo “House and Land”, é um trabalho que não irá ser um êxito comercial, antes um daqueles discos de músicos para músicos e que, como tal, prevalecerá para além da espuma dos dias.

Entre a vertente apalachiana, o finger-picking, o impressionismo drone e as seculares melodias folk britânicas, “House and Land” estabelece uma conexão perfeita entre o novo e o antigo, nunca abdicando de uma hipnótica simplicidade que o torna verdadeiramente especial.


Num tempo em que tudo é processado até à exaustão, Sally e Sarah inventaram um disco minimalista nos adornos, que nos remete para as gravações transgeracionais de Shirley e Dolly Collins nos 70s ( a versão de “False True Lovers” não surge aqui por mero acaso ).

Thom Nguyen ajuda nas percussões, mas são sobretudo as prestações de Sarah ( voz, guitarra acústica e bouzouki ) e Sally ( voz, violino e banjo ) que cativarão a atenção e sentidos daqueles que optarem por prestar atenção a pequenas preciosidades como “The day is past and gone”, “Home over Yonder” ou “Rich Old Jade”.

15/07/17

Alex Rex "Vermillion"



Recorrendo ao alter ego Alex Rex e aproveitando uma licença sabática dos Trembling Bells, Alex Nielson acaba de publicar  aquele que é verdadeiramente o seu primeiro álbum a solo: “Vermillion”.

Um criador de mente aberta, Nielson é já  um veterano no campo do experimentalismo e da improvisação. Apaixonado também pela folk e tradições pagãs que a corporizam, o músico inglês tornou-se sobretudo conhecido em 2008 quando criou os Trembling Bells e, mais tarde, os Death Shanties.

Para trás ficaram as parcerias experimentais com Richard Youngs; agora é o tempo de pendurar na parede as fotos de velhos ícones folk como Shirley Collins ou Norma Waterson.

Todavia, ainda assim, aquela que aparenta ser a sua paixão maior encontra-se no legado da Incredible String Band.  De facto é possível dissecar e virar do avesso os discos dos Bells, no final o que resta é quase sempre aquela sonoridade atonal e iconoclasta da banda escocesa.

Vermillion” não é nem poderia ser muito diferente. Nielson está apaixonado pela folk e o paganismo que celebra, mais não é que a sua forma particular de olhar a tradição. Desconfortável umas vezes ( “The Screaming Cathedral” ou “Postcards from a dream” ), sublime noutras ( “Lucy” ou “Please God make me good, but not yet” ), antigo noutras ainda ( “The perpetually replenished Cup” ), “Vermillion” é um disco extraordinário que como todas as obras do mesmo calibre não se esgota no tempo. E as velhas bandeiras da Incredible String Band e, já agora, também da Albion Country Band ondulam de novo ao sabor dos ventos.

09/01/17

Shirley Collins "Lodestar"



Apesar de não ter gravado uma única canção durante mais de 30 anos, Shirley Collins permaneceu sempre a grande Dama do folk inglês. Sandy Denny é passado e June Tabor, embora grande, não atinge aquele patamar.

Nos dias de hoje trata-se de algo quase incompreensível. Mas há coisas que não se explicam, sentem-se apenas. Aparentemente ultrapassados os problemas de saúde que a impediram de cantar durante décadas, “Lodestar”, é o primeiro disco novo desde 1979. Uma perfeição. As canções pairam sobre uma atmosfera mágica.

Um dos grandes talentos de Collins foi saber, no momento certo,  escolher as canções que, observando a tradição, serviam igualmente a sua voz. Esta já não tem a frescura de outrora; está mais grave, profunda, naturalmente envelhecida. Não obstante, o dom interpretativo continua a impressionar, pela convicção e autenticidade.

O resto, depois do talento, é bom gosto, simplicidade e singeleza. Tal qual a tradição ancestral desta música, cujas canções não necessitam de grandes arranjos ou acompanhamentos. Muitas das vezes o “acapella” bastou para sobreviverem à história.

06/07/16

Jardins do Paraíso ( L )



Porventura a mais talentosa cantora inglesa da sua geração, tal como Nick Drake, Sandy Denny nunca teve em vida o reconhecimento merecido. Quando faleceu em 1978, a sua carreira estava perto do ocaso, fruto de uma série dramas pessoais e equívocos profissionais. 

E, no entanto, a par de Anne Briggs, Shirley Collins e June Tabor, contribuiu para alterar a forma e o conteúdo da música inglesa de inspiração tradicional. Não apenas por emprestar a sua voz a velhas melodias folk, mas sobretudo por ser uma compositora emérita.

Hoje, as compilações abundam, essenciais umas, nem por isso outras. Uma das abordagens que faltava era juntar num único sítio o espólio acústico da cantora. A solo designadamente, Sandy recriou e escreveu canções fabulosas, mas nem sempre o resultado final ( produção incluída ) esteve à altura.

A voz e o talento de Sandy Denny são de tal forma sensitivos que é no meio do silêncio  que melhor se pode aquilatar da sua verdadeira dimensão. “I’ve always kept a Unicorn, The Acoustic Sandy Denny” são 2 cds e 40 temas que nos oferecem uma perspectiva nova para canções que, pensávamos, já não terem segredos.

De um encanto absoluto.

27/08/15

"Shirley Inspired ..."


Shirley Collins completou há pouco 80 anos. Com uma carreira notável, sem paralelo mesmo dentro do restrito núcleo da aristocracia folk britânica, Collins tem sido durante mais de meio século uma inspiração e uma referência para todos os que entendem a tradição musical folk como uma importante faceta da cultura de um povo.

No âmbito das celebrações do octogésimo aniversário, além do filme “The Ballad of Shirley Collins”, foi publicada “Shirley Inspired…”, uma colectânea com 45 temas que fazem parte da vida e carreira da cantora.

A diversidade dos músicos convidados, arranjos e interpretações é grande. Não obstante, tendo em conta o propósito, há aqui bastos momentos para se gostar e guardar.

Ou, se quiserem, como referiu a própria Shirley Collins: “Listening to these re-creations shows me again that English folk music has timeless power and significance.

30/10/13

Sharron Kraus "Pilgrim Chants & Pastoral Trails"


 
Seguramente um dos artefactos sonoros mais bonitos que o Atalho escutou nos últimos tempos, “Pilgrim Chants & Pastoral Trails” é resultado da estadia de Sharron Kraus no Mid Wales.

No silêncio profundo dos vales e montanhas, no linguajar das aves, no borbotar das cascatas e, sobretudo, na atitude amistosa das gentes ( “I wander in lonelly valleys, feeling like the only person alive, then emerge onto a path and meet a stranger who greets me like an old  friend” ), encontra-se a verdadeira alma do Gales rural que inspirou Sharron Kraus e que a levou até estas composições, projectadas no horizonte da terra que as viu nascer.

A essência da tradição folk foi respeitada, as canções serpenteiam através das lendas que a alma colectiva guarda: segredos sombrios, alegrias pueris, vivências simples.



A instrumentação é escassa e a voz discreta. O resultado é porém eloquente.  Pilgrim Chants”, para além de belo, será talvez o mais sereno dos discos da cantora -  a par de Diana Collier e Nancy Wallace, uma das principais herdeiras da ilustríssima Shirley Collins.

A edição, um cuidado bookcase incluindo um booklet explicativo, é também ela belíssima e absolutamente colecionável. 

30/05/13

The Owl Service "The Garland Sessions"




Notícias recentes dão conta do fim do projecto The Owl Service.
Activo desde 2006, este colectivo mutante foi liderado por Steven Collins, um estudioso da música e tradições antigas e compositor apaixonado pela folk renaissance do final dos 60s.

De entre os vários registos que os Owl Service ( o nome foi retirado do título de um livro de Alan Garner datado de 1967 e que relata uma lenda galesa cuja figura principal é Blodeuwedd, uma mulher criada a partir de flores por um feiticeiro ) nos deixaram, “A Garland of song” ( publicado em 2007 numa edição privada ) é seguramente o mais proeminente. Nele coabitam todas as tradições musicais e pagãs que a folk music das ilhas preserva e que, não raro, se cruzam os trilhos dos Fairport Convention de “Liege and lief”, com o som Albion Country Band ( período Shirley Collins ) e até algum do esoterismo  da Incredible String Band.
The Garland Sessions” agrupa 19 dos temas que o grupo trabalhou para o álbum. Embora não exaustivo ( parte deles ficaram-se pelo cd ou pelo vinil ) é no entanto uma magnifica compilação de canções, lendas várias e sonoridades antigas. Um local único onde se podem escutar as vozes promissoras de Dom Cooper, Kate Denny, Diana Collier, Jo Lepine, Laura Hulse ou Nancy Wallace mas, sobretudo, perceber como é enorme e inesgotável o filão da ancestral tradição musical britânica.

Fundamental, para quem em 2007 não reparou na edição original.

13/03/13

Diana Collier "All mortals at rest"


A simplicidade, quando genuína, veste quase sempre a pele de uma beleza que se faz perene e incontornável. Na música, como noutras artes, simples é por norma sinónimo de mais. Mais qualidade, mais futuro, mais sensibilidade, mais interacção, mais história…, mais tudo.   A história está repleta de estórias de grandes produções, hipérboles que fizeram as manchetes da sua época, mas esquecidas ou datadas décadas volvidas.  À medida que o tempo avança, os passeios vão ficando repletos de detritos. Todos eles obras importantíssimas à nascença, absolutos enfados quando a cronologia principia a cumprir o seu papel. Sou suspeito porque nunca suportei os Beatles enquanto entidade mas, hoje, quase 50 anos passados, optar por  Sergeant Pepper’s” ou  Astral Weeks” por exemplo, suscitará alguma dúvida?

Tudo isto a propósito do primeiro cd a solo (creio) de Diana Collier, uma das vozes do projecto folk-rock The Owl Service de Steven Collins.  Com uma discografia ainda curta mas personalizada e bastante  consistente, porque solidamente ancorada na tradição musical inglesa, Collins tem sabido rodear-se das vozes que melhor tipificam a matriz do projecto e que por essa razão melhor o servem. Quando se escuta “A Garland of Song” por exemplo, percebe-se que Shirley Collins e Anne Briggs são tremendíssimas influências, logo é natural que as vozes a que recorre não as contradigam.

Neste âmbito, Nancy Wallace e Diana Collier, cumprem bem o seu papel. Wallace já tem por aí a circular registos a solo ( procurem o link aqui ao lado ) Collier iniciou-se com “All mortals at rest”, uma edição privada, limitada e que num futuro mais ou menos longínquo fará as delícias dos  colecionadores.

São sete temas, todos cantados a cappella. Seis deles objecto de versões várias e diferenciadas ao longo dos anos. Um, mais recente, publicado por Alasdair Roberts em “Spoils”. E aqui regressamos à simplicidade. Algo que é quase sempre inerente ao canto a cappella, embora não necessariamente.  

Quando se fala de Shirley Collins todas as comparações são descabidas, abusivas diria. Não obstante, em  “All things are quite Silent” embora sabendo-se que a voz é de Diana Collier é quase impossível não recuar até à memória do canto inigualável de Shirley Collins. A melodia é bela, a versão simples mas rica; tocada pela sinceridade da voz e da interpretação.

E o padrão mantém-se nos restantes temas. Pouco mais de 21 minutos mágicos, durante os quais desfilam os nomes e as heranças das já referidas Collins e Briggs, mas também de Young Tradition, Peter Bellamy, Martin Carthy, Steeleye Span ou Current 93. Arrisquem e serão recompensados (. http://stonetaperecordings.bandcamp.com/track/all-things-are-quite-silent ).

22/06/12

Shirley Collins


Do trio de vozes femininas, muito justamente apelidado de "Santissima Trindade do folk inglês"  nas últimas 3 décadas do século passado - Shirley CollinsSandy Denny e June Tabor -, apenas a última se mantém em actividade.
Sandy deixou-nos em 1977 e Shirley, porventura a voz feminina que mais tocou a alma do Atalho, há muito que deixou de poder cantar (encantar, diria).

Se o culto de Sandy Denny não para de aumentar e o respeito pela carreira idónea de June Tabor, cresce em igual medida, o merecido reconhecimento pelo trabalho de Shirley Collins em prol da canção tradicional inglesa tem tardado em frutificar. E no entanto a sua influência tem sido, é, e continuará a ser enorme. Curiosamente, não são os seus contemporâneos, antes os músicos mais novos a reconhecê-lo.


O mais recente número da revista fRoots dedica-lhe a capa e no interior traça o perfil ( um dos possíveis ) daquela que permanece um dos segredos mais bem guardados da música tradicional inglesa. A revista não é distribuida em Portugal mas pode ser encontrada aqui: (  http://www.frootsmag.com/ ) .

Mais detalhes sobre a carreira de Shirley Collins, aqui:  http://www.shirleycollins.co.uk/