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06/04/25

"Jingle Jangle Morning, The 1960s U.S. Folk-Rock Explosion"

When folk guitarrist-singers Roger ( then Jim ) McGuinn, Gene Clark, and David Crosby started to make music together around mid-1964, they’d barely begun to play electric instruments. With newly recruited bassist Chris Hillman and drummer Michael Clarke, they devised a full electric arrangement of this then-unreleased Bob Dylan composition that combined the best of Dylan and the Beatles, with ringing electric 12-string guitar and heavenly harmonies. Although only McGuinn played on the single, the result was a #1 hit in both US and UK as summer 1965 dawned, and the dawn of folk-rock itself.”

Não sendo a única, a versão de “Mr. Tambourine Man” inventada pelos Byrds e acima comentada por Ritchie Unterberger, é uma das razões da existência deste blog. O folk-rock ( sobretudo o americano ) é uma outra. 

Caldo perfeito para, com evidente satisfação, receber “Jingle Jangle Morning, The 1960s US Folk-Rock Explosion”; selecção, compilação e notas de Ritchie Unterberger, assistência aúdio de Alec Palao.
A larga maioria dos primeiros arautos do folk-rock provinham do folk e do folk revival do inicio dos 60s. A então deriva eléctrica de Dylan primeiro e dos The Byrds no imediato, funcionou como catalisador para um movimento que cavalgando a onda de British Invasion acabou a competir com esta. 

Yet folk-rock wasn’t merely a matter of mixing the Beatles and Bob Dylan, or folk songwriters trading their acoustic guitars for electric axes. In the five or so years after The Byrds hit #1 on both sides of the Atlantic with their rocked-up reinvention of Dylan’s ‘Mr. Tambourine Man’, dozens of American acts took the best of both rock and folk to not only create something wholly new.” 

De um ponto de vista histórico e documental “Jingle Jangle Morning” é uma das abordagens possíveis. Haverá certamente outras, muito embora esta, balizada entre os anos de 1965 e 1970, seja susceptível de criar adição.
Os 76 temas que compõem a compilação abordam um largo espectro do género. Do óbvio ao surpreendente, passando pelo inesperado. 

Dylan, Byrds, Phil Ochs, Great Society, Buffalo Springfield, Gene Clark, Tim Buckley, Beau Brummels, Simon & Garfunkel, Fred Neil, Youngbloods, Judy Collins, David Blue, Jefferson Airplane, Tom Rush, Gordon Lightfoot, Love, Tom Paxton ou Tim Hardin entre outros, cabem no campo do óbvio. 

Com maior ou menor grau de surpresa, são aparentemente inesperados os nomes de Nico, Dion, Poco, Lamb, Johnny Winter, Linda Ronstadt, Fugs, Fapardokly ou Holy Modal Rounders por exemplo. Opções do curador que nos convidam a questionar clichés e colocar de novo em perspectiva verdades entretanto adquiridas.
A tudo isto acrescem algumas cerejas colocadas no topo: Blackburn & Snow com “Stranger in a strange land”, um tema que David Crosby escreveu e produziu em 1966 sob o pseudónimo Samuel F. Omar; “Is there anything I can do” dos The Ashes ( pré Peanut Butter Conspiracy ); “2:10 Train” dos The Rising Sons ( com Ry Cooder e Taj Mahal ); “Guinevere” dos The Lemon Drops; “All night long” de Tom Paxton; o inédito “Watch me walk away” dos obscuros Stourbridge Lion, ou o espectacular “Woman don’t you weep” escrito por Steve Young para o único álbum dos Stone Country

Seguramente uma das compilações do ano.
 

27/02/25

Chris Brain "Bound to rise"

Com dois álbuns publicados (“Bound to rise” e “Steady Away”) e um terceiro ( “New Light”) a caminho, Chris Brain, um nativo do Yorkshire, tem vindo a perfilar-se como um dos herdeiros da tradição folk britânica, particularmente no que concerne ao especialíssimo legado de Bert Jansch e Nick Drake

Ao escutar “Bound to rise” ( 2022 ), os puristas serão tentados a afirmar que Chris Brain, apesar de um talento evidente, mimetiza abundantemente o padrão e a partes significativas da obra de Nick Drake. Será porventura um exagero, mas em “Bound to rise” a maioria das pistas é para ali que apontam, muito mais do que para Jansch. 

Devidamente colocados os pontos nos is, o primeiro álbum de Chris Brain revela-se um delicioso exercício de “folk pastoral” que ora nos convoca para as paisagens rurais que o autor privilegia, ora nos remete para as nossas memórias mais preciosas, sejam elas Drake ( mais ), Jansch ( menos ) ou Saint Joan ( sim procurem o fenomenal “The Wrecker’s Lantern” ). 

Lavrada a acta, ficamos a aguardar os novos atalhos a que o prometido “New Light” nos conduzirá.

 

21/01/25

Filigree "S/t"

Curiosamente ou talvez não, um dos melhores novos discos de folk rock britânico que escutei em 2024 foi gravado em 1973. Um facto extraordinário que por si só diz muito ou quase tudo sobre o actual estado das artes. 

Resultado da adição de dois duos folk oriundos do Hertfordshire – Chris e Roger Jeffery + Pat Turner e Pete Cunningham -, os Filigree detinham até há pouco um parco espólio discográfico que se materializava no single “Yo, Yo Man / Morning has begun” publicado pela Orange em 1973, uma fugaz participação no clássico de folk gótico “Sweet Williams Ghost” da dupla George Deacon & Marion Ross além da inclusão de dois temas num álbum privado e virtualmente impossível de localizar: “Pirton Live”. 

No verão de 2024 a Bright Carvings recuperou o aparentemente único acetato resultante das sessões que os Filigree levaram a cabo em 1973. Trata-se de um conjunto de títulos de folk / rock contemporâneo ( à época ) parcimoniosamente repartidos entre originais, tradicionais e versões. 

“Meet on the ledge” ( Richard Thompson ) e “No regrets” ( Tom Rush ), são desde sempre duas das minhas criações preferidas e a sua inclusão, naturalmente, também ajudou a chamar a minha atenção. Não obstante, as versões, minimalistas e empenhadas, não atingem o brilhantismo dos respectivos originais, o que de resto era expectável. 

Ao contrário, os tradicionais “Banks of the Lea”, “Shearings” e “Coventry Carol”, acompanham muito bem “Morning has begun” e “Snow Maiden”, dois belíssimos originais ambos assinados e deliciosamente vocalizados por Pat Turner. 

Por ora “Filigree” foi objecto de uma edição em vinil, limitada a 157 cópias. Caso corram nesta pista não se distraiam …

 

10/02/24

Welcome to Compiland

 


No decorrer de 1959 Loukas e Margaret Matheou adquiriram em Londres, no número 49 da Greek Street. No imóvel projectavam estabelecer um restaurante especializado em comida, não grega mas francesa. Nos anos que se seguiram e à medida que o negócio fluía, concluíram que o espaço era excessivo para um restaurante. Implementaram alterações, lançando os alicerces para um clube cujo objectivo seria a promoção e divulgação das músicas folk e blues, à época géneros predominantes nos finais de tarde do Soho.

Ainda que sem licença para a actividade, “Les Cousins, Club Continental” abriu as portas no dia 4 de Outubro de 1964, tendo encerrado cerca de seis anos depois em Abril de 1972. Durante o período foi um porto ( palco no caso ) seguro para a grande maioria dos talentos que focados nas linguagens folk e blues, demandavam reconhecimento e sucesso no então artisticamente efervescente bairro londrino.



Americanos: Paul Simon. Tim Hardin, Tom Rush,  Spider John Koerner, Derroll Adams, Jackson C. Frank, Dave Van Ronk, Julie Felix; britânicos: de Bert Jansch a Nick Drake, passando por Sandy Denny, Cat Stevens, Wizz Jones, Shirley Collins, Al Jones, Keith Christmas, Watersons, Shelagh McDonald, Martin Carthy, Kevin Ayers, Ian A. Anderson, John Martyn, Anne Briggs, C.O.B., Alexis Korner, Roy Harper, Bridget St. John, Plainsong, Nadia Cattouse … entre muitos outros, figuram entre os nomes documentados como tendo actuado no Les Cousins.

A compilação “Les Cousins, The Soundtrack of Soho’s Legendary Folk & Blues Club”, curada e magnificamente anotada por Ian A. Anderson, oferece 62 temas de um igual número de artistas.



Não constituindo embora uma total revelação para os que se interessam pelos géneros musicais em análise -  ainda assim e como seria expectável, existem aqui algumas muito agradáveis surpresas ; a título de exemplo relevam-se “Leaf without a tree” de Sam Mitchell apenas publicado na compilação da Music Man “Firepoint, A Collection of Folk Blues Tracks”, “Bye Bye Bohemia” de Tom Yates ou “Memory Book” de Mudge & Clutterbuck, publicado num EP raríssimo da Saydisc em 1968 - , é todavia uma delicia do primeiro ao sexagésimo segundo tema.



Depois das séries “Pebbles” e, sobretudo, após a mítica “Nuggets, Original Artyfacts from the First Psychedelic Era 1965-1968”, resta pouco espaço para compilações com vista para o garage / fuzz norte-americano daqueles anos. No entanto, mais ou menos interessantes, continuam a proliferar validando e eternizando um género que se reconhece importante embora frequentemente sobrevalorizado.

Pushin’ Too Hard, American Garage Punk 1964-1967” é mais um desses exemplos. Porventura demasiado optimista: 94 temas ( 31 no CD1, 32 no CD2 e 31 no CD3 ) maioritariamente em mono ( apenas 7 versões stereo ), revela algumas contraindicações. A saber: a) os textos das sempre necessárias e interessantes notas do booklet estão impressas em tamanho minúsculo, facto que os nossos olhos, já com bastante mais passado do que futuro, não apreciam especialmente; b) ainda que enérgicos mas genericamente carecendo duma sofisticação que sempre dá algum jeito, à medida que a audição vai decorrendo, a sensação que emerge é a de que os temas apresentam poucas diferenças entre si.



Exceptuam-se aqueles que deixaram para trás as óbvias influências da “british invasion” ( Kinks, Yardbirds, Rolling Stones, Pretty Things, etc )  prevalecendo aqueles outros  verdadeiramente bafejados pelo talento dos seus autores. Falamos de clássicos como os Remains, Seeds, Beau Brummels, Paul Revere & The Raiders, 13th Floor Elevators, Electric Prunes, Shadows of Knight,, Sonics, Standells … ou de magníficas surpresas como The McCoys, Fenwyck, The Leaves, The Bees The Squires, The Liberty Bell, The Zakary Thaks ( conferir a compilação publicada em 1982 “Liberty Bell / Zakary Thaks, Texas Reverberations” ), Thursdays Children ( o excelente “You can Forget about that” pode também ser encontrado em “Never Ever Land, Texan Nuggets from International Artists Records 1965-1970” ).

Resumindo, ambiciosa em demasia e exagerando na arqueologia, “Pushin’ Too Hard” é uma daquelas compilações que tem como alvo principal os convertidos, marginalizando os neófitos eventualmente interessados no saudável exercício de iniciação ao género.


 

O universo das “private pressings” - álbuns compostos, interpretados, gravados e usualmente publicados num registo DIY pelos próprios artistas ou por uma editora amadora - , constitui, já  o referimos anteriormente no Atalho, um espaço apaixonante, inesgotável e em permanente registo de descoberta. O senão, nada despiciendo, prende-se com o facto de as edições serem por razões compreensíveis muito limitadas, logo muito raras e como tal dispendiosas.

One Mile From Heaven” propõe-nos duas dezenas de canções retiradas de outros tantos álbuns de artistas norte-americanos e canadianos, os quais por razões conjunturais ou por pura convicção recusaram os ditames da indústria, optando por perpetuar a sua música através das ditas edições privadas.



Exclusivamente focada na década de 70, “One Mile From Heaven”, aborda o nicho dos “singer-songwriters”. O bom gosto que resulta da selecção é superlativo, sendo irrelevante se raízes emergem das sofisticadas Nova Iorque, Los Angeles, Lauren Canyon ou Vermont, ou das rurais Illinois, Indiana, Utah ou Minnesota.

Alguns dos nomes propostos são já medianamente conhecidos ( Gary Higgins, Bob Trimble, Bob Patterson, Jim Sullivan, Merrell Fankhauser, Michael Yonkers ), a maioria todavia constitui uma estimulante descoberta.



Alicia May com “Summer days”, um título delicioso com a voz da autora a hesitar entre as performances vocais de Joni Mitchell e Margaret Morgan dos These Trails; os irmãos Chuck & Mary Perrin e o seu folk rock melancólico; Dan Modlin & Dave Scott cujo álbum “The train don’t stop here anymore” é um dos melhores discos publicados no Indiana; o folk-rock de Billy Hallquist e de Richard Goldman; os arranjos de cordas no tema “More Beautiful” de Naomi Lewis; as óbvias influências “Veedon Fleece” em “In The Sun” o título do canadiano de origem goesa Carm Mascarenhas; o psych-folk de Olav Rixen & Ulrich Fausten, dois alemães radicados em Vancouver …

One Mile From Heaven” fornece um manancial de pistas que os amantes do género retratado seguramente agradecem. Tão cedo vai ser difícil encontrar uma compilação tão bela e equilibrada quanto esta.

13/12/23

Jardins do Paraíso ( 82 )

 


Poderia e deveria ter acontecido de outra forma.

A pungente versão pop barroca de “The French Girl”, um original de Ian Tyson e Sylvia Fricker, pede meças a uma também extraordinária versão do tema responsabilidade de Gene Clark; a revisão em modo psych do clássico de Dylan “Queen Jane Approximately” captada no palco do Whiskey a Go Go em Setembro de 1966; o fuzz original de “Jack of Diamonds”; a variação “Scottish sea shanty” de “The Bonny Ship The Diamond” ou a aproximação angelical a “If I were a Carpenter” de Tim Hardin, permitem concluir sem qualquer ponta de exagero e nenhuma margem de erro que os Daily Flash deveriam ter sido reconhecidos como uma das grandes bandas a operar na Califórnia no decorrer da primeira era do psicadelismo ( 1965 – 1969 ).

Oriundo de Seattle, o quarteto constituído por Don MacAllister, Doug Hastings, Jon Keliehor e Steve Lalor era, um pouco à imagem do que sucedia com os Byrds, maior do que a soma das partes. Simplificando: reunia todas as condições para ser muito mais que uma mera nota de rodapé.

Não obstante, por vicissitudes várias comuns a muitas outras bandas igualmente talentosas, concedamos, foi daquela forma que o tempo os colocou nas prateleiras da história.


Em actividade os Daily Flash partilharam estúdios e palcos com os nomes mais sonantes da época: Byrds, Buffalo Springfield, Quicksilver, Grateful Dead, Jefferson Airplane, Rhinoceros, Moby Grape, Charlatans, Big Brother & The Holding Company, Rising Sons , Sopwith Camel, Beau Brummels… contudo enquanto activos vida publicaram apenas dois singles e quatro temas: “Queen Jane Aproximately”, “Jack of Diamonds”, “French Girl” e “Green Rocky Road”.

Em perspectiva e sabendo o que sabemos hoje, qualquer uma destas quatro gravações merecia a maior das atenções mas a sorte e o reconhecimento não passaram  por ali e a imortalidade só chegaria décadas depois.



The Daily Flash” reúne todas as gravações que foi possível resgatar nos arquivos dos diversos intervenientes. Aos títulos atrás mencionados juntam-se dez gravações de estúdio, entre elas   “When I was a cowboy”, “The girl from North Alberta”, “CC Rider”, “Violets of Dawn” ( Ian Anderson ), “Again and again”, “Grizzly Bear”, “Let me die in my footsteps” ( Dylan ) e “Birdses” ( Dino Valenti ).

O que se escuta em “The Daily Flash” justifica e é motivo para que se proceda à revisão da história. Porém se tal não for considerado suficiente ou pertinente, atente-se assessoriamente no álbum homónimo que os Bodine ( com Steve Lalor e Jon Keliehor a bordo ) publicaram na MGM em Setembro de 1969.

21/07/23

Jardins do Paraíso ( 80 )


 

A reedição de “Mare La Lande”, o “álbum perdido” de Laurent Angrand e Patrick Robin, consolida aquela velha suspeita de que existe ainda por aí belíssima música por descobrir.

Angrand e Robin conheceram-se no início dos 70s através de Jack Treese, um americano oriundo do Midwest radicado no condado de Périgord e que no período compreendido entre 1971 e 1974 publicaria em França quatro álbuns de matriz folk.

Instrumentistas dotados Angrand e Robin juntaram talentos. O resultado são os dez temas que fazem “Mare La Lande”. Integralmente acústico, o álbum é uma pequena delícia instrumental. O tricotado das guitarras transporta-nos para espaços à época percorridos por John Renbourn, Bert Jansch e Leo Kottke, aguarelas sonoras que aqui e ali nos sugerem atalhos conducentes a Laurel Canyon.

Consta que Jack Treese terá tocado banjo nas sessões de gravação levadas a cabo no famoso Studio 20 em Angers; um dado que todavia não é possível confirmar através das informações disponíveis no álbum.

Publicado em 1974, “Mare La Lande” não chegou a ser objecto de promoção/divulgação. A separação abrupta do duo após as gravações terá sido a razão. Acto contínuo e como era então regra, a maioria dos exemplares da diminuta edição privada acabaram destruídos.

A recente reedição da France Bizarre vem finalmente corrigir aquela prática, permitindo-nos testemunhar mais um belíssimo capítulo do folk francês dos 70s.

06/09/22

"Before The Day Is Done, The Story of Folk Heritage Records 1968-75"

 


The term ‘underground’ was borrowed later on by other people to talk about Pink Floyd, Fairport Convention, Jethro Tull, stuff like that, but there had been an ‘underground’ going on since 1960/61. When the folk boom took shape and gained momentum by the mid-sixties, you’re talking about millions of people going to clubs. You’re actually talking in millions.” ( Martin Carthy )


Nos sixties, a renascença da música folk britânica não teria atingido a dimensão artística e cultural sem as centenas de clubes folk e, em menor grau, dos pubs locais. Proprietários, animadores residentes ou meros artistas itinerantes que ensaiavam nas traseiras e actuavam a troco da bebida ou de uma refeição quente, raramente atingiram a fama / sucesso comercial, mas o seu entusiasmo e sinceridade contribuíram de forma determinante para o regresso da tradição folk.


A visibilidade relativa que grupos como Incredible String Band, Pentangle ou Fairport Convention conseguiram nos tops funcionou como catalisador para que uma imensidão de jovens artistas amadores tentasse a sua sorte, geralmente ou quase sempre no club da zona, grande parte deles recuperados para o efeito.

Alan Green, um jovem licenciado em química, viu aqui uma oportunidade e partiu para a criação de um pequeno estúdio e de uma editora: a Folk Heritage. A partir do final dos 60s e durante cerca de uma década a Folk Heritage, a par das subsidiárias Westwood, Midas e Sweet Folk and Country, gravou e publicou alguns dos mais genuínos e brilhantes discos de folk tradicional da Grã Bretanha. As edições raramente ultrapassavam as duas centenas de exemplares, razão pela qual estes artefactos são hoje muito raros e caros.


Before The Day Is Done, The Story of Folk Heritage Records 1968-75” compila pela primeira vez 88 temas criteriosamente retirados dos catálogos mencionados. A homogeneidade é patente ainda que nem todos os títulos ostentem a mesma dimensão artística. E se Music Box, Minor Birds, Michael Raven, Folkal Point, Gallery, Saraband, Saga, Rosemary Hardman ou Jancis Harvey são nomes já familiares, existe aqui uma significativa parcela de artistas ( Penny Wager, Peregrine, Parke, Pendlefolk, Blue Water Folk, Raggerty, Rod Neep, Stuart Marson, Dave Lewry ) que mais do que merecer, justifica uma investigação urgente e aturada.

No final, e bem vistas as coisas, é para isso mesmo que servem as compilações … “Before The Day Is Done” é, no género, uma das melhores.


26/12/21

Jardins do Paraíso ( LXXII )

 


Ainda no seguimento do comentado no post anterior, assinalar uma nova reedição de um dos mais extraordinários álbuns publicados em 1971, “Hush”.

Naturais de Sydney, os Colins, Drysden e Campbell formavam um duo que em meados dos 60s actuava nos clubes folk da cidade. Em 1969, com a chegada de Shayna Karlin, Bob Lloyd e Jim Stanley, o colectivo adoptou o nome de Extradition, permanecendo no centro do  circuito folk australiano.

Dois anos volvidos a núcleo da banda sofre alterações, fruto da permanente colaboração de alguns dos seus membros com músicos da banda Tully e vice-versa. Quando em 1971 “Hush” foi publicado, quase de forma incógnita, os Extradition já não existiam enquanto projecto. Campbell e Shayna já estavam de corpo e alma nos Tully, cujo álbum “Sea of Joy” é também ele um disco icónico e de escuta obrigatória.



Nos tempos que correm, “Hush” seria provavelmente considerado um disco “acid-folk”, encontradas similitudes que remeteriam para ISB, Pentangle ou Synanthesia. Não pretendendo branquear estas ou outras eventuais influências, dir-se-á que “Hush é mais um álbum de “free-folk”, uma obra especial e diferenciada que, por isso mesmo,  não tinha muito por onde ser comparada.

Trata-se de um álbum que valoriza o silêncio, releva a tradição musical britânica, mas em simultâneo respeita os valores regionais, estabelecendo pontes entre sonoridades ocidentais e orientais, facto patente na utilização equilibrada de instrumentos oriundos de ambas as culturas musicais.

As vocalizações de Shayna Karlin são inqualificáveis de tão belas  e os temas, sobretudo os assinados por Colin Campbell, sem a mínima ponta de exagero, superlativos - a conferir por exemplo em “I Feel The Sun” ( recuperado mais tarde no álbum “Sea of Joy” dos Tully ), “Ice”, “A Water Song” ou “Minuet”.

É altamente provável que este disco nunca tenha sido objecto da atenção que merece. O facto de ter sido publicado em 1971, é, sublinha-se, apenas uma mera coincidência.

05/08/21

Artefactos ( 114 )

 

Nascido em Novembro de 1971 como "Folk & Country", o magazine pensado e dirigido por Fred Woods rapidamente perdeu o “Country” passando, a partir do quarto número, a ser designado por “Folk Review”.

Publicado até meados de 1979, deu espaço e voz a muitos dos artistas que percorriam os circuitos do folk revival, com maior ou menor grau de sucesso.

Hoje, constitui leitura obrigatória para todos os que se interessam e/ou investigam a música e a época em apreço.


( Dezembro 1972 )


( Fevereiro 1973 )


( Outubro 1973 )


( Junho 1974 )

29/05/21

Richard Thompson "Beeswing"

 

Há muito que o homem é credor da admiração do Atalho. Mas depois de ler isto:

In Fairport we loved the response to the Beatles by bands such as the Byrds, the Left Bank and the Lovin’ Spoonful. The great singer-songwriters, like Dylan, Cohen, Ochs and Mitchell, were our true inspitation, as were the Band, with their blend of roots styles that were so familiar to us from records. All around the world, people had grown cynical about American politics, but they loved american music – especially the blues and country music of the Southern poor and the tougher, electrified sounds of the urban disillusioned and disenfranchised.”

 Ou, sobretudo, depois disto: “Later that year ( 1968 ), Sandy ( Denny ) and I received invitations in the post to Paul McCartney’s  birthday party. It shows how much of a musical snob I was at the time that I decided not to go – to me, the Beatles were a ‘pop’ band and not to take seriously.”

Rapidamente o estatuto passou de admirado a venerado.

Um pouco mais a sério: “I saw Bert ( Jansch ), Davey ( Graham ) and Martin ( Carthy ) all play around this time ( 1968 ). There is nothing like seeing someone live and not quite grasping what they are doing, If you understand it, you might just try to copy it; not understanding might lead you to experimente and maybe arrive at something diferente and original. I’m glad i didn’t just slavishly copy any of them, or I might never have crawled out from under their influence.”

E, com isto, fica tudo ou praticamente tudo dito, acerca da personalidade e talento deste verdadeiro tesouro vivo da música britânica.

Beeswing, Fairport, Folk Rock and finding my voice 1967-75” escrito com a ajuda de Scott Timberg, é um livro essencial não apenas para os convertidos, mas acima de tudo para aqueles outros que conhecem menos bem um dos períodos mais fulcrais e estimulantes da música das ilhas britânicas.

Época renascentista, quase arriscaria a escrever. Acrescentando sem grande risco de falhar que, depois de “Whyte Bicycles” de Joe Boyd e do que se espera vir a ser a biografia definitiva de Nick Drake ( a ser preparada por Richard Morton-Jack ), este é um dos mais completos e coerentes testemunhos da época.

Todas as pedras são reviradas e nada fica por contar. Como nasceram, cresceram, viveram e “morreram” os Fairport Convention ( e os Fotheringay já agora ); a forma como foram escritos e gravados os grandes temas;  a personalidade e carácter dos vários talentos que foram passando pela banda; os inevitáveis choques de egos; as amizades e cumplicidades que perduraram independentemente dos caminhos futuros.


Por último a fase da conversão ao sufismo, a ligação familiar e profissional a Linda Peters ( Thompson ), os discos que enquanto Richard & Linda Thompson gravaram entre 1974 e 1979 …

Um testemunho absorvente a que a plenitude e rigor cronológico dos detalhes não são seguramente alheios.

Nota: Aconselha-se vivamente manter por perto todos os álbuns. Com cansativa regularidade, torna-se necessário interromper a leitura para ir escutar ( conferir ) muito do que é referido.

17/02/21

"Sumer Is Icumen In, The Pagan Sound of British and Irish Folk 1966-75"


 

We are reaching for something that doesn´t just sound modern but timeless

( Robin Williamson, 1967 )

Parceiro e complemento de “Dust on the nettles, a journey through the British underground folk scene 1967-72”, “Sumer is Icumen in, The pagan sound of British and Irish folk 1966-75” é uma estimulante e didáctica viagem através dos sons mais recônditos e, bastas vezes iconoclastas,  emergentes dessa música ancestral que a tradição tende a proteger enquanto a cultura vigente faz por ignorar.

E no entanto para que se recorde e celebre esta música ainda tão profundamente enraizada no tecido rural da Grã-Bretanha ( é uma evidência que apesar das “urgências” mediáticas e das efémeras futilidades, não são poucos os que persistem no caminho da sua preservação ) não é necessário descer apenas  ao underground ( escute-se o delicioso “On Horseback” de Mike Oldfield publicado em “Ommadawn”,  “Cruel Sister” dos Pentangle ou a versão dos Traffic para “John Barleycorn”) ainda que seja nesse espaço que são recuperados a maioria dos 60 temas que integram esta compilação.

Sumer is Icumen in”, é na origem, uma melodia inglesa datada do século XIII. Os artistas e as canções de maior ou menor pendor tradicional que nela se inspiraram e aqui lhe prestam homenagem – desde a mítica banda sonora de “The Wicker Man”, passando por Vulcan´s Hammer, The Celebrated Ratliffe Stout Band, Amber, Mighty Baby, Lal Waterson, Dave & Toni Arthur, Oberon, Stone Angel, Archie Fisher ou Anne Briggs -, assumem todos eles o papel de cicerone numa excitante viagem de regresso a um tempo que tem tanto de fantástico quanto de sombrio.

Como já é hábito, as notas explicativas de David Wells para cada um dos temas, enciclopédicas e repletas de humor, ajudam a justificar o investimento. Algo ainda mais valorizado pela inclusão de 15 títulos ( ou versões ) inéditos até agora.

21/04/20

Artefactos ( 99 )


Sim..., faltam aqui Sandy Denny, Jacqui McShee ou Celia Humphris por exemplo, mas é inquestionável que se trata de um friso notável.

02/02/18

"Looking at The Pictures in The Sky, The British Psychedelic Sounds of 1968"


Não sendo a única, uma das formas de conhecer o passado da música popular, consiste no "escavar" persistente das muitas e variadas compilações que vão sendo publicadas.

Desde que separado o trigo do joio, há muito por onde escolher. E aprender.

O Atalho tem dedicado às colectâneas com o selo Grapefruit a atenção que julga merecerem.

"Looking at The Pictures in The Sky" é uma forma de recordar 1968. Um ano extraordinário para o  psicadelismo britânico. 3 CDs, 78 temas e, como habitualmente, um desfilar de nomes ( quase sempre os menos óbvios ) que à época emergiam do underground. A esmagadora maioria por aí ficou, poucos "deram o salto" para o mainstream.

São os primeiros que mais interessam e, dentro destes, os 20 temas recuperados de fitas / acetatos e que conhecem aqui a sua primeira publicação, 50 anos depois.

O booklet, um regalo com 40 páginas, acrescenta a informação e as fotos adequados à prossecução da liturgia. Notável.      

17/01/18

Artefactos ( 74 )


Compilado e publicado Phileas Folk, "The French Folk Magic Time Guide" reúne cerca de 1000 capas de discos publicados em França entre 1965 e 1990.

O foco principal incide nas edições independentes e / ou regionais. A ligá-las, sempre o Folk.
O Tradicional, Rock, Prog, Acid, Psych, Pop, Protest, Avant-Garde ...etc.

Cada ficha inclui o número de catálogo, ano de lançamento e preço de mercado estimado ( valores de 2003, data de publicação do livro )



10/09/17

"Milk of the Tree, an Anthology of Female Folk and Singer-Songwriters 1966-73"



Tradicionalmente, a indústria da música tem sido um espaço de prevalência masculina. Nos intervenientes e, sobretudo, nos decisores. Hoje o estado de coisas aparenta maior equilíbrio, mas na infância do pop e do rock a desproporção era avassaladora.

Porém, sobretudo a partir do final dos 60s, fruto da renascença folk no Reino Unido e do dealbar dos singer songwriters nos EUA e Canadá, o talento feminino iniciou a caminhada para o merecido reconhecimento.

Milk of the Tree, an Anthology of Female Folk and Singer-Songwriters 1966-73” procura ser o reflexo dessa realidade histórica. Numa edição de três cds que compilam exemplos do que de melhor se escutou naquelas áreas no período em apreço.

Contextualizadas pelas habitualmente enciclopédicas notas de David Wells, são-nos propostas 60 canções assinadas e / ou vocalizadas por nomes tão diversos como Margo Guryan, Bashti Bunyan, Mary-Anne, Nico, Judee Sill, Joan Armatrading, Anne Briggs, Marianne Faithfull, Mimi Fariña, Jaki Whitren, Laura Nyro, Bridget St. John, Carolanne Pegg, Baez, Denny ou Melanie, entre muitas outras obscuras e agradáveis surpresas.

Um pedagógico festim de talento e inspiração.

23/08/17

Artefactos ( 68 )


É sempre um prazer enorme abrir a caixa do correio e encontrar lá dentro um pequeno envelope expedido em Swindon / UK, por um tal de Mr. McMullen. A satisfação ( quase como uma sensação de se fazer parte de um clube restrito, cujos membros possuem um irrepreensível bom gosto ) traduz-se no facto de ter acabado de aterrar mais uma edição da inimitável Terrascopaedia. 

No caso, o número 8, impresso manualmente ( donde que muito dificilmente será possível encontrar dois exemplares iguais ) numa edição limitada de 100 exemplares.

A capa foi desenhada por Timothy Renner, o editor e artesão foi, como habitualmente, Phil McMullen.

Desta vez não há críticas de discos, mas as 24 páginas são preenchidas com um pequeno editorial e entrevistas a Piano Magic, aos suecos The Greek Theatre e aos Stereocilia do guitarrista e compositor John Scott.

E, como facilmente se induz, o Atalho ficará incontactável durante um bom par de horas.

20/08/17

Artefactos ( 67 )


 
Provavelmente a editora independente mais antiga do mundo, a Topic Records teve e ainda mantém um papel importantíssimo na divulgação e preservação da música tradicional do Reino Unido e República da Irlanda.

Nasceu em 1939 por iniciativa de uma associação de trabalhadores ligada ao Partido Comunista Britânico, tendo começado a vender os seus discos porta a porta e pelo correio.

Ajudou a consolidar a renascença folk britânica nos anos 60 e teve o seu apogeu no decorrer da década seguinte.

As fotos são de um catálogo de 1978 que o Atalho guarda religiosamente desde essa data. Os discos disponíveis eram apresentados por um pequeno texto, identificados pelo número de catálogo, as canções e músicos intervenientes descriminados. Coisa impensável nos dias de hoje.


31/03/17

Jardins do Paraíso ( LII )


De regresso ao mundo maravilhoso das prensagens privadas.

Reino Unido inicio dos 70s, departamento Folk ( Psych ).

Datada de 2013,  "Cornufolkia, A Hidden History of Psychedelic-Folk from the British & Emerald Isles" é, como o nome refere uma "hidden history". E a pergunta hoje é: como foi possível que tesouros como os aqui se divulgam puderam passar à margem do conhecimento geral.

Em matéria de folk psicadélico, o período foi riquíssimo e como esta compilação semi-obscura amplamente o demonstra ainda estamos só a arranhar a superfície.

Ainda que porventura pouco adiante, deixo alguns dos muitos nomes que tornam este artefacto obrigatório para os apreciadores.

- Courtyard Music Group
- MacMurrough
- Pendragon
- Celebrated Ratliffe Stout Band
- Miles Martin Folk Group
- Savanna
- The Troubadors
- Peregrine
- Faraway Folk
- Golden Dawn
- Marie Celeste
- Finn Mac Cuill
- Madrigal
- Havenstreet
 

23/08/16

Anne Briggs "Four songs"


Há discos assim, irresistíveis.
Quatro interpretações antigas, uma das quais ( "The Verdant Braes of Skreen" ), gravada ao vivo pela BBC em 1965, conhece aqui a sua primeira aparição em disco.
A simplicidade da perfeição.

08/09/15

"Dust on the nettles, A journey through the British underground folk scene 1967-1972"


The Electric Muse, The story of folk into rock”, mais tarde revisitada em “The New Electric Muse”, será porventura a mais completa e visionária das compilações que se debruçaram sobre a renascença folk britânica.

Há muito esgotados, os dois volumes de “The History of UK Underground folk-rock 1968-78” publicados pela Kissing Spell, são também essenciais para se aquilatar da verdadeira dimensão do talento que vagueou pelas margens daquele movimento.

A recente edição de “Dust on the nettles, A journey through the british underground folk scene 1967-72” é, para além de oportuna, uma belíssima adenda às colectâneas referidas. Elaborada e anotada por David Wells, estende-se por 3 cds e inclui um booklet de 36 páginas feito de uma profusão de notas históricas e curiosidades diversas.

Sessenta e três temas repartidos por nomes moderadamente conhecidos ( Duncan Browne, Shelagh McDonald, Heron, Trader Horne, Fairport Convention, Parchment, Oberon, Dando Shaft, Beau, Mick Softley, Anne Briggs) e outras tantas preciosidades mais ou menos anónimas, como Gerald Moore ( caso tivesse sido publicado em 1972, “Pilgrim” correria o sério risco de se transformar num hit ), Magnet, Paper Bubble, Melton Constable, Tuesday, Dry Heart, Chimera ou Marie Celeste, são aqui oficialmente publicadas pela primeira vez.

Pouco menos que fundamental!