ACCiÓN - AC – 4LP (edição espanhola)
Lado A
Y Nace El Sol – Los Jinetes – El Hambre – La Ciudadede Goma – El Niño Muerto – La Guerra – La Guerra Que Vendra – Quando Mi Hijo Nacio
Lado B
La Muerte – Me Queda La Palabra – No Nos Dejan Cantar – La Peste – La Niña de Hirosima – Masa – Himno
- São muitos anos?
- São mais de quarenta!
- Parece que foi ontem.
Por meros acidentes de percurso esbarra com discos, também livros, que lhe preencheram os dias, as noites.
Discos ouvidos religiosamente entre tinto de pipa, azeitonas, uns enchidos, uns queijinhos, pão alentejano, desencantado num tasco da rua onde morava, recebido não diariamente, mas à semana e que quantos mais dias tinha, mais saboroso ficava, todo um núcleo duro de cinco ou seis, que depois de Abril foi cada um para seu lado, dando caminho à historieta que diz que fomos felizes no fascismo, porra!, de modo algum, a resposta é não, com um acrescento fomos felizes contra o fascismo, assim mesmo, nem mais…
Tal como o Mário Henrique Leiria, no Expresso Bar, entre dois, quatro gins, explicava a quem o queria ouvir eh pá!, nós antes tínhamos um inimigo pela frente. E sabíamos e estávamos todos realmente unidos, eu queria lá saber que cor de camisa é que tu vestias, ou que cor de cuecas é que aquele usava, éramos todos antifascistas, e pumba. Agora pá, o Álvaro Guerra deixou de me falar, porque eu não pertenço ao clube dele…
Este Apocalypsis dos Agua Viva é um belo disco, tremebundo disco, de arrepiar, lágrima ao canto do olho – why not?
Apocalipsis é uma ideia de Jose Antonio Muños, com os diversos capítulos pontuados com poemas de Alfredo Mañas, Gabriel Celaya, um africano anónimo, Bertold Brecht, Nazim Hikmet, Blas de Otero, Cesar Vallego, para músicas de Manolo Diaz e interpretação dos Agua Viva.
Sabe que é um chato, mas não resiste a deixar por aqui um dos poemas, que faz parte do disco, um poema da autoria de Nazim Hikmet, e deixa-o como um simples e breve memoriar por todos aqueles que, nas mais distintas partes do mundo, lutam contra os déspotas que não os deixam cantar, mas eles continuam a cantar porque sabem, é dos livros, que apesar de todas as proibições, todas perseguições, há-de aparecer o rosto imaculado da Esperança, do Futuro, uma qualquer madrugada, o dia inicial e limpo.
Tal como em , Ouvindo Beethoven, claramente, narrou José Saramago:
Mas quando nos julgarem bem seguros
Cercados de bastões e fortalezas
Hão-de ruir em estrondo os altos muros
E chegará o dia das surpresas
Eles não nos deixam cantar, Robeson,
Meu canário de asas de águia,
Meu irmão negro de dentes de pérola.
Não nos deixam gritar as nossas canções.
Eles têm medo, Robeson,
Medo da aurora, medo de ver,
Medo de ouvir, medo de tocar.
Eles têm medo de amar,
Medo de amar como Ferhat amou, apaixonadamente.
(Decerto também vocês, irmãos negros,
têm um Ferhat, como lhe chamas, Robeson?)
Eles têm medo da semente e da terra,
Medo da água que corre,
Medo de se lembrarem.
A mão de um amigo
Que não queira desconto, nem comissão, nem moratória,
Nunca virá apertar-lhes a mão
Como um pássaro quente.
Eles têm medo da esperança, Robeson, medo da esperança!
Eles têm medo, meu canário de asas de águia,
Têm medo das nossas canções, Robeson...
(tradução encontrada no Avante de 24 de Janeiro de 2002)
Colaboração de Gin Tonic