Ginjal e Lisboa

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09 março, 2016

A oriente do teu sangue



Como dizer, anjo selvagem, que te quero longe de mim, que o incêndio que lavra no teu peito me enche de medo? 

Como dizer, anjo de negras asas, que a tua língua de homem perdido traça labirintos loucos na minha noite?

Como dizer, anjo terrível, que o sangue perverso que corre nas tuas veias me adoece, me envenena?
E como dizer que a noite macia que me envolve não basta para me proteger do teu canto tão acre, tão, tão perigoso?
E como dizer, anjo louco, que a tua insolência solta disparos de fogo que ateiam a minha intranquilidade?
Ah, como dizer, anjo sem nome, que mergulho no rio, me deixo levar pela aragem doce e azul, me afasto da costa segura, tudo, tudo, apenas para me proteger de ti, madrugador intranquilo que te confundes com as palavras loucas que atiras pelos ares?


como dizer aos meus olhos que se afastem
do incêndio que lavra a oriente do teu sangue
rasgando a minha fonte

e me protejam nesta imperfeita madrugada
em que as línguas dos homens e dos anjos
se confundem

[Poema 2 de 'Pelas mãos e pelos olhos eu juro' de Alice Vieira in 'Dois corpos tombando na água]

02 outubro, 2015

Um dia prometeste deixar no estuário da nossa cama






Não pensámos, não, que fosse eterno. Por vezes fingíamos acreditar mas ríamo-nos logo a seguir para que ficasse claro que sabíamos que um dia terminaria. O sabermos que era efémero dava mais valor ao que tínhamos. E, enquanto o tínhamos, sentíamos que era eterno mas não o dizíamos, não queríamos que o nosso amor se tornasse risível. 
Tecias sedas com os meus cabelos entre as tuas mãos e dizias vou tecer um manto invisível para nos cobrirmos quando dormirmos na beira do rio e eu deixava que o calor das tuas mãos, desfiando-me lentamente, me transportasse leito fora como se já pelo rio o meu corpo navegasse, junto ao teu, junto ao teu. 
Tanto que eu gostava, na cama, de sentir a pele do teu corpo junto à pele do meu corpo disponível, teu, teu. 
As tuas mãos percorriam os contornos do meu corpo, tão macio, dizias tu, e eu gostava de te ouvir, segredando-me convites indecentes ao ouvido e isso era um segredo teu, só teu, só teu. 
As minhas pernas enleavam-se ainda mais nas tuas, e eu deixava que o teu corpo respirasse sobre o meu, navio suave deslizando por um rio vibrante, água e fogo, flores e vento, pássaros e sonhos, amor meu, amor meu.
Lembras-te? 

Lembras-te dos nomes que usavas para dizer o meu nome? Dos nomes que usavas para dizer o teu amor? Dos nomes que usavas para dizer o teu desejo, o meu desejo? Lembras-te?

Lembras-te de como me abraçavas, a tua boca escondida pelo meu cabelo, e tu, indecoroso amor meu, dizendo maldades, inquietando-me? E do rio, lá em baixo, que não sabia refrescar o calor do meu corpo, lembras-te?

E depois um dia foste-te. Não te despediste. 

Nunca mais te vi. Nada sei de ti. Nem sei se ainda sei o teu nome. Nem sei se ainda sei o meu nome. Nem sei se ainda existo. Sem ti, nem sei se alguma vez existi.

Fecho os olhos e tento recordar-me do nome que dizias quando dizias o meu nome. Mas o que ouço é apenas uma voz branca, sem palavras. Uma voz vazia, uma voz vazia desfiando memórias sem olhos, perdidas na cama que era nossa e que hoje está vazia.

Meu amor que te amo tanto, não voltes para mim, deixa-te estar no recanto mais profundo do meu sangue, lá onde não poderás voltar para ti. Amor meu, amor meu.




que foi que    de repente     eu disse
para que começasses a dar outros nomes ao que
pensávamos ser eterno    e habitar no
mais profundo recanto do nosso sangue

ouve-me   ouve-me   e dá depois o
nome que quiseres às mãos que um dia
prometeste deixar no estuário
da nossa cama

onde hoje apenas
se desenha o côncavo lugar do que
ardilosamente roubaste na partida


[de Alice Vieira in Os armários da noite]

...

Yiruma interpreta Dream

As fotografias foram feitas no Ginjal

..

10 outubro, 2013

e todas as improváveis certezas dissolvem-se nos lençóis em desordem


Quando estou deitada, o meu cabelo espalha-se na almofada, tapa-me o rosto. É um mar onde gostas de mergulhar. E eu gosto de te sentir a cheirar-me, a navegar sobre o meu corpo, gosto de sentir as tuas mãos a deslizar sobre a minha pele.

A janela do quarto está sempre aberta. Gosto de sentir o ar fresco, a humidade da maresia, gosto que a frialdade da noite chegue até mim. Queria que as noites fossem todas assim: eu nua, o cabelo como ondas espalhando-se na areia, tu junto a mim, aquecendo o meu corpo disponível. Carícias, beijos, palavras inocentes, uma respiração a dois - não seria preciso muito mais.

Mas a noite traz-me as sirenes dos navios, traz-me a lembrança das partidas. Sei que vais partir. Um dia vais partir.

Um dia vou ficar nesta cama como uma árvore arrancada num areal. Um dia a noite vai trazer-me os sons da solidão. Talvez, então, vá até à janela e olhe o farol junto ao rio e pense que algures, lá longe, muito longe, estejas tu. 

Estarei à tua espera porque sei que sempre voltas, sei que não há outros braços que te abracem como os meus. É que os meus são braços feitos de palavras de amor, de liberdade, braços que jamais te quererão prender. És tu, marinheiro de muitos mares, que me costumas dizer que nunca navegas por mares tão atraentes como o meu corpo, como a espuma do meu cabelo rebentando nos lençóis. 

São tão atraentes os abismos, costumas tu sussurrar-me ao ouvido antes de te fazeres ao mar.



[Abaixo do casal que conversa junto ao farol que ilumina o rio, um poema de uma Senhora Dona Poetisa de quem muito gosto: Alice Vieira. E, a seguir, temos mais um belíssimo momento: Rossini interpretado por Kate Aldrich e Marianna Pizzolato]



Farol de Cacilhas à noite



                              Depois do ruído do elevador e
                              das sirenes do nevoeiro
                              começa-se     lentamente      a recear
                              a noite

                              porque não vai haver tempo de dizer
                              penso no teu cabelo como no mar

                              e todas as improváveis certezas dissolvem-se
                              nos lençóis em desordem
                              no caos da partida



                             ['Dos velhos dias', 6, de Alice Vieira in 'O que dói às aves']



18 fevereiro, 2013

nesta imperfeita madrugada em que as línguas dos homens e dos anjos se confundem


Sobe a noite sobre o meu corpo frio. Nada aquece o meu corpo. Deito-me sobre esta cama vazia, gelada e o meu corpo é uma sombra. No meu corpo não há carne, não há um rio de sangue que se move, quase não há respiração que se sinta. Uma sombra.

Não sei se a janela ficou aberta ou se está fechada desde que te foste embora. Não sei, não me interessa. Não sei se entra o sol ou o luar ou se apenas entram as nuvens carregadas de lágrimas. Não sei.

A casa está fria, silenciosa, aquele silêncio cheio de tristeza que habita as casas onde apenas a sombra de uma mulher se desloca. Não há música, nem cheiro a pão nem se ouve o cantar dos pássaros. Nem os gatos já aqui vêm porque sabem que aqui nada encontram. Esta é a casa onde a solidão se instalou sem remissão.

Mas, então, aqui deitada, exangue, inerte, nesta cama larga e fria, eis que ouço um som que não reconheço. Parecem passos no telhado. A sombra que sou agita-se, não sei se é o meu sangue, se é a minha fome, se são vestígios daquela que em tempos fui. Levanto-me, quase sem força, trémula, assustada, pequeno pássaro indefeso, tanto medo, tanta velada vontade.

Uma luz vem do telhado. Talvez sejas tu, talvez sejas tu que me vens incendiar os sentidos que eu julgava para sempre adormecidos. Uma luz na mão de quem dá passos no telhado da minha casa, uma luz na mão do anjo que pousou no meu telhado. Ou uma estrela, talvez apenas uma estrela, tento sossegar-me.

A madrugada avança, fresca, perfeita, e eu hesito, enredada nas minhas frágeis contradições. Depois encho-me de coragem, vou até à janela, abro-a, deixo que a neblina entre, deixo que as estrelas entrem, deixo que os primeiros raios de luz entrem, olho os anjos que me olham, e depois vejo que não é um anjo, que és tu, tu que trazes um incêndio no teu peito, e, ainda trémula, ainda a medo, deixo que entres, deixo que afastes de mim todas as sombras, deixo que me cubras com o calor do teu corpo, deixo que entres no meu corpo como um anjo carregado de estrelas.



[A seguir ao belo poema de Alice Vieira, temos hoje um novo grande intérprete. Desta vez é Yo-Yo Ma que faz o violoncelo soltar lamentos como se fosse a mulher que abre a janela para que entre um anjo com um incêndio no peito, na música de Elger]



Andando com uma chama na mão sobre os telhados do Ginjal


                                        como dizer aos meus olhos que se afastem
                                        do incêndio que lavra a oriente do teu sangue
                                        rasgando a minha fome

                                        e me protejam nesta imperfeita madrugada
                                        em que as línguas dos homens e dos anjos
                                        se confundem


[Poema 2 de 'Pelas mãos e pelos olhos eu juro' de Alice Vieira in 'Dois corpos tombando na água']

21 janeiro, 2013

Eu gostava de poder dizer que entrei no teu corpo como um pássaro


Tempos houve em que sorrias só de pensares que eu ia passar junto à tua janela. E sorrias quando te olhava, e o teu sorriso guardava segredos, malícias, cumplicidades que só eu percebia. E, quando eu te falava, tu sorrias, o coração afagado, mil palavras prestes a depositarem-se no meu colo. Eu amava-te tanto, de forma tão carinhosa, que tudo o que eu dissesse ou fizesse te enternecia. Sentias-te, então, muito amado. Um homem muito feliz, realizado no seu amor correspondido.

Adormecias a pensar em mim, dizias-me, e eu sabia que era verdade porque eu também adormecia a pensar em ti, adormecia a sorrir, enlevada, mulher muito amada.

Acordavas ansiando por estar comigo, vestias-te a pensar em mim, a minha melhor roupinha, dizias a brincar, e perfumavas-te sabendo que eu gostava de ficar com aquele perfume nas minhas mãos, no meu corpo. Sei que era verdade porque comigo acontecia o mesmo. 

Eu não queria saber quais as ruínas que tinha que atravessar para chegar até ti porque tu eras o mundo inteiro, um mundo novo. Nem tu querias saber dos caminhos, dos labirintos que te rodeavam porque o único que te interessava era simples e curto, era o que te levava até mim.

Atravessavas o rio, regressavas salgado e feliz e eu sei que era por mim que rasgavas as águas e içavas as velas.

E eu recebia-te feliz, ouvia os teus feitos de homem do mar, e, outras vezes, ouvia os teus feitos de homem da terra.

Eu vivia, então, dentro de ti e tu vivias dentro de mim.

Mas nunca fizemos promessas e sempre soubemos que todos os dias tinham no fundo de si a semente da separação. Sabíamos que nunca os deuses acordariam ao nosso lado, sabíamos que frágeis e efémeras eram as nossas horas de felicidade.

O nosso coração é agora lugar de exílio e a tua voz já não me visita nem o meu sorriso te afaga o cabelo.

Mas não faz mal: são doces, tão doces, as palavras que ambos usamos para recordar esses dias cheios de luz, cheios de amor. São, não são?


[Abaixo do pássaro que voa, mais um belo poema de Alice Vieira. Logo a seguir, um novo momento feliz: Os Azeitonas com Rui Veloso. O prometido é devido - para quem faz ou acredita em promessas.]


No Jardim do Ginjal, mesmo rente ao Tejo,
o meu amigo pássaro preto de bico amarelo levanta voo, vai à sua vida
- Assim é a vida dos pássaros -



                                               eu gostava de poder dizer
                                               que entrei no teu corpo como um pássaro
                                               espreitando de invisíveis ruínas
                                               e que o som da tua voz bastava
                                               para me salvar

                                               mas de nada serve inventar palavras
                                               quando as palavras que inventamos
                                               não passam de frágeis lugares de exílio
                                               dos gestos inventados fora de horas
                                               delimitando o espaço de tantas mortes prematuras
                                               de que jurámos ressuscitar um dia

                                               — quando os deuses se lembrassem
                                               de acordar ao nosso lado



[Poema, 'Amor e outros crimes em vias de perdão, 2' de Alice Vieira in 'Dois Corpos tombando na água']



03 outubro, 2012

e eu a pensar ainda uma palavra tua e eu serei salva


Ainda sentia o cheiro da tua pele em mim, quando reparei na porta aberta. Tinhas ido. Chamei-te, queria, ao menos, despedir-me, pedir-te um beijo, um adeus, a promessa de uma carta. Mas já não me ouviste. 

Saí, então, fui pela rua, segui o teu rasto, fui pelo teu cheiro, pela lembrança das tuas palavras. Mas não te encontrei.

Segui os caminhos que eram nossos, fui pela beira do rio, e já era fim de dia, e eu sem saber de ti. Segui o silêncio das casas vazias, segui a corrente do rio, procurei que passasse um barco ou, até, uma gaivota. Mas não passava nem um barco, nem uma gaivota e tudo era silêncio. Nem um sinal de ti.

Caminhei então em direcção às águas, entrei pelo rio adentro, e pedi baixinho, diz uma palavra, uma que seja, não te vás sem uma palavra, não deixes que eu pense que já nada fazia sentido. 

Meu Deus, será que é isso, já nada fazia sentido?



[Abaixo do belo poema de Alice Vieira, temos ainda Corelli e, uma vez mais, vos sugiro que desarrumem a ordem dos factores: talvez o texto e o poema soem melhor ao som de Corelli.]


Fim de tarde no Ginjal, bem rente ao Tejo



                         a porta entreaberta a prolongar
                         os teus passos       os castanheiros      a cidade em chamas
 
                         a minha voz a prometer-te uma carta
                         (prometo sempre cartas a quem se perde
                         entre o meu corpo e os patamares das escadas
                         de países desconhecidos)

                          mas tu já não ouviste ou então
                          tudo tinha deixado de fazer sentido

                          e eu a pensar ainda
                          uma palavra tua e eu serei salva



[Poema 5 de 'Cinco breves momentos de Maio' de Alice Vieira in 'Dois corpos tombando na água']

13 março, 2012

Aquele que o meu coração ama


Não sei escrever palavras de abandono. Aquele que o meu coração ama e todos os outros que anteriormente amei sempre me procuraram nas cidades, fora delas, nas ruas abandonadas ou no meio de multidões e sempre ao meu corpo ficaram presos. 

(De bons sentimentos não se escrevem grandes textos e é por isso que este é um texto tão curto.)

Mesmo quando me isolo no meio do rio, sozinha eu e o rio que aqui é mar, sozinha no meio deste silêncio líquido de tão azul, mesmo quando ele me vê de longe, me chama já cansado, e eu finjo que não o vejo, mesmo quando o ignoro e, mulher livre, ave louca, levanto voo e o abandono, mesmo assim ele espera que eu me canse, e, na volta, acolhe-me de braços abertos, um abraço morno e amante.

E, então, quando isso acontece, agradecida, eu peço-lhe que me dispa, que me tome, que percorra o meu corpo com os seus longos dedos, e que me retenha até que a manhã chegue não vá eu perder-me na ameaça da noite.



[É já aqui sabido que gosto bastante da poesia de Alice Vieira. Peço-vos portanto que, com muito carinho e disponibilidade, se deixem ficar um pouco na sua companhia. Logo abaixo La mer de Debussy.]

Avistada do ginjal, gaivota em pleno momento de levantar voo a partir de uma rocha no Trjo


                          Aquele que o meu coração ama
                          não encontra em lado algum
                          o incenso que de meus olhos rompe
                          para ensinar a prender o corpo das mulheres
                          abandonadas fora de horas
                          às portas da cidade

                          mas sabe que          para todas as distâncias
                          há uma ave enlouquecendo quem parte
                          antes do tempo
                          e a túnica que dispo entre os seus dedos
                          é a espada que os reis ungiram
                          para enfrentar a ameaça das manhãs
                          em que tudo acorda


                         ['Aquele que o meu coração ama, 2' de Alice Vieira in 'O que dói às aves']

&

Desesperando…

É a revolta que enlouquece 
Quem sabe que vai partir antes do seu tempo
Tendo lutado até ao sangramento 
Das vísceras,
Da boca, 
Da noite, 
Dos sentidos fechados, perdidos, 
Dos olhares longe parados,
Esperando…

Olhares,
Esperando,
De desesperança 
De quem nada pode fazer…


[Belo e sentido poema da autoria de J. Rodrigues Dias]

16 novembro, 2011

Às vezes nem sequer podemos garantir que houve um sinal

 
Quando foi? Quando foi que resolvemos que nem a memória merecia já qualquer alimento? Houve uma palavra que marcou o momento em que nos dissemos adeus? Houve um pestanejar, um trejeito, uma desatenção? Nem sei se isso interessa. Afastámo-nos, fomo-nos afastando, afastámos o olhar, afastámos as vozes, apagámos todos os vestígios - e isso é a verdade que importa.

Ainda te lembras de mim ou até o pensamento se afastou já também? Quando caminhas, quando percorres as estradas ou os campos, ainda me vês, ainda me ouves? Às vezes ainda te sorris ao lembrares-te de mim? Diz que eu consigo suportar. Sei o que isso é. Não és só tu. Perdemos os sonhos e era tão bom sonhar, não era? Fechavas os olhos e pensavas em mim, não era? Nunca dançámos, nunca vamos dançar, mr and mrs jones ou outra qualquer, nunca nos vamos enlear ao som da música, a música abandonou-nos também.

Por onde andas, amor que um dia amei?


Junto ao Farol de Cacilhas, rente ao Tejo, Lisboa já ali


                                 Às vezes nem sequer podemos garantir
                                 que houve um sinal

                                 e por isso é difícil saber se     efectivamente
                                 chegou a hora destinada a afastar os olhos
                                 dos vestígios de ti

                                 às vezes há apenas um leve fio de espuma a
                                 contornar     eficazmente     os sonhos que
                                 perdermos por nossa culpa     dando
                                 estranhos nomes ao que sempre soubemos
                                 ser inominável


                                 e os nossos dedos deixam marcas no copo    enquanto
                                 a música desiste de nós
                                 ao primeiro acorde dissonante


(Poema '8' de Alice Vieira in 'O que dói às aves')

01 novembro, 2011

E de repente o teu nome deixou de desaguar no rio que te fazia nascer dentro de mim

 
Os dias vão passando, os meses, os anos, e o teu sorriso já não habita o meu olhar. Adormecia contigo no meu coração, acordava preparando-me para as tuas alavras. Até que um dia, sem palavras que nos ferissem, afastámo-nos. Cada um na sua casa, cada um na sa vida e tudo com a naturalidade de quem sempre soube que assim seria.

As noites nunca foram para nós, os despertares também não. O nosso breve encontro seria, sempre o soubémos, fugaz, um amor num beco sem saída. Sem culpa nos amámos, sem culpa nos separámos. Assim quiseram os deuses e nós, obedientes, aceitámos que os deuses decidissem por nós.



[Amores, desamores. Partilhemos o momento com Leonora e Ferdinando em La Favorita que se (des)entendem ali mais abaixo, logo a seguir à Alice Vieira]


Hoje de manhã no Jardim do Ginjal, rente ao Tejo


Feliz é aquele que
tece o seu dia até ao fim
sem lágrimas

Álcman

                       E de repente o teu nome deixou de desaguar
                       no rio que te fazia nascer dentro de mim

                       e de repente ficámos muito longe      e as palavras
                       feriam mais do que as tempestades
                       e tu disseste que no meu corpo se escondiam
                       todas as ameaças e naufrágios      e que
                       nenhum deus conseguia aplacar-te a culpa

                      então entendi que não valia a pena
                      refazer a teia com que iludia a tua vinda
                      porque tinha chegado o momento de voltares para casa
                      entre o ladrar dos cães      e os galos que
                      anunciavam a manhã

                      e o rasto das cidades
                      onde tínhamos sido     deslumbradamente        perfeitos
                      transformou-se num beco sem saída       onde
                      a ira de todos os deuses me denunciava


                     (Poema de Alice Vieira in 'O que dói às aves')

 

08 setembro, 2011

Aquele que o meu coração ama estendeu-me o corpo e nele, assim, morri

Continuemos a sonhar.

Um dia, no passado antigo ou num futuro imaterialmente futuro, aconteceu uma coisa.

Dizem os homens sábios que nesse dia não voaram pombas nem caíram lírios, dizem que era um dia normal.

Apenas sabem que às portas de Damasco um homem e uma mulher desobedeceram e, de mãos dadas, atravessaram a cidade e, entre muros, tombaram, corpos finalmente unidos.

Dizem as mulheres que vigiam as ruas, que vigiam o amor e os sonhos alheios, que nesse dia, que era um dia normal, sem estranhos desígnios, o homem sorria para a mulher e a mulher sorria para o homem, como se não houvesse mais ninguém na cidade e juntos, de mãos dadas, abriram uma espessa porta e perderam-se, amantes, entre as sombras do jardim.

Não sabem o que o homem e a mulher viram quando os corpos se uniram e morreram de amor nos braços um do outro, não sabem que nessa altura, sobre eles, apenas sobre eles, caíram lírios e voaram pombas, terna imagem.

Assim eu vi e assim viu aquele que o meu coração ama.

Mas isto somos nós a sonhar.

Elegante e serena em Belém, num belíssimo fim de tarde

Aquele que o meu coração ama
estendeu-me o corpo
e nele

assim

morri

Sem nada a assinalar de especial
segundo afirmaram todos os
homens sábios da cidade

sem pombas    nem lírios
sem crianças de olhos vazios
sem estranhos desígnios prometidos
nas vísceras dos animais sacrificados

dizem apenas que
o eco das mulheres de Sião
nos reclamava de muito longe
como se lhes tivéssemos desobedecido

aquele que o meu coração ama
estendeu-me o corpo
e nele

assim

morri



("Aquele que o meu coração ama estendeu-me o corpo" de Alice Vieira in 'O que dói às aves')

02 agosto, 2011

Entrego-te as palavras mais brandas que entre os meus dedos construí

De pequenas coisas fiz uma casa:

a fruta, as fotografias, os quadros, os livros, a luz,

as palavras, que, a dois, fomos dispondo nos recantos, na mesa, na cama, na nossa vida,

as pequenas histórias que foram acontecendo e que, entretecidas, formam a nossa história, a nossa comum memória.

Meu amor.

Há pouco, à tardinha, sobre o Tejo, vendo Lisboa

Entrego-te as palavras mais brandas
que entre os meus dedos construí
para alimentar de ti os recantos da casa
invadindo o coração da noite

entrego-te as palavras com a redonda luz
das maçãs sobre a mesa      e o rumor da água
rasgando o caminho da paixão
em horas que já não conseguimos      sem ajuda
recordar
mas que habitam a mais frágil memória de nós próprios

palavras jorrando dos meus olhos
invadindo-te o sono     e tropeçando
nas esquinas das frases que decoro
ao longo dos veios da tua pele

e a verdade é que nunca terei outra história
para além da que nos aconteceu
e que ficamos à espera de um dia perceber melhor
porque nunca ninguém se prepara convenientemente
para a chegada do amor
e ele é sempre um convidado estranho
sentado em silêncio na penumbra da sala
olhando os quadros     o chão      o tecto

como um velho parente da província
com medo de dizer o que não deve


(Poema (10) de Alice Vieira in 'Dois corpos tombando na água')

31 maio, 2011

Um dia em que não há mais passado para contar nem mais futuro para viver

Qual de nós partiu? Qual ficou?

Sabíamos que não haveria futuro e sabíamos que um dia o passado seria esquecido.

Esse dia chegou há muito - e é tão injusto que isso tenha acontecido.

Mas para sempre ficará a casa, o limbo em que apenas nós dois existíamos, em que os nossos corpos gostariam que não anoitecesse.

Há pouco, ao entardecer, no Ginjal

E chega um dia em que reconhecemos
finalmente
a injustiça das palavras -
exactamente as mesmas
para quem vai e para quem fica

um dia
em que não há mais passado para contar
nem mais futuro para viver

apenas uma velha cantiga a embalar
uma casa desaparecida
e este limbo ocasional
onde o corpo
espera que anoiteça


(Poema de Alice Vieira in 'O que dói às aves')

30 março, 2011

Esperei tanto o corpo daquele que o meu coração ama

Basta a voz daquele que o meu coração ama para que eu sinta correr em mim um sangue novo, para que se acenda um clarão que ilumina a minha pele, a minha alma.

Aqui de noite, madrugada adentro, o meu pensamento percorre os mares à sua procura mas todos os rumores de água me devolvem a sua voz pura, amada.

E então eu sei que não está longe aquele que o meu coração ama.

Está tão perto. Tão perto como mais ninguém está.

Aquele que o meu coração ama vive dentro de mim.

Aquele que o meu coração ama fez do meu coração a sua casa.

Numa parede no Ginjal alguém inscreveu o amor e ali ficará para sempre

Esperei tanto o corpo daquele
que o meu coração ama
que ele acabou naturalmente por
se misturar ao meu cheiro com
o cheiro das romãs e das uvas
ao primeiro arrepio do outono
e ser aquele fugaz clarão que
me traz novo sangue e nova pele para
correr o mundo à sua procura
nas madrugadas em que os inimigos
varrem as casas e incendeiam as cidades

e só por isso sei que uma noite
hei-de tombar às portas de damasco
e ouvir em todos os rumores de ocultas águas
a voz que me há-de devolver     purificada
ao corpo daquele que o meu coração ama


(Belíssimo poema de Alice Vieira in O que dói às aves)

04 janeiro, 2011

Às vezes ainda pronuncio o teu nome nas noites de chuva

Dantes esperava que o telefone tocasse. Dantes esperava ouvir a tua voz. Para mim e só para mim dizia o teu nome ágil nas vogais.

Agora não espero mais.

Mas às vezes, nas noites de chuva, baixinho, pronuncio o teu nome.

(À chuva, à espera, num banco em Cacilhas, às portas do Ginjal, junto ao Tejo - Lisboa, distante, lá longe)

Às vezes ainda pronuncio o teu nome nas noites de
                                                                 [chuva
entre as janelas que se fecham e os cobertores que
rapidamente se tiram dos armários

o teu nome ágil
                                rápido
                                                                              nas suas límpidas vogais.

porque era então que te ouvia
quando o som do telefone rebentava
dos azulejos ainda mornos das paredes do quarto

- por isso há amigos que ainda não entendem
por que razão as minhas noites nunca têm
limite estabelecido    nem
um tempo certo de acabar

(de Alice Vieira in O que dói às aves)

10 novembro, 2010

Nunca amaremos suficientemente quem nos esperou tanto

É meia noite e o meu amor tarda, eu não sei onde ele está. O combinado é não esperar, o nosso amor é clandestino.

Nunca amaremos suficientemente quem nos espera tanto. As palavras com que entretemos a espera são duras e tristes. Mas não precisamos de prometer nada: basta-nos saber que há-de haver sempre um dia em que chegaremos de novo a casa.

(Horas frágeis, equilíbrios frágeis - e contudo tão fortes - no Ginjal, local impregnado de uma frágil beleza)


Nunca amaremos suficientemente quem
nos esperou tanto
- assim os velhos deuses nos ensinaram a dizer
pousando as mãos sobre as nossas cabeças

mas    por favor    não prendas
as suas palavras às horas agora tão frágeis
em que apenas procuras uma definida razão
para a partida

ouve:
sabemos muito melhor que os deuses
que daqui a minutos     segundos
nada vai sobrar daquilo a que      tão fugazmente
chamaste amor

e as palavras com que entretemos a espera
são duras e tristes
como tudo o que fomos largando à beira do passeio
debaixo das janelas de persianas corridas

mas finalmente
não precisamos de ser perfeitos
nem de prometer nada
basta-nos saber que há-de haver sempre um dia
em que chegaremos de novo a esta casa

em que diremos de novo as velhas palavras
como se naquele momento as inventássemos
sabendo que a nossa vida
há-de ser sempre um desenho de criança
onde está tudo o que deus ordena
mas ninguém entende


(belíssimo, belíssimo poema de Alice Vieira in O que dói às aves)

PS: O texto na parte de cima do post está, estupidamente, com umas barras brancas que não consigo perceber nem, claro, anular. As minhas desculpas pelo aspecto, que é involuntário.

12 outubro, 2010

O esquecimento, acredita, é a mais lenta das feridas mortais

A par da magia do Ginjal há, por vezes, alguma inquietude. Especialmente quando o dia cai, na penumbra, figuras solitárias pairam junto ao rio e das paredes saem criaturas misteriosas.

Uma inquietude mágica junto às águas escuras do Tejo.


(Figura inquietante pintada numa parede do Ginjal em Cacilhas)


Sempre amei por palavras muito mais
do que devia

são um perigo
as palavras

quando as soltamos já não há
regresso possível
ninguém pode não dizer o que já disse
apenas esquecer     e o esquecimento       acredita
é a mais lenta das feridas mortais
espalha-se         insidiosamente       pelo nosso corpo
e vai cortando a pele como se um barco
nos atravessasse de madrugada

e de repente acordamos um dia
desprevenidos      e completamente
indefesos

um perigo
as palavras


(Belíssimo poema de Alice Vieira in O que dói às aves)
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