Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa
Mostrar mensagens com a etiqueta Cine Povero. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cine Povero. Mostrar todas as mensagens

01 maio, 2014

Com as horas maiúsculas do cio, com os músculos inchados da preguiça, vem, serenidade!


Em dias de muito ruído, em que o cansaço sobe sobre a pele como uma moléstia húmida, amortecendo os músculos, quero silêncio, sossego. E palavras lidas como se de uma oração ou de uma toada religiosa muito pura se tratasse. Talvez poesia, talvez a poesia dita como se uma voz viesse de dentro das pedras, do fundo macio dos lagos, da luz que se reflecte no rio. E mais nada, só isso.




Vem, serenidade!
Faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros
e com que os ombros subam à altura dos lábios,
faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos.
Carrega para a cama dos desempregados
todas as coisas verdes, todas as coisas vis
fechadas no cofre das águas:
os corais, as anémonas, os monstros sublunares,
as algas, porque um fio de prata lhes enfeita os cabelos.




Vem com as meretrizes que chamam da janela,
o volume dos corpos saciados na cama,
as mil aparições do amor nas esquinas,
as dívidas que os pais nos pagam em segredo,
as costas que os marinheiros levantam
quando arrastam o mar pelas ruas.

Vem, serenidade,
e acaba com o vício
de plantar roseiras no duro chão dos dias,
vicio de beber água
com o copo do vinho milagroso do sangue.



Vídeo de CINE POVERO


"Serenidade és minha" in «Mesa de solidão» (1955) de Raul de Carvalho (1920-1984), aqui lida por Mário Viegas (1948-1996), Humores, Vol. II, lado B (1980)

MÚSICAS: Jan Garbarek, "Soria Maria" (1980). Pat Metheny, "Waiting for an answer" (1983). Sufjan Stevens, "Oh God, where are you now?" (2003)

///\\\

14 abril, 2014

Quem fabrica um poema curto morrerá muito mais tarde só depois de estar maduro



Pintura mural numa parede do Ginjal


Quem fabrica um peixe fabrica duas ondas
uma que rebenta floralmente branca à direita
outra à esquerda só com ar lá dentro

e o ouro íngreme puxando o começo da noite
e o fim do enorme dia onde todos morreremos
como filhos escorraçados 
ou disso a que chamam demónio da analogia 

quem fabrica um poema curto morrerá muito mais tarde
só depois de estar maduro

quem baixa a mão para quebrar um selo
há-de baixá-la para quebrar os outros e há-de fechar os olhos

e de tanto ter visto não poderá nunca mais abri-los

e como pão e bebo água de olhos fechados
como se fosse para sempre

e assim adeus a quem vê
que eu morro inteiro para dentro

e vejo tudo só de entendê-lo



Vídeo de Cine Povero - "Quem fabrica um peixe, fabrica duas ondas" de Herberto Helder in «Servidões» dito por Fernando Alves 


com música Arvo Pärt, "Silentium", Parte 2 de «Tabula Rasa»


Fotografado em Petra (Jordânia), em 2010.



12 abril, 2014

'O Desempregado com Filhos' andou pelo Ginjal mas as gaivotas, os gatos e a maresia não lhe valeram. Coitado deste e de todos os desempregados. [Apesar de tudo, festejemos: chegou um novo vídeo de CINE POVERO]


Apetece dizer: parem tudo! Chegou um vídeo novo do Cine Povero e chega em boa hora. Todos os alertas e chamamentos são poucos quando Abril é chegado.


Gonçalo M. Tavares escreveu e Cristina Branco disse.
Ele estava desempregado há muito tempo.
Tinha filhos e do trabalho restavam cadilhos. E da fome sobravam rastilhos.
Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão.
Ele estava desempregado há mais tempo do que sabia, e mesmo se não queria, tinha filhos, aceitou.
Logo ali no cepo a deixou.
A mão, a mão, a mão.
Outra vez despedido de novo procurou emprego.
Só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão, aquela que te resta, a segunda
mão.
Ele estava desempregado, tinha filhos, aceitou.
Porque o tempo lhe fugia entre os últimos dedos lhe fugia,
a mão, o tempo, a mão.
Porque o tempo lhe fugia, entre os últimos dedos lhe fugia,
a mão, o tempo, a mão.
E quando um dia lhe disseram; só tens emprego se te cortarmos a cabeça.
Ele estava desempregado há mais tempo do que podia, tinha filhos, aceitou, e
baixando a cabeça, aceitou.
Porque o tempo lhe fugia, entre os últimos dedos lhe fugia,
a mão, o tempo, a mão.



A música é : Eleni Karaindrou, "Medea's Lament I" in «Medea»

e este é mais um dos maravilhosos vídeos do CINE POVERO


26 fevereiro, 2014

Eu creio que sonhar o impossível é como que ouvir a voz de alguma coisa que pede existência e que nos chama de longe.


De olhos confiantes, de coração aberto, de mãos generosas, de costas direitas, de cabeça erguida, avanço na vida. Procuro a beleza, os afectos, a alegria de dar e de receber, o prazer da procura. O mais importante na vida é fazer com que não seja em vão, com que não seja uma oportunidade desperdiçada. O mais importante na vida é saber vivê-la, é deixar uma marca nos outros, é fazer com que a caminhada seja um prazer para nós e para os outros. 

Digo eu. Mas é bem capaz de ser muito mais que isto. Muito melhor que isto. As palavras ficam aquém da beleza e da bênção que é a vida (por inabilidade minha).


Lançando-se ao voo

O mais importante na vida
É ser-se criador - criar beleza.
Para isso,
É necessário pressenti-la
Aonde os nossos olhos não a virem.
Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir a voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.
Sim, o mais importante na vida
É ser-se criador.
E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados
Como a fé e como o amor.




Este vídeo da autoria de CINE POVERO é dedicado ao Léo (que surge na 2ª fotografia)


"O mais importante" in «Canções» (1920) de António Botto (1897-1959) aqui dito por Manuela de Freitas in «Poemas de Bibe» [em parceria com Mário Viegas] (1990)


Música: Bernardo Sassetti (1970-2012), "Inocência - Movimento I"



17 fevereiro, 2014

E estou tão leve porque não tenho nenhum segredo e tão oculto porque daqui a nada já posso dizer tudo. [Herberto Helder na voz de Fernando Alves pela mão do Cine Povero - uma maravilha]


Veleiro no Tejo, a ponte Vasco da Gama ao fundo
Avistado a partir do Ginjal


Levanto à vista
o que foi a terra magnífica
e as estações mais bêbedas
E estou tão leve
porque não tenho nenhum segredo
e tão oculto
porque daqui a nada
já posso dizer tudo.
Daqui a uma pouca ciência
saberei pensar que daqui a um pouco depois
estarei morto
e só de pensar
já nem respiro
já quase
em nada toco
Já vejo no fundo das mãos
daquilo que fica escrito
Que escrevi coisa nenhuma do mundo
até ao esquecimento e movendo-me com as unhas
movo-me nos nomes inúmeros
para dizer que mal nasci
logo me deram por morto.
E não fui tido nem havido
na razão do episódio de um rosto
ter passado por um espelho e ter desaparecido.
Portanto não me venha ninguém falar de nada
sei bastante do que sabem todos
Vejo a água a mover-se contra si mesma
tão marítima e acho até que é bonito
cada qual morre do que alcança e não alcança
e ninguém compreende
a água que toca os dedos que escreveram até às pontas
e passa a água fácil
sem retorno
porque nada tem retorno e tudo é dificílimo
não só o máximo, mas também o mínimo.


Poesia dita

Fernando Alves diz Herberto Helder - 'Levanto à vista' in 'Servidões'

Vídeo da autoria de Cine Povero


(Filmado em São Julião e na Senhora do Monte (Lx.)).

01 outubro, 2013

O portugal futuro - poema de Ruy Belo dito por Mário Viegas sobre música de David Lynch e voz de Chrysta Bell, num belo filme realizado por Cine Povero


Tenho andada um bocado afastada do meu Ginjal e Lisboa. O calor desconcentra-me e, para estar aqui, como gosto de estar, tenho que estar inteira, mergulhada mesmo, e depois deixar que as palavras sigam o seu próprio rumo. Talvez, agora que a chuva voltou, eu consiga retomar a minha assiduidade.

Hoje ainda não são as minhas histórias, as minhas reinterpretações de poemas, os meus voos sem rede.

Hoje é um dos belos filmes do Cine Povero no qual, entre outras fotografias (ver texto abaixo), podem ver-se imagens colhidas pelo próprio realizador no Ginjal. 




Permito-me transcrever o texto que se pode ver junto ao filme:

Quatro estrelas brilham neste vídeo.

(1) "O portugal futuro" (grafado com minúscula no original), poema de Ruy Belo publicado em «Homem de Palavra(s)» (1970). 
(2) A sua declamação por Mário Viegas, em «Poemas de Bibe» (1990), album em parceria com Manuela de Freitas. 
(3) Algumas fotografias (cinco) de um dos maiores fotógrafos de sempre, Henri Cartier-Bresson. 
(4) E o "Polish Poem", escrito por David Lynch e Chrysta Bell e cantado pela última. O vídeo reproduz os últimos versos, com que termina o filme «Inland Empire»: 

"I sing this poem to you
Is this mystery unfolding
As a wing floating?
Something is coming true
The dream of an innocent child...
Something is happening
Something is happening"


POEMA DE RUY BELO

o portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro.

*