Ginjal e Lisboa

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19 março, 2014

'Deus não me deu o papel de Eva nem o de Maria porque também S. José me tinha corrido a pontapé' - "Adília Lopes, uma poeta que vale a pena a gente garimpar" - palavra de Eduardo Tornaghi


Quando aqui chego já a noite caíu há muito e venho sem ideias, a cabeça e o coração limpos. Esqueço os trabalhos do dia, preocupações profissionais ou familiares, esqueço até maleitas, tudo. Sou eu. Numa sala quase às escuras, numa mesa pouco iluminada, cercada por livros. Dir-se-ia que procuro o sossego ou que, a esta hora, gosto de sentir a leveza da solidão desejada. Mas não. Nem estou sozinha. O meu computador é muito mais que uma folha em branca: é uma janela que se abre para mundos que, de outra forma, eu jamais conheceria. O meu computador traz até aqui, à minha mesa, muita gente que fala coisas que eu gosto de ouvir.

Hoje lembrei-me de Adília Lopes. Há algo nesta mulher que me intriga. Quase acabou o curso de Física e a Física não é para todos, quem por lá perto tenha andado sabe o que aquilo é. Depois mudou para Literatura e pelos caminhos da literatura tem vindo a caminhar. Que padece de um certo tipo de psicose tem ela dito sem tabus e isso aparece muitas vezes nas suas palavras. Quando a ouço falar ou quando leio o que escreve fico sem perceber se ela fala ou escreve assim porque tem uma valente pancada, ou se se acha graça ou se é mesmo assim que ela é, infantil, irreverente, engraçada como uma menina grande e gorda.

Procurei por ela no YouTube e fui parar até um senhor fantástico: Eduardo Tornaghi. Ele diz poesia e prende-nos com a forma como diz e fala palavras engraçadas e, mais do que engraçadas, palavras muito oportunas como as que profere a propósito do mal-amado Acordo Ortográfico.

Vou acompanhar os seus vídeos. Abençoadas as pessoas que se dedicam à divulgação da bela língua portuguesa. Obrigada Eduardo Tornaghi.


Rosto de mulher impresso numa rocha no Jardim do Ginjal

Deus não me deu
um namorado
deu-me
o martírio branco
de não o ter

Vi namorados
possíveis
foram bois
foram porcos
e eu palácios
e pérolas

Não me queres
nunca me quiseste
(porquê, meu Deus?)

A vida
é livro
e o livro
não é livre

Choro
chove
mas isto é
Verlaine

Ou:
um dia
tão bonito
e eu
não fornico


A solidão
de Adão
antes da criação
de Eva
devia ser
terrível
mas a minha
é bem pior
os homens
que escreveram
o Génesis
não pensaram
que Adão
em vez de saudar
Eva
com um grito de júbilo
a mandasse embora
com sete pedras na mão
mas eu acho
que foi
o que me aconteceu
temendo isso
Deus
não me deu
o papel de Eva
nem o de Maria
porque também
S. José
me tinha corrido
a pontapé


['Meteorológica', para o José Bernardino, de Adília Lopes]



Papo Poético - Eduardo Tornaghi



24 outubro, 2012

As coisas livres ficaram escritas no chão


Enquanto caminho, rolam palavras soltas, rolam e vão despenhar-se nas águas do rio. Saem do meu corpo ferido estas palavras, escorrem como sangue. Não tento estancá-las, sei que não o conseguiria. O meu coração tem um rasgo de onde jorram as saudades e todas estas tristezas agora sem dono.

O teu nome está preso num recanto deste meu coração dilacerado. Gostava que saísse, que saísse arrastado juntamente com o sangue sem cor, com as palavras que se vão afogar. Mas ele não sai porque agora esse nome pertence também a outra mulher que muito amo.

Olho a grande e bela cidade, olho o rio e lembro os dias em que o teu nome saltava junto a nós e era uma alegria, o teu nome e o meu nome, abraçados, beijando-se em segredo, escondidos da luz que vem da água.

Dizia o teu nome e dizia amor e tu rias e dizias esta é a nossa casa e os pássaros vinham do mar fazer a festa das palavras. Nesses dias o tempo parava, esperava que o amor entrasse bem na nossa pele inocente. Recordo o teu rosto, era calmo e feliz, e recordo o teu corpo, era dedicado, disponível, e recordo o teu sexo, era doce, tão doce.

Longe esses ternos dias.

Agora todas as palavras acabaram. Mas ficou o mais importante, ficou a menina, feliz e livre, que ali mais à frente brinca, subindo às árvores e desafiando o rio, a menina que tem os teus olhos e a quem demos o teu nome. 



[Abaixo da imagem do homem que olha o rio e a magnífica cidade, Inês Fonseca Santos fala das coisas livres. E, logo a seguir, começa a semana dedicada ao compositor Giovanni Battista Pergolesi, músico que viveu (apenas durante 26 anos) no século XVIII]



Caminhando junto ao Tejo, de frente para Lisboa, numa bela tarde no Ginjal



                                              Havia várias formas de chamar-te.
                                              Chamar-te não era apenas dizer o teu nome.
                                              Muito menos fazer-te virar a cabeça na direcção da casa.
                                              Era conhecer-te o rosto - dedicado, disponível, raro.

                                              As coisas livres ficaram escritas no chão.


                                              ['As coisas livres' de Inês Fonseca Santos in 'As coisas']