Ginjal e Lisboa

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17 março, 2013

Horas profundas, lentas, caladas



Muro no Ginjal, fragmentos do que passou



Morrer de amor, morrer de desamor, de amores indizíveis, morrer de excesso, de penúria, de tudo, de mil, mil escuridões, de um infinito que não se conseguia agarrar, de mil ínfimos nadas, de nada, de nada, de nada.

Em vez de sangue, palavras a correr nas veias, em vez de amor, assombro, em vez de cantos, soluços, em vez de risos, lágrimas. 

Em vez de vida, um sofrimento sem motivo, alegrias fugidias, e sombras, muitas, muitas sombras. Tantas sombras num coração inquieto.

Assim são tantas vezes os Poetas, impotentes, frágeis, perdidos, finitos. 

Eternos.


()()()


Eunice Muñoz diz poesia de Florbela Espanca



Horas profundas, lentas e caladas
feitas de beijos sensuais e ardentes,
de noites de volúpia, noites quentes
onde há risos de virgens desmaiadas...

Ouço as olaias rindo desgrenhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes.
e do luar os beijos languescentes
são pedaços de prata p’las estradas...

Os meus lábios são brancos como lagos...
os meus braços são leves como afagos,
vestiu-os o luar de sedas puras...

Sou chama e neve branca misteriosa...
e sou talvez, na noite voluptuosa,
ó meu Poeta, o beijo que procuras!





 Narração Miguel Falabela - Amar de Florbela Espanca




Olhos do meu Amor! Infantes loiros
que trazem os meus presos, endoidados!
Neles deixei, um dia, os meus tesoiros:
meus anéis, minhas rendas, meus brocados.

Neles ficaram meus palácios moiros,
meus carros de combate, destroçados,
os meus diamantes, todos os meus oiros
que trouxe d'Além-Mundos ignorados!

Olhos do meu Amor! Fontes... cisternas...
enigmáticas campas medievais...
Jardins de Espanha... catedrais eternas...

Berço vindo do Céu à minha porta...
ó meu leito de núpcias irreais!...
Meu sumptuoso túmulo de morta!...




Mariza - Poetas de Florbela Espanca


*



(E não deixem, por favor, de ouvir Nelson Freire interpretando Gluck: trata-se de um momento muito especial. É no post abaixo)



12 agosto, 2011

Mariza interpreta Oiça lá ó Senhor Vinho

Em tempo de festas de verão em todas as aldeias e vilas portuguesas, é tempo de música popular, de arraiais, de comes e bebes.

Nada mais apropriado (... o Toni Carreira e o Quim Barreiros que me perdoem... ) que uma música dedicada ao senhor vinho.

Já cantada por Amália, aqui na voz alegre de Mariza.



Oiça lá ó senhor vinho,
vai responder-me, mas com franqueza:
porque é que tira toda a firmeza
a quem encontra no seu caminho?

Lá por beber um copinho a mais
até pessoas pacatas,
amigo vinho, em desalinho
vossa mercê faz andar de gatas!

É mau procedimento
e há intenção naquilo que faz.
Entra-se em desequilíbrio,
não há equilíbrio que seja capaz.

As leis da Física falham
e a vertical de qualquer lugar
oscila sem se deter
e deixa de ser perpendicular.

"Eu já fui", responde o vinho,
"A folha solta brincara ao vento,
fui raio de sol no firmamento
que trouxe a uva, doce carinho.

Ainda guardo o calor do sol
e assim eu até dou vida,
aumento o valor seja de quem for
na boa conta, peso e medida.

E só faço mal a quem
me julga ninguém
e faz pouco de mim.
Quem me trata como água
é ofensa, pago-a!
Eu cá sou assim."

Vossa mercê tem razão
e é ingratidão
falar mal do vinho.
E a provar o que digo
vamos, meu amigo,
a mais um copinho!


(Letra de 'Ouça lá ó Senhor Vinho, composição de Alberto Janes)

24 julho, 2011

Mariza interpreta "Há Palavras Que Nos Beijam"

Momento grande. Uma das nossas grandes mulheres fadistas interpreta um poema de que muito gosto (dele retirei o subtítulo do meu outro blogue, o Um Jeito Manso) de Alexandre O'Neill.

Aqui no Palácio Nacional de Queluz.



Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte

(Letra de 'Há palavras que nos beijam' da autoria de Alexandre O'Neill)

14 junho, 2011

João Braga e Maria da Fé, Mariza, Camané e a brilhante nova geração numa desgarrada

Grande momento de fado, mesmo a calhar para este período de santos populares.

Dá gosto ouvir estes grandes nomes do fado a cantarem à desgarrada e em conjunto.

Com João Braga e Maria da Fé, um rei e uma rainha, podemos ver Mafalda Arnauth, Joana Amendoeira, Gonçalo Salgueiro, Ana Sofia Varela, Katia Guerreiro, Nuno Guerreiro, Miguel Capucho, Rodrigo Costa Félix, Mariza, Camané e Maria Ana Bobone juntos numa desgarrada em tom de brincadeira intitulada "Norte/Sul"

Abençoados.

09 junho, 2011

Mariza interpreta Rosa Branca

Num período de santos populares, tinha que colocar aqui no Ginjal e Lisboa uma marchinha popular: Rosa Branca, numa interpretação de Marisa, enquadrada pela história de Lisboa.



De Rosa ao peito na roda
Eu bailei com quem calhou
Tantas voltas dei bailando
Que a rosa se desfolhou

Quem tem, quem tem
Amor a seu jeito
Colha a rosa branca
Ponha a rosa ao peito

Ó roseira, roseirinha
Roseira do meu jardim
Se de rosas gostas tanto
Porque não gostas de mim?

(Letra de 'Rosa Branca', Composição : José de Jesus Guimarães / Resende Dias)

24 maio, 2011

Mariza canta Barco Negro

Mariza, a grande, quase mamã, interpreta aqui uma das grandes canções portuguesas - de sempre.

Inicialmente cantada por Amália, com letra de David Mourão-Ferreira, o eterno Barco Negro.


De manhã, que medo, que me achasses feia!
Acordei, tremendo, deitada n'areia
Mas logo os teus olhos disseram que não,
E o sol penetrou no meu coração.[Bis]

Vi depois, numa rocha, uma cruz,
E o teu barco negro dançava na luz
Vi teu braço acenando, entre as velas já soltas
Dizem as velhas da praia, que não voltas:

São loucas! São loucas!

Eu sei, meu amor,
Que nem chegaste a partir,
Pois tudo, em meu redor,
Me diz qu'estás sempre comigo.[Bis]

No vento que lança areia nos vidros;
Na água que canta, no fogo mortiço;
No calor do leito, nos bancos vazios;
Dentro do meu peito, estás sempre comigo

(Letra de 'Barco Negro' da autoria de David Mourão-Ferreira)

09 fevereiro, 2011

Beijo de Saudade por Mariza e Tito Paris

Mestiçagem com beijos e saudades, requebro e sentimento. Mariza, a diva, e Tito Paris, o castiço: envolvente


Ondas sagradas do Tejo
Deixa-me beijar as tuas águas
Deixa-me dar-te um beijo
Um beijo de mágoa
Um beijo de saudade
Para levar ao mar e o mar à minha terra

Nas tuas ondas cristalinas
Deixa-me dar-te um beijo
Na tua boca de menina
Deixa-me dar-te um beijo, óh Tejo
Um beijo de mágoa
Um beijo de saudade
Para levar ao mar e o mar à minha terra

Minha terra é aquela pequenina
É Cabo Verde terra minha
Aquela que no mar parece criança
É filha do oceano
É filha do céu
Terra da minha mãe
terra dos meus amores

Bêjo Di Sodade

Onda sagrada di Tejo
Dixám'bejábu bô água
Dixám'dábu um beijo
Um bêjo di mágoa
Um bêjo di sodadi
Pá bô levá mar, pá mar leval'nha terra

Na bôs onda cristalina
Dixám'dábu um beijo
Na bô boca di mimina
Dixám'dábu um beijo óh Tejo
Um bêjo di mágoa
Um bêjo di sodadi
Pá bô levá mar, pá mar leval'nha terra

Nha terra ê quêl piquinino
È Cabo Verde, quêl quê di meu
Terra que na mar parcê minino
È fidjo d'oceano
È fidjo di céu
Terra di nha mãe
Terra di nha cretcheu

(Letra de Beijo de Saudade, composição de B.Leza)

24 janeiro, 2011

Estranha Forma de Vida pela Mariza

Mariza no início da sua carreira, cabelinho ainda escuro, mas já o fantástico pescoço longo valorizado por vistosas gargantilhas, a mesma figura carismática, as toilettes de bom gosto, a fantástica voz e alma de fadista.




Foi por vontade de Deus
que eu vivo nesta ansiedade.
Que todos os ais são meus,
Que é toda a minha saudade.
Foi por vontade de Deus.

Que estranha forma de vida
tem este meu coração:
vive de forma perdida;
Quem lhe daria o condão?
Que estranha forma de vida.

Coração independente,
coração que não comando:
vive perdido entre a gente,
teimosamente sangrando,
coração independente.

Eu não te acompanho mais:
para, deixa de bater.
Se não sabes onde vais,
porque teimas em correr,
eu não te acompanho mais.

 
(Letra de Estranha Forma de Vida de Amália Rodrigues)

07 dezembro, 2010

Gente da minha terra pela Mariza, Madamoiselle Le Chevalier

No dia em que foi agraciada pelo Governo Francês com a Ordem das Artes e das Letras no grau de Chevalier, aqui vos deixo a Grande Fadista numa extraordinária interpretação.

Parabéns.

Longa vida, Mariza!


Sempre que se ouve o gemido
De uma guitarra a cantar
Fica-se logo perdido
Com vontade de chorar

Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que recebi

E pareceria ternura
Se eu me deixasse embalar
Era maior a amargura
Menos triste o meu cantar

Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que recebi

 (Letra de Gente da Minha Terra, composição de Amália Rodrigues, interpretação de Mariza, duas Grandes)

01 novembro, 2010

Cavaleiro Monge, letra de Fernando Pessoa por Mariza

Video gravado na Quinta da Regaleira, lugar de culto maçónico, canção com letra de Fernando Pessoa, abaixo transcrita e interpretação, magnífica como sempre, da Mariza.


Do vale à montanha
Da montanha ao monte
Cavalo de sombra
Cavaleiro monge
Por casas, por prados
Por quinta e por fonte
Caminhais aliados

Do vale à montanha
Da montanha ao monte
Cavalo de sombra
Cavaleiro monge
Por penhascos pretos
Atrás e defronte
Caminhais secretos

Do vale à montanha
Da montanha ao monte
Cavalo de sombra
Cavaleiro monge
Por prados desertos
Sem ter horizontes
Caminhais libertos

Do vale à montanha
Da montanha ao monte
Cavalo de sombra
Cavaleiro monge
Por ínvios caminhos
Por rios sem ponte
Caminhais sozinhos

Do vale à montanha
Da montanha ao monte
Cavalo de sombra
Cavaleiro monge
Por quanto é sem fim
Sem ninguém que o conte
Caminhais em mim.
(Cavaleiro Monge, Fernando Pessoa)

15 outubro, 2010

Rui Veloso e Mariza - Não Queiras Saber de Mim (live)

Uma canção tão bonita, interpretada por dois nomes grandes da música portuguesa.

Para os dias em que não nos recomendamos.