Ginjal e Lisboa

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08 fevereiro, 2013

produzo o corpo por dentro e sou igual ao que vejo


Sou os meus olhos e o que vejo, sou a minha pele e o meu coração e o que sinto, sou a que respira e o ar que me alimenta. 

Sou árvore e raízes e a terra em que elas se entranham, sou folhas e o vento que as ondula, sou madeira, vegetal, sou seiva e sou o sol que acaricia e aquece e sou a sombra que esconde e refresca e enlouquece.

Sou a maresia fria e pura e a aragem que a leva pelos ares, sou nuvem branca, molhada, e sou a pele que a recebe, sou o sonho e os jardins em que os sonhos se perdem.

Sou o rio e os peixes e os navios que repousam no mais fundo do leito e sou os veleiros que deslizam e as velas que se desenrolam, sou a sereia que não existe e o longo lamento que se ouve nas noites de luar. 

Sou o pássaro que pousa na árvore e sou o seu límpido canto que atravessa o espaço. Sou o seu corpo frágil, as penas suaves que o cobrem, sou o horizonte que vejo ao longe, sou o sol que se esconde, sou a criança que nasce, sou a flor indecente.

E sou as palavras que me espelham, que me desvendam, que me levam pelo espaço até vós. Sou a lonjura e o sorriso que esboçais, a lágrima que pelo vosso rosto teima em descer. E sou a mão que limpa a vossa lágrima, sou a mão amiga que vos falta, sou o riso claro, a janela que se abre, o gato que salta para os vossos joelhos, o brinquedo que a criança tem nas mãos, sou o rosto que imaginais, sou a que se esconde, a que se mostra, a que se oferece.

Sou tudo e sou tão pouco.



[A seguir ao pássaro preto de bico amarelo, um curioso poema de um poeta que aqui aparece pela primeira vez, Valter Hugo Mãe. Abaixo, por ser fim de semana, no intervalo entre Grandes Intérpretes, um duo improvável que interpreta Bach em copos de vidro]


Pássaro negro de bico amarelo, um grande amigo que, por vezes, encontro no Jardim do Ginjal



                                            estou escondido na cor amarga do
                                            fim da tarde. sou castanho e verde no
                                            campo onde um pássaro
                                            caiu. sinto a terra e orgulho
                                            por ter enlouquecido. produzo o corpo
                                            por dentro e sou igual ao que
                                            vejo. suspiro e levanto vento nas
                                            folhas e frio e eco. peço às nuvens
                                            para crescer. passe o sol por cima
                                            dos meus olhos no momento em que o
                                            outono segue à roda do meu tronco e, assim
                                            que me sinta queimado, leve-me o
                                            sol as cores e reste apenas o odor
                                            intenso e o suave jeito dos ninhos ao
                                            relento


['estou escondido na cor amarga do fim da tarde' de Valter Hugo Mãe]