Ginjal e Lisboa

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27 setembro, 2018

Que podíamos fazer senão dançar?




Chamavas-me Koré e só eu sei como nunca quis ser a tua deusa. Olhavas-me com olhos cheios de amor e vias-me como divina e toda eu era transformada em palavras. 

O cabelo de ouro velho, os olhos de água, as mãos pequeninas que querias junto a ti na hora da tua partida, os seios que descrevias como os vias, o ventre que achavas esculpido. Eu era um poema. E outro poema. Era letra de canção. Era amor eterno, musa, dor. Eu era a luz e a ausência dela. Era riso e a razão das tuas lágrimas. Era a que dançava nas tuas mãos e entre os braços de quem te fazia doer. 

Eu era a tempestuosa adolescente dos cabelos de fogo, de temperamento de guerreira, de boca de mulher, sorriso de menina, eu era a fonte dos beijos que cantavas, eu era a que te cativava e rejeitava, eu era a que me entregava e logo te fugia.

Fiz-te sofrer e fiz de ti um homem, escondi-me, fiz-te conquistar-me, fiz-te amar-me sem o querer. 

Dancei para ti, dancei nos teus braços enquanto desejava outro, dancei nos braços de outro. Diana ou Artemis, guerreira, caçadora, protectora das virtudes. Memórias. Palavras. Melodias longínquas. Nunca soubeste que me quiseste demais, nunca percebeste que nunca eu poderia ser eternamente tua, nunca percebeste que eu não queria senão dançar.

Perdoa-me.


Ela trazia o fogo trazia a luz
A taça o vinho
E aquela forma de beleza
Que em si mesma
Perdura

Trazia uma Koré em cada gesto
E havia nela o dar de quem se nega
Toda ela era dádiva e protesto
Como quem se recusa e assim se entrega

Trazia a graça e a garça no andar
Que podíamos fazer senão dançar?

['Grega' de Manuel Alegre in 'Todos os poemas são de amor']

John Williams - The lament of God

21 dezembro, 2015

Ah, eu sei agora que é magia





Olhou-me nos olhos como se me inquirisse. Dócil, eu, aproximei-me, devagar. Continuou a olhar-me. Baixei-me, tentei perceber. Olhava-me como se me quisesse dominar, como se me quisesse fazer sentir que tinha que ser eu a ceder. E eu ali, em silêncio, disposta a todos os olhares.

Então desviou os olhos. Olhei-o bem de frente, eu já quase de joelhos, que me olhasse, bchhh, bchhh, bichinho, bchhh, bchhhh, bichinho lindo... Nada. Olha, olha para mim, bchhh, olha, bichinho, bchhhh. Nada.

Não insisti. Tenho o meu orgulho. Não queres, não queiras. 

Mais à frente ainda pensei voltar-me para trás, ver se me seguia, se queria, afinal, a minha companhia. Mas não o fiz. Orgulho, esse grande inimigo dos acasos. Segui o meu caminho.

Dia de gaivotas pensando na vida, contemplando o mundo, dia de gatos sob as árvores, trepando aos muros, deslizando entre sombras. Dia de veleiros brancos, vermelhos, deslizando no azul, entre árvores. Dia de deslumbramentos.


E eu vou caminhando. A terra está macia, a relva está verde, o rio corre azul, o céu abre-se para receber aqueles que querem sentir a serenidade das nuvens que correm devagar ou dos amantes que se abraçam rente às águas, abençoados por quem passa.

Não sei ainda onde me levam os meus passos. Não sei como vim aqui parar. Não sou daqui. Que raízes são estas que se estendem até ao mar? Que asas são estas que se levantam para me levar a voar? Que amor é este que sinto por tudo? 
Pelas palavras, pelas águas, pelos céus, pelos pássaros, pelos barcos, pelos gatos, pelas paredes, pelos olhares recordados, pelos sorrisos imaginados, por quem o meu coração bate, por quem o meu coração aconchega. 
Um amor assim não tem explicação. Parece ilimitado, parece intemporal. E é inocente, alegre, livre. 

E eu caminho, sem explicações, como se fosse uma gata, uma gata deslizando sobre o azul, como se me nascessem asas, como se pudesse ir para o alto, para lá de onde se vêem as belas cidades, os pequenos homens, para lá onde as angústias perdem o motivo, onde os medos são injustificados, lá onde as saudades aumentam, aumentam tanto, lá onde me sinto tão longe, tão perto, tão livre, tão ilimitada, tão tua.

Não sei explicar, não sei mesmo. Mas dizem-me que é  magia, que é imagiação a explicação -- e eu acredito porque é bom acreditar no que não tem explicação.


Ah, eu sei agora que é magia,
que é imagiação a explicação
disto de estar aqui e não ali,
de vir aqui parar,
de vir aqui andar
e ter um chão onde os meus passos
de gazela insegura
se aventuram no escuro.
Eu sei agora algumas coisas
que explicam o que nada poderia explicar,
e o que não sei ainda
irei imaginá-lo numa não sei que paz
que é imagiação.

....

Fiz as fotografias este fim-de-semana no Ginjal.
O poema é 'Ela', poema 33, de Um Teatro às Escuras de Pedro Tamen.
Barenboim interpreta de Bach: Goldberg Variations - Aria
..

04 março, 2015

o sonho da matéria com que haverei de lhe tocar a pele dizendo o seu nome






agora a mulher estava no plural
a mulher era potável
a mulher escrevia o missal do seu corpo

um dia o anjo disse - vai à fábula -

então a mulher escolheu escrupulosamente o seu pé esquerdo 
e foi




E então mergulho no azul em busca do teu nome. Quem és? Não sei nem o teu nome.

Diz-me da tua pele, diz-me como brilham os teus olhos. Diz-me de que sombras te escondes ou diz-me a que luz se desnuda a tua alma. Diz-me apenas palavras assim, soltas, livres, palavras sem futuro.

Não quero saber mais, quero apenas adivinhar como bate o teu coração ou a forma como fechas os olhos quando sabes as palavras que nascem de mim. Mulher plural, potável, mulher que se desprende do equilíbrio para se lançar no azul mais limpo, na maresia mais suave, assim sou eu. 

E, sabendo-me assim, meio mulher, meio pássaro, um anjo vem e diz que sobre as águas eu me deite e eu deito-me, e ele diz que sobre mim quer escrever palavras azuis e eu digo que o meu corpo já tem desenhadas as linhas que esperam a sua caligrafia, e ele hesita e diz-me que é de temor que o seu coração bate e eu digo-lhe que escreva todo o silêncio que transporta no seu peito e ele escreve, e eu adivinho palavras inocentes como água, luz, sonho, e depois o anjo e eu olhamos o sol e mergulhamos na luz, numa doce vertigem, e depois vejo que o dia se está a afogar no rio e que tenho que ir e, então, as palavras desprendem-se do meu corpo, e voam e voam e sobre mim começam a tombar fragmentos de luz, lágrimas, sonhos que, mal se desprendem de nós, logo começam a esfumar-se. 

Quando tocar a tua pele direi o teu nome, digo-lhe eu enquanto me dissolvo no azul do céu. E voo. E vou.


Não recordo esse azul, mas sei
que ele se alia ao azul imaginado
pela acústica impressão:

desprende-se a sua voz, bate
no meu rosto, retoma a mais densa
compreensão, o sonho da matéria

com que haverei de lhe tocar a pele
dizendo o seu nome.

......   ......   ......


A música é The Tale of Sweet Sir Galahad  de e por Joan Baez

O primeiro poema é de Catarina Nunes de Almeida in Marsupial da editora Mariposa Azual

O segundo poema é O azul de Wallace Stevens de Luís Quintais in Depois da Música da editora Tinta da China

As fotografias foram feitas no fim de semana e o rio é o Tejo.

...

28 abril, 2014

Vasco Graça Moura, uma das grandes presenças no 'Ginjal e Lisboa' - para sempre a acompanhar quem por aqui passar. E o que vos digo é que 'relembro o que escreveu: as suas rimas nítidas de aço e dúcteis como a pele, encontros, desencontros, corpos que ele despia e enredava nas esgrimas'


Sim, fui-me dedicando sucessivamente, sobretudo no plano literário, a fazer muitas coisas e muito variadas. Comecei pela poesia, depois fui para a crítica, para o ensaio, para a ficção, entretanto passei para a polémica. Mas não deixei de fazer um conjunto de actividades ligadas à vida prática de todos os dias. Não conseguia entender-me só no plano de nefelibata a pensar na minha escrita. Tinha que ter uma base concreta.

Hoje a minha escrita não tem o propósito, de um modo geral, de ir buscar esses materiais [escritos há 50 anos]. Se têm que surgir, eles emergem naturalmente. Há 50 anos talvez eu tivesse um pedantismo um pouco mais sofisticado e procurasse mostrar que conhecia isto ou aquilo. Hoje isso não me preocupa absolutamente nada. 



Gaivota levanta voo na beira do Tejo, no Terreiro do Paço em Lisboa


relembro o que escreveu: as suas rimas
nítidas de aço e dúcteis como a pele,
encontros, desencontros, corpos que ele
despia e enredava nas esgrimas
de angústias e palavras (aproxima-as
o jogo aliterado mas cruel
do cursivo do tempo no papel
a amalgamar memória e tensos climas)
e o perseguido amor em seus contrários,
como um rosto perdido que era o seu
procurando o fulgor e o sentido
que outros rostos lhe davam e esses vários
relances em que acaso apercebeu
que era ele e não era, reflectido.







*

  • Os dois primeiros parágrafos fazem parte da entrevista que Vasco Graça Moura concedeu a Ana Sousa Dias para a Revista Ler em Janeiro de 2014

  • O poema é David (no capítulo Mortes) do Volume I da sua Poesia Reunida

  • O primeiro vídeo mostra um excerto da presença de Vasco Graça Moura com Fernando Alvim no 5 para a Meia-Noite em que lê parte de uma poesia sua na qual refuta ser o autor de 'O segredo do meu pipi'

  • O segundo vídeo mostra-o falando do Livro da Sua Vida para  Ler Mais, Ler Melhor - Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões

  • O terceiro vídeo mostra Joana Amendoeira interpretando o fado Era a  noite que caía, cuja letra é justamente da autoria de Vasco Graça Moura.

*

03 abril, 2014

Os desiludidos do amor estão desfechando tiros no peito. Do meu quarto ouço a fuzilaria. As amadas torcem-se de gozo. Oh quanta matéria para os jornais.


Aos desiludidos, eu prefiro os iludidos do amor. Viver as ilusões do amor é tão bom, borboletas no peito, sonhos doces, lágrimas lentas tanta a emoção. 

Que importa que possa ser ilusão, se é coisa boa? Desde que não se coloquem as ilusões altas de mais, é bom viver a doçura do amor, é bom. E que venha a poesia ao de leve, macia como um veludo perfumado e manso, e que as vozes ciciem segredos e poemas e que haja beijos e beijinhos e olhares e abracinhos, afagos quentes e um desejo em crescendo. Boa essa ilusão.

Desilusões é que não vale a pena.


Casal de gaivotas no Tejo junto ao Ginjal


Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
As amadas torcem-se de gozo.
Oh quanta matéria para os jornais. 
Desiludidos mas fotografados,
escreveram cartas explicativas,
tomaram todas as providências
para o remorso das amadas. 
Pum pum pum adeus, enjoada.
Eu vou, tu ficas, mas nos veremos
seja no claro céu ou turvo inferno. 
Os médicos estão fazendo a autópsia
dos desiludidos que se mataram.
Que grandes corações eles possuíam.
Vísceras imensas, tripas sentimentais
e um estômago cheio de poesia... 
Agora vamos para o cemitério
levar os corpos dos desiludidos
encaixotados competentemente
(paixões de primeira e de segunda classe). 
Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor.
Única fortuna, os seus dentes de ouro
não servirão de lastro financeiro
e cobertos de terra perderão o brilho
enquanto as amadas dançarão um samba
bravo, violento, sobre a tumba deles. 


['Necrológio dos desiludidos do amor' de Carlos Drummond de Andrade in 'Brejo das Almas', dito por Fernanda Torres]






***

DESILUSÃO?

Porque o Amor
Se dissolve
No espectro fechado
Dos dias iguais
Ele está
Como se lá não estivesse
No simples gesto de chegar.
Cansado
De abrir a porta

--------------

Sentada estás
No meu silêncio
Presente
Na estranha distância
De não te ter
Olhas-me
Imagem
Tenho-te em mim
Porque tu
Me habitas

---------
Escrever
O teu rosto
A sombra exacta dos teus seios
A dimensão líquida da tua pele
Na planície branca
Do meu poema.
Mar de palavras
Sempre desfeito
Pelo ruído desajeitado
Da minha sede



[Poema de Joaquim Castilho num comentário aqui abaixo]


03 março, 2014

Boa noite. Eu vou com as aves.


Cresci, mãe, cresci mas a menina que fui ainda existe dentro de mim. Tu sabes, mãe, que sou ainda a mesma. Tratas-me pelo mesmo nome com que me tratas desde que nasci. Tu e todas as pessoas que me conheceram então. Para ti e para todas elas sou ainda a mesma. E sou. É estranho porque já não teria idade para o ser. Mas sou. Alegre, curiosa, deslumbrada.Tomara que sempre assim me conserve, não é, mãe? Não quero ser velha, por muitos anos que já tenha e por muitos anos que ainda venha a ter. Não tenho feitio para me sentir e portar como uma velha.

E, quando me for, que vá voando, rindo, feliz, para desfrutar a liberdade dos grandes espaços. Com as aves. Como as aves.


Manhã de chuva no Ginjal - o Tejo picado e Lisboa envolta em névoa

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe 
Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos. 
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais. 
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz. 
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura. 
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos. 
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe! 
Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos; 
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura; 
ainda oiço a tua voz:
          Era uma vez uma princesa
          no meio de um laranjal... 
Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber, 
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas. 
Boa noite. Eu vou com as aves. 

Gaivota quase parada no ar no céu do Ginjal sobre o Tejo



['Poema à Mãe' de Eugénio de Andrade, in "Os Amantes Sem Dinheiro"]


Video realizado por Lauro Martins e Manuel Capitão, no âmbito da UC Imagem em Educação, Mestrado Tecnologia Educativa - Universidade do Minho 2012


Voz de Nuno Miguel Henriques


Música: Ave Maria - Gounod/Bach


10 janeiro, 2014

Se eu disser que vi um pássaro sobre o teu sexo, deverias crer?


Voar como uma palavra, atravessar o Tejo como o desejo de uma mulher, ser impudica ou um pássaro branco, atravessar mil noites, ostentar com orgulho o sexo, escrever poesia, ouvir poesia, dizer poesia, sonhar com um vasto mar azul, sentir a doce inocência sobre a pele, perfumes carnais, e palavras, palavras, palavras.

Eu. Os meus segredos. O meu mundo. (Corrijo: parte do meu mundo)


O Tejo no Ginjal



Se eu disser que vi um pássaro
Sobre o teu sexo, deverias crer?
E se não for verdade, em nada mudará o Universo.
Se eu disser que o desejo é Eternidade
Porque o instante arde interminável
Deverias crer? E se não for verdade
Tantos o disseram que talvez possa ser.
No desejo nos vêm sofomanias, adornos
Impudência, pejo. E agora digo que há um pássaro
Voando sobre o Tejo. Por que não posso
Pontilhar de inocência e poesia
Ossos, sangue, carne, o agora
E tudo isso em nós que se fará disforme?


Do Desejo escrito e dito por Hilda Hilst



21 maio, 2013

Que peso tem agora a dor nessa balança cujo fiel nem tu consegues acertar?


Podia parafrasear, que gaivotas são estas que não fazem sombra no mar?

Elas voam tão livres, tão rápidas, atravessando os longos e límpidos espaços e, num momento, estão junto a nós e, no instante seguinte, já estão longe, numa distância que nos é estranha, imaterial, quase um sonho.

Pudesse eu ser assim, ágil, agora aqui e, no instante seguinte, na lonjura mais inatingível. E não haver nenhuma sombra, nenhum rasto. Desaparecer. Desfazer-me no horizonte, entrar nas nuvens, soltar as lembranças como quem desmancha uma trança, como quem deixa cair um vestido, e, nua, esquece a identidade. Ou então entrar no mar.

Mas não posso. Sou apenas uma mulher. Por isso, enquanto olho as gaivotas que pairam sobre mim como grandes anjos brancos, percorro os caminhos de areia, deixo que os meus pés se enterrem, dust to dust, e a descrença tira-me a vontade de andar, deixo-me cair, sem forças, quebrada. 

E, quando sinto que a grande onda que me levará se aproxima, enfio a mão no peito e arranco o coração, seguro-o na mão, e, em silêncio, o sangue mergulhando na areia, já afastado de mim, espero que um anjo ou uma gaivota o venham buscar para o enterrarem bem longe, nas profundezas do mar ou no esvaimento do horizonte.




[Reparo agora que acabei de suspirar longamente. Escrevi de seguida, respiração suspensa. Fui atrás do poema de Armando Silva Carvalho e deu nisto. É agora tempo de espantar tristezas e, para isso, nada melhor do que Bassekou Kouyate. Uma festa para os sentidos.]


Gaivota cruza o Tejo e aproxima-se da Ponte Vasco da Gama



                                                 Aqui no céu a prumo escrevem-lhe as gaivotas
                                                 um destino que já não deixa sombra
                                                 entre o desfraldar das nuvens
                                                 e o texto da lembrança.

                                                 Que peso tem agora a dor nessa balança
                                                 cujo fiel nem tu consegues
                                                 acertar?

                                                 Na areia que escorre da cabeça,
                                                 só mesmo os anjos, solícitos, parecem rolar tubos,
                                                 soprar as clássicas doenças da eternidade,
                                                 e esvaírem-se em sangue tenro e terno,
                                                 sob o sol banal, na pele incipiente e sem memória justa
                                                 da sepultura líquida.



['42 canções entre 2 portas', 2, de Armando Silva Carvalho in De Amore]

14 maio, 2013

Um rasgo de Ave a soprar contra Ar muito denso




A jovem mulher retira o chapéu que pousa com cuidado, estende as fitas, alisa-as, e ali fica. 

Depois, por nada, pega numa pequena boneca de trapo, afaga-a com jeito maternal. Dura pouco esse gesto de ave: pouco depois pousa-a com desvelos de mãe. 

Mas fica de pé, solitária, sem objectivo. Despe, então, o longo e rodado vestido, estende-o sobre a cama vazia. Tira os sapatos, tão pesados, e logo ela que gosta tanto de leveza, arruma-os, um ao lado do outro, dois sapatos tristes. Depois puxa para baixo as meias, retira-as, dobra-as. 

Vê-se ao espelho alto no quarto. Agora apenas camisas interiores, roupa de algodão, simples, lisa, branca. Os pequenos seios afloram quando ela abre os atilhos da frente. Deixa descair uma alça. Solta o cabelo. Deixa que o longo cabelo roce ao de leve os mamilos e logo eles se enrijam. Olha-os, rosados, erectos. 

Caminha até à janela. Tanta a solidão, tão rasgados e longínquos os voos com que tanto sonha. Abre os vidros, deixa que a maresia entre, aspira-a, os seios resfriados, desafiadores. Deixa cair as camisas que são feitas de nervuras, rendas, pregas, fitas. Despe depois os pequenos calçõezinhos, tufados, com rendinhas. Fica nua, branca, virgem, em frente do espelho, os longos cabelos pudicamente cobrindo o corpo macio, ainda não profanado. 

Senta-se, então, na pequena mesa junto à janela aberta, deixa que o som do rio se instale junto a ela, deixa que a luz a acaricie. Começa, então, a escrever palavras que lhe saem sem pensar,

Alguns Dias dos outros se separaram
Para com distinção adormecer -
O Dia em que um Companheiro chegou
Ou foi forçado a morrer.


Não escolheu as palavras. Saíram das suas mãos como as folhas nascem das árvores. Lê e reconhece-se nelas, fêmea intranquila, mulher tremendo sobre o arame, fugindo do equilíbrio, atraída pelo abismo, pelo doce tumulto das palavas.

Depois fecha o caderno, pousa a caneta, fecha o tinteiro. Olha-se ao espelho. Depois, sem pensar, sobe para o parapeito da janela, aspira o ar fresco que sobe do rio. E voa.

Ainda hesita, pensa que talvez deva pousar na margem, retroceder. Mas não. De novo levanta voo, livre, branca. E pensa que talvez esta suave sensação seja afinal l'esthétique de la solitude e, sorrindo, vitoriosa, acrescenta para si própria: solitaire mais jamais seul. E voa rasgando o ar, breve traço de liberdade cruzando o horizonte.




[Abaixo da gaivota pensadora temos mais um poema de Margarida vale de Gato e, logo a seguir, mais um momento de recolhimento, a música de Palestrina elevando-se em toda a sua imensa beleza e transportando um abraço para os autores dos blogues onde fui beber algumas palavras e inspiração]



Une mouette au Ginjal



                                            Seria então o esforço para escrever
                                            Sobre o que nos suspende - um traço -
                                            Um rasgo de Ave a soprar
                                            Contra Ar muito denso - breve
                                            O Tumulto, gago o Eco de fêmea
                                            Ímpar, tremendo pelo Arame -

                                            Teu precário equilíbrio - que
                                            Valia? Qualquer Coisa menos
                                            Isto - embora sequer diferente
                                            E até pior - porquanto se
                                            Ressente a solitária Invenção
                                            Do que não se deu a escolher -



                                            ['Emily Dickinson, II' de Margarida Vale de Gato in 'Mulher ao Mar']


28 abril, 2013

Jorge de Sena - a Poesia e o Homem (por si próprio e pelos outros - Ana Luísa Amaral, Mário Viegas, Catarina Guerreiro)


Gaivota num cais do Ginjal ao cair da tarde




Catarina Guerreiro diz 'Uma pequenina Luz'


Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha

['Uma pequenina luz' de Jorge de Sena in Fidelidade]



 

'Ode para o Futuro' dita pelo próprio Jorge de Sena


Falareis de nós como de um sonho. 
Crepúsculo dourado. Frases calmas. 
Gestos vagarosos. Música suave. 
Pensamento arguto. Subtis sorrisos. 
Paisagens deslizando na distância. 
Éramos livres. Falávamos, sabíamos, 
e amávamos serena e docemente. 

Uma angústia delida, melancólica, 
sobre ela sonhareis. 

E as tempestades, as desordens, gritos, 
violência, escárnio, confusão odienta, 
primaveras morrendo ignoradas 
nas encostas vizinhas, as prisões, 
as mortes, o amor vendido, 
as lágrimas e as lutas, 
o desespero da vida que nos roubam 
- apenas uma angústia melancólica, 
sobre a qual sonhareis a idade de oiro. 

E, em segredo, saudosos, enlevados, 
falareis de nós - de nós! - como de um sonho. 


['Ode para o futuro' de Jorge de Sena in 'Pedra Filosofal']





Mário Viegas apresenta o excerto de uma entrevista do poeta Jorge de Sena a Joaquim Furtado, em 1976.





Ana Luísa Amaral fala de Jorge de Sena


 

Mário Viegas diz 'Carta a meus filhos Sobre os fuzilamentos de Goya' de Jorge de Sena


Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso. 
É possível, porque tudo é possível, que ele seja 
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo, 
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém 
de nada haver que não seja simples e natural. 
Um mundo em que tudo seja permitido, 
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer, 
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós. 
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto 
o que vos interesse para viver. Tudo é possível, 
ainda quando lutemos, como devemos lutar, 
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça, 
ou mais que qualquer delas uma fiel 
dedicação à honra de estar vivo. 
Um dia sabereis que mais que a humanidade 
não tem conta o número dos que pensaram assim, 
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único, 
de insólito, de livre, de diferente, 
e foram sacrificados, torturados, espancados, 
e entregues hipocritamente â secular justiça, 
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.» 
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento, 
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas 
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas, 
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados, 
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido, 
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória. 
Às vezes, por serem de uma raça, outras 
por serem de urna classe, expiaram todos 
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência 
de haver cometido. Mas também aconteceu 
e acontece que não foram mortos. 
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer, 
aniquilando mansamente, delicadamente, 
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus. 
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror, 
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha 
há mais de um século e que por violenta e injusta 
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya, 
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria 
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos. 
Apenas um episódio, um episódio breve, 
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis) 
de ferro e de suor e sangue e algum sémen 
a caminho do mundo que vos sonho. 
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém 
vale mais que uma vida ou a alegria de té-la. 
É isto o que mais importa - essa alegria. 
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto 
não é senão essa alegria que vem 
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém 
está menos vivo ou sofre ou morre 
para que um só de vós resista um pouco mais 
à morte que é de todos e virá. 
Que tudo isto sabereis serenamente, 
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição, 
e sobretudo sem desapego ou indiferença, 
ardentemente espero. Tanto sangue, 
tanta dor, tanta angústia, um dia 
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga - 
não hão-de ser em vão. Confesso que 
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos 
de opressão e crueldade, hesito por momentos 
e uma amargura me submerge inconsolável. 
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam, 
quem ressuscita esses milhões, quem restitui 
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado? 
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes 
aquele instante que não viveram, aquele objecto 
que não fruíram, aquele gesto 
de amor, que fariam «amanhã». 
E. por isso, o mesmo mundo que criemos 
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa 
que não é nossa, que nos é cedida 
para a guardarmos respeitosamente 
em memória do sangue que nos corre nas veias, 
da nossa carne que foi outra, do amor que 
outros não amaram porque lho roubaram.

****


[Abaixo poderão ouvir um grande pianista de jazz, Brad Mehldau.]


24 abril, 2013

sei de pintores que se inquietavam por pressentirem uma relação entre a cor e a palavra - numa sala cheia de livros, num vão de escada


Havia um poeta. Tinha gatos, tinha afectos. Tinha livros. Escrevia palavras. Transformava músicas e cores em palavras.

Decantava a luz, as ervas, as pernas suaves dos rapazes, as flores, as mãos da mãe - e de tudo nasciam palavras inocentes como crianças.

Olhava a sombra da luz nos muros caiados de branco, olhava o voo das aves, aspirava o cheiro doce da fruta, do calor, da erva alta como uma haste, da glande como uma flor - e escrevia palavras límpidas como um dia de verão.

Esse poeta acompanha-me deste sempre, está agora aqui ao meu lado, silencioso, paciente.

E há um poeta que escreve sobre esse outro poeta. E que olha com carinho as palavras que nascem de outros poetas, e que acolhe as pinturas e as músicas e as mulheres e o desejo forte - e, depois, os transforma em poemas que contam histórias e soam como uma toada que já existisse antes de nascer.

Está também aqui, esse poeta, irónico, galante.

Das palavras destes e de outros poetas me alimento eu que aqui estou nesta noite quieta e boa depois de ter caminhado rente ao rio, aspirando a maresia e a cor quente das tardes sobre as paredes.

Junto a mim seguia a minha sombra e a sombra daquele cuja vida se misturou com a minha.


O afecto impresso nas paredes que o tempo dourou


Impressos nas paredes douradas, seguíamos, eu pensando em palavras que traduzam o que vejo - os abraços dos casais que se descobrem, os barcos que, lentos, em silêncio, deslizam no rio, o sol que mergulha no meio de chamas, a ponte que parece um rendilhado sobre o horizonte, a fantástica gaivota que se eleva e cruza o espaço como uma deusa alada - ele, ouvindo-me, esperando por mim, uma boa companhia, um permanente abraço. 

Afectos e palavras, cor e silêncio, luz e voos livres. 

Assim é a minha vida, uma vida leve, habitada pelas palavras que os poetas soltam no espaço e que voam, luminosas, livres, sobre os rios, que voam, cheias de cor e afecto através dos céus, que se aconchegam, bondosas e em silêncio, quando o meu amor me dá a sua mão.



[Abaixo da gaivota que voa como uma deusa, está o poema de Vasco Graça Moura sobre Eugénio e, a seguir, mais uma grande interpretação de Chick Corea, desta vez com Keith Jarrett tocando Mozart]


Gaivota voando sobre o Tejo, com a ponte 25 de Abril em fundo




                                      sei de pintores que se inquietavam por
                                      pressentirem uma relação entre a cor e a palavra.
                                      era nos anos sessenta em s. lázaro, quando
                                      a luz entardecia, muita gente se afadigava no

                                      lento regresso a casa, as aves recolhiam e
                                      eles sabiam que havia alguém para falar
                                      das águas e das luas e da sombra
                                      das cores, dos gestos entre as hastes e os farrapos

                                      do silêncio. seria à mesa do café, numa
                                      sala cheia de livros, num vão de escada a caminho
                                      do atelier que lhe propunham essa
                                      revisita das fontes, das perturbadas melancolias

                                      que ele havia de dizer por palavras no papel.
                                      mostravam-lhe os trabalhos, esperando as
                                      justas perífrases, os ritmos em que haviam de rever
                                      a sua fome do real nas artes da pintura.

                                      era o cruzar das solidões comovidas: tudo
                                      seria reescrito, portuense, partilhado
                                      com uma densa, irisada exactidão, lá onde
                                      umas pétalas da música começam

                                      a partir de uma cor ou de um murmúrio,
                                      de um rosto ou de uma nuvem,
                                      de uma explosão do sol, de uma agonia.
                                      era nos anos sessenta, era em s. lázaro.




['eugénio e os pintores' de Vasco Graça Moura in 'visto da margem sul do rio o porto', uma antologia poética com fotografias de Maria Manuela Graça Moura e aguarelas de António Cruz - um belo livro, vos digo eu]

*


Encontrar,
encontraste Poeta
a luz exacta das palavras
o vento, a brisa lenta
rente
à voz dorida
das sílabas anunciadas.
Em ti
o rigor branco da cal
um olhar eterno de uma Mãe
que nas crianças se prolonga.
Em ti, agora,
o amor liberto da carne
a sombra do tempo que se repousa
na folhagem branda
das árvores que olham o mar.


['A eugénio de Andrade' de Joaquim Castilho no comentário abaixo]


16 abril, 2013

Nas cidades do sul há violência e há excesso


Há lugares onde os rios são dóceis. Passam, citadinos, sossegados, entre margens maquilhadas. Por ele descem frágeis barcos e são frágeis porque podem ser frágeis, porque os rios são inofensivos, quase inertes, cansados. 

Nas cidades do norte os rios que passam a meio das cidades são rios estreitos, pacíficos. Civilizados, claro. Nunca se exaltam, não ultrapassam as margens, não arrancam árvores à passagem, não devoram frutos, não carregam restos de vida no seu ventre.

Aqui, no sul, é o que se vê: uns dias o rio traz árvores inteiras, outras traz frutos, outros traz pedras, tijolos, restos de casas, restos de carros. Um desatino, estes rios das cidades do sul.

Aqui no sul há um rio como este, ágil, voluntarioso, que desliza e salta indómito, uns dias azul, outras verde, outras chumbo, e corre, ligeiro, a misturar-se no mar. Por isso, aqui o rio é salgado, cheira a maresia, tem algas, tem mexilhões agarrados às colunas do cais, tem limos verdes, e tem grandes cargueiros e suaves veleiros e pequenos barquinhos e pobres pescadores. E por ele saíram navegadores que desafiaram monstros, que descobriram mundos. Loucos, valentes.

Um rio excessivo, violento, vibrante, carregado de vida, este.

Este, tal como outros rios das cidades do sul, fala muitas línguas: fala português, espanhol, italiano, grego, cipriota. Um rio que uns dias está cheio de sol, inundado de luz, outras tolda-se perante uma chuva pesada, outras salta levado pelo vento. Sempre o mesmo, irrequieto, volúvel, irreflectido. Dizem. 

Não sabem o que dizem.

Não é o mesmo. São águas que nascem do fundo da terra e, por isso, são outras, sempre outras, correm diferentes, estrangeiras, nativas, o que for. Inocentes, puras, fortes, vigorosas estas águas. Sempre dispostas a irem correr à procura de mundos novos.

Que nenhuma apagada figura do norte sombrio venha pretender parar estas águas felizes que aqui correm no sul. As águas vibrantes do sul jamais se deixarão prender entre margens soturnas, tristes.

Porque aqui há corações que não se vendem, há braços cheios de força, há colunas direitas, corpos inteiros. 

E há poetas que inventam palavras cheias de luz e há gaivotas passeando entre os escombros, entre as marés, indiferentes à espuma dos dias. Séculos de história não se apagam facilmente, pensa a gaivota. E penso eu também, mas eu, é sabido, sou meio gaivota.



[Abaixo do belo poema de Luiza Neto Jorge, uma mulher pássaro, poderemos ouvir, uma vez mais, uma menina maravilhosa, Yuja Wang, desta vez numa virtuosa interpretação de Rachmaninov]


Gaivota na beira do tejo, numa das pequenas praias do Ginjal



                                                   Nas cidades do sul
                                                   há violência e há excesso,
                                                   de semente.
                                                   Estalam os rios e foge a água.
                                                   O corpo, encortiçado, racha.

                                                   Lendas vêm de há séculos assoreando
                                                   as margens.
                                                   E quando à boca de um poço vamos
                                                   provar o nosso eco,
                                                   águas puras irrompem,
                                                   noutra língua.


                                                   [Poema da pág 259 de Luiza Neto Jorge in 'poesia']

*


O RIO ONDE


Rio, mar aconchegado
braço longo de água silenciosa
onde as distâncias se repousam
e repousa também o meu olhar cansado 
sem medo, sem angústia
na água que de si mesma se esquece
caminhando, caminhando sempre
para algum mar.
Tapete de Sol, 
onde barcos lentos deslizam, 
sem pressa de chegar. 
Espelho aberto, onde o dia se reflete, 
corredor que corre sem correr, 
que não se atarda, olhando as margens,
que continua 
mesmo quando 
não tem vontade de continuar.


[De Joaquim Castilho num comentário aqui abaixo]



14 março, 2013

e a cabeça nua entra já na noite tempestuosa


E se deixo cair o corpo para um dos lados é apenas para melhor sentir o vento. Ah o que eu gosto de vento. E se fecho os olhos é apenas para melhor imaginar o rio ou, então, porque o vento sopra forte ou porque quero pensar que está um anjo de grandes asas a passar rente a mim.

Não chames por mim. Escondo-me. Gosto de me esconder. Passo por trás da árvore, danço em volta, deixo-me ir. E os ramos nus não me tapam e tu vês-me mas eu não me importo. Finjo que não te vejo, finjo que não me vês. Por isso não me chames, não digas nada, quero sentir o silêncio e pensar que sou transparente.

Olho o rio lá em baixo, agitado, verde com laivos de espuma branca, e eu cá em cima, livre, deslizando nos vastos céus, escondendo-me, que não me sigas menino, e rodopio, e subo e depois deixo-me cair, ao sabor do vento, e lá estás tu, olhando-me, mas para que me olhas, menino? pois não sabes que quero fingir que não estás aí? não me catives, não me catives, menino.

Mas tu danças também em volta da árvore, menino, menino! que queres de mim, menino? e, o vento agiganta-se, e os raios atravessam o horizonte, e a chuva cai, e a noite desce e eu, então, procuro abrigo e aproximo-me, ai menino que me perdes..., e volteio e aproximo-me mais e mais e já não me escondo e desço, ai menino, menino, porque me seduzes tu? e o abrigo que eu procuro és tu e fecho as minhas asas em torno do teu corpo ardente e desço a minha cabeça sobre o teu ombro doce e deixo cair a máscara e, nua, nua, deixo que me deites por terra, sobre a terra macia e molhada, sobre as raízes, e deixo que deixes em mim a tua semente.

Ai menino, ai menino.



[Depois de mais um belo poema de Manuel Gusmão - e que encantada ando com este poeta - temos mais uma grande interpretação, desta vez a cargo de uma extraordinária Martha Argerich com Mischa Maisky que tocam Grieg]


Gaivota por trás de uma árvore nua no Ginjal



                                               O mar em listas esbranquiçadas ondeia-te
                                               o tronco, os ombros, o queixo e a boca.
                                               Sucede-lhe uma mascarilha acobreada
                                               e a cabeça nua entra já na noite tempestuosa,
                                               sobe e atinge os seus cumes nevados.

                                               Deitado em equilíbrio sobre a cabeça um galho
                                               em que se nota ainda a zona em que foi quebrado
                                               Deixa tombar à esquerda e à direita uma série de vagens
                                               secas e cada vez mais castanhas

                                               da direita para a esquerda.



['A pintura corpo a corpo . os corpos da pintura; pintores pintado. #21' de Manuel Gusmão in 'Pequeno tratado das figuras']


20 fevereiro, 2013

Um vento levantou-se das mãos do ocaso


Se eu invento névoas, ventos, penumbras, búzios que guardam a música dos mares porque haveria alguém de me calar?

Saio das ruínas, atravesso janelas inexistentes e desloco-me sem peso, leve, silenciosa como uma palavra caída de um poema.

Atravesso paredes maceradas, ignoro os apaixonados que se escondem nos desvãos de escadas que não levam a lado nenhum, e roço ao de leve os olhos molhados dos gatos que bebem o azul dos rios. 

Cruzo as águas, abro as minhas asas, suplico luzes no olhar daquele me olha com o seu frio olhar de pedra, atravesso as nuvens, as névoas, sobrevoo as árvores nuas.

Ninguém.

Onde a memória dos que por aqui desfiavam poemas, onde a saudade dos que por aqui soltavam palavras no ar?

O céu rasga-se e descobre uma faixa de azul muito puro, uma gaivota olha a cidade e espera o vento e eu por aqui, em silêncio, tanto silêncio, tanto. O mundo caíu num pesado silêncio, tão pesado, tanto silêncio, tão silenciosa a queda. 

O vento anuncia-se, as aves recolhem-se, sabem como o vento pode ser cruel, a mancha de azul estreita-se, e eu tenho vontade de me enrolar nas árvores, de me cobrir de palavras e, em silêncio, sempre em silêncio, espero que o vento me traga os deuses, as casas, os viajantes, a vontade de voar. O vento, o vento, esse voar lento.



[Abaixo do céu em que o azul quase se ocultou, um belo poema de Nuno Júdice e, logo abaixo, mais uma maravilhosa interpretação de Yo-Yo Ma, agora com Bach, talvez a voz de Deus.]


Num dia de névoa no Ginjal, Lisboa sob uma luminosidade coada


                                        Um vento levantou-se das mãos do ocaso,
                                        atravessou as ruas com o seu passo lento,
                                        fez descer os panos das cordas onde os deuses
                                        os tinham pendurado, e entrou nas casas,
                                        arrombando as janelas com o seu pulso
                                        ferido. Segui a nuvem vermelha que
                                        o anunciara; e colhi as aves exaustas
                                        da árvore do crepúsculo, enchendo
                                        com elas os sacos da memória. Mas
                                        o viajante que encontrei à entrada
                                        da cidade perguntou-me para que
                                        os queria; e quando lhe dei esses sacos
                                        sangrentos pô-los às costas, seguindo
                                        o seu caminho, até desaparecer
                                        do outro lado do horizonte. E
                                        o vento foi atrás dele, perseguindo
                                        o seu canto, e deixando nas ruas
                                        o silêncio de um mundo imóvel.


                                        ['Vento' de Nuno Júdice in 'Fórmulas de uma luz inexplicável']

03 fevereiro, 2013

Como entrar num quarto que pintámos de amarelo e encontrá-lo desse azul a que os ingleses chamam blue


O amarelo nos espaços, dizem, estimula o companheirismo, o trabalho de equipa. Alguém nos disse, vendo-nos sempre tão indiferentes, pintem o quarto de amarelo. E nós, estando por tudo, e não nos interessando por nada, assim o fizemos. 

Eu queria amarelo da cor do sol e tu, mais moderado, quiseste amarelo da cor do mel. Aceitei, tanto me fazia. Procuraria o sol noutro lado.

Dizias, talvez o mel das paredes escorra para o teu coração, para os teus lábios. Deixa que eu os beije e sinta a doçura que já não vejo nos teus olhos - como eram antes, lembras-te?

Encolhi os ombros. Está bem.

Mas eu não tinha mel no coração pelo que também não o encontraste nos meus lábios. E eu dizia-te, devíamos ter pintado as paredes da cor do sol para ver se as sombras param de invadir este nosso espaço. Encolhias os ombros, para quê a luz dentro de casa? Se a queres, procura-a na rua. E eu procurei.

Hoje, tanto tempo depois, voltámos lá. Não se deve voltar ao lugar onde já fomos felizes, parafraseaste. Não sei se fomos muito felizes naquele quarto, corrigi.

Mas voltámos.

Já não estava amarelo. Alguém o tinha pintado de azul. Um poeta e a sua amante viviam agora intensas paixões naquele quarto azul. Abriste a janela. Entrou uma aragem que cheirava a maresia e, no silêncio daquele quarto, uma música de prata vinda dum móbil suspenso do tecto, percorreu-me os sentidos.

Vamo-nos embora, disse-te; quis logo sair dali, fugir. Olhaste à volta, parecias procurar qualquer coisa. Há aqui qualquer coisa, disseste. 

Puxei-te para fora.  E afastei-me apressadamente.

Não te disse que aquele lugar há muito que tinha deixado de ser teu. Não te disse que é neste quarto azul com cheiro a mar, com a música de prata, leve, muito leve, afagando a minha pele que agora ouço palavras de amor da boca de um poeta.



[Abaixo da gaivota que hesita entre o amarelo e o azul, um poema de Soledade Santos, uma poetisa de cuja poesia muito gosto. A seguir, no ciclo dos Grandes Intérpretes, Sviatoslav Richter, pianista. Começa com Schubert. Uma maravilha.]


Gaivota, numa manhã muito fria, no Ginjal: o Tejo muito, muito azul



                                          Como entrar num quarto
                                          que pintámos de amarelo e encontrá-lo desse azul
                                          a que os ingleses chamam blue

                                          E suspenso do tecto
                                          em silêncios de prata um móbil
                                          no espaço quieto.


                                          [Blue de Soledade Santos in 'Sob os teus pés a terra']