Ginjal e Lisboa

Ginjal e Lisboa
Mostrar mensagens com a etiqueta Sinfonia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sinfonia. Mostrar todas as mensagens

21 janeiro, 2014

Ser um sinal lançado ao acaso na noite


Se o meu tempo é tão escasso porque me detenho aqui deixando palavras soltas na noite, nos incertos dias, escrevendo não me perguntem para quem?

Sei que, de vez em quando, pessoas invisíveis passam por esta minha casa, e, já que a porta está sempre aberta, entram, sobem as escadas e sei que espreitam o rio, sinto a sua presença silenciosa ao meu lado quando me ponho à janela. Não digo nada, não quero que se vão, e deixo-me ficar, também eu invisível, imóvel, agradecida.

Virão de longe, talvez, talvez do outro lado do mar, do outro lado do mundo. Não me dizem nada e eu, aqui calada, temo que algum dia deixem de vir, que me esqueçam, ou que algum dia eu, sem querer, os tenha magoado e que, magoados, deixem de falar comigo. Se algum dia isso aconteceu mil desculpas peço, foi sem querer, foi sem querer, foi sem querer.

É curto o meu tempo. Curto. Passa a voar. E eu, que tenho tantos sonhos, sinto que devo apressar-me. 

Misturo-me com as flores querendo sentir o que sentem as flores, olho longamente os movimentos das gaivotas, tento sentir o que sentem quando voam, passo a mão pelas pedras molhadas, cobertas de limos macios, quero sentir o que sente a pedra quando banhada pelo rio e quero sentir o que sente o rio quando acaricia as pedras macias que encontra pelo caminho.

Leio mil livros, mil, mil, muitas mil palavras, querendo sentir a alucinação afortunada que sentem as palavras que encontram o seu destino, querendo sentir o que sentem as palavras quando se misturam com o olhar de quem as lê ou com a respiração de quem as diz, em silêncio. E quero ser a luz, a luz infinita que cruza as imensas trevas.

E tenho tão pouco tempo para ser e sentir tudo isto. 


Pilar da Ponte 25 de Abril parecendo flutuar no céu num dia de névoa e frio
(avistado do Ginjal)


[Na despedida de Claudio Abbado]



Sinfonia nr. 5 - Adagietto de Mahler - conduzida por Claudio Abbado


                                                                      

                                                                      Sondar
                                                                      a linguagem das trevas
                                                                      dormir
                                                                      na neve dos limites
                                                                      atravessar
                                                                      flores distraídas

                                                                      Decifrar
                                                                      numa pedra fria
                                                                      letras a arder
                                                                      entrar
                                                                      em comboios remotos
                                                                      no olho gigante
                                                                      das estações do fim do mundo

                                                                      Ser
                                                                      um sinal
                                                                      lançado ao acaso na noite
                                                                      deixar 
                                                                      noutra boca
                                                                      o gosto de uma ausência

                                                                      Temos tão pouco tempo
                                                                       tão pouco sonho
                                                                       tão pouco



['Tão pouco' de Ernesto Sampaio in Feriados Nacionais]


*


Sem fôlego
De mais versos
Tolhem-se-me
Os poemas,
Palavras brumas
Murmúrios
Silêncios ocos
Nos intervalos vazios 

Do meu tempo.



['O tempo ... e tão pouco' de Joaquim Castilho num comentário aqui abaixo]



24 novembro, 2011

MÚSICA NO GINJAL - Sinfonia

  
SYMPHONIE nr.2   Urlicht
(Gustav Mahler 1860-1911)





As sinfonias de Mahler terão sido, segundo algumas opiniões, escritas quando a sinfonia, como género e modo, deveria ter já desaparecido. Para mim mas por outro lado, Mahler é de facto o último grande sinfonista, de acordo com o que a partir da segunda metade do séc XVIII passa a entender-se por sinfonia - um arranjo orquestral autónomo, com uma narrativa subjacente de natureza descritiva ou referencial; por outras palavras, uma 'aventura musical' de carácter mais ou menos dramático que, com o tempo, passa a incluir a intervenção de instrumentos solistas e depois, de partes para vozes solistas ou mesmo para grandes corais. 
A Sinfonia nº2 (Auferstehung) -Ressurreição- de Gustav Mahler, é disto exemplo, não só pela pureza da concepção, como pela dramaticidade do discurso musical que neste compositor nunca se desliga das raízes fundadoras da moderna música erudita europeia - Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert e Bruckner.
A Sinfonia nº2, em cinco andamentos -Totenfeier; Ländler; In ruhig fliessender Bewegung; Urlicht; Im Tempo des Scherzos- foi a preferida de Mahler mas, também dele, as minhas preferidas são as de número ímpar, sendo esta a grande excepção.

_____________


______________

23 novembro, 2011

MÚSICA NO GINJAL - Sinfonia

   
ШЕХЕРАЗАДА СЮИТА (SUITE XERAZADE) 
Рассказ царевича Календера (A história do príncipe Kalender)
(Nicolai Rimskiî-Korsakov 1844-1908)





Os músicos são contadores de histórias e deleitam-se com as histórias que a música conta. Consta que Bernstein, um dia perguntou, antes de começar um ensaio da Filarmónica de New York, 'Já conhecem a história que se conta nesta música?'.
'As mil e uma noites' é a história das histórias e seria difícil que não tivesse aparecido quem a quisesse contar em música; será o que terá levado Rimskiî-Korsakov a escrever esta Suite Sinfónica em que se descrevem as artes usadas por uma das mulheres do sultão -Xerazade- para escapar de morte certa, devido à traição perpetrada por uma das concubinas do harém. O sultão ao tomar conhecimento da traição, decidiu ficar uma noite com cada mulher e mandá-las matar, uma a uma, na manhã seguinte. Quando chegou a vez de Xerazade, ela propõe-se contar uma história de encantar; o sultão acedeu, movido pela curiosidade e assim ficou, noite após noite, ouvindo enfeitiçado as intermináveis aventuras e peripécias com que ela o deslumbrava e acabando, ao fim de 1001 noites, por perdoar a todos e casar com ela.
A peça, com quatro andamentos - O mar e o navio de Sindbad; O príncipe Kalender; O jovem príncipe e a jovem princesa; Festival em Bagdad- foi estreada em 1888, com direcção de orquestra do autor e veio ainda, mais tarde, em 1910, a ser adaptada à dança pelos Ballets Russes, de Serguei Diaguilev, com coreografia de Mikhaíl Fokine.

_____________

OBRA COMPLETA AQUI 

_____________

22 novembro, 2011

MÚSICA NO GINJAL - Sinfonia

  
SYMPHONIE Nr.7   Scherzo
(Anton Bruckner 1824-1896)



Esta Sinfonia nº7 tem também uma história rocambolesca; há dela duas versões muito próximas no tempo: a primeira, terminada em Agosto de 1883 mas estreada em Leipzig apenas em 30 de Dezembro de 1884 e a segunda, definitiva, de 1885 e resultado de uma revisão decidida pelo compositor, com algumas influências determinantes de outros músicos, envolvendo trocas de instrumentos e alterações de tempo. Da primeira versão, existe o manuscrito original mas perdeu-se a cópia; ora, as alterações que deram origem à versão definitiva, a segunda, tinham sido feitas sobre esta cópia que se perdeu; nela foram apagados alguns trechos e outros adicionados, tendo sido também apostos comentários vários, de diferentes pessoas. Daqui resulta que as cópias publicadas a partir de então e que dão suporte à versão que hoje conhecemos, são livres interpretações do manuscrito original, perturbado por estas inúmeras intervenções de vários autores. Numa demonstração da autonomia da obra em relação ao autor, nada disto prejudica a fruição da fina harmonia e elevada complexidade desta sinfonia.
 
_____________

  

_____________

   

21 novembro, 2011

MÚSICA NO GINJAL - Sinfonia

  
SYMPHONIE nr.4   Romanze
 (Robert Schumann 1810-1856)





Schumann compôs esta Sinfonia em Setembro de 1841, com o nº 2 de ordem de criação; não tendo autorizado que fosse publicada, procedeu depois a grandes mudanças, tanto no que se refere à forma como à orquestração e dez anos mais tarde estreou-a em Dusseldorf, dirigindo ele próprio a orquestra. A revisão que Schumann fez da inicial 'Sinfonia em Ré menor' foi profunda e a obra, destinada a uma orquestra composta por 2 flautas, 2 oboés, 2 clarinetes, 2 fagotes, 4 trompas, 2 trompetes, 3 trombones, timpanos e cordas, foi finalmente publicada no ano seguinte, em 1853 e uma vez que tinham já sido editadas as três outras por ele compostas, esta recebeu agora o nº4 (Opus 120). A transformação do trabalho original não teve o acordo de toda a gente e Brahms, um perfeccionista fortemente crítico e amigo do compositor, sempre se lhe opôs, sublinhando a superioridade da versão original e de tal modo estava disso convicto que veio a publicá-la em 1880, depois da morte do amigo e sob veemente protesto de Clara Schumann, ela própria compositora e pianista distinta, com quem Brahms trabalhou e manteve durante anos uma relação muito próxima.

_____________

  OBRA COMPLETA AQUI

______________

20 novembro, 2011

MÚSICA NO GINJAL - Sinfonia

 
SYMPHONIE FANTASTIQUE   Un bal
 (Hector Berlioz 1803-1869)



 
Première partie - Rêveries, passions
L’auteur suppose qu’un jeune musicien voit pour la première fois une femme qui réunit tous les charmes de l’être idéal que rêvait son imagination, et en devient éperdument épris. Par une singulière bizarrerie, l’image chérie ne se présente jamais à l’esprit de l’artiste que liée à une pensée musicale. Ce reflet mélodique avec son modèle le poursuit sans cesse comme une double idée fixe. Le passage de cet état de rêverie mélancolique, interrompue par quelques accès de joie sans sujet, à celui d’une passion délirante, avec ses mouvements de fureur, de jalousie, ses retours de tendresse, est le sujet du premier morceau.
Deuxième partie - Un bal
L’artiste est placé dans les circonstances de la vie les plus diverses mais partout, à la ville, aux champs, l’image chérie vient se présenter à lui et jeter le trouble dans son âme.
Troisième partie - Scène aux champs
Se trouvant un soir à la campagne, il entend un duo pastoral, le léger bruissement des arbres agités par le vent, quelques motifs d’espérance qu’il a conçus depuis peu, tout concourt à rendre à son cœur un calme inaccoutumé. Il espère n’être bientôt plus seul. Mais si elle le trompait! Ce mélange d’espoir et de crainte, ces idées de bonheur sont troublées par quelques noirs pressentiments.
Quatrième partie - Marche au supplice
Ayant acquis la certitude que son amour est méconnu, l’artiste s’empoisonne avec de l’opium; il plonge dans un sommeil accompagné des plus étranges visions. Il rêve qu’il a tué celle qu’il aimait, qu’il est condamné et qu’il assiste à sa propre exécution. Le cortège s’avance aux sons d’une marche tantôt sombre et farouche, tantôt brillante et solennelle, dans laquelle un bruit sourd de pas graves succède sans transition aux éclats les plus bruyants.
Cinquième partie - Songe d’une nuit du Sabbat
Il se voit au sabbat, au milieu d’une troupe affreuse d’ombres, de sorciers, de monstres, réunis pous ses funérailles. Bruits étranges, gémissements, éclats de rire et cris lointains. La mélodie a perdu son caractère de noblesse et de timidité; ce n’est plus qu’un air de danse ignoble, trivial et grotesque; c’est elle qui vient au sabbat. Elle se mêle à l’orgie diabolique.

(extracto adaptado das notas elaboradas por Berlioz, destinadas a ser distribuídas como programa dos concertos)

_____________



_____________