Ginjal e Lisboa

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21 dezembro, 2015

Ah, eu sei agora que é magia





Olhou-me nos olhos como se me inquirisse. Dócil, eu, aproximei-me, devagar. Continuou a olhar-me. Baixei-me, tentei perceber. Olhava-me como se me quisesse dominar, como se me quisesse fazer sentir que tinha que ser eu a ceder. E eu ali, em silêncio, disposta a todos os olhares.

Então desviou os olhos. Olhei-o bem de frente, eu já quase de joelhos, que me olhasse, bchhh, bchhh, bichinho, bchhh, bchhhh, bichinho lindo... Nada. Olha, olha para mim, bchhh, olha, bichinho, bchhhh. Nada.

Não insisti. Tenho o meu orgulho. Não queres, não queiras. 

Mais à frente ainda pensei voltar-me para trás, ver se me seguia, se queria, afinal, a minha companhia. Mas não o fiz. Orgulho, esse grande inimigo dos acasos. Segui o meu caminho.

Dia de gaivotas pensando na vida, contemplando o mundo, dia de gatos sob as árvores, trepando aos muros, deslizando entre sombras. Dia de veleiros brancos, vermelhos, deslizando no azul, entre árvores. Dia de deslumbramentos.


E eu vou caminhando. A terra está macia, a relva está verde, o rio corre azul, o céu abre-se para receber aqueles que querem sentir a serenidade das nuvens que correm devagar ou dos amantes que se abraçam rente às águas, abençoados por quem passa.

Não sei ainda onde me levam os meus passos. Não sei como vim aqui parar. Não sou daqui. Que raízes são estas que se estendem até ao mar? Que asas são estas que se levantam para me levar a voar? Que amor é este que sinto por tudo? 
Pelas palavras, pelas águas, pelos céus, pelos pássaros, pelos barcos, pelos gatos, pelas paredes, pelos olhares recordados, pelos sorrisos imaginados, por quem o meu coração bate, por quem o meu coração aconchega. 
Um amor assim não tem explicação. Parece ilimitado, parece intemporal. E é inocente, alegre, livre. 

E eu caminho, sem explicações, como se fosse uma gata, uma gata deslizando sobre o azul, como se me nascessem asas, como se pudesse ir para o alto, para lá de onde se vêem as belas cidades, os pequenos homens, para lá onde as angústias perdem o motivo, onde os medos são injustificados, lá onde as saudades aumentam, aumentam tanto, lá onde me sinto tão longe, tão perto, tão livre, tão ilimitada, tão tua.

Não sei explicar, não sei mesmo. Mas dizem-me que é  magia, que é imagiação a explicação -- e eu acredito porque é bom acreditar no que não tem explicação.


Ah, eu sei agora que é magia,
que é imagiação a explicação
disto de estar aqui e não ali,
de vir aqui parar,
de vir aqui andar
e ter um chão onde os meus passos
de gazela insegura
se aventuram no escuro.
Eu sei agora algumas coisas
que explicam o que nada poderia explicar,
e o que não sei ainda
irei imaginá-lo numa não sei que paz
que é imagiação.

....

Fiz as fotografias este fim-de-semana no Ginjal.
O poema é 'Ela', poema 33, de Um Teatro às Escuras de Pedro Tamen.
Barenboim interpreta de Bach: Goldberg Variations - Aria
..

03 outubro, 2013

Devolve-me esse corpo


O teu olhar pousa nas águas sem saber quanto desejo que pousasse antes em mim. Olhas o rio e o teu olhar navega e é veleiro e é pássaro e é nuvem. Não sabes que estou aqui olhando o teu corpo e querendo que me vejas, que o teu corpo se abra para mim. 

Em silêncio espreito-te, em silêncio, que medo que me vejas, que te zangues, que te assustes, que me aches ridículo. Mas talvez não. Talvez me queiras. Talvez me chames, talvez queiras que te abrace. Tanto que eu o desejo.

Vejo-te entre as árvores, um corpo pousado entre as árvores e nem vou dizer que és uma flor ou um pássaro ou um gato, nem quero que saibas que tenho pensamentos tão inocentes. 

Levanta-se uma aragem, as folhas agitam-se, escondo-me mais, tenho medo que espreites, que me vejas. Fecho os olhos, quase não respiro. 

E, então, quase como se sonhasse, penso que te estou a ver dourada pelo sol, tão serena. Terei eu alguma vez esse corpo tão intangível? Ter-te-ei alguma vez nos meus braços e eu navegando dentro de ti? 

Depois ouço um bater de asas, o grito livre de um pássaro. Abro os olhos.

O meu coração pára: já lá não estás. 

Voaste. E nunca saberás que, entre as árvores, em silêncio, coração exangue nas mãos, um amante inventado para sempre ficará a sonhar com o teu corpo distante.



[Abaixo da mulher pousada junto ao rio, mais um poema de Pedro Tamen. E, logo a seguir, Bach pela mão de um grande intérprete, Keith Jarrett]





                                               Devolve-me esse corpo.
                                               Esse que não tive, que não tenho
                                               mais que no fugaz olhar
                                               por cima do meu ombro
                                               porém não para trás

                                               Devolve-me o que não é meu
                                               nem nunca será meu,
                                               tal como o pássaro
                                               que por lá fora canta
                                               fora da minha mão,
                                               fora do meu corpo.

                                               Devolve-me esse pássaro
                                               e poisa nesse ramo
                                               que o meu olhar alcança.



                                               [Poema 44 de Pedro Tamen in Rua de Nenhures]

09 maio, 2013

Chego enfim à líquida presença do coração sonhado


Ando pela cidade, percorro as estreitas ruas, piso as pedras da calçada, sigo o teu rasto.

Becos, vielas, muralhas, pátios e eu procurando, aspirando o ar, para ver se encontro o teu perfume, o meu nome escrito numa parede, o meu coração sangrando por ti, vestígios do teu amor por mim. Não, nada.

Mais à frente, um banco de jardim, talvez lá estejas. Mas não. Olho em volta. Nada. 

Mas eis que, de repente, começo a ver que o céu se alarga. E vejo, à frente, flores do campo, inocentes como meninas numa roda. E as meninas louras dançam ao vento e delas vem um perfume que se mistura com a maresia que sobe do rio muito azul que corre lá em baixo.

Sorrio. É então aqui que estarás, menina alegre, noiva coroada de flores, no meio das espigas neste dia da ascenção, é aqui que estás, envolta em luz.

Apresso o passo, chamo por ti. Mas não me respondes.

Olho. Levanto o meu olhar na direcção da luz doce, perfumada, suave.

E, então, vejo-te, voando sobre o rio, branca, longas asas, aberta como uma bandeira de alegria. Vens, voas na minha direcção, deslizas, e sorris, rendida, feliz.

Sonho? É o meu coração que sonha?



[Abaixo das flores do campo voando sobre o rio, poderão ver mais um belo poema de um Poeta que aqui tem assento especial, Pedro Tamen. Logo abaixo, Ali Farka Touré chega com o seu encantamento luminoso. É Dia de Espiga.]


Na Boca do Vento sobre o Ginjal, de frente para Lisboa, o Tejo pelo meio



                                                 Entro na floresta, sigo por entre
                                                 os ramos, vou pelos caminhos
                                                 que tu própria me indicas,
                                                 e chego enfim à líquida presença
                                                 do coração sonhado:
                                                                                      rendo-me
                                                 na tua rendição, e a bandeira
                                                 é branca de alegria.



                                                 [Poema 12 de Pedro Tamen in Rua de Nenhures]

***



Escrever
O teu rosto
A sombra exacta dos teus seios
A dimensão líquida da tua pele
Na planície branca
Do meu poema.
Mar de palavras
Sempre desfeito 
Pelo ruído desajeitado
Da minha sede.



[Poema de Joaquim Castilho em comentário aqui abaixo]


10 abril, 2013

Cantas. E o universo é uno, é uno neste verso.


Uma casa cheia de flores, uma inocente galinha no parapeito, cestas douradas, objectos coloridos, perfume no ar, uma alegria quase infantil.

Nos vidros das montras reflectem-se as janelas das casas da frente, e é como se toda a rua estivesse também ali. E misturada com as flores, com as cores, com as janelas das outras casas, com os perfumes, estás tu.

Ouço a tua voz que, distraída, trauteia, imagino o teu sorriso, e sei que, nesse momento, és o centro do universo, o centro do meu mundo, és o meu próprio coração apaixondao.

Não te vires, não vejas o tonto que sou, imóvel, olhando um mundo quase perfeito, olhando o fruto do meu amor, pedindo que o momento não se desfaça, que a fantasia não de desvaneça.

Não te vires. Não quero que te rias, velho poeta tonto, porque me idealizas assim, porque vês perfeição numa mulher tão imperfeita? Deixa-te estar assim, mulher inventada, mulher perfumada, habitando um espaço cheio de flores e sonhos.

Não te vires, não te rias, canta essa melodia quase silenciosa, e deixa-me sonhar contigo, mulher cheia de luz, entrando nesse espaço feito de palavras, música e estrelas.



[Pedro Tamen está de novo aqui. Pudesse eu e o Ginjal seria também a sua casa. Abaixo do seu belo poema, poderemos maravilhar-nos com uma outra grande interpretação de Uri Caine, um belo homem a quem a música corre nas veias]


Florista na Rua do Alecrim



                                                  Cantas. Não sei bem onde,
                                                  mas atravessas as paredes da casa
                                                  e do coração. O amor indetectado
                                                  lança notas de música da terra
                                                  - não a das estrelas, que não há.

                                                  Cantas. E o universo é uno,
                                                  é uno neste verso.


                                                   [Poema 2 de Pedro Tamen in Rua de Nenhures]


01 abril, 2013

Às apalpadelas toco o rasto do caminho que nunca percorri


Fecho os olhos. Estou na cama, deitado, braços estendidos ao longo do corpo. Nenhuma luz. Silêncio, escuridão, a cama fria.

Começo, então, a recordar o dia. 

Atravessei o rio. O Tejo bravio, arisco, o ar frio, chuva e vento. Mas eis que, a meio da travessia, a chuva parou e o sol iluminou as duas margens. O céu quase azul, o rio quase azul. Um bom sinal, que bom.

O coração inquieta-se, não o confesso a ti, mas, agora, aqui deitado, confesso às sombras.

O cacilheiro encosta, salta, inquieto como eu, range, é o rio intranquilo. Intranquilo eu também. Saio. Vou na tua direcção. Junto ao farol, o nosso destino clandestino.

É para lá que me dirijo, cabeça baixa, nervoso como um adolescente.

Quando ganho coragem e olho, vejo a luz que vem de lá: és tu. Dos teus olhos iluminados e belos solta-se a alegria, bem o vejo. Meu amor. Abraças-me, abraço-te, meu amor. 

Dizes-me. Que saudades. Digo-te. Vem comigo. Mas não vens, ainda não podes, eu sei. Eu espero. Sentamo-nos abrigados pelo farol como se ele fosse o nosso templo protector ou a nossa casa, olhamos o rio, a cidade, olhamos o tempo que ainda não é o nosso. Por vezes alguma tristeza leva-me a baixar os olhos mas logo a tua mão me acarinha. Meu amor.

Por isso, regressei sozinho, todos os dias regresso sozinho, o coração tranquilo, um calor doce a correr-me nas veias.

De olhos fechados, agora que anoiteceu e me deitei, revejo o farol, revejo a alegria dos teus olhos luminosos, sinto ainda o calor do teu abraço. Meu amor. Vou esperar por ti o tempo que for preciso. Vou esperar por ti toda a minha vida se necessário for. Até lá, os meus braços pacientes procuram o rasto de ti nesta cama onde nunca te deitaste. Sei que um dia vais estar aqui comigo e juntos percorreremos todos os rios deste mundo.



[Pedro Tamen é um dos poetas que mais frequentemente me visita aqui no Ginjal. Abaixo do seu belo poema, mais uma grande interpretação, desta vez no oboé. É Henrik Chaim Goldschmidt interpretando Ennio Morricone.]


Lisboa e o Tejo vistos do farol de Cacilhas


                                            Atravesso o rio
                                            e entre as árvores clareia
                                            a luz inimitável dos teus olhos.
                                            Quando regresso
                                            deito-me na cama e anoitece,
                                            mas o farol ainda me guia
                                            e às apalpadelas toco o rasto
                                            do caminho que nunca percorri.


                                            [Poema 11 de Pedro Tamen in Rua de Nenhures]


25 março, 2013

De branco, meu amor, e de tão branco que me desses o mundo em luz de sol


Sente a maresia, sente a frescura.

    Sinto. E tu sente esta luz suave, silenciosa.

Sinto. E já viste aquele barco? Que barco tão bonito, tão elegante, repara nos mastros, que beleza.

    Sim, já vi. Gostava de o ver com as velas içadas.

Assim também é bonito, só os mastros. 

    ...

Não digas nada. Deixa-te ficar aqui ao meu lado, só assim, ao meu lado, deixa-me sentir o calor que vem de ti, é um calor bom, cheira bem, é quentinho.

    Sim, não me mexo. Gosto tanto de estar aqui, contigo. Tanta vida nós já percorremos, os dois. Já pensaste nisso?

Já. Estás bonita, assim, iluminada. Estás mais bonita agora do que quando te conheci.

    ...

Não rias. É verdade. Linda, suave. Minha amiga.

    ...

Não rias. Encosta-te a mim, quero sentir-te.

    Vá lá, não sejas maluco, tem juízo. Chega-te para lá. 

...

    Olha que se vê.

Não vê nada. Não vês que andam todos a andar ou a correr ou a andar de bicicleta? Quem é que vai olhar para nós?

    Pára. Tem juízo.

Não páro nada. Melhor: vamos embora. Vamos para o quarto. Quero-te vestida de branco como no primeiro dia. Virgem.

    Virgem?!?

Para mim eras. Virgem, inocente, linda. Ainda és. Virgem, puríssima. Anda, vai vestir-te de branco.

    És maluco.

Pois sou. Mas como dizes que só gostas de malucos estou com sorte.

    ...

Ficas tão linda assim, a rir. Gosto tanto de te ver tão linda, tão menina, tão cheia de sol. 

    Então, vá lá, vamos. Visto o meu vestido branco...

Nada por baixo.

    Claro. Eu só disse: o vestido branco. Abro as cortinas para que o sol entre no quarto. Depois inventamos uma música e eu danço para ti, o vestido voará à minha volta. Depois, quando a música acabar, tu aproximas-te e tiras-me o vestido, o sol na minha pele. Está bem assim?

Talvez. Vamos lá tirar isso a limpo.

    ...

...



[Dia de livro novo de Pedro Tamen é dia de alegria aqui no Ginjal. E abaixo do poema retirado desse belo livro, começamos a desfrutar o som do violino de uma nova grande intérprete, Julia Fischer, hoje com Mendelssohn]


O Tejo visto do Parque das nações



                                              Quero-te de branco,
                                              ou antes, modelada
                                              nas roupas que cosesses
                                              das bonecas, nos saltos,
                                              nos baloiços, nos degraus
                                              de uma porta qualquer donde saísses.
                                              Quero-te de branco e intocada,
                                              carregada porém dos anos buliçosos
                                              e das vidas ausentes.
                                              De branco, meu amor,
                                              e de tão branco
                                              que me desses o mundo em luz de sol.


                                              ['Quero-te de branco' de Pedro Tamen in Rua de Nenhures]

23 dezembro, 2012

Não digo do Natal - digo da nata do tempo que se coalha com o frio


O domingo está a começar e eu hesito em desejar-vos já um bom Natal. É dia 23 de Dezembro, ainda faltam dois dias. E, depois, para mim, Natal é a tradição do dia em família, da troca de presentes, é a alegria e a surpresa das crianças, é a ternura dos olhares e dos sorrisos. Não há religiosidades que nos façam ter outras interpretações para este dia.

Recordo vagamente o nascimento de uma figura corajosa da história de todos os tempos e lembro que os heróis são assim, defendem os seus com a força interior que lhes permite vencer medos, dores, abandonos.

Mas, porque sei que, para a maioria das pessoas, o dia é um dia com uma importância muito especial, sinto-me no dever de desejar uns dias muito felizes, vividos com muito sentimento e alegria.

No entanto, as minhas palavras vão em especial para as pessoas para quem o Natal é um dia como todos os dias, ou um Natal vivido em solidão, ou um dia em que sentem, como um peso terrível, a ausência de sonhos e de sorrisos.

Para vocês, queridos Leitores, que não têm crianças e alegrias por perto, que gostariam de receber abraços calorosos, presentes festivos, e que, pelo contrário, têm lugares vazios à mesa, sombras, ausências, saudades, ou para os que estão doentes, para os que não encontram felicidade num dia assim, vão as minhas palavras.

Recebam, da minha parte, um abraço feito de palavras, recebam o meu carinho e a minha companhia, recebam as minhas imagens de gaivotas rodeando o rio e os homens, recebam os cânticos de crianças (abaixo) que encontrei para vos acompanhar. Entendam, por favor, estas minhas palavras como uma visita, como um abraço caloroso. Estou aqui, deste lado, pensando em vós, agradecendo a vossa companhia, tentando que as minhas palavras cheguem até vós. 

E, apesar de tudo, desejo-vos também um bom Natal.



Este sábado de manhã no Tejo, com o Terreiro do Paço do outro lado e eu no Ginjal



                                        Não digo do Natal – digo da nata
                                        do tempo que se coalha com o frio
                                        e nos fica branquíssima e exacta
                                        nas mãos que não sabem de que cio

                                        nasceu esta semente; mas que invade
                                        esses tempos relíquidos e pardos
                                        e faz assim que o coração se agrade
                                        de terrenos de pedras e de cardos

                                         por dezembros cobertos. Só então
                                         é que descobre dias de brancura
                                         esta nova pupila, outra visão,

                                         e as cores da terra são feroz loucura
                                         moídas numa só, e feitas pão
                                         com que a vida resiste, e anda, e dura.


                                        [Soneto de Pedro Tamen in Memória Indescritível]

26 setembro, 2012

Vozes para além do rio. São água também.


Escrevo mas não é no papel que escrevo. Escrevo no ar e estas minhas palavras voam pela janela, sobrevoam o rio, descem até ao cais, deslizam sobre as águas, e voam, voam até chegar até vós. Escrevo, pois, palavras que deixam de ser minhas mal acabo de as escrever.

Depois, menina que gosta de fazer desenhos e de os pintar, enfeito as minhas palavras com um rio e depois entusiasmo-me a colori-lo, e é um exagero, cores e mais cores, e as cores saem-me quentes como um corpo em chamas e depois, para embelezar o rio, desenho uma ponte, e desenho-lhe um véu feito de fios transparentes, depois pinto um sol brilhante e o sol fica irreal e eu, sonhadora, peço-lhe que encha de luz a vossa paisagem. Depois, ainda, menina que gosta de amores, desenho um casal de namorados recortado contra um cenário maravilhoso mas quero que se perceba que a vida é pequena e efémera, um breve pulsar, e então eles ficam pequeninos, lá ao fundo, quase invisíveis. E depois desenho uma parede pela qual os anos têm passado voando, leves, brandos porque assim é a vida, vai passando, vai deixando marcas e eu não sei se é o tempo que passa pela vida ou se é a vida que passa pelo tempo como uma estrela cadente.

No fim, olho e digo ao desenho que está na hora da magia: vai rio, sai do écran, vai por aí fora, voa também, vai até à casa dos meus amigos, leva-lhes o teu cheiro a maresia e a tua cor feita de sonho dourado, vai sol, sai daí e voa até ao écran dos meus amigos, enche-lhes a vida de luz, vão namorados, voem também e vão encher de beijos a vida dos meus amigos, vai ponte, vai unir a vida dos meus amigos à minha.

E assim estou agora, na minha mão uns fios que seguram a ponte e esperando que vocês estejam a segurar o outro lado, nós dois unidos pelas palavras, pelo sonho, pelo impossível. A minha mão tão perto da vossa. Sentem? Sentem que estou aí, sentem as minhas palavras voando junto aos vossos olhos?



[Mais uma bela música de Boccherini aguarda por nós logo aí abaixo de mais um poema de Pedro Tamen, Senhor Poeta que tem lugar cativo aqui no Ginjal]


Fim de tarde no Ginjal quando, há dias atrás, os dias ainda estavam quentes 



                                        Vozes para além do rio. São água
                                        também, correm até à foz
                                        do meu ouvido. E refluem agora,
                                        líquidas, da foz do meu olvido.
                                        Alem do rio, vozes e acenos. Gritos
                                        tão leves, sobre os anos voando.
                                        A minha mão, a minha mão também
                                        esgueira um gesto curto enquanto
                                        a outra escreve. Desenha
                                        no papel seco a ponte, as pontes, todos
                                        os corredores das vozes donde chego
                                        à relva desta margem.


                                        [Poema de Pedro Tamen in Memória Indescritível]

15 março, 2012

Mas não te deixo: agora sê retrato, e o tempo à tua volta só moldura


No beiral desta janela há flores e as flores têm a cor do sol. Gosto de sol. Por isso esta casa não tem telhado.    Aqui o sol e o vento entram como querem, não há barreiras, nem vidros, nem cortinas, nem portas, nem telhas. Esta é a casa em que chamo por ti. Em silêncio chamo por ti. 

O meu rosto enxuto guarda a juventude dos nossos verdes anos e os meus seios são ainda os túmidos frutos que guardavas nas tuas mãos. A minha boca tem a cor dos morangos e sabe a sumo e ainda o podes vir beber.

Às vezes vens de longe e eu, aqui sentada, com gaivotas no colo e gatas aos pés, ouço, de longe, os teus passos exactos e sinto o teu corpo seco e masculino. As gaivotas começam logo a sacudir a plumagem, limpam o bico amarelo. Vaidosas, possessivas, vão querer-te só para elas e as gatas desprendem-se das minhas pernas e começam a roçar-se nas paredes, lúbricas vadias, e eu ajeito o cabelo, ajeito a saia e, adolescentes, esperamos que entres para fazermos uma festa.

Mas outros dias há que são apenas envoltos pelo silêncio molhado que sobe do rio, não há passos que agitem os nossos corações sedentos. E, então, apenas olho esta janela aberta. As gaivotas fecham os olhos e  as gatas enroscam-se desinteressadas, e eu, na maior solidão, imagino que te vejo ali, como num retrato. E imagino que a pedra à volta é uma moldura talhada no mais frio dos longínquos tempos.



[Debaixo desta janela Pedro Tamen deixou um poema e debaixo do poema, depois do meio dia,  há um fauno que, pela mão de Debussy, aparece para tocar. Os belos espíritos gostam de se juntar]

Janela a céu aberto no casario do Ginjal



                                 Ora me calo. Que o túmido fruto
                                 em que nos temos vire, e a face
                                 mude. Que o meu olhar te seja enxuto.
                                 Tu já pisavas chão que me calasse,
                                 anunciavas casas e paz dura,
                                 um vento masculino, seco, exacto.

                                 Mas não te deixo: agora sê retrato,
                                 e o tempo à tua volta só moldura.


                                 ['Aparição.VII' de Pedro Tamen in 'No cais da Poesia 2, Antologia']

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PROVOCAÇÃO FOTOGRÁFICA

"Janela a céu aberto"
lugar dantes proibido
onde o nosso encontro incerto
era o labirinto...
Hoje passo por lá silenciosa
já quase não lembro
as palavras, os gestos,
as promessas
em que
afinal 
nenhum de nós acreditou
às escondidas 
o meu sorriso lembra
que no último momento
me livrei das grades
e daquele espécie de tormento
(afinal
sempre esteve tudo mal) 
hoje sou livre
restam apenas as grades ferrugentas
de uma misteriosa janela do Ginjal 


[Belo poema da autoria de Era uma Vez - a quem agradeço e quem louvo a arte - publicado em comentário aqui abaixo]

17 janeiro, 2012

E no entanto chega luz, uma estranha, inesperada luz


É noite. Está prestes a acabar o meu dia. A sala está quase às escuras e eu, aqui, a escrever nesta pequena mesa redonda, quase envolta em escuridão, um pequeno ponto de luz sobre mim, e esta folha de vidro em que escrevo que também emana luz e escrever é tão bom para mim, escrever envolta em palavras das quais sai uma luz dedicada, cuja sereníssima claridade me abre para o universo.

Passo as mãos pelas teclas, afago as letras, sorrio com as palavras que se desenham aqui à minha frente, sei que daqui a pouco deixarão de me pertencer, sairão aqui deste meu ninho, vão fazer-se ao mundo, voarão, e irão depois pousar, simples, silenciosas, na casa de outras pessoas, nas vossas casas. 

Quando me vou deitar, apago primeiro a luz do pequeno candeeiro para que a luz azulada que sai do meu computador ilumine este recanto em que me recolho. E penso que são as palavras, as minhas e a dos meus amigos cujas casas eu visito à noite, que por aqui andam, iluminando a minha vida.

E amanhã, quando o dia nascer, e esta mesa estiver inundada da luz que vem dos lados do rio, eu sairei de casa e, andando na rua, sentirei uma leve aragem no rosto e saberei que são as minhas palavras ainda rondando a minha casa, ainda não totalmente libertas de mim.

Mas eu passo e ignoro-as, quero que percebam que já não me pertencem, que já são mais dos meus amigos que minhas e que podem, elas próprias, livres, vir a dar à luz outras palavras(*).




[Neste inverno suave, pensemos no verão e ouçamos a música feliz de Vivaldi; desça um pouco mais - depois do poema belíssimo (como sempre) de Pedro Tamen poderá ouvir cordas vibrantes plenas de luz]

No Ginjal, entrada onde há um arco que dá para umas escadas e para uma entrada de luz



                               E no entanto chega luz,
                               uma estranha, inesperada luz,
                               à catacumba onde estou vida
                               por força destas mãos.
                               Da matéria que afago à minha frente
                               irrompe ou brota uma solar,
                               uma ardente e sereníssima claridade,
                               de que me valho ao ver o universo,
                               vendo e vivendo os dias que passaram
                               e os que em nascer persistem.


                               (Poema 47. Pedro Tamen in 'o livro do sapateiro')
 

Crédito: Expressão inspirada nas palavras de J. Rodrigues Dias ao escrever num comentário que há palavras que têm o dom da maternidade.
  

09 janeiro, 2012

(...) quando me olhas de olhos como estrelas, minha vida.


Ando ao longo da muralha, passeio pelos cais, vejo os belos veleiros que passam neste rio tão amado. Depois recolho-me no meu mundo. Aqui, neste grande armazém, construo mastros. Para aqui trago os troncos que deixo envelhecer. Depois escolho-os, passo as mãos pela madeira envelhecida, aparo-a, sinto o aroma doce e quente da madeira. Afago estes troncos macios que são tão fortes. Faço mastros, os melhores mastros. Velas nem vê-las.

Fico aqui até ser noite. Os gatos entram e aconchegam-se uns nos outros, está-se tão bem aqui. Tiro da grande arca as folhas, os compassos, as réguas, as canetas, as limas, as goivas, os meus instrumentos, os óleos, o meu tesouro. Faço medições, faço cálculos, faço desenhos. Depois saio, descanso a olhar no rio, deixo-me levar pelo voo gracioso e livre das gaivotas. Regresso, recomeço. Vou para a madeira, meço-a, ajeito-a.

E então, alguns dias, quando a lua ilumina as águas, não é o som dos gatos que eu ouço: és tu, minha amada, és tu que vens até mim. Trazes-me pão, vinho e sentas-te comigo na mesa junto à porta de onde se vê o céu e as estrelas.

Depois, levas-me pela mão, eu fecho a arca, tapo o céu e deitamo-nos rente ao rio, iluminados apenas pelos teus olhos que brilham como estrelas.



[As palavras que abaixo lerão no belíssimo poema de Pedro Tamen pedem que uma música tocante, pedem uma harmonia que brilhe; siga, pois, até mais abaixo para ouvir o Vocalise de Rachmaninov]


Avistado do Ginjal, veleiro no Tejo, bem de frente para Lisboa
(bem visíveis as Torres das Amoreiras)


                               Impenitente criador de mastros,
                               quanto a velas nem vê-las
                               - mais que de fugida
                               quando me olhas de olhos nas estrelas,
                               minha vida.

                               Dos astros
                               desço então à hora parca
                               que o destino nos deu:
                               e fecho a arca,
                               e tapo o céu.



[Poema de Pedro Tamen a publicar no próximo livro que, presumivelmente se chamará Rua de Nenhures - publicado entretanto na Revista Relâmpago]


                      

14 dezembro, 2011

Tudo me ultrapassa e ninguém me obedece


Uma multidão, uma massa informe de gente, uns riem, outros vagueiam, outros conversam animados, outros, solitários, detêm-se junto à paisagem, uns para a frente, outros para trás. E eu ali, invisível, no meio da multidão que se move.

Passam por mim, avançam, não sei para onde vão, não sei sequer se têm destino ou se, simplesmente, estão de passagem. Ninguém os encena, ninguém os dirige, ninguém os detém.

Observo-os, um a um, recuo para colher melhor ângulo, deslizo em silêncio, fixo a imagem de casais de namorados, de novos, de velhos, de uma mãe com uma criança, de excêntricos, e ninguém me vê. Por vezes alguém parece detectar a minha presença, parece que o seu olhar se foca em mim, quase temo que me esteja a ver; mas logo percebo que apenas vê um vulto pois apenas se desvia, passa sem me ver.

Está um dia de luz intensa, uma luz branca e fria e eu ali, mulher imaginada, no meio de todos, silenciosa, construindo frases de palavras que se cruzam no ar, construindo legendas para as imagens, e as minhas personagens não me vêem.

Poderia pensar que assim é o mundo quando não tem luz - as pessoas desorientadas avançam sem rumo, umas para a frente, outras para trás, ninguém vê ninguém. Mas não, aqui há luz, aqui há apenas a liberdade absoluta, a alegria de respirar a luz, a fruição dos movimentos libertos, do riso franco, a urgência de viver.

Aqui no meio de todas estas pessoas, invisível, inventada, movo-me em silêncio e a minha mão, livre, toma a sua feição, feliz, dizendo que sim, dizendo que não, e eu, secreta, furtiva, vou guardando as imagens de todas as pessoas que comigo se cruzam.

Faço colecção de pessoas.



[Ficaria melhor se, antes de ter começado a ler, tivesse ido ali abaixo pôr o quintento de cordas e clarinete de Mozart mas, enfim, ainda está muito a tempo. Mozart  leva-nos para outra dimensão, uma dimensão quase lúdica]



                               Tudo me ultrapassa
                               e ninguém me obedece.
                               Será isto uma peça?
                               Talvez uma arruaça
                               (pelo menos parece)
                               mas nada que se esqueça.
                               Sem luz ninguém dirige
                               palavras, corpos, gestos,
                               ou a fremente mão
                               que desliza ou transige
                               e fora dos contextos
                               toma a sua feição
                               de quem se regojize
                               dizendo sim e não.


                              ('19. O encenador' de Pedro Tamen in 'Um teatro às escuras')

26 outubro, 2011

Nada de bom fica de verdade e, então, a pena de viver não vale a pena revivê-la

  
Vem meu querido menino, vem, coloca a tua mãozinha no meu peito, sente o meu coração quase gasto.

Vem, meu menino lindo, dá-me a tua mãozinha branca, com refeguinhos fofos, quentinha, deixa-me enchê-la de beijinhos.

Vem, queridinho pequenino, prende-me a ti, prende-me à vida, não deixes que o meu destino se cumpra já, prende a minha mão.

Diz-me, meu menino mais lindo, diz-me que vale ainda a pena, diz-me que fique, que a vida é boa, diz-me que essa é a verdade.

Ou então brinca aqui ao meu lado, deixa-me ver-te, deixa reviver em ti toda a minha vida.



[Meu caro Leitor, se quer ouvir música, está no local certo. Desça um pouco mais - passará pela fotografia, a seguir pelo poema de pedro Tamen e, logo a seguir, estará com Martin Codax que integra o ciclo da música medieval]

Avó e neto no Ginjal, sobre o tejo, de frente para Lisboa


                    Atarda a mão que vai ao rés do colo
                    mexericar no veio da lembrança
                    de brancuras fatais, refegos curtos,
                    olores de tepidez humedecida
                    por suores impalpáveis mas palpados.
                    Atarda: que por mais
                    que a tua mão avance, nunca vence
                    o valor sopesado em loucas e supostas
                    locubrações, destinos. Atarda:
                    nada de bom fica de verdade e, então,
                    a pena de viver
                    não vale a pena revivê-la.


                   (Poema de Pedro Tamen in Memória Indescritível)

   

26 setembro, 2011

Música não há aqui mais que a que faço


Aqui onde estou, silenciosa, vendo o rio que anoitece, vendo as estrelas que enfeitam a minha janela, escrevo palavras que alguém, não sei quem, vai ler. Solto as minhas palavras ao vento. Voam sobre o rio, voam sobre as cidades, atravessam o oceano, pousam não sei onde.

E então, olhando estas minhas palavras sinto que não estou sózinha, neste doce silêncio que me envolve. Aí, não sei onde, estão vocês, recolhendo as minhas palavras como pequenos pássaros que assomam à vossa janela. Sei que as tomam com carinho nas vossas mãos, que as aconchegam junto ao vosso coração. São vocês que estão aqui comigo. E lá em cima no céu, junto às estrelas ou dentro das águas frescas do rio, estão os anjos de grandes asas que a Sophia deixou para olharem por mim e para silenciosamente me ditarem estas palavras que vos digo.


[Convido-vos de novo, e agora todos os dias, a que, logo que tenham visto o poema abaixo, sigam até mais abaixo onde uma mulher rodopia como uma palavra largada ao vento; depois fechem os olhos e sintam-se felizes]

Junto ao Tejo, junto à Torre de Belém, o fotógrafo é fotografado

                     Música
                     não há aqui mais que a que faço,
                     a que eu faço e desfaço
                     à boca do silêncio.
                     Enquanto lá muito em cima,
                     em não sei que esferas,
                     cantam uns anjos que não ouço
                     mas fazem retinir as minhas mãos.


                    (Poema de Pedro Tamen in 'O livro do sapateiro')

18 setembro, 2011

Eu digo-te onde estou e logo saberás quem sou

Estudo as falas, ensaio as deixas, exponho-me, falo, aqui estou num palco. E o palco ilumina-se para que vocês me vejam.

Mas do lado de lá está escuro, não vos vejo. Estão aí? Estás aí?

Falo para todos, todos me ouvem mas espero que alguém, em particular, perceba de forma especial as minhas palavras. Você que me lê, sente que escrevo para si? Tu aí, que me lês, percebes que as palavras são para ti?

Vocês, aí às escuras, que ouvem as minhas palavras, sentem que agora, aqui, é para vocês que as escrevo? Cheguem-se, venham até aqui, cheguem-se um pouco à luz, deixem-me ver-vos.

Tu, tu aí, tu que estás longe de mim, em silêncio nessa cadeira, deixa que uma palavra tua atravesse a solidão do espaço, atravesse a escuridão do mundo, e diz-me uma palavra para que eu saiba que estás aí - só isso, não peço mais.

Não peço que pises o mesmo palco que eu, peço apenas que me deixes saber que estás aí. E que, ao ouvir-me, estás comigo. E que, ao ler estas palavras, ficas a pensar em mim.

Manhã irreal no Ginjal, teatro de sombras, veleiros brancos num Tejo quase inventado

          Eu digo-te onde estou
          e logo saberás qum sou.
          Na escuridão do mundo
          iluminarei a solidão do espaço
          e passo a passo os olhos hão-de ver
          o que mais ninguém vê.
          E até nós perguntaremos
          se o que os nossos pés agoram pisam
          são as tábuas do palco e as da lei.


          ('2. Ele', outro belo, belo poema de Pedro Tamen in 'Um teatro às escuras')

04 agosto, 2011

E ao fim do meu dia a matéria de que se faz a minha vida é de novo abandonada

Aqui, todas as noites, em silêncio, sento-me, com uma pequena luz, e é a minha mais intrínseca matéria que escolhe os poemas, as imagens, os sons, com que combato a banalidade dos dias.

Aqui, a ver o rio que se enfeita de luzes longínquas, apago a minha luz e preparo-me para a vida que está prestes a principiar de novo.

Há pouco no Ginjal, homem encara o Tejo com a Torre de Belém em fundo

E ao fim do meu dia
a matéria de que se faz a minha vida
de novo abandonada
de novo de novo abandonada
pergunta-me silenciosa
se ao apagar da luz
a vida terá princípio.


(Poema (23) de Pedro Tamen in 'O livro do sapateiro')

20 junho, 2011

Disseste: o sol nasceu. Foi verdadeiramente então que o sol nasceu

Digo-te que o sol está a nascer e tu, que mal reparas, vês então que o sol já aí está. Ou digo-te, olha que bonito o sol a pôr-se, e tu dizes que sim.

Coisas banais, todos os dias o sol nasce e se põe mas, para mim, todos os dias isso é um milagre a que, rendida, assisto.

E, se estou junto ao rio, imersa em todo o imenso azul, digo, convertida, meu amor, olha o sol nasceu, ou meu amor o sol está a pôr-se. E fico feliz se tu comprovas que o sol nasceu, que o sol se pôs.

Sei, então, que não estou a sonhar com tão improvável milagre.

Flor de cardo, de um etéreo lilás, na descida para o Ginjal - o Tejo e a Ponte ao fundo

Disseste: o sol nasceu.
Foi verdadeiramente então que o sol nasceu
e que nos habituámos todos a dizer
que o sol nasceu.
Às vezes pensamos que acontece várias vezes
mas é uma ilusão de óptica que não nos deixa ver
o grande círculo azul em cujo centro
tu dizes eternamente: o sol nasceu.

('Disseste: o sol nasceu', poema de Pedro Tamen in 'Memória indescritível')

09 junho, 2011

Que faço eu senão amar o milagre sem paga a lírica explosão de um rio que brota neste espaço?

Que faço eu? Que faço?

Chamo por ti?
Espero que o rio te traga até mim?

Deixo-me aqui estar, sem lágrimas, esperando o milagre, a lírica explosão?

Casal enlaçado, há pouco, junto ao farol de Cacilhas, sobre o Tejo, Lisboa já ali

Que faço eu senão amar
o milagre sem paga
a lírica explosão
de um rio que brota neste espaço
de um algo agora acrescentado
ao mudo mundo em que nasci?
Que faço eu         que faço
senão olhar o que tenho em frente
e deixar que as lágrimas caiam
dadivosas?


(Belíssimo, belíssimo poema '40.' de Pedro Tamen in 'O livro do sapateiro')

25 maio, 2011

Quando me olhas de olhos como estrelas, minha vida

Assim me olhavas, como se dos meus olhos te viesse a luz, como se a tua vida fosse quase só eu.

Mas foram parcas as horas que o destino nos deu, o céu fechou-se para nós.

Avistado do Ginjal, na outra margem, veleiro quase só mastros

Impenitente criador de mastros,
quanto a velas nem vê-las
- mais que de fugida
quando me olhas de olhos como estrelas,
minha vida.

Dos astros
desço então à hora parca
que o destino nos deu:
e fecho a arca,
e tapo o céu.


(de Pedro Tamen in Relâmpago, Nº27 de Outubro de 2010)

09 maio, 2011

Também eu estava perdido e encontrar-te é milagre

Perdidos andamos? Tu andas? E eu não? Que luz nos guia? Nenhuma. Há guião na nossa vida? Acho que não, a mim nada me guia. E nem sei se quero encontrar-te. Ficaria ainda mais perdida.

No jardim do Ginjal, o Tejo e a ponte avistam-se por detrás de uma árvore de etérea ramagem

Também eu estava perdido.
Não há luz que me guie
a não ser o fulgor
dos olhos que mal vejo
e de meia lua a pique.
Nada há em que me fie
a teia de uma vida
que já nem é comprida
e menos que cumprida.

Também eu estou perdido,
mas no escuro encontrar-te
é milagre, não arte.

('10. Ele' de Pedro Tamen in 'Um teatro às escuras')