Ginjal e Lisboa

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27 fevereiro, 2013

A mão desta mulher de joelhos entre as pernas do touro


Eram outros tempos, meu senhor. Havia forme, medo, repressão, miséria, senhor, tanta miséria. Outros tempos. E vieram as bombas, os aviões, a tropa, que medo havia então, senhor. O mal era absoluto e vinha dos homens e vinha dos céus. Ah, não podeis saber.

As mulheres escondiam as crianças nos recantos escuros das casas, no colo, debaixo dos casacos, e tanto medo, tanto, tanto, meu querido filho, como posso eu proteger-te? choravam em silêncio, afagando contra si as indefesas crianças. E a falta de comida, e os seios sem leite tanto o medo. Que tempos eram aqueles...! Que ninguém os queira de volta, meu senhor.

As mulheres gemiam sem voz, a garganta apertada tanto, tanto o medo.

A besta andava à solta. Ventas fumegantes, patas imundas, pele negra, inclemente, sexo exuberante. Entre as pernas, os grandes órgãos sexuais eram um insulto aos pobres que jaziam apavorados por terra. Assim eram essas tempos, senhor. A assustadora besta soltava gritos de vergonhoso prazer, animal sem coração, besta selvagem, pisando quem passava, pisando gente indefesa. Um dia uma mulher que já tudo tinha perdido deitou-se por terra e tentou cortar os ofensivos órgãos da besta. Acabou espezinhada.

Por terra iam ficando os corpos rasgados, as crianças esfomeadas, órfãs, mulheres de seios rasgados, ventres abertos, homens enfraquecidos, aprisionados, roupa rasgada, velhos que se tinham suicidado, resto de gente, cães famintos. Sobre eles, correndo, arfando, babando-se, nojenta passava a besta enorme e imunda. Não tinha peso na consciência porque a não tinha, nem tinha coração. Não podeis imaginar, senhor, não podeis imaginar. Morríamos de medo, sem forças, sabendo que o futuro nos tinha abandonado, sabendo que as trevas tinham descido sobre nós. Ah que tempos esses, que tempos esses...

Que não voltem, senhor, que não voltem esses tempos de fome e medo, que a paz nunca nos abandone, que o medo fique longe de nós, que a piedade não abandone o coração dos homens, que a sabedoria não nos abandone. E que os filhos não se afastem dos pais, que os velhos não partam cedo demais, que a fome não volte, que o medo não volte, senhor. Protegei-nos. Livrai-nos do horror, senhor.

E não me leveis a mal, senhor, se não sou capaz de me dirigir a vós com a maiúscula que vos é devida. Mas é que sou tão orgulhosa, tenho tanto medo de não ser capaz de vos respeitar, tenho tanto medo de não estar à vossa altura, tenho tanto medo de não vos compreender, senhor.



[Abaixo do poema poderão ouvir um momento muito especial: dois grandes intérpretes, Rostropovich no violoncelo e Martha Argerich no piano. Hoje intrepretam uma obra de um compositor japonês, Oue Hikari]



Escultura de touro nos jardins da Casa da Cerca em Almada,
mesmo sobre o Ginjal, e de onde se avista  o Tejo e Lisboa, a bela



                                          Ao alto; à esquerda;
                                          onde aparece
                                          a linha da garganta,
                                          a curva distendida como
                                          o gráfico dum grito;
                                          o som é impossível; impede-o pelo menos
                                          o animal fumegante;
                                          com o peso das patas, com os longos
                                          músculos negros; sem esquecer
                                          o sal silencioso
                                          no outro coração:
                                          por cima dele; inútil; a mão desta
                                          mulher de joelhos
                                          entre as pernas do touro.



['Descrição da guerra em Guernica, III', 'Ao alto, à esquerda' de Carlos de Oliveira in Trabalho Poético']

*


Árbol de Guernica   (Gabriela Mistral)



Volverá a ser verde y ancho
el roble, el roble nuestro.
Mordido de la metralla,
no del rayo de los cielos,
volverá a brotar contadas
una hoja por cada Euskaro
y será a la semejanza
nuestra y tierno.

Mientras, andamos errantes
sin criar roble en otros suelos,
con un gajo sollamado
que se aprieta contra el pecho.

Volverá a ser en Euskadia
el abra, el árbol y el ruedo
del corro de manos dadas,
y el himno al Dios verdadero,
confesado y silencioso
como la encina sin viento.

Los heridos y aventados
y los que a mitad de ruta
dizque se quedaron muertos,
todos volveremos, todos,
el árbol, al ruedo.

Mientras tanto parecemos
casa en noche de saqueo.
Y desvariados que dicen
en refrán “Guernica” y “fuego”.

Sigue entero y da, mascado
en un brote verde
un sabor de salmuera que resbala
si lo muerden niño o viejo.
Y con él, caído el sol,
comulgan y esperan ellos.

Mientras tanto caminamos
tocando a puertas de acero
de los que han la libertad
y siguen sordos y ciegos.

Crece con nuestras fés
y voluntades y tuétanos.
Crece al día y a la noche
aunque le den pez y fuego
y aunque zumben su despojo
alguaciles y patán ebrio.

Mientras tanto le rezamos
sobre el jergón a dos leños:
el de Cristo y el de Ignacio
entrecruzados y ardiendo.

Por islas, por archipiélagos,
al asar pez y catar
vino bárbaro tenemos
sobre nosotros la sombra
del buen roble que da silbo y oreo.

Cortados como la sarta
y la madeja,
escupidos en la noche tártara
partida del bombardeo,
cada uno caminó
cargando flor y madero
cortado de él y llevándolo.

Mientras que cortamos el aire,
en la lengua sin orígenes
decimos el Padrenuestro
y el roble allá lo corea,
fiel, hirviendo y recto.



(Enviado pelo Leitor jrd num comentário abaixo)

*


Guernica de Federico García Lorca dito por Germaine Montero

(Enviado pela Leitora Ana de Sá num comentário abaixo)

07 setembro, 2011

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, acordarei entre os teus braços


Vamos sonhar.

Vamos ser felizes, sabendo que somos felizes só por sonhar.

Tenho para mim que nunca acontecerá. Mas quem nos impede de sonhar?

Sonhemos.

Sonhemos que um dia me esperas nesta varanda, com uma sombra fesca, com pássaros cantando, com vasos de flores nos degraus. Esperas-me nesta varanda, olhando o Tejo, olhando Lisboa. Sabes que virei num barco ou que virei a voar e esperas-me.

Não sabes como sou mas adivinhas-me. Imaginas-me.

Sabes que virei a sorrir, que te abraçarei, que te beijarei.

Sabes que te porei um braço à volta da cintura e que deixarei que ponhas o teu braço sobre os meus ombros. És meigo, seu sei.

Esperas-me e queres comigo ouvir os teus pássaros, ver as tuas flores, queres contar-me dos teus avós, dos teus tios, dos teus pais, dos que recordas com saudades de menino, e sabes que te ouvirei enfeitiçada. Tens um belo timbre de voz, eu sei.

Esperas-me e queres apenas olhar o rio, o céu, as casas, ouvir os pássaros e nada dizer, queres olhar-me e queres que eu te olhe, dir-me-ás que qualquer palavra poderá estragar tanta perfeição, e eu respeitarei os teus silêncios.

Mas sabes que eu, quando te distraires ou durante a noite, enquanto dormires, partirei dali a voar. Porque sou assim ou porque a vida é assim.

Por isso, sonha apenas, sonha apenas comigo nos teus braços porque, na verdade, dificilmente poderás, um dia, acordar entre os meus braços. Mas sejamos felizes a sonhar. Sonhar é bom.

Lisboa e o Tejo avistados da Casa da Cerca


um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,
acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela.
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi
nem um apalavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar
a perfeição da felicidade.


(Belo poema de José Luís Peixoto in A criança em ruínas)