Ginjal e Lisboa

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24 julho, 2019

Para que tu existas




Mil rostos, mil nomes, mil identidades. 

Numa ilha, numa casa perdida no mundo, inventando personagens, sem leme, sonhando com os deuses que habitam memórias muito antigas, construindo segredos, vive aquele que por vezes acredita que não existe. Não sabe se as feridas que recorda são suas, se dos lobos que cruzam as noites tristes, se dos personagens solitários que atravessam as madrugadas em busca do silêncio. Não interessa: são feridas intactas para as quais não há consolo. 

Os nervos adormecidos, as lágrimas esvaídas, as mãos sem força, o coração falando uma língua estrangeira, ele segura a taça vazia na qual se reflecte um corpo indefinido, desconhecido, um corpo que vem de um outro tempo, de uma terra desconhecida e longínqua, um corpo feito de palavras nuas, inexistentes.


Para que tu existas
com todos os teus nervos
como linhas de força
empunho a minha ferida
como se fosse um leme
Os segredos mais vivos
assomam-se a um rosto
onde sonham as ilhas
onde crescem as taças
dos deuses terrestres


[De António Ramos Rosa in 'A intacta ferida']

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Como sempre, fiz as fotografias no Ginjal

22 julho, 2019

A poucos é dado conhecer o inimigo, o duplo




Um jogo. Uma respiração que se pressente, uma inquietação latente. Um desafio que vai e vem e vai e vem. O espelho e o espelho. A imaterialidade das palavras como instrumentos de um jogo de espelhos.
Eu avanço, tu avanças, eu avanço, tu recuas, eu recuo, tu avanças. Uma dança que talvez seja infinita. Eu provoco, tu reages, eu desafio, tu perguntas, eu não respondo, tu quase adivinhas, eu dou pistas, tu não as queres ver, eu escondo, tu espreitas, eu disfarço, tu arriscas.
E, agora que escrevo, tu que tudo sabes, diz-me: escrevi como se fosse eu ou como se fosses tu? Quem é o duplo nesta história? Eu? Tu?

Adivinha.

Olha, e se eu te dissesse que sei? E se te dissesse que sei quem está atrás de todas as máscaras? E se te dissesse que podes continuar a jogar, a fazer de fantasma, a aparecer como um nobre chevalier, como um trobadour ou como um lobo solitário que saberei sempre quem se esconde sob os mais diversos disfarces?

Não é preciso grande fé, sequer a little leap of faith, porque, de facto, não passa de um tiny, frivolous mystery. Conheço a tua respiração. 

Há quanto tempo? Há quantos anos? 

E, no entanto, dear ghost, há a questão da verdadeira chave que permitiria descodificar as palavras escritas no vento, que permitiria arrancar a máscara ao duplo para que o verdadeiro rosto aparecesse, que permitiria perdoar o inimigo que um dia...

Tento recuar. Qual o dia? Qual a palavra? 

Tento reconstruir a cartografia de desencontros embora saiba que não há coordenadas que possam verdadeiramente explicar esta sinuosa dança. O tempo esbate os dias, as palavras, a semente de tudo; mas não interessa. São dois mundos paralelos, jamais se encontrarão, tu sabes.

Tantas vezes parecemos não perceber que há ecos que se propagam até ao infinito sem que nunca encontrem o que esteve na sua origem.

Mas assim é, assim será. E a chave que descodificaria de vez todo o enigma, dear ghost, believe me, I will never use it, never ever. 


Estas palavras são o eco de uma outra coisa
que provavelmente nunca encontrarás.
A poucos é dado
conhecer o inimigo,
o duplo,
o que espera por nós (quase sempre em vão) até ao fim.

Fantasma adiado,
só ele tem a chave
deste jogo.


['Ainda a poesia' de Luís Filipe Castro Mendes in 'Lendas da Índia']


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As fotografias, como sempre, foram feitas por mim no Ginjal

27 setembro, 2018

Que podíamos fazer senão dançar?




Chamavas-me Koré e só eu sei como nunca quis ser a tua deusa. Olhavas-me com olhos cheios de amor e vias-me como divina e toda eu era transformada em palavras. 

O cabelo de ouro velho, os olhos de água, as mãos pequeninas que querias junto a ti na hora da tua partida, os seios que descrevias como os vias, o ventre que achavas esculpido. Eu era um poema. E outro poema. Era letra de canção. Era amor eterno, musa, dor. Eu era a luz e a ausência dela. Era riso e a razão das tuas lágrimas. Era a que dançava nas tuas mãos e entre os braços de quem te fazia doer. 

Eu era a tempestuosa adolescente dos cabelos de fogo, de temperamento de guerreira, de boca de mulher, sorriso de menina, eu era a fonte dos beijos que cantavas, eu era a que te cativava e rejeitava, eu era a que me entregava e logo te fugia.

Fiz-te sofrer e fiz de ti um homem, escondi-me, fiz-te conquistar-me, fiz-te amar-me sem o querer. 

Dancei para ti, dancei nos teus braços enquanto desejava outro, dancei nos braços de outro. Diana ou Artemis, guerreira, caçadora, protectora das virtudes. Memórias. Palavras. Melodias longínquas. Nunca soubeste que me quiseste demais, nunca percebeste que nunca eu poderia ser eternamente tua, nunca percebeste que eu não queria senão dançar.

Perdoa-me.


Ela trazia o fogo trazia a luz
A taça o vinho
E aquela forma de beleza
Que em si mesma
Perdura

Trazia uma Koré em cada gesto
E havia nela o dar de quem se nega
Toda ela era dádiva e protesto
Como quem se recusa e assim se entrega

Trazia a graça e a garça no andar
Que podíamos fazer senão dançar?

['Grega' de Manuel Alegre in 'Todos os poemas são de amor']

John Williams - The lament of God

21 dezembro, 2015

Ah, eu sei agora que é magia





Olhou-me nos olhos como se me inquirisse. Dócil, eu, aproximei-me, devagar. Continuou a olhar-me. Baixei-me, tentei perceber. Olhava-me como se me quisesse dominar, como se me quisesse fazer sentir que tinha que ser eu a ceder. E eu ali, em silêncio, disposta a todos os olhares.

Então desviou os olhos. Olhei-o bem de frente, eu já quase de joelhos, que me olhasse, bchhh, bchhh, bichinho, bchhh, bchhhh, bichinho lindo... Nada. Olha, olha para mim, bchhh, olha, bichinho, bchhhh. Nada.

Não insisti. Tenho o meu orgulho. Não queres, não queiras. 

Mais à frente ainda pensei voltar-me para trás, ver se me seguia, se queria, afinal, a minha companhia. Mas não o fiz. Orgulho, esse grande inimigo dos acasos. Segui o meu caminho.

Dia de gaivotas pensando na vida, contemplando o mundo, dia de gatos sob as árvores, trepando aos muros, deslizando entre sombras. Dia de veleiros brancos, vermelhos, deslizando no azul, entre árvores. Dia de deslumbramentos.


E eu vou caminhando. A terra está macia, a relva está verde, o rio corre azul, o céu abre-se para receber aqueles que querem sentir a serenidade das nuvens que correm devagar ou dos amantes que se abraçam rente às águas, abençoados por quem passa.

Não sei ainda onde me levam os meus passos. Não sei como vim aqui parar. Não sou daqui. Que raízes são estas que se estendem até ao mar? Que asas são estas que se levantam para me levar a voar? Que amor é este que sinto por tudo? 
Pelas palavras, pelas águas, pelos céus, pelos pássaros, pelos barcos, pelos gatos, pelas paredes, pelos olhares recordados, pelos sorrisos imaginados, por quem o meu coração bate, por quem o meu coração aconchega. 
Um amor assim não tem explicação. Parece ilimitado, parece intemporal. E é inocente, alegre, livre. 

E eu caminho, sem explicações, como se fosse uma gata, uma gata deslizando sobre o azul, como se me nascessem asas, como se pudesse ir para o alto, para lá de onde se vêem as belas cidades, os pequenos homens, para lá onde as angústias perdem o motivo, onde os medos são injustificados, lá onde as saudades aumentam, aumentam tanto, lá onde me sinto tão longe, tão perto, tão livre, tão ilimitada, tão tua.

Não sei explicar, não sei mesmo. Mas dizem-me que é  magia, que é imagiação a explicação -- e eu acredito porque é bom acreditar no que não tem explicação.


Ah, eu sei agora que é magia,
que é imagiação a explicação
disto de estar aqui e não ali,
de vir aqui parar,
de vir aqui andar
e ter um chão onde os meus passos
de gazela insegura
se aventuram no escuro.
Eu sei agora algumas coisas
que explicam o que nada poderia explicar,
e o que não sei ainda
irei imaginá-lo numa não sei que paz
que é imagiação.

....

Fiz as fotografias este fim-de-semana no Ginjal.
O poema é 'Ela', poema 33, de Um Teatro às Escuras de Pedro Tamen.
Barenboim interpreta de Bach: Goldberg Variations - Aria
..

02 outubro, 2015

Um dia prometeste deixar no estuário da nossa cama






Não pensámos, não, que fosse eterno. Por vezes fingíamos acreditar mas ríamo-nos logo a seguir para que ficasse claro que sabíamos que um dia terminaria. O sabermos que era efémero dava mais valor ao que tínhamos. E, enquanto o tínhamos, sentíamos que era eterno mas não o dizíamos, não queríamos que o nosso amor se tornasse risível. 
Tecias sedas com os meus cabelos entre as tuas mãos e dizias vou tecer um manto invisível para nos cobrirmos quando dormirmos na beira do rio e eu deixava que o calor das tuas mãos, desfiando-me lentamente, me transportasse leito fora como se já pelo rio o meu corpo navegasse, junto ao teu, junto ao teu. 
Tanto que eu gostava, na cama, de sentir a pele do teu corpo junto à pele do meu corpo disponível, teu, teu. 
As tuas mãos percorriam os contornos do meu corpo, tão macio, dizias tu, e eu gostava de te ouvir, segredando-me convites indecentes ao ouvido e isso era um segredo teu, só teu, só teu. 
As minhas pernas enleavam-se ainda mais nas tuas, e eu deixava que o teu corpo respirasse sobre o meu, navio suave deslizando por um rio vibrante, água e fogo, flores e vento, pássaros e sonhos, amor meu, amor meu.
Lembras-te? 

Lembras-te dos nomes que usavas para dizer o meu nome? Dos nomes que usavas para dizer o teu amor? Dos nomes que usavas para dizer o teu desejo, o meu desejo? Lembras-te?

Lembras-te de como me abraçavas, a tua boca escondida pelo meu cabelo, e tu, indecoroso amor meu, dizendo maldades, inquietando-me? E do rio, lá em baixo, que não sabia refrescar o calor do meu corpo, lembras-te?

E depois um dia foste-te. Não te despediste. 

Nunca mais te vi. Nada sei de ti. Nem sei se ainda sei o teu nome. Nem sei se ainda sei o meu nome. Nem sei se ainda existo. Sem ti, nem sei se alguma vez existi.

Fecho os olhos e tento recordar-me do nome que dizias quando dizias o meu nome. Mas o que ouço é apenas uma voz branca, sem palavras. Uma voz vazia, uma voz vazia desfiando memórias sem olhos, perdidas na cama que era nossa e que hoje está vazia.

Meu amor que te amo tanto, não voltes para mim, deixa-te estar no recanto mais profundo do meu sangue, lá onde não poderás voltar para ti. Amor meu, amor meu.




que foi que    de repente     eu disse
para que começasses a dar outros nomes ao que
pensávamos ser eterno    e habitar no
mais profundo recanto do nosso sangue

ouve-me   ouve-me   e dá depois o
nome que quiseres às mãos que um dia
prometeste deixar no estuário
da nossa cama

onde hoje apenas
se desenha o côncavo lugar do que
ardilosamente roubaste na partida


[de Alice Vieira in Os armários da noite]

...

Yiruma interpreta Dream

As fotografias foram feitas no Ginjal

..

03 setembro, 2014

Tu continuarás para sempre nua no meu poema.



Não sei dizer palavras que te dispam, amor, como em tempos as minhas mãos, sôfregas, te despiam. Nem tu, amor, as sabias dizer quando, inocente, te despias mostrando o teu corpo de jovem mulher. Nunca fomos de palavras. Olhava-te, então, com olhos líquidos de desejo, um soluço percorrendo o meu corpo impaciente, e tu, improvisando gestos que julgavas só teus, oferecias o teu corpo mudo, ardente.

Dias e dias foram passando e nós sempre unidos, os gestos que nunca se esqueceram, o amor que se foi adoçando, o desejo que se foi alongando, e as palavras que nunca aprenderam a traduzir o que sentíamos.

A vida trouxe-nos até aqui, a este mar largo que contemplamos em silêncio. O tempo corre com vagar, azul, umas vezes macio, outras com aspereza. Assim é o tempo, assim é a vida. Enquanto nos tivermos um ao outro a vida será boa e o tempo amigo.

Quando chegarmos a casa, despir-te-ás para mim, com vagar e compreensão, por vezes com um resto de malícia, por vezes ainda com um resto de inocência, e eu olharei o teu corpo enrugado e flácido e não sentirei a sofreguidão de então mas sentirei uma ternura imensa, amor, porque na tua pele estão muitos gestos meus de carinho e desejo, gestos que jamais voarão do teu corpo pois há muito aprisionaste o meu amor. Na tua pele já eu habito há muito tempo. Não sei dizer-te isto em palavras mas o nosso silêncio guarda mil beijos, mil afagos, mil poemas, mil palavras de um imenso amor.


No pequeno jardim do Ginjal, olhando o Tejo que corre para o oceano, de frente para uma Lisboa bela e silenciosa




O tempo permanece
Apanhado entre os livros.
Por este prodígio de apreensão,
Heraclito continua a banhar-se
No mesmo rio,
Na mesma página.
Tu continuarás para sempre
Nua no meu poema.



['Arte do Tempo' de Juan Manuel Roca in 'Os cinco enterros de Pessoa', selecção e prólogo de Lauren Mendinueta e numa tradução de Nuno Júdice]






Bill Evans - My Foolish Heart



Vives como escreves
escreves como vives
com a sensibilidade
profunda 
de um poeta
com a escrita solta
atenta
de um prosador
vives
onde a vida se liberta
com o olhar deslumbrado de uma criança
vida adulta a tua
pousada
vivida

por todo o lado.


Joaquim Castilho