domingo, 4 de janeiro de 2009
Confissão com propósito adiado
Mulher - Já pensaste que isso é complicado, sem roupa nova.
Marido - Talvez. Mas já almocei. Comi bacalhau com grão.
Mulher - E de que esperas morrer?
Marido - De solidão. Tenho o coração a modos que a rachar.
Mulher - ....
Marido - Dizem que não dói. Sente-se só uma azia.
Mulher - Olha, vai começar as tardes da Júlia.
Marido - Vou à casa de banho. Se não voltar dentro de meia-hora, chama o cangalheiro.
Mulher - Levas revista?
Marido - Sim. O livro de cheques.
Mulher -....
Marido - Não contes com doações. Vou só rasgar as provas de que um dia fui pessoa.
Mulher - E lembras-te de que amanhã é feriado??
Marido -....
Mulher - Tenho as visitas do dominó. Não quero a casa a cheirar mal.
Marido - Talvez morra só depois de amanhã.
Mulher - Vai lá cagar. Não te quero com gases....
Marido - .....
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Homem elefante apaixonou-se?
- A calma de um poeta no momento em que se corta e transpira, dá estrofes pirómanas.
Será assim com todas as coisas do mundo que, criadas a partir de um reflexo condicionado, servem para acordar as pessoas e deixá-las menos stressantes que no segundo anterior.
- Gosto do que crias, porque é menos entediante que o que prometes criar.
E dois passos fluorescentes em cima do caminho que nunca se pensou trilhar ao passo que o mundo se decompõe? Ajudam?
- Talvez. Hoje escrever é precisamente o oposto de pensar. Primeiro inspiras toda a porcaria recalcitrante de que não precisas, e só depois traças caminhos com os grãozinhos de pó que sobram na tua apófise.
Acabaram as regurgitações de quem vai morrer santo. Agora é mesmo acabar com o que resta de vida idiota no topo do que pretendes alcançar.
- Já abracei o devir. Agora só suspiro, e não será por ti.....
domingo, 14 de setembro de 2008
Pneus e receitas orientais
-Perguntava eu, dona Amélia, e o seu marido? Ouvi dizer que ele já sente as vestes da mulher de preto...
- Sim. Coitado. Choro, pinto as paredes com o sangue do senhor, a menina já anda vestida de vermelho para os espíritos aquecerem e derreterem.
- E ele melhora.
- Não. Mas no outro dia consegui que ele me perguntasse de que cor tinha pintado o cabelo.
- E pintou?
- Não, estava a fazer um bolo, o gato saltou para cima do tabuleiro do forno, e levei com uma salganhada de gemas de ovo na cabeça. Entrei no quarto para ir buscar o álcool, e ele viu-me.
- Compre-lhe tónico, que o homem acorda.
-Não acredito vizinha. Ele já fala que gosta da bata que a avó traz. E a avó dele nem eu a conheci.
-Pois,...
- Olhe, o que me vale são dois pneus que eu arranjei no quintal.
- Dois pneus?
- Sim. Meto-me lá dentro, redondinha rebolo, e pronto. Ali fico. Até vejo campos floridos.
-...
-....
- Olhe vizinha, tenho o almoço ao lume. Até logo.
- Eu também. Hoje vou beber saké, e fui ao chinês comprar pénis de tigre a ver se o homem me acorda....
-....
sábado, 7 de junho de 2008
Gâmeta M. vs. Gâmeta F.
Ele: Se eu me distendesse em explicações obtusas sobre o sentido da vida, o que farias?
Ela: Provavelmente chamaria quem me ajudasse a compreender-te, sem te odiar.
Ele: Sabes que eu sei que se tu soubesses o que a vida sabe de ti, ninguém mais iria saber de nós, porque nós simplesmente iríamos deixar de saber o que é a sapiência de estar sem saber o que o amanhã trará.
Ela: Também gosto de fumar um cigarro quando me sinto frustrada.
Ele: E eu gosto de te sentir insegura, em especial quando o sol rompe e te diz que ainda estás viva.
Ela: Nunca me senti assim, insegura perante as discrepâncias da vida.
Ele: A existência prova-me o contrário. Nunca percebeste que se há um outro lado, quem lá está implica contigo em excesso.
Ela: É possível. Nunca fui metafísica, mas sou plenamente maiêutica. Defendo que quem me quer perceber, tem primeiro de perceber o que eu transpiro.
Ele: Nunca te achei filósofa o suficiente para entender essas divagações.
Ela: Também nunca me achei alienada. Mas sou realista. E o realismo dá comichão.
Ele: Comichão?
Ela: Sim. Por isso nunca viajo de autocarro. Além de detestar espaços fechados, tenho quase a certeza absoluta que as pessoas saem daquele recinto apertado a odiar-se umas às outras por minha causa.
Ele:....
Ela: Experimenta falar-me de axiologia. Como não tenho espírito, defendo-me com as glândulas sudoríparas.