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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

"Tentou uma vez explicar-me que a terra e os planetas foram arrancados ao Sol por uma estrela ao passar. Como se um cão trotasse junto a um arbusto e libertasse mundos. E nesses mundos apareceu a vida, e nessa vida seres como nós - almas. E mesmo criaturas mais estranhas que nós afirmou ela. Gostei de ouvir isto, mas não a compreendi bem. Sei que a impedi de voltar para o Japão. Por minha causa, desobedeceu ao pai. A mãe morreu-lhe, e Sono não se referiu a tal facto durante várias semanas. E uma vez disse: - Je ne crais pas la mort. Mais tu me fais souffrir, Moso. - Não a tinha visitado durante todo um mês. Tivera novamente uma pneumonia. Ninguém viera vê-la. Estava fraca e pálida, chorava e murmurava: - Je souffre trop. - Mas não o deixara confortá-la; ouvira dizer que ele andava com Madalena Pontritter.
Notou contudo: - Elle est méchante, Moso. Je suis pas jalouse. Je ferai amour avec un autre. Tu m'as laissée. Mais elle a les yeux très, très froids.
Escreveu, Sono, tinhas razão: Pensei que talvez gostasse de o saber. Os olhos dela são muito frios. No entanto, são olhos, e que há-de fazer deles? Não seria prático para ela odiar-se. Felizmente, Deus envia um substituto, um marido."
- Herzog, Saul Bellow

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

"dispo-me só em parte, deito-me com frio, no entanto apetece-me escrever até adormecer, até ao esquecimento, descobrir a sintaxe e o som secreto. é urgente começar a construir partindo dos alicerces que já estão abertos. temos de erguer a nossa morada. e quando a hora for chegada, se chegar, se antes disso o homem velho, cobarde como é, sedeusquiser havemos de estar vivos, de ter casa habitável se a guerra do homem velho o consentir. havemos de."
- III Fragmento, Rumor Branco
Almeida Faria

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O momento sebastianista de Diana Catarina

Era uma manhã encoberta. 
Enfrentava os suaves cristais de chuva sustentados no ar à sua volta e envolta por essas gotículas húmidas fustigando-a, atravessava o descampado. A viagem de todos os dias pintada de cinzento, o céu num tom quase branco quase iluminado pelos raios de sol triunfantes na conquista à barreira de uma intenção cristalina.
"Raios, está frio!" pensava.
Sim, o frio. Esse príncipe de Inverno atravessava-lhe o casaco tal espada de samurai. 
O rio, contrariamente à habitual alegria com que salpica a margem da capital - brilhante, exuberante e vivido - e reflecte a luz do sol confuso (mas acolhedor) com a mania que é veraneante, é um grande manto encoberto pelo transparente elemento fugidio. Pessoas a bordo de uma casca de noz, quando em comparação à vastidão do plano maior do universo, vêem o invisível instrumentalizando a sua relembrança de dias passados, esperançados na âncora da rotina quotidiana que serena este medo do invisível. 
Diferentes cabeças, pensamentos diferentes; uma confusão desintegrada de balões de diálogo: "Será que estamos a navegar? O barco parece tão tranquilo", "Queres ver que é desta...", "Eu fechei a porta ao trinco, não fechei?"... Palavras soltas ao ar. À foz. Ao mar.
E quando toda a esperança parece inconsequente, eis que o cais se avista! Eis que da bruma surge o cenário perfilado na expectativa de todo o mundo! A segurança regressa, o sossego suburbano retorna ao ser e eis que tudo está como sempre esteve, apenas tudo foi ocultado por dez minutos pela privação das capacidades sensoriais, tendo o ser sido desequilibradamente privado do sentido de orientação tão necessário à sobrevivência e perpetuação da existência. 
Tudo assume o seu lugar habitual; a normalidade assenta a poeira do inesperado ataque ao equilíbrio e ordenação natural da vida. 
O universo pessoal realinha-se, o dia avança e a existência prossegue.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Mariquinhas pé de salsa

Hoje não esteve assim taaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaanto frio.
Os senhores da televisão são uns mariquinhas.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Uma pessoa já se tinha esquecido o que era sentir frio. E aparentemente a rua, as árvores e os telhados também já se tinham esquecido o que era levar com vento e chuva em cima. É ver tudo enlameado, ramos e telhados no chão.
Quero um tempo californiano, bem bom. 

sábado, 22 de outubro de 2011

E de repente, o Outono torna-se apetecível. 
As diferentes tonalidades do castanho e laranja misturadas com o que resta do verde no chão não significam afinal a vinda anunciada do frio, mas um quente aconchegado a ti.
Tudo se perspectiva acolhedor e o restolhar das folhas debaixo dos nossos pés a prova sonora do universo de como estamos aqui, numa cumplicidade terna.
De repente, o Outono não é apenas a antecipação da chuva e o desalinhamento do vento...
Eu e tu: era inevitável, não era?