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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

"Por estes mesmos dias, talvez antes, talvez depois de ter Joana Carda riscado o chão com a vara de negrilho, andava um homem a passear na praia, era isto ao entardecer, quando o rumor das ondas mal se ouve, breve e contido como um suspiro sem causa, e esse homem, que mais tarde dirá chamar-se Joaquim Sassa, ia caminhando acima da linha da maré que distingue as areias secas da areia molhada, e de vez em quando baixava-se para apanhar uma concha, uma pinça de caranguejo, um fio de alga verde, não é raro gastar-nos assim o tempo, este passeante solitário se estava gastando assim. Como não levava bolsos nem saca para guardar os achados, devolvia à água os restos mortos quando tinha as mãos cheias deles, ao mar o que ao mar pertence, a terra que fique com a terra. Mas toda a regra leva as suas excepções, e uma pedra que adiante se via, fora do alcance das marés, levantou-a Joaquim Sassa, e era pesada, larga como um disco, irregular, fosse ela das outras, maneirinhas, de contorno liso, daquelas que cabem folgadas entre o polegar e o indicador, e Joaquim Sassa tê-la-ia atirado a rasar a água plana, para a ver saltar, puerilmente feliz com a sua própria destreza, e enfim mergulhar, já perdido o impulso,  pedra que parecera ter o destino traçado, ressequida de sol, molhada só da chuva, e afinal mergulhando na escura profundidade para esperar um milhão de anos, até que este mar se evapore, ou recuando a faça regressar à terra por outro milhão de anos, dando ao tempo tempo de descer à praia outro Joaquim Sassa, que sem saber repetirá o gesto e o movimento, nenhum homem diga, Não farei, segura e firme não está nenhuma pedra."
- A Jangada de Pedra, José Saramago

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Dia do Desassossego

Isto apresenta-se-me como uma bela desculpa para interromper o meu estudo intensivo de Sistemas, escritas de ensaios e afins e percorrer Lisboa com o livro d'O Ano da Morte de Ricardo Reis na mão, visitar as exposições na Fundação e ir ao São Carlos no fim do dia. 
Tudo com entrada gratuita e livros com 50% de desconto na livraria da Fundação.

Todo o programa aqui.



quarta-feira, 14 de novembro de 2012

"A morte seguiu pois pelo corredor até à primeira porta à direita de quem entra e por aí passou à sala de música, que outro nome não se vê que deva ser dado à divisão de uma casa onde se encontra um piano aberto e um violoncelo, um atril com as três peças da fantasia opus setenta e três de robert schumann, conforme a morte pôde ler graças a um candeeiro de iluminação pública cuja esmaecida luz alaranjada entrava pelas duas janelas, e também algumas pilhas de cadernos aqui e além, sem esquecer as altas estantes de livros onde a literatura tem todo o ar de conviver com a música na mais perfeita harmonia, que hoje é a ciência dos acordes depois de ter sido a filha de ares e afrodite."

- As Intermitências da Morte, J. Saramago


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Alegria ao Mundo!

Eu ia escrever sobre o pânico das apresentações orais de que padeço (ser avaliada oralmente aterroriza-me, tal como o Canaveira* percebeu hoje na nossa pequena interacção: eu sou o tipo de pessoa que numa apresentação oral de 8 minutos de um livro do Lobo Antunes estende-se durante meia-hora e sobre o Ensaio sobre a Cegueira acha por bem falar durante uns bons três quartos de hora quando devia demorar quinze minutos). 
Ia também falar da filha da puta da dor de cabeça instalada há 4 dias na minha têmpora esquerda, agravada pela francesada da Jeanne d'Arc, que não quer passar nem por nada, estando eu a sobreviver à base da bruta auto-medicação. 

Mas já não vale a pena, porque alegria ao mundo! 

Sufjan Stevens + Eu + Coliseu + Maio = PERFEIÇÃO À QUAL SÓ SE PODE ALMEJAR UMA VEZ NA VIDA. 

YES! YES! YES! YES! OMF'ingGOD, YES! 

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*O Canaveira é Deus, já tinha dito? 

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Os resultados já estão. Agora faltam as candidaturas.

Uma razia. Uma miséria. Português foi o que se viu. Só sei que quem corrigiu os nossos exames foi um agarrado de primeira.  
Mas vá, não foi assim tão mau. Mas podia ter sido melhor, até porque vendo a prova, eu só tenho erros parvos. Tipo erros de pontução. Mas erros de pontuação que não são erros. É estilo. Eu neste longoooooos anos em que sei escrever - e já são uns 12, já não sou propriamente amadora nestas andanças - adoptei uma certo estilo de escrita, que passa muito pelos dois pontos e os travessões. E pela quase inexistência de pontos de exclamação. Odeio pontos de exclamação. Acho-os de uma condescendência extraordinária. E parvos.
Ora a bem ver: é estilo. Mas gente de mente fechada - se fosse o Saramago a escrever assim no exame? Uh? - não compreende e  põe la o tracinho em baixo. E não é de modas e desconta uns quantos valores. Vai-se a ver e ficamos nos 145. Isto arredondado dá quinze e baixa-me uma valor à nota final. Uma tristeza.

Então, uma pessoa vira-se para o outro lado e aquele que se lhe afigurava ser o maior desastre de todos os tempos acaba por ser aquele que lhe aquece o coração: História. E uma nota decente. Um mimo.

Agora é tempo de tratar da minha vida e tão e somente começar a planear o resto da minha vida. Ou então só os próximos três anos.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago (1922-2010)

Sempre tive uma relação conflituosa com Saramago. Nunca concordei com muitas das suas afirmações, mas não há como negar o génio das suas palavras.
O único livro de teatro de que realmente gostei é dele: Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido. Mas foi O Ensaio Sobre a Cegueira que me fez gostar da sua escrita e continua ser um dos meus livros preferidos dele.

Agora, é tempo de invocar a memória do seu legado literário e recorda-lo, para sempre, como uns dos maiores escritores da Língua Portuguesa. A figura pode ter desaparecido, mas a obra nunca morre: é eterna.
Aqui fica a minha homenagem.

"Agora não há outra música senão a das palavras, e essas, sobretudo as que estão nos livros, são discretas, ainda que a curiosidade trouxesse a escutar à porta alguém do prédio, não ouviria mais do que um murmúrio solitário, este longo fio de som que poderá infinitamente prolongar-se, porque os livros do mundo, todos juntos, são como dizem que é o universo, infinitos."

in Ensaio sobre a Cegueira
-José Saramago