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16.11.11

Guerra Junqueiro (O dinheiro de S. Pedro)






O DINHEIRO DE S. PEDRO




De tal modo imitou o Papa a singeleza
Do mártir do Calvário,
Que à força de gastar os bens com a pobreza
Tornou-se milionário.

Tu hoje podes ver, ó filho de Maria,
O teu vigário humilde
Conversando na Bolsa em fundos da Turquia
Com o Barão Rothschild.

A cruz da redenção, que deu ao mundo a vida
Por te haver dado a morte,
Tem-na no seu bureau o padre-santo erguida
Sobre uma caixa-forte.

E toda essa riqueza imensa, acumulada
Por tantos financeiros,
O que é a economia, ó Deus! foi começada
Só com trinta dinheiros!




GUERRA JUNQUEIRO
A Velhice do Padre Eterno
(1885)




[Luz & sombra]

.

15.3.11

Guerra Junqueiro (Aos simples)





AOS SIMPLES



      (...)
Minha mãe, minha mãe! ai que saudade imensa,
do tempo em que ajoelhava, orando, ao pé de ti.
Caía mansa a noite; e andorinhas aos pares
cruzavam-se voando em torno dos seus lares,
suspensos do beiral da casa onde eu nasci.
Era a hora em que já sobre o feno das eiras
dormia quieto e manso o impávido lebréu.
Vinham-nos da montanha as canções das ceifeiras,
e a Lua branca, além, por entre as oliveiras,
como a alma dum justo, ia em triunfo ao Céu!
E, mãos postas, ao pé do altar do teu regaço,
vendo a Lua subir, muda, alumiando o espaço,
eu balbuciava a minha infantil oração,
pedindo ao Deus que está no azul do firmamento
que mandasse um alívio a cada sofrimento,
que mandasse uma estrela a cada escuridão.
Por todos eu orava e por todos pedia.
pelos mortos no horror da terra negra e fria,
por todas as paixões e por todas as mágoas,
pelos míseros que entre os uivos das procelas
vão em noite sem lua e num barco sem velas
errantes através do turbilhão das águas.
O meu coração puro, imaculado e santo
ia ao trono de Deus pedir, como inda vai,
para toda a nudez um pano do seu manto,
para toda a miséria o orvalho do seu pranto
e para todo o crime o seu perdão de Pai!


A minha mãe faltou-me era eu pequenino,
mas da sua piedade o fulgor diamantino
ficou sempre abençoando a minha vida inteira,
como junto dum leão um sorriso divino,
como sobre uma flor um ramo de oliveira!
            (...)



GUERRA JUNQUEIRO
A Velhice do Padre Eterno
(1885)

.

19.2.11

Guerra Junqueiro (O melro)





O MELRO



O melro, eu conheci-o:
Era negro, vibrante, luzidio,
Madrugador, jovial;
Logo de manhã cedo
Começava a soltar, dentre o arvoredo,
Verdadeiras risadas de cristal.
E assim que o padre-cura abria a porta
Que dá para o passal,
Repicando umas finas ironias,
O melro; dentre a horta,
Dizia-lhe: "Bons dias!"
E o velho padre-cura
não gostava daquelas cortesias.


O cura era um velhote conservado,
Malicioso, alegre, prazenteiro;
Não tinha pombas brancas no telhado,
Nem rosas no canteiro:
Andava às lebres pelo monte, a pé,
Livre de reumatismos,
Graças a Deus, e graças a Noé.
O melro desprezava os exorcismos
Que o padre lhe dizia:
Cantava, assobiava alegremente;
Até que ultimamente
O velho disse um dia:


"Nada, já não tem jeito!, este ladrão
Dá cabo dos trigais!
Qual seria a razão
Por que Deus fez os melros e os pardais?!"
   (...)



GUERRA JUNQUEIRO
A Velhice do Padre Eterno
(1885)

.

29.1.11

Guerra Junqueiro (Regresso ao lar)






REGRESSO AO LAR




Ai, há quantos anos que eu parti chorando
Deste meu saudoso, carinhoso lar!...
Foi há vinte?...há trinta? Nem eu sei já quando!...
Minha velha ama, que me estás fitando,
Canta-me cantigas para eu me lembrar!...


Dei a volta ao mundo, dei a volta à Vida...
Só achei enganos, decepções, pesar...
Oh! a ingénua alma tão desiludida!...
Minha velha ama, com a voz dorida,
Canta-me cantigas de me adormentar!...


Trago d'amargura o coração desfeito...
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...
Minha velha ama que me deste o peito,
Canta-me cantigas para me embalar!...


Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
Pedrarias d'astros, gemas de luar...
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...
Minha velha ama, sou um pobrezinho...
Canta-me cantigas de fazer chorar!


Como antigamente, no regaço amado,
(Venho morto, morto!...) deixa-me deitar!
Ai, o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...


Canta-me cantigas, manso, muito manso...
Tristes, muito tristes, como à noite o mar...
Canta-me cantigas para ver se alcanço
Que a minh'alma durma, tenha paz, descanso,
Quando a Morte, em breve, ma vier buscar!...




GUERRA JUNQUEIRO
Os Simples
(1892)


.

19.12.10

Guerra Junqueiro (Dedicatória)






DEDICATÓRIA




Recordam-se vocês do bom tempo d'outrora,
Dum tempo que passou e que não volta mais,
Quando íamos a rir pela existência fora
Alegres como em Junho os bandos dos pardais?
C'roava-nos a fronte um diadema d'aurora,
E o nosso coração vestido de esplendor
Era um divino Abril radiante, onde as abelhas
Vinham sugar o mel na balsâmina em flor.
Que doiradas canções nossas bocas vermelhas
Não lançaram então perdidas pelo ar!...
Mil quimeras de glória e mil sonhos dispersos,
Canções feitas sem versos,
E que nós nunca mais havemos de cantar!
Nunca mais! nunca mais! Os sonhos e as esp'ranças
São áureos colibris das regiões da alvorada,
Que buscam para ninho os peitos das crianças.
E quando a neve cai já sobre a nossa estrada,
E quando o Inverno chega à nossa alma, então
Os pobres colibris, coitados, sentem frio,
E deixam-nos a nós o coração vazio,
Para fazer o ninho em outro coração.
Meus amigos, a vida é um Sol que chega ao cúmulo
Quando cantam em nós essas canções celestes;
A sua aurora é o berço, e o seu ocaso é o túmulo
Ergue-se entre os rosais e expira entre os ciprestes.
Por isso, quando o Sol da vida já declina,
Mostrando-nos ao longe as sombras do poente,
É-nos doce parar na encosta da colina
E volver para trás o nosso olhar plangente,
Para trás, para trás, para os tempos remotos
Tão cheios de canções, tão cheios de embriaguez,
Porque, ai! a juventude é como a flor do lótus,
Que em cem anos floresce apenas uma vez.


E como o noivo triste a quem morreu a amante,
E que ao sepulcro vai com suas mãos piedosas
Sobre um amor eterno — o amor dum só instante —
Deixar uma saudade e uma c'roa de rosas;
Assim, amigos meus, eu vou sobre um tesouro,
Sobre o estreito caixão, pequenino, infantil,
Da nossa mocidade, — a cotovia d'ouro
Que nasceu e morreu numa manhã d'Abril! —
Desprender, desfolhar estas canções sem nexo,
Estas pobres canções, tão simples, tão banais,
Mas onde existe ainda um pálido reflexo
Do tempo que passou, e que não volta mais.



GUERRA JUNQUEIRO
A Musa em Férias
(1879)


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29.11.10

Guerra Junqueiro (Morena)






MORENA




Não negues, confessa
que tens certa pena
que as mais raparigas
te chamem morena.

Pois eu não gostava,
parece-me a mim,
de ver o teu rosto
da cor do jasmim.

Eu não... mas enfim
é fraca a razão,
pois pouco te importa
que eu goste ou que não.

Mas olha as violetas
que, sendo umas pretas,
o cheiro que têm!
Vê lá que seria,
se Deus as fizesse
morenas também!

Tu és a mais rara
de todas as rosas;
e as coisas mais raras
são mais preciosas.

Há rosas dobradas
e há-as singelas;
mas são todas elas,
azuis, amarelas,

da cor de açucenas,
de muita outra cor;
mas, rosas morenas,
só tu, linda flor.

E olha que foram
morenas e bem
as moças mais lindas
de Jerusalém.
E a Virgem Maria
não sei... mas seria
morena também.

Moreno era Cristo.
Vê lá, depois disto,
se ainda tens pena
que as mais raparigas
te chamem morena!




GUERRA JUNQUEIRO
A Musa em Férias
(1879)




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