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9.11.17

Ruy Cinatti (Poema de amor)





POEMA DE AMOR 



Os segredos de amor têm profundezas difíceis de alcançar, 
tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,
nós olhando triste uma saudade imensa
num corpo de mulher metamorfoseada. 

Sou demasiado são para me esquecer
do tempo apaixonado que vivi nos teus braços
e bebo no teu um coração meu
adormecido no mar do meu cansaço
ou no rio das minhas secas lágrimas. 

Tardará muito, se é que as horas contam, 
ver-te, de novo, perto de mim, longe, 
mas eu espero, sou paciente e, no meu canhenho, aponto, 
um dia a menos, o da tua chegada. 
E assim me fico, rente ao horizonte,
abrigado da chuva numa cabine telefónica,
e ligo para ti - que número? - ninguém responde
do oceano que avança e retrai colinas,
o vulto de um navio, tu na amurada
acenando um lenço, ó minha pomba branca!...

Como se tempestade houvesse e um naufrágio de chuva
- as vidraças escorrem, as árvores liquefazem-se... - 
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, a minha boca neles 
carregada de ilhas, de nocturnos perfumes
que ateiam lumes, ó minha idolatrada, 
na minh' alma inquieta um outro bater d' asas
ou num jardim um leito de flores!...


Ruy Cinatti

[Ler]


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27.10.12

Ruy Cinatti (Quando o amor morrer)




Quando o amor morrer dentro de ti,
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobra as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do templo onde a vida ora de bruços
A Deus e aos sonho que gelaram.


Ruy Cinatti


[nEscritas]

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6.10.12

Ruy Cinatti (Anunciação)





ANUNCIAÇÃO



Não tenho palavras, nem entendo
formas visíveis.
Elas vêm concretas como aragem
a que dou nome.

Tenho-me, eis tudo. Acontece.
Há uma folha que desce,
que sobrenada, que desce,
que submerge no ar e depois desce
longe de mim no ar fundo.

Nós não somos deste mundo.

Fresca e limpa como a chuva,
ouço a tua voz cantada
descer do céu ao silêncio
que vem da terra molhada.

Nós não somos deste mundo.

Ouso dizer-te o meu nome
como quem se atreve a dar-te
a minha imagem.

Nós não somos deste mundo.

O que não vejo, entendo.
Pelos rios do meu sangue,
atrevo-me.

Anoitecendo, a vida recomeça.

Dou-me em palavras
que ressuscitam.
Algures no céu amanhece.

Só, intranquilo, pela vereda, desce
o nómada meu amigo.


Ruy Cinatti


[Arquivo de cabeceira]


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3.9.12

Ruy Cinatti (Linha de rumo)





LINHA DE RUMO




Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Encontro-me parado...
Olho em redor e vejo inacabado
O meu mundo melhor.


Tanto tempo perdido...
Com que saudade o lembro e o bendigo:
Campos de flores
E silvas...


Fonte da vida fui. Medito. Ordeno.
Penso o futuro a haver.
E sigo deslumbrado o pensamento
Que se descobre.


Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Desterrado.
Desterrado prossigo.
E sonho-me sem Pátria e sem Amigos,
Adrede.



Ruy Cinatti



[nEscritas]


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13.3.10

Ruy Cinatti (Disponibilidade)







DISPONIBILIDADE




Vem ver a vida
passar silenciosamente
como a ave no ar claro.


Vê-a que desce. Prende-a.
Nas tuas mãos em concha
fica um instante.


Deixa-a fugir. Outras há.



RUY CINATTI
O Livro do Nómada Meu Amigo
(1981)

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1.2.10

Ruy Cinatti (Proclamação)






PROCLAMAÇÃO



A natureza não desce
a contratos. Nem a vida
se mede pela razão.

A vida é toda mistério.

Quem largamente se deu
não ofendeu a justiça
mas viveu do coração.



RUY CINATTI
O Livro do Nómada Meu Amigo
(1981)




>>  As Tormentas  (16p)  /  TriploV (3p)  /  Porto de Abrigo (4p)




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