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5.12.13

Nuno Camarneiro (Talvez amemos só pelo que o amor nos traz)





Talvez amemos só pelo que o amor nos traz, ou pelo que podemos ser quando alguém nos ama.

Seremos assim tão tortos?

É possível que só saibamos dar a nós mesmos?

Orgulho, respeito, altruísmo, abnegação.

São coisas que atiramos porque sabemos que hão-de voltar, como um pau que um cão nos há-de devolver.


- NUNO CAMARNEIRO, Debaixo de algum céu, 2013 (Adriano).

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29.11.13

Nuno Camarneiro (O sentido da vida)





O problema é desenhar a vida em forma de montanha, dar um cume à vida e querer atingi-lo como se o seu sentido dependesse desse acto.

O sentido da vida, a existir, há-de ser como o sentido de uma montanha, e não muda por lhe chegarmos ao topo ou nos perdermos pelas encostas.

Penso assim porque fiquei a meio, pior ainda, porque fiquei a escassos metros do topo.

Mas o problema de atingir um objectivo é decidir o que fazer depois de o atingir, e em nada é diferente a minha situação por o não ter atingido.

Com que devo preocupar-me agora, que não tenho nada com que me preocupar?


- NUNO CAMARNEIRO, Debaixo de algum céu, 2013 (Bernardino).

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20.11.13

Nuno Camarneiro (O dia encheu)





O ar encheu-se de neblina e o que ainda se vê fora é desfocado e incerto, um barco lá longe, um casal que regressa do paredão, um cão perdido na praia.

O dia vai cegando devagar para que os olhos se habituem ao negro, as janelas acendem-se a confirmar gente e sente-se o silêncio por dentro, como coisa antiga da infância, como noite de meninos, o medo do escuro e os cheiros da casa.

O cheiro a lenha que arde, o cheiro a sopa, o cheiro da família.


- NUNO CAMARNEIRO, Debaixo de algum céu, 2013 (Narrador).

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14.11.13

Nuno Camarneiro (A vida tranquila)





Às vezes penso que a vida tranquila é inimiga de uma vida tranquila.

Tenho o que quis ter, sou feliz porque nada me falta para ser feliz.

Vivo num equilíbrio certo e tão imune a tudo que me vejo obrigada a ele, incapaz de tristezas profundas ou infelicidades justificadas.

Há outras maneiras de ser feliz que não conheço mas intuo, serão fugazes e ardentes, arrebatadoras, isso, arrebatadoras.


- NUNO CAMARNEIRO, Debaixo de algum céu, 2013 (Manuela).

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2.11.13

Nuno Camarneiro (É engraçado o sol)




É engraçado o Sol, indo e vindo como um tio que faz negócios.

Às vezes uma visita, outros dias ocupado noutros lugares com outra gente.

Aprende-se a recebê-lo com alegria porque veste o tempo e traz cores à casa, É o tio, lembras-te do tio?

O sol é doido e é assim, como um tio de quem se gosta.


- NUNO CAMARNEIRO, Debaixo de algum céu, 2013 (Narrador).

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24.10.13

Nuno Camarneiro (Homens perdidos)





Aos homens muito perdidos só lhes restam caminhos que levem a uma mulher.

A noite sem mulheres não tem fim, nem o medo ou a morte têm fim longe delas.

Filhos delas toda a vida, mesmo que fingindo, mesmo a fugir.

Para os homens muito perdidos só as mulheres são lugar.



- NUNO CAMARNEIRO, Debaixo de algum céu, 2012 (Narrador).

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18.10.13

Nuno Camarneiro (Deus é bom)





Deus é bom, mas liga pouco a pormenores.



- NUNO CAMARNEIRO, Debaixo de algum céu, 2013 (Daniel).

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9.10.13

Nuno Camarneiro (A vida dos homens)






A vida dos homens estica e encolhe, enche-se de rugas, pregas no espaço e no tempo, no que pensamos ou sentimos.

Quando uma parte das vidas se encontra com outra, dizemos que lembramos, ou sonhamos, ou revivemos.

Quando se encontra com a vida de outra pessoa, chamamos-lhe coincidência ou sorte.



- NUNO CAMARNEIRO, Debaixo de algum céu, 2012 (Narrador)

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3.10.13

Nuno Camarneiro (As palavras são difíceis)





As palavras são difíceis, mas são o que temos.

O sofrimento é único para cada homem e para cada mulher, são infinitas as dores e poucas as palavras que lhes dão nome: desgosto, arrependimento, comiseração, tristeza, pesar, mágoa, pena, lástima, aflição, angústia, nojo, desolação, comoção, choque, amargor.

Faltam termos e sobram as horas más.

Não falta descrever o que se pensa, porque não importa, o sofrimento corre abaixo da cabeça, no corpo que apanha, às voltas num mesmo lugar que é o centro de tudo, como se chama o centro exacto de nós?


- NUNO CAMARNEIRO, Debaixo de algum céu, 2013 (Narrador).

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27.9.13

Nuno Camarneiro (Somos todos uns sentimentais)





Somos todos uns sentimentais e por isso demoramos no que nos dói.

Temos o choro fácil que dá ou não dá em lágrimas, guardamos as dores cheias de pormenor enquanto as felicidades ficam por ali, confusas, com algumas caras, alguns sons, incertas e vagas.

Lembramos os sapatos que calçávamos quando alguém morreu, a hora da notícia, o programa que passava nesse instante e até as vergonhas que pensámos.

Folheemos as páginas do riso e pouco encontraremos, algumas frases, momentos caricatos, elementos de uma paisagem.

Pouco e mal contado, estávamos distraídos, demasiado ocupados na felicidade para lhe fazermos o retrato.

Somos tolos e sentimentais, temos arcas cheias de mágoas que não esquecemos e que abrimos a todo o momento a ver se ainda nos doem, e doem sempre.

Descuramos o arquivo do bem que apesar de tudo nos vai acontecendo, somos tolos de lágrimas.


- NUNO CAMARNEIRO, Debaixo de algum céu, 2013 (Narrador).

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7.9.13

Nuno Camarneiro (Uma história são pessoas)





Uma história são pessoas num lugar por algum tempo.

As margens da página, como o silêncio, estabelecem limites certos para que um conto não se confunda com o que não lhe pertence.

Pode contar-se uma história enchendo uma caixa vazia ou desenhando paredes à volta de gente.


- NUNO CAMARNEIRO, Debaixo de algum céu, 2013 (princípio).

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