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13.10.12

Helder Macedo (Uns imaginam o mundo)





Uns imaginam o mundo, outros constroem-no.

São modos complementares de ser e ambos me merecem simpatia.

Também há quem construa um mundo imaginário e, nesse caso, depende.



- HELDER MACEDO, Partes de África (4.), Edit. Presença, 1991.

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1.10.12

Helder Macedo (Sempre dá jeito ter pai)






Eu defendia a teoria alternativa da Ausência: o suicídio era dar importância demais àquilo que se julgava ser, havia sempre safa naquele artigo do Código Civil, meu único ganho do curso de Direito, que permitia que se fosse “ausente em parte incerta ou desconhecida sem se saber se é vivo ou morto”.

Decidimos, em todo o caso, que se algum de nósalguma vez precisasse, o outro ia de táxi.

Felizmente que no dia seguinte, sem ter participado na nossa conversa, o Sebag se suicidou, sentado no chão, de baraço ao pescoço e a outra ponta amarrada à perna de uma mesa, a puxar com o rabo e arrastando a mesa atrás: aliviou a atmosfera e deu para rirmos todos muito.

Só o João Vieira não achou graça, era no atelier que ainda partilhava com os outros futuros KWY em cima do Gelo e a mesa tinha as bisnagas das tintas que começaram a cair.

Sacudiu severamente o Sebag, tirou-lhe o baraço do pescoço, e o Sebag abraçou-o, muito grato, chamando-lhe pai.
 
Sempre dá jeito ter pai.

  
- HELDER MACEDO, Partes de África (12.), Edit. Presença, 1991.

 
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22.9.12

Helder Macedo (O capítulo mais difícil)





Já sei que este é o capítulo mais difícil do meu livro.

Por isso é melhor que seja breve.

Tentei escrevê-lo três vezes e três vezes desisti, ficando a saber, de cada vez, que com as mesmas palavras tanto se pode fingir a verdade como a mentira, o que aliás já sabia.

Tentei ir para diante sem ele, tive de voltar atrás.

Fica encaixado aqui.

O meu problema é conseguir tornar tão evidente que ninguém note como, a relação que necessariamente tem de haver entre Moncorvo e o meu pai ou, transpostamente em veracidade fictícia, entre estas duas partes da mesma África.



- HELDER MACEDO, Partes de África (9.), Edit. Presença, 1991.

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10.9.12

Helder Macedo (Férias sabáticas)





Estou com cinquenta e tal anos e em férias sabáticas, coisas que nunca me tinham acontecido ao mesmo tempo.

E foi assim que pude aceitar a hospitalidade do meu bom amigo Bartolomeu Cid dos Santos, na sua bela casa mais amada do que usada, entre serras que não mudam nunca e águas do mar que nunca estão quedas.

Excepto que, sendo Primavera e o mar ficando ainda longe, basta ir ao terraço para constatar que são as serras de Sintra que diariamente se transformam e as águas da Praia das Maçãs que parecem sempre fixas.

Não se deve ter demasiada confiança nas metáforas em segunda mão.

Em todo o caso já se sabe que as férias vão chegar ao fim logo que comece a habituar-me e a vida nem é bom pensar.



- HELDER MACEDO, Partes de África (1.), Edit. Presença, 1991.


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