(
Fernando Amorsolo)
Augusta subia a ladeira íngreme a custo, a mão direita a
afagar os rins por cima da blusa de seda bege.
Entre dentes, desfiava um rol de pragas.
“Rais partam as malditas pedras mais quem se lembrou de mandar
calcetar tão mal o diabo do caminho! Havia de se estrepar todinho cada vez que aqui
passasse!”
Chegada à eira da casa grande, parou um pouco para
regularizar a respiração e limpar o rosto suado com um lenço da mão. O lenço,
de cambraia branca bordada, não merecia tal destino, mas do bolso daquela saia plissada preta, que habitualmente usava para ir à missa, só se esperava saíssem coisas finas.
Bateu palmas, enquanto gritava: “Oh, da casa! Oh, da casa!”
Bem que sabia haver uma campainha, toda moderna, na porta
verde, ao cimo das escadas. Mas se esperavam que subisse mais uma vintena de
degraus depois da ladeira, deviam estar doidos!
Ouviu uma voz respondendo, lá de dentro, “Já vai! Já vai,
senhora!”
Uma cabeça de homem, ornada de farta e desordenada
cabeleira branca, assomou à porta, apenas entreaberta.
“Augusta! És mesmo tu?” Havia espanto nas palavras.
“Sou eu, pois, seu velho covarde! Vim dizer-te que podes
morrer em paz que eu, Augusta da Conceição, perdoo-te teres-me abandonado no
altar, naquele dia 15 de Agosto de 1960!”
E foi assim, sem mais, que Augusta deu o recado e, de
imediato, voltou a descer por onde viera, repetindo baixinho “Pronto! Pronto!
Agora podemos morrer os dois descansados!”
A aldeia acordou, no dia seguinte, com o toque a finados dos sinos. Augusta da Conceição e António Carriço tinham morrido durante a noite. Os sinos que não tinham repicado pelo seu casamento, faziam-no agora, que a morte os juntara.
(Hélène Grimaud - Mozart: Piano Concerto No. 23: II. Adagio)