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domingo, novembro 04, 2012

Viva a privataria- Portugal experiência e palco do maior roubo à sua gente

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Nem imaginam o desgaste continuado enfrentando cara a cara cada pessoa com quem convivo neste País tão pequeno e tão "dividido", "centralizado" e "cego". Antes havia os fóruns por email, que aliviava esse desconforto e assim "cada" um lia e (re)agia consoante a sua consciência. Os seminários, congressos ainda são sumidouros de conhecimento, mas cujo impacto social esbarra na legislação, nas incoerências políticas, jogos de números e partidarização das ciências. A ciência também ela própria é vítima e actriz de mudanças muito grandes em pouco tempo, em particular as TIC. Os mercados e marketing encarregam-se de mistificar a Ciência produzida e cometem-se erros gravíssimos na segurança alimentar, na biodiversidade, etc. As redes sociais deram uma maior ajuda, mas continua a faltar muito o trabalho de terreno e o que sucede a esta abstenção, cegueira e olhar para o seu umbigo é caminho para os poderosos, num ápice, passarem a ditar as nossas vidas. Os partidos e as sedes locais fragilizam-se. As assembleias municipais são fantasmas. Vai pouca gente. Os movimentos ambientalistas acusam desgaste. A manipulação é enorme. Há muita vaidade, egoísmos, oportunistas. Todos gostam de dizer "esta foi ideia minha", "eis a minha obra", ou então "o que faz este texto aqui sobre austeridade na página dos amantes da horta/ amantes das bicicletas/ amantes das florestas?" em vez de se colocarem verdadeiramente ao serviço da bondade, paz e sustentabilidade. Oxalá muita gente pensasse assim: "Eu não me rebaixo a uma alemã qualquer!" e nisso creio que muitos que me estão a ler estarão em completo acordo!
Época de uns vermes forbianos e de milhões/biliões de pessoas boas e, em certa forma, inocentes. Inclusive os próprios alemães.


Ler/ divulgar/ (re) agir: A CARTA À ALEMANHA

Esta senhora Merkel vai ganhar €23.000 mensais, e quer que nós tenhamos mais 5 anos de austeridade. Não somos números em folhas de excell nem meros telecomandados. 

Temos que enterrar este neo-liberalismo e colocá-lo no Museu dos Horrores o quanto antes! [fonte texto BioTerra]

quarta-feira, janeiro 06, 2010

A triste incapacidade de discutir ideias em Portugal


Vivi 9 anos no Reino Unido e um dos choques culturais a que fui exposto foi constatar que as pessoas eram capazes de discutir vigorosamente temas em que se contrapunham opiniões diversas (por vezes radicalmente opostas) sem por isso se socorrer da deselegante arma da desqualificação pessoal do adversário. Não sou sociólogo nem psicólogo pelo que me abstenho de teorizar sobre o assunto mas é patente esta diferença de atitude com o nível de debate que se observa em Portugal. Vem este comentário a propósito do texto que escrevi em resposta ao texto que o meu colega e amigo Delgado Domingos tinha escrito sobre o alegado caso do climategate. A discussão pública que com ele entabulei (ver também aqui e aqui) foi cordial e respeitosa e estou certo que continuará assim por muitos e bons anos pois a troca de opiniões que estabelecemos neste blogue não foi mais do que o começo de uma frutuosa conversa.

Infelizmente a populaça rapidamente interpretou o diálogo em termos clubistas e a internet é testemunha de diversos comentários deselegantes à pessoa do Prof. Delgado Domingos e a minha pessoa. O mais surpreendente foi verificar que esta ignóbil atitude (principalmente protagonizada por anónimos) teve eco em pessoas da qual se esperaria um pouco mais. Hoje o Henrique Pereira dos Santos fez-me saber que o blogue "a ciência não é neutra" me tinha dedicado uns piropos por ocasião do debate referido. Transcrevo os piropos:

"Dias depois, um jovem e ambicioso investigador ambientalista com um curriculum auto-laudatório surpreendente, Prof. convidado da cátedra "Rui Nabeiro" da Universidade de Évora de cujo reitor é filho, decidiu atacar Delgado Domingos no mesmo Expresso."

Esta frase revela bem a qualidade humana de quem a escreve mas é de salientar que na ausência de qualquer reflexão aprofundada sobre a matéria o que se faz é um ataque "ad hominem", distorcido, da pessoa que veicula uma opinião com a qual não se concorda. Começa-se por adjectivar o adversário de jovem como se essa qualidade tivesse relevância para entender o debate (e como se 40 anos qualificasse alguém de jovem). Continua-se adjectivando a pessoa de ambicioso e ambientalista sem se perceber bem a relevância de tais conjecturas. Depois fala-se num CV impressionante mas imediatamente retira-se peso ao mesmo ao classificá-lo de auto-laudatório. Depois refere-se o titulo profissional pontuando, na mesma frase, que este é detido, por convite (*), na mesma universidade onde o pai do autor do texto é Reitor. Uma menção que só faz sentido para sugerir que o titulo não se justifica pelo CV mas pelos laços familiares que o autor possui com o dirigente máximo da referida universidade. Finalmente, qualifica-se o artigo de opinião como um "ataque" a Delgado Domingos, revelando uma perturbante incapacidade para entender o conceito de discussão vigorosa mas cordata de ideias e interpretações sobre factos (e não de pessoas). Nada que no fundo deva surpreender pois é assim que as elites Portuguesas discutem política: em termos clubistas! Mas sejamos claros: este texto é - de acordo com os meus parâmetros, claro - miserável e esperava um pouco mais de alguém que, de vez em quando, escreve colunas de opinião com algum interesse ainda que acalente o hábito de censurar, no seu blogue, comentários assinados, cordatos, racionais mas veiculando posições diferentes do autor (por este motivo deixei de o ler).

Não vou contrapor as insinuações do meu colega Pinto de Sá pois recuso-me descer ao seu nível mas sugiro que quem tenha interesse em contrastar as suas insinuações com o meu CV visite as seguintes páginas da Universidade de Évora, do Centro Nacional de Investigação Científica de Espanha, da Universidade de Oxford, da Universidade de Copenhaga e já agora da Science Watch. Cada um tire as ilações que bem entender mas valerá a pena perguntar porque razão uma pessoa com o meu perfil académico é alvo de semelhantes ataques sendo que, ao mesmo tempo, se acalenta complacência com colegas que pouca ou nenhuma investigação científica fizeram durante as suas longas e tranquilas carreiras nas universidades.

* É curiosa a referência ao "convidado". Na verdade o titulo de convidado deriva da figura legal de contratação, de cinco anos, e não do facto da categoria profissional ter sido obtida mediante convite. Contrariamente à esmagadora maioria dos docentes universitários portugueses que entraram nas universidades por convite (como assistentes) e que por lá "assentaram arraiais" sem nunca terem sido expostos a processos verdadeiramente competitivos (apenas prestaram provas de mérito absoluto, i.e., aptidão pedagógica, doutoramentos, agregações), o "convite" no âmbito da cátedra de que sou titular na Universidade de Évora, por cinco anos, resulta de um concurso internacional, amplamente difundido na imprensa nacional e internacional (no caso vertente o concurso foi divulgado na revista "Nature") e onde competiram vários candidatos num processo avaliado por um júri maioritariamente externo à universidade.

terça-feira, novembro 03, 2009

Cabras e lobos


Hoje no Público, numa notícia pequenina (pelo menos na versão sulista, não sei o que diz a versão nortista) cita-se Henrique Carvalho (do PNPG) dizendo que na zonas portuguesa e espanhola do parque do Gerês existirão cerca de 400 cabras selvagens e, não percebi se na mesma área se só no parque português, sessenta lobos.
Lembro-me há uns anos dos inúmeros problemas levantados pelos especialistas acerca da reintrodução das cabras, nos quais se incluía a necessidade de previamente erradicar a brucelose, e nas inúmeros cuidados que haveria a ter para se fazer a sua reintrodução como mandam as regras.
Até que alguém se deve ter fartado e acidentalmente um grupo fugiu de um cercado e desatou a reproduzir-se, defendendo-se dos perigos espanhois fugindo para o lado português (onde ao contrário do lado espanhol a caça estava proibida e havia pouca caça furtiva, mas, sobretudo, dá um trabalhão ir perseguir cabras para os Cornos da Fonte Fria).
Com os lobos tive experiências várias sobre a incapacidade de lidar com o risco no processo de tomada de decisão.
A população de lobo em Portugal está longe de estar ameaçada neste momento. Existe sim um problema temporário e resolúvel a Sul do Douro com a falta de alimento, uma vez que o gado já anda muito menos no monte e as presas naturais ainda não recolonizaram a área de forma tão extensa como a Norte do Douro.
Pois ainda assim quando se propunham soluções para resolver esta questão, era frequente ouvir argumentos de base supostamente ética, de que não se deveria aumentar o gado no monte para alimentar os lobos porque isso seria favorecer uma fonte de alimentação não natural.
Para já não falar nas mais que conhecidas dificuldades levantadas que retardam o fomento de uma das principais espécies presa do lobo, como acontece com o corço.
Não tem número o número de problemas potenciais que é possível descobrir em qualquer acção concreta que se pretenda levar a cabo em matéria de conservação.
O que safa o lobo e as cabras é que a dinâmica da paisagem lhes é favorável (como ao javali) ao contrário de outras espécies como a águia real (e o lince, já agora).
Confesso que não entendo bem o que ensinam as nossas universidades de biologia em matéria de gestão da biodiversidade e biologia da conservação.
Mas da minha experiência o que me parece, e quero estar convencido de que estou a dizer uma grande asneira, é que para uma boa parte do que lá se ensina a realidade é um estorvo que convém afastar.
Suspeito que se juntasse à volta de uma mesa os trinta melhores professores destas matérias que existem nas nossas Universidades e se lhes perguntasse quem tinha experiência concreta (não inclui estudos sobre experiências concretas) de gestão de áreas importantes para a conservação ou de gestão de programas de recuperação de espécies ameaçadas, poucos seriam os braços que se levantariam.
Quando digo experiência concreta quero dizer decidir sobre um orçamento e a afectação de recursos, gerir uma equipa de pessoas com funções diversas, lidar com os poderes fácticos que se exercem sobre os territórios, conhecer as manhas de quem lá vive, saber com quem se pode contar e para quê, sem nunca poder dizer que essa matéria não está no âmbito do que se pretende discutir neste momento.
É uma pena, mas também não é nada que saia muito fora do padrão da nossa academia.
henrique pereira dos santos

quinta-feira, outubro 08, 2009

Ranking das Universidades

Foi hoje publicado o ranking mundial "Times Higher Education" das universidades. De registar a manutenção da situação de predominância das universidades Norte Americanas (26.5% das 200 melhores) mas também a consolidação e ascenção das Universidades Britânicas (14% das 200 melhores). No seu conjunto as universidades anglo-saxónicas incluem 52% das melhores universidades do mundo. De resto, o panorama Europeu é pobre reunindo a Europa Central e do Norte 23.5% das melhores universidades e cabendo à Europa do Sul um modesto 4.5% da excelência académica mundial. Portugal não figura no ranking das 200 universidades de topo sendo a Universidade de Barcelona (rank=171) a mais próxima a figurar na lista das melhores.

Que fazer para melhorar a qualidade do ensino em geral e das universidades em particular? Alguns pensam que a solução passa por abulir escalões profissionais no ensino secundário e de preferência qualquer avaliação de mérito dos docentes. A paixão pela avaliação dos docentes recorrendo a critérios objectivos de mérito e com consequências na consolidação profissional e progressão da carreira também não abunda nas nossas universidades. É pena pois estes são os caminhos que nos afastarão, inexoravelmente, da excelência académica.

sexta-feira, junho 22, 2007

Para quando a fusão das universidades públicas de Lisboa?

No mês Julho fará exactamente um ano que a Universidade de Copenhaga se fundiu com a Real Universidade de Agricultura e Veterinária da mesma cidade.

Objectivo?

Concentração de massa crítica, melhoria da qualidade dos cursos, reforço da capacidade de investigação e optimização dos recursos disponíveis por forma a maximizar a qualidade do serviço prestado à sociedade.

A aposta foi clara: trocar duas universidades muito boas por uma universidade excelente.

Em suma, competir no mercado internacional da transmissão e geração do conhecimento.

Na capital Portuguesa temos também potencial para criar uma universidade excelente.

Cabe perguntar: para quando a fusão das três grandes universidades de Lisboa?

A Técnica, a Clássica e a Nova, separadas, possuem um nível razoável mas não excelente.

Juntas, teriam potencial para competir com as universidades de nível médio e alto da União Europeia.

Mais vantagens?

A fusão levaria a uma redução da oferta de cursos em Lisboa.

Não precisamos de ter 2 cursos de engenharia do ambiente (UNL, IST), ou dois cursos de biologia (FCUL, ISA) em universidades públicas da capital; basta um curso de qualidade em cada ramo do saber.

Reduzir a oferta em Lisboa seria também um acto de solidariedade e uma aposta no desenvolvimento regional do país.

As universidades da província são as mais afectadas pela redução progressiva do número de alunos. Estas universidades precisam de alunos para existir. As universidades de Lisboa não têm esse problema podendo fazer uma aposta na qualidade.

Mas é preciso coragem política para actuar com decisão e rapidez como fizeram os colegas da Dinamarca.

Sem essas duas qualidades vamos passar anos a discutir o "sexo dos anjos" antes de tomar a decisão que se impõe.

Ou pior: Não tomar qualquer decisão, como é frequente, deixando definhar as universidades de província ao sabor das tendências demográficas do país e contribuíndo, simultaneamente, para o estanar das universidades da capital, entretidas que estão a competir entre si por magros recursos. Os recursos que fazem a diferença advêm da excelência da investigação (*) e essa, com o modelo actual, não será sempre fácil de obter e será bem mais difícil de consolidar.

(*) Obviamente que falo de "excelência" medida com parâmetros internacionais pois é nesse universo de competição que se drenam verbas significativas para investigação científica.

segunda-feira, junho 11, 2007

Privatização do ensino superior público?

A Universidade da Califórnia está entre as melhores universidades públicas dos Estados Unidos da América. Algumas das suas universidades e departamentos estão entre os melhores do mundo.

Como é gerida esta universidade?

Por assembleias de representantes, senados, conselhos científicos, conselhos pedagógicos e um conglomerado de pequenas estruturas "ad hoc" que destes emanam?

Nada disso. A gestão da Universidade da Califórnia é análoga ao modelo proposto pelo Ministro Mariano Gago. Basta substituir a figura de “President” por “Reitor”, “Board of Regents” por “Conselho de Curadores” e “Academic Senate” por “Conselho Geral” .

Vale a pena salientar que este sistema de gestão vigora na Universidade da California desde 1878 sem que tenha levado à privatização do ensino superior público neste Estado.

Por outras palavras, a insinuação feita por alguns representantes dos sindicatos de que o sistema proposto pelo Governo Português conduzirá à privatização das universidades não tem qualquer fundamento empírico. Eu diria que é uma espécie de papão (i.e., falácia) que se aventa para assustar as hostes e levá-las a greves e outras formas de contestação popular.

Existem diferenças de pormenor entre o modelo da gestão da Universidade da Califórnia e o modelo proposto pelo Governo Português. Por exemplo, na Califórnia, o Conselho de Curadores não é exclusivamente composto por membros nomeados pelo poder público (como propõe Mariano Gago).

Mas os denominadores comuns são óbvios:

* As directrizes políticas das universidades devem ser acauteladas por personalidades de reconhecido mérito, designadas pelo poder público (na Califórnia o “Governor”, em Portugal o Ministério responsável pelo ensino superior público);

* O gestor principal da instituição (o Reitor) deve ter poderes efectivos de gestão tendo que responder directamente a quem lhe paga (eu acrescentaria ter mérito reconhecido no mundo académico como é o caso dos Presidentes da Universidade da Califórnia);

* Permitir um envolvimento dos representantes dos docentes e estudantes na definição política, especialmente, em matérias que digam directamente respeito ao ensino e investigação.

A este modelo de gestão chama-se “shared governance”. Vale a pena ler mais na própria página da Universidade e comparar este sistema, que passou o teste do tempo, com os prenúncios de hecatombe que nos vêem dos sindicatos sempre que se fala de reformar um sistema de gestão académica que só tem contribuído para a degradação do nosso ensino superior público.


Nota: Sobre este tema vale a pena ler o texto de José Ferreira Gomes

segunda-feira, maio 21, 2007

Rankings unversitários – uma necessidade

Uma ideia comum entre os que mais criticam a reforma das universidades é que os “rankings” académicos são nocivos. Uma argumentaçao interessante nesta linha de pensamento foi elaborada pelo Prof. José Rodrigues dos Santos da Universidade de Évora. Na ocasião de um debate interno desta universidade tive oportunidade de desenvolver uma resposta a alguns dos seus pontos de vista. Porque o tema é actual e a formulação das críticas suficientemente genérica para interessar a vários leitores, divulgo aqui a minha resposta ao texto original de José Rodrigues dos Santos.

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A Universidade de Évora têm sido palco de intervenções bastante estimulantes sobre o tema genérico de “vida académica”. Vislumbra-se, pela primeira vez, o que parece ser uma genuína vontade de estabelecer um debate franco e honesto sobre os problemas que atravessam a academia Portuguesa. É salutar que este debate surja, em grande parte, em virtude do reconhecimento de que existe um problema, ou melhor, uma série de problemas. Reconhecer a “doença” é o primeiro passo para procurar as curas ainda que, como é natural, a percepção sobre a medicação necessária seja diversa. Neste texto procurarei comentar alguns dos aspectos abordados por José Rodrigues dos Santos, na sua recente mensagem, concentrando-me, como é natural, nos aspectos em que estou menos de acordo [havendo outros em que naturalmente concordo]. Em particular procurarei discutir os fundamentos que subjazem a ideia de que a virtuosidade no funcionamento das instituições requer a criação de mecanismos de promoção do mérito. Que estes, no que diz respeito às universidades, podem ser promovidos através da adopção critérios objectivos e transparentes de progressão da carreira [vulgarizados como os “rankings”] e que na ausência deles se criam mecanismos alternativos que, em vez de criar ciclos virtuosos, cristalizam teias de poder onde a autoridade se substitui à razão e onde o bem estar individual é alcançado pela via da submissão a estruturas de poder representativas não dos interesses globais da instituição mas de interesses de particulares que praticam altruísmo entre si.

Sobre rankings, José Rodrigues dos Santos afirma que “(...) os rankings que têm sido citados e mobilizados em algumas trocas de mensagens, quando aplicados a uma realidade tão complexa e sobretudo tão diversa quanto o conjunto das instituições de ensino superior universitário do mundo inteiro, produzem artefactos (...) que se tornam não só inúteis como nocivos. Ao fornecer uma falsa representação da natureza dos problemas e da sua extensão, esses instrumentos afastam-nos da sua solução”.

Eu comento: É fácil adoptar uma postura critica em relação a “rankings”. Todos eles, sem excepção, produzem avaliações que, pelo seu carácter cartesiano, escondem realidades complexas. Todos eles recorrem a diagnósticos multivariados para depois retratar o objecto de avaliação num espaço unidimensional. Consequentemente, todos eles, sem excepção, perdem informação e são potenciais geradores de injustiça. No entanto, o problema não é se os “rankings” produzem injustiça – aqui estamos de acordo – mas se a sua ausência produz injustiças ainda mais gritantes. Não estou certo de que aqui estejamos todos de acordo.

Ora o argumento central das minhas intervenções, já lá vão alguns anos, é justamente este. A ausência de critérios explícitos e rigorosos de avaliação tem conduzido a academia ao empobrecimento intelectual e científico. Tenho tido a oportunidade frequentar os meios académicos de diversos Países designadamente o Reino Unido, França, Espanha, Finlândia, Dinamarca, Bélgica e Estados Unidos da América e a conclusão que retiro desta amostra, necessariamente incompleta, é que os Países que assentam a sua política científica na transparente, rigorosa e objectiva avaliação do mérito – independentemente da justeza ou não dos critérios utilizados – têm resultados melhores que os Países que não o fazem. Apesar de silogístico, o raciocínio leva-nos a concluir que não é de menos “rankings” que precisamos mas de mais “rankings”.

Podemos discutir o detalhe sobre qual o melhor procedimento para avaliar a actividade científica (ver, por exemplo, os inúmeros artigos que têm saído na revista “Nature” sobre este tema) mas não me parece particularmente construtivo iniciar o debate partindo de um posicionamento a montante que consiste em discutir a própria necessidade dos ”rankings” ou, em alternativa, não discutir a sua necessidade mas diminui-la recorrendo à constatação, inerente a qualquer processo de avaliação, de que os “rankings” produzem injustiças, logo não são parte central da solução para o problemas que nos afligem.

Mais adiante José Rodrigues dos Santos afirma: “No ano lectivo transacto (2004-2005) ficaram por preencher, nas universidades periféricas, em Portugal, entre 36 e 40% das vagas (cito de memória, a verificar). Designo por universidades "periféricas" (UP, termo relativo ao "centro"), as universidades do interior do continente e as das ilhas. Por comodidade de exposição, arredondarei os números para, globalmente, 40%.“

Eu comento: É minha convicção de que a distinção entre universidades do centro e da periferia é de utilidade discutível por não oferecer uma classificação que ajude a entender a diversidade de problemas que atravessam as universidades, designadamente a que decorre de políticas de gestão, interna, diferenciadas. Por outro lado seria bastante discutível agregar a Universidade de Évora à periferia, já que se encontra a pouco mais de uma hora de Lisboa. Um tempo menor do que é necessário para chegar ao centro da capital vindo de algumas das suas periferias em hora de ponta. Aliás, se existe problema em Évora, é o perigo da sua suburbanização em relação a Lisboa; facto reconhecido e discutido no PDM da cidade. Além destes considerandos, os factos não apoiam a tese do colega. Os dados de este ano (publicados no “Expresso” de dia 15 de Outubro de 2005) sugerem que as universidade ultra periféricas da Madeira e de Trás-os-Montes possuem taxas de preenchimento de vagas na ordem dos 85-87% que contrastam com os reduzidos 70% obtidos pela Universidade de Évora (na cauda do País). Para mim este facto seria suficiente para descartar uma qualquer relação determinista entre periferia e desvantagem. E se estes números não chegarem talvez valha então a pena avaliar de forma detalhada o que se passa noutros Países onde existem muitos e bons exemplos de universidades distantes do centro que apresentam excelentes performances quer do ponto de vista da produção científica quer do seu poder de atracção de alunos.

Relativamente à relação entre “rankings” e número de alunos, o colega Rodrigues dos Santos afirma: “Alguns colegas têm tido a tentação de estabelecer uma relação (que explícita ou implicitamente funciona como explicação) entre lugar nos famosos "rankings", produção científica, e procura dos cursos. O raciocínio causal que subtende esta aproximação é o seguinte: estamos mal classificados nos rankings porque produzimos pouco; e por estar mal classificados, temos pouca procura. a) A primeira via de solução do problema resulta evidente: produzir mais e melhor ciência = aumentar a procura. Para além do facto que o aumento de produção não é equivalente ao aumento de produtividade (...), resta que a produção científica está dependente de um sistema cuja reacção é lenta (uma acção no tempo t só produz efeitos num tempo t+n, sendo n vários anos). Pelo que agir agora para aumentar a produtividade científica produzirá porventura efeitos VISÌVEIS e detectados pelos sistemas de ordenação dentro de alguns anos (4 ou 5 é um mínimo), e estes sistemas só agirão no grande público (candidatos) após que tal "reputação tenha si largamente difundida e consolidada (mais 4 ou 5 anos?). Boa solução, pois, mas sem eficácia a médio e ainda menos a curto prazo.”

Eu comento: É verdade que as sementes lançadas hoje teriam resultados, ao nível de captação de alunos, num futuro não imediato. Mas será esse facto razão para descartar a necessidade de aposta urgente na produção científica? Ou na utilização de rankings para segregar universidades, departamentos, centros de investigação e docentes? Creio que tal posição não é defensável, em particular, devido ao facto de se avizinhar, num futuro não muito distante, de um aumento relativo do peso de alunos de segundo (mestrado) e terceiro (doutoramento) ciclos, estes sim mais sensíveis ao factor produção científica das universidades.

Discutindo uma segunda solução que seria implícita em algumas intervenções, Rodrigues dos Santos escreve: “b) A segunda via que tem vindo a lume é a via "cirúrgica", que consiste em propor que se identifiquem os "maus" sectores, os "maus" cursos, departamentos, etc., e finalmente, os colegas "incompetentes" ou improdutivos, etc., e se corte no vivo. Esta é a via que se apresenta como a da coragem ("tenhamos a coragem de denunciar e eliminar os incompetentes"), a coragem de assumir o "horror" do realismo: o interesse geral exige que, etc. É uma via muito mais espontânea e muito menos elaborada do que parece. Surge essa tentação, entre duas linhas, quando se alude à possível necessidade de eliminar os sectores (faculdades, departamentos, centros, etc.) das Ciências Sociais e mais ainda das Humanidades, porque estes, não publicando na Nature ou na Brain (são exemplos dados com algum humor, atenção, nada contra elas), fazem baixar a média de publis / etis. Mas esta via é sobretudo, não hesito em afirmá-lo (noutro espaço poderia justificar), a da Hybris fratricida. Numa situação extrema, os que deviam entreajudar-se, se a cooperação fosse possível, entredevoram-se (os exemplos dos fugitivos do Gulag ilustram esta realidade no sentido próprio e mais terrível da expressão)."

Eu comento: Parece-me que Rodrigues dos Santos usa a estratégia da caricatura, para descartar uma ideia que não é tão expontânea como alude. E dou um exemplo: No Reino Unido todos as Universidades e seus Departamentos são avaliados recorrendo-se a uma escala ordinal. O valor 5 (estrelas) é o máximo que se pode obter em tais “rankings” sendo que a repetição do valor de 5 em 3 avaliações consecutivas promove a universidade ou departamento à categoria de 6 estrelas. Como é sabido, a Universidade de Oxford disputa o primeiro lugar, no “ranking” nacional do Reino Unido, com Cambridge. A estabilidade desta posição deriva de uma estratégia que consiste numa leitura intransigente do valor destes “rankings”. Por exemplo, um departamento que obtenha a nota de 4, ou menos, tem 3 avaliações consecutivas, i.e., 9 anos, para alterar a situação e regressar ao nível 5. Se não conseguir o departamento é encerrado, os docentes e funcionários despedidos e o espaço entregue a outro departamento, ou centro de investigação, com mais “unhas”, i.e., com maior possibilidade de contribuir para a “excelência” científica da Universidade. A estratégia pode ser criticada recorrendo a argumentos de cariz ideológico mas o facto é que a estratégia funciona pois são raros –ainda que existam – os casos de departamentos encerrados nesta universidade por avaliações, medíocres, consecutivas. Nos últimos anos tive oportunidade de efectuar uma parte importante da minha investigação num dos departamentos (Geografia) que teve o infortúnio de ser avaliado com 4 sendo, desta forma, alertado para o risco de poder vir a ser desintegrado se volvidos 9 anos não alterasse a situação. O que posso garantir é que este “estimulo” é eficaz e que medidas sérias estão a ser tomadas para que a situação a numa próxima avaliação suba para o nível 5.

Antes de prosseguir e comentar a afirmação seguinte gostaria de esclarecer dois aspectos que, ressaltando da mensagem de Rodrigues dos Santos, que não parecem representar, com rigor, as opiniões que o colega pretende rebater:

1) Não me recordo de alguém sugerir o despedimento de colegas nesta universidade, nem sequer o encerramento de departamentos. O que foi referido, isso sim, é que os critérios de contratação, atribuição de nomeações definitivas e progressões na carreira deveriam obedecer a critérios objectivos (por exemplo métricas de produção científica) e de preferência explicitados à “anteriori” por forma a garantir a justiça, transparência e “accountability” (aquela palavra que, misteriosamente, não encontra paralelo na língua Portuguesa) dos processos.

2) Ao contrário do que é afirmado, a avaliação dos departamentos (pelo menos no caso do Reino Unido) não se faz comparando departamentos de ciências sociais com departamentos de ciências da computação ou Física. A comparação e o “ranking” é estabelecido por comparação com departamentos homólogos.

Confesso que o estimulo para comentar a mensagem de Rodrigues dos Santos proveio essencialmente da seguinte frase: (...) “cada um dos departamentos, cada um dos colegas, sabendo que alguém tem que ser eliminado, vai transformar-se no pior inimigo de todos os outros e reciprocamente. Os instrumentos "de radiografia" prévia à "cirurgia" transformam-se em armas de arremesso. Um efeito mais mediato é que a elaboração de um projecto comum (não receando debate e divergências, mas assente numa hipótese de cooperação) se torna de todo impossível. Ora, em instituições universitárias, frequentemente em crise, o que determina (mais uma afirmação não demonstrada, pelo que peço desculpa) a capacidade para saír da crise "por cima" é a capacidade para criar um processo de elaboração das soluções em comum, gerir os custos das soluções, repartir as tarefas em complementaridade de esforços (não estou a formular uma lição de moral, mas uma hipótese empírica)”.

Eu comento: Nem por um minuto se me ocorre pensar que o colega não acredita piamente no que escreveu. Mas a minha experiência, tanto em Évora, como noutras universidades e centros e investigação, em particular no departamento de Geografia da Universidade de Oxford, onde uma situação análoga à que descreve acontece, dá-me ensejo de transmitir um conjunto de impressões que contradizem o razoado de Rodrigues dos Santos. Em primeiro lugar devo dizer que nunca encontrei um ambiente académico tão estimulante como o que encontrei em Oxford. Este facto não se deve exclusivamente ao factor “concentração de excelência” que existe no que é, ainda hoje, uma das melhores Universidades do mundo, mas principalmente pelo espírito corporativo (no bom sentido) que encontrei. Ao contrário do que é referido pelo colega, o resultado do risco eminente de dissolução do departamento (por virtude de relativamente fraca posicionamento no “ranking”) deu origem a um sentimento genérico de “estamos todos no mesmo barco” e de procura de soluções comuns para problemas comuns. O que poderiam ser tendências naturais de competição entre colegas deu, também naturalmente, origem a estratégias de cooperação. Ou seja, onde se via competição interna, vê-se agora competição com equipas externas e reforço de cooperação interna. E onde se via um investigador fechado no seu gabinete a fazer a sua investigação “do costume”, vêm-se agora momentos, cada vez mais frequentes, de confraternização académica [nunca as horas do chá na sala comum – 11 a.m e 16 p.m – foram tão concorridas].

Será esta experiência extrapolável a Universidade de Évora? Penso que, salvaguardadas as inevitáveis diferenças – não creio que algum dia consigamos reunir, com frequência, colegas, na sala comum do Espírito Santo para tomar chá –, sim. E faço esta afirmação porque acredito que o comportamento humano não é tão idiossincrático como poderá parecer à primeira vista. Parto de três pressupostos que se podem inferir da teoria do “gene egoísta” (vulgarizada por Richard Dawkins) e demonstrado no quadro de simulações várias (que hoje corporizam a teoria de jogos):

Todo e qualquer indivíduo procura maximizar o seu bem estar (egoísmo).
Para alcançar este resultado recorre a estratégias de cooperação (altruísmo).
O sucesso na obtenção do bem estar implica estratégias mistas (e.g. 70% altruísmo + 30% egoísmo) já que nem o egoísta puro (segregado socialmente) nem o altruísta puro (“comido por parvo”) vingam num mundo dominado por constelações de pequenas entidades regidas por interesses individuais nem sempre convergentes.

Se estes pressupostos forem válidos é razoável prever que qualquer que seja a instituição – ou aglomerado de pessoas – se estabelecerão laços de cooperação concomitantes com relações [preferencialmente minoritárias] de competição. Se na instituição existir uma gestão virtuosa dos recursos humanos a competição será sujeita a NORMAS que garantam a igualdade de oportunidade e a justiça dos mecanismos de obtenção de bem estar [qualquer um destes factores sujeitos a normas de transparência e de “accountability”].

As normas, por seu turno, devem ser definidas de forma inteligente. Ou seja, devem garantir que as energias despendidas na procura de bem-estar individual (e.g. emprego fixo, progressão na carreira, etc) sejam canalizadas de forma a beneficiar a comunidade. Numa universidade, ou centro de investigação, essas normas devem ir ao encontro do objecto da instituição, ou seja, a produção científica e a qualidade do seu ensino. Traduzido por miúdos isto quer dizer que são necessários indicadores de performance, que estes reflictam os objectivos da instituição, e que estes sejam aplicados por forma a dirigir as estratégias individuais de procura de bem estar num caminho que favoreça o bem estar comum. Este é, resumidamente, o propósito dos “rankings” e dos sistemas de avaliação do mérito.

Quando estes sistemas não existem outros são criados, em seu lugar, por forma a permitir que as pessoas prossigam os seus objectivos de maximização de bem estar. Na ausência de regras explícitas de mérito propõem-se regras burocráticas e justas apenas na aparência [e.g. promoção em virtude de antiguidade]. Mas pior tendem a cristalizam-se teias de poder onde a autoridade se substitui à razão e onde o bem estar é alcançado pela via da submissão a estruturas de poder [que frequentemente detém o poder de interpretar as normas burocráticas] e que mais não representam que interesses corporativos que representam não os interesses da instituição mas os interesses de sub-grupos que praticam o altruísmo entre si.

sexta-feira, maio 18, 2007

Ensino superior público – uma reforma necessária

Há tempos critiquei o Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior por resumir a sua actividade a actividades pontuais, deixando para trás as reformas profundas que o ensino superior necessita.

As reformas começam agora a dar sinais de vida e da mesma forma como critiquei o Ministro pela sua inacção felicito-o agora pela iniciativa. O novo regime jurídico para o ensino superior, se for aprovado, representará uma mudança significativa de paradigma na gestão académica. E uma mudança para melhor (na realidade seria difícil propor um sistema que fosse pior do que o actual). O segundo e urgente passo será alterar o estatuto da carreira docente universitária.

Em matérias complexas como a gestão do ensino superior é difícil estarmos todos de acordo e há vários aspectos da Lei que poderiam ser diferentes. Mas com todos os defeitos que a proposta de de Lei possa eventualmente ter esta é fundamental para tirar as universidades do pântano de inacção em que vivem actualmente. Há duas ideias, em particular, que vejo com bons olhos:

1. A gestão das universidades públicas não pode estar exclusivamente na mão dos seus funcionários. Por outras palavras, a gestão corporativa das universidades só pode ser rompida se a visão estratégica que a orientar não estiver refém dos interesses dos seus funcionários. É óbvio que nem sempre existe uma coincidência entre os interesses colectivos do ensino superior (que inclui os interesses dos alunos, das empresas e dos restantes cidadãos que nunca acedem a este sistema de ensino mas que beneficiam dele se este for de qualidade) e os interesses individuais dos seus funcionários, pelo que é necessário assegurar que, quando necessário, os interesses dos primeiros prevaleçam – de acordo com regras e práticas de um Estado de Direito que se queira respeitável, naturalmente – sobre os segundos. Algo que é difícil com os mecanismos de gestão actuais mas que se pretende corrigir com a nova proposta de Lei.

2. As leis da administração pública tolhem a iniciativa das universidades mais dinâmicas e há muito que se desejava a possibilidade de gerir as universidades públicas com a flexibilidade inerente ao funcionamento das empresas privadas. Esta possibilidade será agora viabilizada pois as universidades que o desejem (ou que o governo deseje) podem transformar-se em fundações de direito privado financiadas pelo Estado. Estamos a falar da privatização das universidades? Não necessariamente porque as fundações serão públicas e os curadores nomeados pelo governo. O verdadeiro problema é a excessiva governamentalização das fundações e não a sua privatização, como sugerem os sindicatos.

Muito se escreveu sobre os diferentes modelos de gestão das universidades. Pessoalmente preferia um modelo em que a escolha dos curadores fosse baseada em critérios transparentes e de mérito. Também preferia que os reitores fossem escolhidos com base em concursos abertos a candidatos externos às instituições e que fossem contratados por períodos de cinco anos renováveis. O governo entendeu de forma diferente. Os reitores serão objecto de nomeação política por parte de um conselho de curadores nomeados pelo governo. É a governamentalização das universidades o que, em Portugal, significa a partidarização das mesmas.

É pena. Sem pôr em causa a filosofia de base da reforma em curso, que me parece correcta, este deveria ser um aspecto a rever pois não precisamos de um sistema que incentive ainda mais os famosos “jobs for the boys”.

sábado, maio 20, 2006

A política de ciência não se constrói com medidas avulsas

O Estado Português tem investido somas assinaláveis a exportar mão de obra qualificada para o estrangeiro. Através do programa de bolsas de doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), o Estado patrocinou jovens para que se formassem nalgumas das melhores universidades do mundo. A aposta foi correcta: - enviar jovens para fora, para que se formassem em sistemas académicos excelentes e regressassem trazendo alguma dessa excelência para o sistema académico Português.

Acontece que a grande maioria destes jovens não regressa. Não porque não queiram, mas porque a concessão das bolsas de formação não foi acompanhada das reformas necessárias para que os novos doutorados pudessem competir, no mercado de trabalho, em igualdade de circunstâncias, com os que ficaram.

A solução para este problema requer coragem pois implica reformar o sistema académico Português enfrentando corporações e sindicatos. Todavia, o actual Ministro da Ciência e do Ensino Superior, José Mariano Gago, tem feito pouco para alterar o estado das coisas restringindo-se ao anuncio de medidas avulsas para a ciência. O tempo escasseia e cada ano desperdiçado implica a perda, para o País, de gerações de investigadores.

Os que ficam...

Quem quer singrar no mundo académico Português deve, depois de se licenciar, continuar a marcar passo no departamento onde se formou.

Na primeira oportunidade deve fazer biscates em projectos do departamento mesmo que isso implicar fazer fotocopias, organizar arquivos, traduzir textos, colectar dados com protocolos de amostragem deficientes, etc. Com o tempo é possível que esta estratégia culmine na sua contratação como assistente estagiário. Uma vez contratado como assistente estagiário o desafio é chegar a assistente. Para tal terá de dar o maior numero de aulas que caberiam ao professor que o “meteu “ no departamento. Pouco importa a qualidade das aulas. O que importa, além de cair bem, é tornar-se “útil”.

Uma vez assistente as responsabilidades acumulam-se. Além das aulas e outros biscates há um doutoramento a fazer. Pouco importa quantas publicações saiam do doutoramento ou qual o impacte e relevância das mesmas. Bem feitas as contas o melhor é não despontar muito da média, não vá o "diabo" tecê-las. O que realmente importa é continuar nas boas graças da “nomenclatura” e não ultrapassar os prazos legais para terminar a tese.

Terminada e defendida a tese, a contratação como Professor Auxiliar é uma questão de direitos adquiridos. E quem discordar terá que se ver com os sindicatos. Afinal quem se atreve a questionar o sacro santo dos direitos adquiridos? Quem pode questionar o direito ao trabalho, certo e seguro, de quem passou por tantas agruras, engoliu tantos sapos, sofreu tantas humilhações? Não é a estabilidade o prémio que motivou tantos esforços?

Os que partem....

Para obter bolsa os jovens têm de cumprir um de dois requisitos: ter média de licenciatura superior ou igual a 16 ou ser possuidor de um mestrado. Com a redução do número de bolsas disponíveis torna-se aconselhável possuir algumas publicações científicas, uma proposta de doutoramento exemplar e ser acolhido por universidades e orientadores com mérito reconhecidos. Obter bolsa é, assim, a primeira de muitas provas que o jovem terá de prestar.

Uma vez obtida a bolsa o jovem tem de aprender quase tudo de novo. A realidade é outra e de pouco servem as estratégias de sobrevivência aprendidas na academia Portuguesa. Mas o choque acaba por compensar. Os trabalhos científicos efectuados têm relevância, são aceites nas revistas internacionais e são citadas pelos colegas.

Um doutoramento bem sucedido abre portas mas a consagração de um nome só se faz com continuidade. Ou seja, após 3 a 5 anos de pós doutoramento. A obtenção de financiamento para este período não é difícil. O que é difícil é o passo seguinte, especialmente se o destino pretendido for o regresso a Portugal.

A solução natural para um investigador competente é radicar-se nos EUA. Este é o País que pouco investe na formação dos seus jovens mas que atrai os melhores cérebros que se formaram à custa do erário público de outros países. Quem preferir não emigrar para o outro lado do Atlântico poderá concorrer, num mercado de trabalho competitivo mas justo, em países como o Reino Unido, a Dinamarca, a Suécia, a Finlândia, a França, ou mesmo a Espanha. Mas se aposta for o regresso à pátria lusa o que se oferece é uma viagem "sem luz ao fundo do túnel" pois regressam a um País que investiu na sua formação mas não criou as condições para a sua empregabilidade.

Soluções?

Portugal abortou a expectativa de poder vir a ter uma rede de investigação pública (o chamado INIC – Instituto Nacional de Investigação Científica) semelhante ao CNRS Francês ou CSIC Espanhol. Os poucos Laboratórios do Estado que existem em Portugal não se dedicam à investigação científica fundamental mas à prestação de serviços ao Estado. Alguns deles nem isso, pelo que a sua função resume-se a existir com um metabolismo baixo por forma a não destacar no quadro das despesas públicas. Como é natural os Laboratórios do Estado não oferecem oportunidades para os jovens doutorados Portugueses. As reformas necessárias para transformar estas estruturas, na sua grande maioria, decadentes, foram identificadas há anos mas o entusiasmo reformista do Governo parece centrar-se, fundamentalmente, na alienação do património imobiliário de alguns destes laboratórios.

As empresas privadas foram e continuam a ser apanágio para a criação de emprego científico. Num cenário de desenvolvimento tecnológico as empresas podem contratar doutorados. Mas também é verdade que o número de especialidades úteis para a maioria das empresas é limitado. Logo, mesmo num cenário de crescimento económico, que não é o actual, será sempre necessário manter um mercado público de ciência activo e orientado por critérios de mérito.

A decisão de extinguir o INIC teve como enquadramento filosófico a ideia de que o cerne da investigação pública deve realizar-se nas Universidades. É assim nos EUA (exceptuando os grandes laboratórios que produzem investigação estratégica para a política do Estado, como a NASA), no Reino Unido, Dinamarca, etc. Acontece que para centrar a investigação pública nas Universidades é necessário que estas se organizem com base em critérios rigorosos de promoção do mérito sob pena de se desperdiçarem recursos escassos em sistemas de tráfico de influencias e regimes de endogamia [outro texto].

A promoção do mérito implica: a) a livre concorrência no acesso ao trabalho; b) a progressão das carreiras em função de créditos científicos; c) existência de salários ponderados pela produtividade científica; d) a flexibilização das cargas horárias consoante a produtividade científica; e) a capacidade de “compra” do salário, com verbas de projectos, para dedicação exclusiva a actividades cientificas, etc.

Infelizmente a extinção do INIC não foi acompanhada de uma consequente reforma do sistema de ensino superior em Portugal. Na prática esta extinção representou o final de um projecto de investigação científica, de cariz público, sem que o modelo alternativo tivesse sido implementado.

Este é um problema central da nossa política científica: as medidas são avulsas, incompletas, na sua maioria inconsequentes. Primeiro foi a extinção do INIC sem que o modelo alternativo tivesse avançado. Depois as bolsas de doutoramento sem prever o regresso dos doutorados. Agora os contratos de 5 anos sem se oferecer uma luz ao fundo do túnel; ou seja, um “funil” que garanta que os melhores cientistas Portugueses tenham a possibilidade de ingressar numa carreira científica regulamentada (como acontece em Espanha com o programa “Ramon y Cajal” que também oferece 5 anos de contrato).

A proposta de celebração de contratos de 5 anos resolve um problema de curto prazo, ou seja, dá emprego aos investigadores que acabaram o primeiro pós doutoramento. No entanto é uma solução que se não for integrada numa política de emprego científico é indigna pois consigna uma situação injusta:

* Para quem tenha condições de competir no mercado de trabalho internacional oferece-se um contrato de 5 anos;

* Para quem não tenha condições de competir neste mercado oferece-se um contrato para toda a vida numa carreira docente regulamentada.

A resposta a esta indignidade é a continuada exportação dos melhores cientistas nacionais para Países que já entenderam que a meritocracia é o “pior sistema à excepção de todos os outros”.

Miguel B. Araújo
Professor Associado Convidado, Universidade de Copenhaga
Investigador "Ramon y Cajal", Museu Nacional de Ciências Naturais de Madrid
Investigador “senior” Associado, Universidade de Oxford

quarta-feira, abril 05, 2006

“A minuta”

Registo que o texto sobre endogamia aqui publicado teve algum eco na sociedade Portuguesa. No Diário Económico, de dia 5 de Abril, foi publicado um artigo, de Tiago Mendes, intitulado de “a minuta”. Neste artigo relata-se o episódio, por mim vivido, no âmbito de um concurso promovido pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Nutre-se a esperança de que "água mole em pedra dura..."

segunda-feira, abril 03, 2006

Os doutoramentos em Portugal

Dado o interesse suscitado pelo meu texto sobre endogamia universitária, publicarei na AMBIO alguns “posts” sobre aspectos pontuais da tão necessária reforma do ensino superior em Portugal.

A discussão de uma tese de doutoramento tem dois objectivos. O primeiro, é a avaliação científica do trabalho. O segundo, é a apresentação pública dos resultados. Em Portugal (assim como em Espanha, França e outros Países de tradição romana) a defesa das teses de doutoramento mescla estas duas componentes. O resultado é que nem um papel nem outro são devidamente cumpridos.

As defesas de teses são sessões protocolares onde um número excessivo de avaliadores – entre os quais, pasme-se, o orientador– debita meia dúzia de perguntas sem consequência. Raramente se chumba uma tese e o cerne da questão é se a tese merece a “distinção e louvor”. Como não existem critérios objectivos para classificar as teses o “louvor” é arbitrário, desprovido de valor e essencialmente indicador das simpatias e relações de força entre o orientador e os membros do júri. As defesas de teses transformam-se, assim, em tristes cerimónias formais desprovidas de conteúdo. Mas mais grave, promovem a lógica dos "acordos de cavalheiros" que estão muito bem na política mas menos bem na ciência.

No Reino Unido o procedimento é o oposto. A apresentação pública dos resultados é relegada para congressos e reuniões científicas pelo que a defesa da tese consiste numa discussão à porta fechada, com dois avaliadores, onde não participa o orientador da tese. As discussões são duras e desprovidas de salamaleques protocolares (digo-o por experiência própria). Destas discussões é frequente saírem recomendações, para alterar a tese, que poderão ser pontuais (quando tudo corre bem) ou substanciais (quando tudo corre mal). Para evitar arbitrariedades o resultado da avaliação consiste no passar ou não passar. O conceito de “distinção e louvor” não existe.

O sistema Britânico tem a vantagem de exigir o trabalho de um número reduzido de avaliadores. É uma vantagem pois alivia-se a pressão sobre o mercado de avaliadores. Por outro lado não se convidam avaliadores para fazer número. Os que lá estão é porque têm alguma coisa para dizer. Ao excluir-se a componente de “espectáculo” reduz-se uma pressão desnecessária sobre o candidato e favorece-se um ambiente propício a uma avaliação mais substancial da tese; uma avaliação com consequências pois é pouco frequente que uma tese passe sem alterações.

O lado triste da defesa de teses no Reino Unido é a solidão do acto. Os países de tradição latina gostam do espectáculo e a defesa da tese é um dia importante na vida do candidato.

Para assegurar a seriedade da avaliação e proporcionar o espectáculo existe uma terceira via: a via Finlandesa. Na Finlândia separa-se a avaliação da apresentação pública. A avaliação faz-se por escrito. Isto é, envia-se a tese de doutoramento a três avaliadores. Estes deverão lê-la e sugerir as correcções que forem necessárias. O candidato tem depois um período para incorporar as sugestões dos avaliadores. Este trabalho de edição é revisto pelo presidente do júri que poderá decidir reenviar a tese aos avaliadores. Uma vez aceite a versão final da tese, marca-se a sua apresentação pública. Esta é iniciada por uma palestra proferida pelo doutorando, seguida de um debate animado por um especialista de reconhecido mérito na área da tese. O papel deste não é avaliar o trabalho do doutorando mas facilitar a discussão pública da tese. O seu papel, é fazer brilhar o candidato. Nunca humilhá-lo.

Ao separar o processo de avaliação do espectáculo garante-se que cada um destes actos seja produtivo e gratificante. Reduzem-se também os custos da cerimónia pois apenas se tem de custear a deslocação e estadia de um cientista externo. Os avaliadores são contactados por escrito. Com este processo, consegue-se também assegurar a qualidade dos avaliadores já que nem sempre o critério da proximidade geográfica coincide com o critério da relevância dos científica dos avaliadores.

A mudança do sistema de defesa de teses é importante para assegurar a credibilidade do acto. Ao assegurar a credibilidade do acto estamos a contribuir para melhorar a saúde do meio académico Português e por arrasto a qualidade dos doutorados que se formam no País.


Nota póstuma [05.04.06]. Como referido por um comentador privado – comentário enviado por correio electrónico – todos os sistemas de avaliação são imperfeitos se as pessoas se esforçarem suficientemente por os desvirtuar. Na Finlândia a qualidade das teses é assegurada pelo facto de se exigir, como critério de qualidade, que as teses tenham dado origem a cinco artigos publicados, ou em vias de ser publicados, em revistas científicas da especialidade indexadas pelo ISI (Institute for Scientific Information). Como é natural não contam os artigos em que o candidato não seja primeiro autor. Esta regra, de “per se”, assegura um nível de qualidade média muito superior às teses realizadas em Portugal.

sábado, março 25, 2006

Endogamia nas universidades promove fuga de cérebros e o atraso do País

A endogamia é o processo que conduz à contratação de docentes da mesma instituição. Para assegurar a endogamia usam-se, frequentemente, duas de três estratégias. Primeiro, perfila-se o concurso de acordo com o currículo do candidato previamente escolhido. Segundo, abre-se o concurso divulgando-o o menos possível. Terceiro, preparam-se, cuidadosamente, armadilhas administrativas que permitam desqualificar os candidatos indesejáveis, ou seja, os que por mérito próprio teriam a possibilidade de destronar o candidato da casa numa avaliação curricular independente.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e a endogamia – antes encarada como sendo normal e mesmo legítima – é, actualmente, considerada, pela maioria dos fazedores de opinião, de indesejável. Por este motivo, os concursos, cuidadosamente redigidos para favorecer um currículo predeterminado, são, hoje, menos frequentes, dando-se preferencia às mais discretas armadilhas administrativas.

Recentemente tive ocasião de testemunhar um exemplo requintado de promoção de endogamia por parte da Universidade de Lisboa. Os concursos desta universidade, divulgados na página de “ofertas de emprego” da Fundação para a Ciência e Tecnologia, ao contrário da prática adoptada, por exemplo, pela Universidade de Coimbra, não oferecem indicações precisas sobre o procedimento administrativo a seguir para as candidaturas. Estes anúncios dão margem de manobra para todo o tipo de artimanhas administrativas conducentes à exclusão dos candidatos indesejáveis. Por curiosidade resolvi testar a minha especulação e enviei o meu currículo acompanhado de uma carta em que manifestava o desejo de ser considerado para o referido concurso. Foi sem surpresa que recebi uma carta da Reitoria da Universidade de Lisboa informando-me que a minha candidatura teria sido desqualificada por não ter sido acompanhada da “minuta de candidatura”. A dita “minuta”, que não se encontrava referida no anúncio do concurso, nem estava acessível em registo electrónico, não é mais que um papel onde se preenchem os espaços em branco, com o nome próprio, filiação e referência ao concurso. Aparte a filiação, que julgo ser um elemento desnecessário para tais concursos, a minha carta de candidatura possuía todos os elementos solicitados pela minuta. É difícil não concluir que a Universidade de Lisboa, ao nível da própria reitoria, encoraja a endogamia nos concursos públicos para contratação de docentes.

Este procedimento contrasta com os concursos nas melhores universidades do mundo. Nestas universidades não só não são requeridas minutas, como se pede aos candidatos que preparem uma carta (formato livre) onde se explicita a estratégia científica, pedagógica e de captação de fundos que o candidato propõe implementar se for contratado pela universidade. Ou seja, troca-se o procedimento burocrático (arauto defensor da mediocridade) por um procedimento inteligente (arauto defensor do mérito).

Infelizmente o exemplo que decorre da minha experiência com a Universidade de Lisboa (supostamente entre as melhores do País o que prova que “quem tem olho em terra de cegos...”) é apenas um entre muitos. Não deixa de ser sintomático que o País que gasta milhões de euros na formação avançada de jovens, nas melhores universidades do mundo, lhes feche depois a porta recorrendo aos pequenos artifícios da burocracia. Nos mais de doze anos que frequentei universidades e centros de investigação no estrangeiro conheci inúmeros Portugueses, financiados pela FCT, que, actualmente, possuem formações académicas e currículos científicos excelentes. Salvo raras excepções, a maioria não regressa a Portugal não porque não o deseje mas porque as portas do primeiro emprego estão cuidadosamente seladas por quem julga que o “direito” ao trabalho é prerrogativa de quem trocou as oportunidades de formação oferecidas pela FCT pela proximidade aos pequenos centros de poder nas universidades Portuguesas.

Não há plano tecnológico, estratégias de Lisboa, e protocolos com o MIT que resistam a uma burocracia cuidadosamente arquitectada para defender os interesses da mediocridade instalada. Assim, não vamos lá.

Texto publicado em primeira mão na rede interna da Oxford Portuguese Society
Publicado também no Ciência Hoje
E no portal Reformar a Educação Superior

Outro texto interessante de Orlando Lourenço
Um exemplo de como funcionam as coisas nos EUA, ver texto de Michael Athans

quarta-feira, junho 04, 2003

Deverão os Museus de História Natural estar ligados às universidades?

A instituição universitária é permeável a modas. É igualmente verdade que é difícil que seja de outra forma. Se não vejamos. As universidades prestam, fundamentalmente, 3 serviços à sociedade: 1) o ensino; 2) a investigação; e 3) repositório de infra-estruturas de promoção ao conhecimento (P.e. bibliotecas).

O primeiro destes serviços tem um mercado identificado: os alunos. Se os alunos não querem aprender Taxonomia porque consideram ser “chato”, ou porque as saídas profissionais não são aliciantes, as universidades acabam por descurar a contratação de professores com essa valência e este domínio de conhecimento cai no esquecimento. As universidade não podem contornar esta realidade pois o seu financiamento depende do número de alunos e o número de alunos depende do poder de atracção dos cursos que oferecem.

Por outro lado, dadas as suas características, as universidades são desprovidas de pensamento estratégico. Ou se deixam orientar pelo mercado (i.e. por o que dá saídas profissionais), ou pelos interesses corporativos (por o que os professores das universidades sabem ensinar), ou seguem a orientação do Estado (de acordo com uma avaliação de prioridades). Em Portugal tem vigorado o peso das corporações (escudada numa interpretação abusiva do conceito de autonomia universitária), com pontuais influencias do mercado (essencialmente nas universidades novas). A componente estratégica, potencialmente dada pelo Estado, não existe.

Esta incapacidade de definir estratégias de longo prazo não é exclusiva das universidades Portuguesas. Por exemplo, as universidades Britânicas, que conheço razoavelmente, definem estratégias de ensino, fundamentalmente, na óptica do mercado. O resultado é que, regressando ao nosso tema, o ensino da Taxonomia praticamente desapareceu dos currículos académicos deste País. Com o advento da moda da biodiversidade verificou-se um renovar do interesse na ciência Taxonómica. Felizmente, para este País e para a ciência da biodiversidade, o Reino Unido tinha repositórios de especialistas nos Museus de História Natural e Jardins Botânicos (alguns dos mais famosos do Mundo) o que permitiu uma colaboração institucional no sentido de, agora que o interesse na Taxonomia se renovou ligeiramente, se oferecerem cursos de graduação em parceria (p.e. o Mestrado em Taxonomia e Biodiversidade do “Imperial College” em colaboração com o Museu de História Natural de Londres).

Ou seja, também no reino Unido (o mesmo se pode dizer da França e Espanha) se perdeu a tradição do ensino da Taxonomia nas universidades mas não se perdeu o repositório de conhecimento taxonómico devido há existência de pequenos redutos de geração de conhecimento nestes domínios.

Poderia ter sido de outra forma? Creio que não por uma razão simples. Como referi no inicio desta mensagem as universidades prestam 3 serviços à sociedade. No entanto apenas um deles tem um mercado claramente identificado e é financiado de forma consistente. E este é o ensino. A investigação é financiada por contratos programa de curta duração ou, pura e simplesmente, não é financiada. No primeiro caso resistem as equipas que participam em linhas de investigação na moda e que, por isso, conseguem financiamentos públicos ou privados (tanto mais fácil quanto mais aplicada e menos fundamental for a ciência). No segundo caso as linhas de investigação definham e acabam por extinguir-se. Esta foi a realidade subjacente à investigação Taxonómica das universidades Portuguesas.

Concluindo, a perda de interesse na Taxonomia é um padrão genérico e independente de responsabilidades institucionais. As universidades, pelas suas próprias características, não podem (ou simplesmente não têm vocação para) manter linhas de ensino e investigação desenquadradas das correntes (modas?) de cada momento. Neste contexto cabe ao Estado (que é a “quem” cabe zelar pelo investimento estratégico) criar as condições para que, além das modas, se mantenham núcleos de geração de conhecimento estratégico para a sociedade. E no caso da biodiversidade, esses núcleos de pensamento estratégico são os Museus de História Natural e os Jardins Botânicos.

Para que estas instituições cumpram as suas funções é necessário, porém, que estejam protegidas da incompetência manifesta das universidades para as gerir. Assim como as universidades prestam serviços identificados, os museus também. E quais são estes? Também 3: 1) a investigação Taxonómica e Biogeográfica; 2) a manutenção de colecções biológicas; e 3) o ensino. De notar que a ordem destes factores não é arbitrária. Para que cada uma destas valências seja desenvolvida de forma competente é necessário que o financiamento destas estruturas não entre em competição com prioridades de outras instituições como é o caso actual com as universidades. Por este motivo é FUNDAMENTAL que se transfiram os Museus de História Natural e os Jardins Botânicos, actualmente sob controlo das universidades, para a alçada directa do Ministério da Ciência (com eventuais, ainda que opcionais, participações do Ministério da Educação e da Cultura) e que estes se desvinculem, de uma vez por todas e para sempre, das universidades.

Foi um erro histórico grave associar os Museus e Jardins Botânicos às universidades. E nunca é demasiado tarde para corrigir um erro.

Miguel Araújo