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quinta-feira, 15 de maio de 2025

Choro envelhecido

 quem há-de chorar,
os que dão a primazia à noite,
ao insulto gratuito do silêncio,...

uma dor que sai destruída,
e caminha sem roupa
por ruas escurecidas,
por entre almas destroçadas
dos que sofreram mais que
o destino podia prever,....

e se se chora,
recompensa-se,
ganha a virtude,
a previsão inocente de
qualquer coisa,
que só temos de observar
ao longe

                          Tirado daqui

domingo, 11 de maio de 2025

Na mente dorida,...

 Às vezes a gente esquece a dor,

Como se poesia fosse um acessório dispensável,

E o tempo contasse como grãos de areia na mente dorida,...


E o que diz isto,

O generalista incapaz de especificidades como uma prosa genérica,

Histórias sem rei nem roque,

Encontra na alma espaço para refletir,

E pensar que a dor faz falta,...


Em doses certas,

Mas como recurso que deve guardar se sempre,

como tesouro 

                                                                                Tirado daqui

terça-feira, 12 de março de 2024

Formas geométricas invisíveis de ti

 Mentimos e as veias pulsam,

Há um caminho para ti que os jornais anunciam,

E o vento sopra de mim,...


Não tenho pele para a solidão,

Havia formas de desleixo,

Que só existem em mim na roupa que espalho para trás,

Nos sustos do gato quando fecho a porta para sair,

No teu cheiro,...


Há formas geométricas invisiveis de ti,

Que dormem comigo,

Fogem comigo,

E encimam esta amálgama de confusão,

Em que me vejo transformado

                                                                            Tirado daqui

quinta-feira, 7 de março de 2024

Escrita de desassombro



Hoje chegámos do cinema,
 Não havia nada de novo,
A escuridão doente tomava conta da casa,,.. 

Faziam-se sortilégios de silêncio nos cantos daquele sitio perdido no tempo,
E com uma mão no teu ombro,
Direcionei-te para o quarto,...

Esta é a poesia literária que revela o que se passou,
E denota uma ligeira hipocrisia no olhar,
Frases curtas que tomaram conta do espaço,...

E deixaram a ambos sem renovação de ar,
Quase presos num sufoco que era ali habitual,...

E do qual só nos livravamos pela escrita de desassombro 

sábado, 14 de janeiro de 2023

Assoberbamento

 Neste país tudo já valia a pena em nome da nudez,

Era uma palavra de ordem assustadora,
Um principio dogmatico ensinado nas escolas,...

As mulheres emancipavam-se de formas inconsequentes em nome dele,
E os homens assistiam,
Assoberbados,
Em nome de um susto que lhes valia a razão de viver,...

Mas em consequência a noção de tempo vergava,
Como metal sujeito à pressão dos elementos,
E envelhecer deixava gradualmente de ser uma imposição,
Para se anular entre o ruído intenso mas quase inofensivo,
Dos rios que corriam para os oceanos


domingo, 13 de março de 2022

Vocábulos

ilusão,
dono do sol,
fatia de nada,
parte de cá do mar,
casa decrépita
não obstante acolhedora,
raíz do mal indefinido,
tanta coisa e o
menos de tudo o resto,....

chama-me para
sempre a falta de um sonho,
o que quiseres e
o lamento certo para haver amor,
chama-me,
apenas



quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Do soar do sino na capela

 


Adivinhei-lhes as palavras,

Tudo era indissociável do soar do sino na capela,

Eles arredondavam as vogais,

Sublinhavam verbos desconhecidos,

E tudo assim me soava familiar,

Como se estivesse a afastar-me de terra,

Num barco periclitante,

Com a ideia de nunca mais voltar,...


Vim sentar-me junto deles,

E beber dos mesmos desatinos que eles aprovavam,

Talvez assim o mundo me magoasse menos 

domingo, 3 de outubro de 2021

quando se rejuvenesce

 Esperar pela mudança,

De noite tudo é histriónico,

E ao mesmo tempo que está sujo

o caminho do afastamento,

são louras as decisões de

quando se rejuvenesce,

a regressar,…

 

doem as mãos vazias,

e inúteis,

e esperar que tudo mude,

não oferece dúvida,

mas há dias que doem,

sem se saber a quem,

sem se notar porquê,…

 

e há mais qualquer

coisa a anotar,

aqui debaixo da poeira




La baie des anges (1963), Jacques Demy






quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Setembrando a 4 de junho


 Aprendi que a voz,

O grito sobre outro grito,

A disposição de um olhar seco e que espera,

Pela última promessa de redenção de um homem mudo,

Jaz sobre uma cruz,... 


Não para espiar pecados sob vestes anuladas e que renegam admiração,

Mas sim como desafio ao amor,

Quase como se à mesma mesa da repulsa,

Se sentasse uma herança de homens maus,

Sobre quem não interessa agitar as águas de um mundo que anseia por aflição 

domingo, 31 de janeiro de 2021

A última possibilidade sóbria de ser racional num mundo assustadoramente ímpio

 a existência tem um término 

averbado,

como documento rasurado de transferência

de posse,

dizia Maria,

assoberbada,

encavacada até,

ela que enumerava as inconsequências 

de simplesmente,

andar por cá,

sem se saber onde se

fazem leituras de cozinhados,

somas de catetos de circunferências

irremediáveis,....


e tudo caminhava para

que ao dealbar da noite,

não restassem sombras que tricotar