(sequência daqui) O ritual repetiu-se de todas as vezes que ela voltou a deslocar-se a Humboldt e, Valerie sendo Valerie, não apenas se dedicou a descobrir tudo o que, acerca de mochos, se lhe cruzava no caminho como o colocou em primeiro lugar no trio do título do seu novo álbum - Owls, Omens And Oracles. Juntamente com os augúrios e os oráculos, tudo ferramentas de trabalho de quem, por muito que tenha de escutar impropérios como "Oh, that’s so fake. That’s just hippie shit", não desiste de se apresentar como "a person who works in positivity and joy”. De certo modo, tratar-se-á do mesmo exercício de abate de preconceitos no que diz respeito à forma como encaramos a própria figura de Valerie: algo como uma vibrante Carmen Miranda afro-folk-psicadélica (para a receita do banquete musical, a "Uncut" não se poupa nos ingredientes e condimentos: "Uma mistura de blues, gospel e folk das Apalaches, com uma pitada de soul, Americana e R&B, trap beats, feitiços e cantos de pássaros gravados no quintal") (segue para aqui)
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06 May 2025
23 December 2014
DA-DA-DA-DA
Carmen Miranda é um filão inesgotável para o mui escorregadio jogo das identidades (“assassinas”, como as qualifica Amin Maalouf): portuguesa, da Várzea da Ovelha, carioca/bahiana ou confecção kitsch/exótica de Hollywood? Menina do convento de Santa Teresa de Lisieux ou “Brazilian Bombshell” dançando, escandalosamente "pantieless", com César Romero, no set de Weekend In Havana? Embaixadora, nos EUA, do Brasil de Getúlio Vargas ou emissária da Good Neighbor Policy de Roosevelt para a América Latina? Intérprete de “sambas demasiado negros” ou objecto dócil de “americanização” por comodidade de marketing e facilidade de exportação? Turbante tutti-frutti ambulante ou flamejante ícone gay? “Fantasia de um qualquer executivo impotente que se imaginava um magnata do cinema” – como refere David Toop em Exotica, citando a contracapa de uma compilação de êxitos “latinos” –, "a stranger reduced to what seemed strange about her", segundo Arto Lindsay, ou o brinquedo escapista favorito de Wittgenstein?
Era, de certeza, di-lo Caetano Veloso em Verdade Tropical, “um emblema tropicalista, um signo sobrecarregado de afectos contraditórios (...) O facto de ela ter-se tornado, com o sucesso em Hollywood, uma figura caricata de que a gente crescera sentindo um pouco de vergonha, fazia da mera menção de seu nome uma bomba de que os guerrilheiros tropicalistas fatalmente lançariam mão. Mas o lançar-se tal bomba significava igualmente decretar a morte dessa vergonha pela aceitação desafiadora tanto da cultura de massas americana (...) quanto da imagem estereotipada de um Brasil sexualmente exposto, hipercolorido e frutal”. Em 2014, atirar-se ao reportório de Carmen Miranda como o faz, agora, o Real Combo Lisbonense – Saudade de Você: Às Voltas com Carmen Miranda –, já não terá um efeito explosivo de igual magnitude mas é, sem dúvida, uma sequência natural para o divertimento iniciado, no álbum de estreia (2009), com a exumação vintage “da tradição das orquestras e conjuntos que, em meados do século XX, animavam os casinos, hotéis, bares e restaurantes das principais metrópoles ocidentais”. Transatlanticamente repatriada, sem nenhuma vergonha, em clave carnavalesca, "period music" de bailarico e folia, “Carmen Miranda da-da-da-da”!
16 December 2014
VINTAGE (CCXXX)
Caetano Veloso - "Tropicália"
Fragmento retirado do filme Tropicália (2012) dirigido por Marcelo Machado. Esse trecho é uma fusão de vários filmes tais como Câncer - Glauber Rocha, Terra em Transe - Glauber Rocha, Os Herdeiros - Carlos Diegues, Bandido da Luz Vermelha - Rogério Sganzerla, Nosferatu do Brasil - Ivan Cardoso, entre outros.
11 September 2013
CIDADE DE ECOS E SOMBRAS
É o mais recente mantra turístico-autárquico alfacinha: “Queremos Woody Allen a filmar em Lisboa!” Primeiro, em Março último, foi o Secretário de Estado do Turismo a formular o desejo, pondo, porém, como condição que fosse “um filme com manifesto potencial de captação de turistas e que projecte realmente o destino”, constrangimentos com os quais Allen já confessou não se dar especialmente bem. No final da semana passada, foi o presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, a bradar ao “Sol” “Quero Woody Allen a fazer um filme de Lisboa”, adiantando que “tem havido contactos”. Antes de mais, para evitar equívocos preposicionais que só costumam provocar sarilhos, conviria esclarecer bem se o que está em causa é um filme “de” Lisboa, um filme “em” Lisboa, ou um filme “sobre” Lisboa. E, a seguir, será útil saber que, cinefilamente erudito como é, Woody não se ensaiaria nada para repescar a matriz da Lisboa-do-cinema, tal como Hollywood (e não só) quase sempre a viu.
Porque, é verdade, Lisboa já foi abundantemente filmada, facto que pode ser facilmente confirmado por uma visita à Carbono (loja de CD, vinil, DVD, livros e memorabilia em segunda mão, na Rua do Telhal, em Lisboa) onde se exibe uma bela recolha de peças de colecção – cartazes de cinema, revistas, livros e filmes, cobrindo cerca de 50 títulos –,“Espiões Em Lisboa”. E que permitirá também verificar como, para o bem e para o mal, essa Lisboa, inicialmente, em Casablanca, apenas um lugar abstracto no mapa e porta desejada de acesso à liberdade, rapidamente se converteu (consequência da posição de neutralidade de Portugal na Segunda Guerra Mundial) em cenário eleito de febril conspiração diplomática, espionagem, contrabando e negócios obscuros em geral.
Alguns livros recentes – Lisboa/A Guerra Nas Sombras da Cidade Da Luz: 1939/1945, de Neill Lochery, Passagem Para Lisboa, de Ronald Weber, Lisboa Uma Cidade em Tempo de Guerra, de Margarida de Magalhães Ramalho - e outros mais antigos - Arrival And Departure, de Arthur Koestler -, documentam ou ficcionam bem esses tempos mas, mais do que tudo, as imagens que permaneceram foram as das inúmeras derivações, sequelas, clones, filhos, netos e bisnetos de Casablanca. Sim, as de Hedy Lamarr e Paul Henreid (The Conspirators, 1944), na “city of echoes and shadows”, escutando "Rua do Capelão" cantada pela irmã mais nova de Carmen Miranda, pouco antes de, numa aldeia de pescadores, a 3 quilómetros de Cascais, Henreid ser acolhido pela brasileiríssima canção da “cabocla retirante Maringá”, mas também as de Storm Over Lisbon (1944) – “Estoril is better than Montecarlo. Such a finesse!” –, as de Ray Milland (The Lady Has Plans, 1942, e Lisbon, 1956), explicando que "Lisboa Antiga" é uma espécie de “home sweet home for brazilians”, as de Eddie Constantine (Ça Va Être Ta Fête, 1960) conspirando nos Jerónimos e esmurrando meliantes em Alfama, ou as mais próximas de On Her Magesty’s Secret Service (1969) e A Casa da Rússia (1990). Matéria de inspiração é o que não faltará a Woody Allen. Mas, enquanto ele não se decide, os recursos de uma CML imaginativa estendendo a mão à estrangulada Cinemateca, facilmente pegariam na ideia da Carbono e a ampliariam com o devido relevo.
11 November 2012
É MUITO TRISTE SER PAROLO (PARTE VII)
... e, já que a empresa é de Marco de Canaveses, porque não também um CDzito da Carmen Miranda?
08 May 2011
ROTAS & DESTINOS
Vários - Bossa Nova And The Rise Of Brazilian Music In The 1960s
Já em 1942, o Zé Carioca – na sua estreia pública – integrara uma das primeiras missões diplomáticas norte-americanas na América do Sul, no filme de animação de Walt Disney, Saludos Amigos. Cantava "Brazil" (de Ary Barroso) ao Pato Donald, e quem lhe emprestava a voz era Aloysio de Oliveira, um dos elementos do coro de Carmen Miranda, em Hollywood.
Saludos Amigos - Real. Walt Disney (1942)
As intervenções militares dos EUA, no Haiti e na Nicarágua, no início do século XX, tinham manchado o retrato yanqui na América do Sul e, por isso, durante e após a 2ª Grande Guerra, era obrigatória alguma maquilhagem política. Daí que, nomeado por Roosevelt, Nelson Rockefeller se tenha aplicado na aplicação de uma "good neighbor policy" que, no papel de embaixadores culturais, fez deslocar ao Brasil Nat King Cole, Ella Fitzgerald, Herbie Mann e Lena Horne. O jazz e o mundo moderno aportavam à terra do samba pouco antes de um jovem Pelé conquistar o primeiro Mundial canarinho e de Niemeyer inventar o futuro em Brasília. E, de caminho, lançariam também algumas das sementes de que Tom Jobim, João Gilberto e Vinícius de Morais, adubando-as com um pouco de Ravel, Debussy e "cool" tropical, fariam nascer, primeiro, a "Canção Do Amor Demais", depois, Chega de Saudade e, enfim, a bossa nova.
Esta compilação de Gilles Peterson e Stuart Baker para a Soul Jazz, em formato duplo, com "booklet" de 76 páginas, fica assaz longe de ser uma panorâmica exaustiva – as lacunas são inúmeras – mas, como pretexto de introdução à matéria que deverá, obrigatoriamente, ser aprofundada e ampliada, tanto para neófitos da causa como (em particular) para o público não-lusófono, poderá funcionar enquanto ponto de partida aceitável capaz de iluminar todas as posteriores rotas entre as Américas e a Europa por que a música popular viajaria.
(2011)
07 June 2009
BOUILLABAISSE

OqueStrada - Tasca Beat: O Sonho Português
Desfazendo, de imediato, hipotéticas confusões: se os Deolinda se diriam directamente extraídos de uma sequência de O Pátio das Cantigas, os OqueStrada apenas poderiam ser personagens e autores da banda sonora de um filme realizado pelo Kusturica da melhor época, rodado entre Paris, Lisboa, Nova Orleães, Buenos Aires e Cabo Verde, segundo argumento de Pedro Almodovar.
É importante a distinção porque, naquele tipo de escuta desatenta – embora, neste caso, tivesse de ser extraordinariamente desatenta – em que os "marketeers" gostam de confiar, não seria impossível chegar a imaginar que uns surgem à boleia do sucesso dos outros. Falso, falso, falso. Não só a história dos OqueStrada conta já uns respeitáveis sete anos de vida de saltimbancos mundo fora, como a sua surreal "bouillabaisse" sonora é algo de absolutamente singular:
levados pela mão e pela voz de Miranda – provável nome próprio, Carmen, admirável e camaleónica criatura capaz de interiorizar diversas personalidades simultaneamente e em sucessão –, inventam, desvairadamente, no espaço de uma só canção, tangos/musette, mornas/flamenco, fados balcânicos e bossas/ska, saltam, sem tropeçar, do português para o crioulo e deste para o castelhano, o inglês ou o francês (com regresso à casa de partida), trocam, num segundo, a máscara de Billy Idol pela de Roberta Flack e, qual filarmónica "on acid", Pablo, Lima, Zeto e Donatelo engendram, finalmente, aquilo em que, quem inventou o termo "world music", só podia mesmo estar a pensar.
(2009)
OqueStrada - Tasca Beat: O Sonho Português
Desfazendo, de imediato, hipotéticas confusões: se os Deolinda se diriam directamente extraídos de uma sequência de O Pátio das Cantigas, os OqueStrada apenas poderiam ser personagens e autores da banda sonora de um filme realizado pelo Kusturica da melhor época, rodado entre Paris, Lisboa, Nova Orleães, Buenos Aires e Cabo Verde, segundo argumento de Pedro Almodovar.
É importante a distinção porque, naquele tipo de escuta desatenta – embora, neste caso, tivesse de ser extraordinariamente desatenta – em que os "marketeers" gostam de confiar, não seria impossível chegar a imaginar que uns surgem à boleia do sucesso dos outros. Falso, falso, falso. Não só a história dos OqueStrada conta já uns respeitáveis sete anos de vida de saltimbancos mundo fora, como a sua surreal "bouillabaisse" sonora é algo de absolutamente singular:
levados pela mão e pela voz de Miranda – provável nome próprio, Carmen, admirável e camaleónica criatura capaz de interiorizar diversas personalidades simultaneamente e em sucessão –, inventam, desvairadamente, no espaço de uma só canção, tangos/musette, mornas/flamenco, fados balcânicos e bossas/ska, saltam, sem tropeçar, do português para o crioulo e deste para o castelhano, o inglês ou o francês (com regresso à casa de partida), trocam, num segundo, a máscara de Billy Idol pela de Roberta Flack e, qual filarmónica "on acid", Pablo, Lima, Zeto e Donatelo engendram, finalmente, aquilo em que, quem inventou o termo "world music", só podia mesmo estar a pensar.
(2009)
15 October 2007
DEPARTAMENTO "PEQUENOS ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO" (XI)
FILOSOFIA GREGA
FILOSOFIA GREGA
Devendra Banhart - Smokey Rolls Down Thunder Canyon
Eis-nos perante uma questão hermenêutica assaz bicuda: a) Devendra Banhart admite publicamente que o elemento catalisador para Smokey Rolls Down Thunder Canyon foi a sua separação de Bianca Cassady, uma das duas manas Coco; b) quase no mesmo fôlego, informa-nos que “um filósofo grego, talvez Aristóteles, um desses gajos, disse que a alma é húmida e que tudo o que é seco representa o mal. Portanto, a masturbação é uma arma contra o mal e é por isso que vemos tantos pénis na arte grega. O esperma, sendo húmido, é uma protecção, uma metralhadora que possuímos para nos defender contra a secura e, consequentemente, contra todos os males”.
É exactamente este o ponto em que o rigor exegético nos obriga a uma crucial interrogação: deveremos estabelecer uma relação de causa e efeito entre a) e b), constituindo o álbum o nexo explicativo ou, talvez mais precisamente, a prova material ela mesma, que demonstra factualmente que de uma coisa decorreu necessariamente a outra? A interpretação parece inteiramente plausível, tanto pelo que resulta da escuta de Smokey Rolls Down Thunder Canyon como pela revelação complementar segundo a qual “este foi o pior ano da minha vida”. Há karmas terríveis e o de Banhart não é dos mais fáceis: filho de uma devota do Guru Maharaji Pram Rawat que, previsivelmente, o baptizou como Devendra (isto é, “Rei dos Deuses”), por volta dos nove anos, forças que não comandava conduziram-no a entrar no quarto da mãe e a experimentar um dos vestidos dela, instante místico transfigurador que mudaria para sempre a sua vida: “Transformei-me numa mulher o que, praticamente, me autorizou a cantar, utilizando aquela outra parte de mim. Senti como se tivesse desbloqueado o lado feminino da minha alma. Nunca me tinha sentido particularmente talentoso, nunca me tinha visto como músico, por isso, precisava de alguma coisa, dentro ou fora de mim, que me desse essa permissão”.
Para o autor da dificilmente esquecível linha poética “comiendo una peira en Santa Maria de la Feira”, esse foi o momento catártico que (podendo também, eventualmente, contribuir para compreender melhor o desentendimento com a mana Bianca), anos mais tarde – após outras experiências enriquecedoras como aquela em que, na companhia dos índios Ianomani da Amazónia (entre os quais, segundo notícias recentes, existirão, aparentemente, 200 militantes do PSD), tripou desvairadamente sob o efeito do Yopo -, o levaria a gravar álbuns como Oh Me Oh My... The Way The Day Goes By The Sun Is Setting Dogs Are Dreaming Lovesongs Of The Christmas Spirit (2002), Rejoicing In The Hand (2003), Niño Rojo (2004) e Cripple Crow (2005), textos sagrados e pedras inaugurais do “freak-folk”. Smokey surge, então, como porto de abrigo de um doloroso calvário existencial que, inevitavelmente, lhe pulverizou a personalidade – será ele Caetano Veloso? Neil Young? Manu Chao? Carmen Miranda? Marc Bolan? Bing Crosby “on acid”? – mas lhe proporcionou, por fim, algum alívio. Será um alívio solitário mas, por agora, terá de servir. (2007)
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