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09 September 2022

UM NÓ CEGO


Em Novembro do ano passado, Lee Bains publicou em “The New Yorker” uma extensa “freewheeling poetic sequence” – Work Lunch – acerca da qual Kevin Young, o editor dessa publicação, diria: “Este ciclo de poemas tem o poder da música, uma exaltação do quotidiano que recorda Coney Island of the Mind, de Lawrence Ferlinghetti”. Pelo meio dessa imensa proliferação de personagens, tempos e lugares, uma “grandmama” viajava entre passado, presente e futuro – “She would walk those dusty miles down to the picture show. She usually didn’t have shoes then. This was the Twenties. The Depression hadn’t even hit yet. She would clutch the dime in her tight little hand, feeling the smooth cool of the plated silver and the wings on the side of Lady Liberty’s head. She would come to reach the pasture that, in warmer months, would be transformed into the expansive prairies of the Wild West, the glittering ballrooms of New York City, the dark stony castles of France, the sun-swept courtyards of Arabia” – para, a determinado ponto, deixar cair uma surda observação: “You may be poor, but at least you ain’t Black”. (daqui; segue para aqui)

18 July 2017

ASSALTO TOTAL 


A 23 de Julho de 1967, a “Motor City” explodiu. Quatro anos antes, os 125 000 manifestantes da Walk To Freedom March haviam desfilado pacificamente pela Woodward Avenue, na qual Martin Luther King ensaiaria o discurso “I Have a Dream” que, semanas depois, iria proferir em Washington D.C.. Mas, quando, às primeiras horas daquele domingo de Julho de há 50 anos, a polícia realizou um brutal raide a um clube na esquina da 12th Street – hoje, o Rosa Parks Boulevard – onde se celebrava o regresso do Vietname de dois GI negros, durante cinco dias, Detroit entrou em estado de guerra. Balanço final: 43 mortos, 1 189 feridos, 7 200 detenções, e mais de 2 000 edifícios destruídos. Vindo de Flint, John Sinclair tinha chegado a Detroit em 1964. Na universidade, lera os evangelhos segundo Ginsberg, Ferlinghetti, Corso e Kerouac, salmodiara ao som de Coltrane e descobrira o santíssimo sacramento da cannabis sativa.



Não tardou muito até que Sinclair (que, entretanto, escrevia para revistas de jazz, publicara três livros de poesia - This is Our Music, Fire Music: A Record e Meditations: A Suite for John Coltrane - e conhecera Ginsberg e Ed Sanders, dos Fugs), com vários outros "agents provocateurs" locais, tivesse criado a Artists’ Workshop dedicada à insubmissão perante a “square culture” dominante. Inalando profundamente o ar do tempo, a Workshop daria origem à comuna Trans-Love Energies que tanto acolheria os MC5 (brigada de agitadores sonoros "garage-proto-punk" mas amantes de Albert Ayler, Archie Shepp, Sun Ra e Coltrane) como, em 1968, serviria de incubadora para o White Panther Party. Fundado, segundo a lenda, por instigação do Black Panther, Huey P. Newton, o programa mínimo era esclarecedor: "a total assault on the culture by any means necessary, including rock and roll, dope, and fucking in the streets". Irmãos de armas (ainda mais) pedrados dos Yippies de Jerry Rubin, Abbie Hoffman e Phil Ochs, iria ser por aí mesmo que o FBI lançaria o ataque, prendendo Sinclair, apanhado na posse de dois cigarros “aromáticos”, pelo que, em 1969, seria condenado a dez anos de prisão. Libertado em 1971, após uma incansável campanha a que John Lennon se associaria, Sinclair, na sequência da desintegração dos White Panthers, gravaria quase três dezenas de álbuns de "spoken-word". Beatnik Youth Ambient (produzido por Martin Glover/Youth) é o último e belíssimo estojo para a voz de "grizzly" de John Sinclair, sobre fundo de jazz e electrónica mutantes, invocar a memória dos seus heróis literários e musicais.

Edit: Escutar o reverendo Jack Van Impe pregando contra o rock & roll e a contracultura, em 1969, referindo-se aos MC5, John Sinclair e ao White Panther Party (sugerido na caixa de comentários)

10 June 2013

Tom Waits - "Coney Island Of The Mind" 
(Lawrence Ferlinghetti)

 
Fortune

       has its cookies to give out

which is a good thing

                    since its been a long time since

     that summer in Brooklyn

 when they closed off the street

     one hot day

        and the
         FIREMEN

     turned on their hoses

    and all the kids ran out in it

 in the middle of the street

      and there were

        maybe a couple dozen of us

           out there

with the water squirting up

          to the

     sky

       and all over

             us

 there was maybe only six of us

       kids altogether

           running around in our

     barefeet and birthday

  suits

         and I remember Molly but then

       the firemen stopped squirting their hoses

         all of a sudden and went

          back in

   their firehouse

            and

  started playing pinochle again

   just as if nothing

        had ever

          happened

 while I remember Molly
      looked at me and

  ran in

 because I guess really we were the only ones there

19 December 2012

“All of it’s acting, really”
 

Charlie Is My Darling/The Rolling Stones Ireland 1965 - Real. Peter Whitehead (DVD) 

Peter Whitehead, ex-aluno do departamento de cinema da Slade School Of Art, em 1965, tinha ainda filmado apenas um documentário educativo sobre ciência (The Perception Of Life) e Wholly Communion – registo da International Poetry Incarnation, um encontro, no Royal Albert Hall, de poetas da "beat generation" (Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti, Gregory Corso) e satélites situacionistas (Alexander Trocchi) – e não era ainda o herói contracultural em que se transformaria com Tonite Let’s All Make Love In London (1967) e Daddy (1973, com Niki de Saint Phalle). Bastou Wholly Communion, porém, para atrair a atenção de Andrew Loog Oldham, manager dos Rolling Stones, no exacto momento em que estes, com “(I Can’t Get No) Satisfaction”, haviam destronado os Beatles dos tops britânicos e se preparavam para um digressão de dois dias pela Irlanda.




Oldham desafiou-o a filmar a banda, em palco e nos bastidores, tendo como referência A Hard Day’s Night, dos Beatles, e Whitehead olhou-os como, por essa mesma altura (mas só dois anos mais tarde o saberíamos), D.A. Pennebaker observava Dylan, em Dont’Look Back. Charlie Is My Darling (alusão a uma melodia tradicional irlandesa), contudo, ficaria, durante quase cinco décadas, inédito – versões apócrifas de 30 e 50 minutos circularam quase confidencialmente – para ser redescoberto, agora: a preto e branco, durante 62 minutos, Mick Jagger augura que os Stones durarão, no máximo, mais ano e meio; nas salas de Dublin e Belfast, o eficaz quinteto de rock/blues desencadeia tumultos; nos camarins, os Glimmer Twins macaqueiam Elvis e Fats Domino; cá fora, desmontam o jogo (“All of it’s acting, really”), e, no longínquo universo neo-realista que era a Irlanda dos anos 60, assistimos, em directo, ao parto do mundo que conhecemos hoje. 

11 July 2007

TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (I)



"Na verdade, sou de San Diego. Nasci em Whittier, na California, de onde também é o presidente Nixon. Por sinal, ele ia, às vezes, à nossa igreja. Mas isso foi há muito tempo, ele já passou essa fase...

(...)

"Costumava escrever muitas canções country na KSON, a grande estação de rádio country de San Diego. Mas já não me dizem muito. Tenho um baú cheio delas mas tentei explorar outras direcções. Tocava guitarra mas, ultimamente, tenho-me dedicado mais ao piano. Muitas vezes, escreve-se a pensar noutro artista. De facto, quando escrevi 'San Diego Serenade', estava a pensar no Ray Charles".

1973

"Há ocasiões em que bebo bastante, não jogo bilhar nada mal e a minha ideia de um bocado bem passado é uma noite de terça feira no Manhattan Club de Tijuana. Agora, vivo na zona de Silver Lake, em Los Angeles, e sou um angeleno dedicado sem a mínima vontade de me mudar para uma cabana no Colorado. Gosto do nevoeiro, do trânsito, de pessoas esquisitas, de engarrafamentos, de vizinhos barulhentos, de bares cheios de gente e passo a maior parte do meu tempo no carro, a caminho do cinema".

1974



"Sei o que funciona e o que não funciona puramente por tentativa e erro. As pessoas que gostam de mim estão à espera de uma certa narrativa tipo-estou-me-a-cagar que faço há alguns anos. Tenho consciência do género de personagem que sou em palco. É aquela diferença que existe entre acendermos um cigarro no nosso quarto e fazê-lo em cima de um palco.

(...)

"Apesar de eu ter crescido no Sul da Califórnia, Jack Kerouac impressionou-me imenso. Foi em 1968. Comecei a usar óculos escuros e assinei a 'Downbeat'... já com um certo atraso. Quando Kerouac morreu em 1969, em St. Petersburg, na Florida, era um homem velho e amargo... Interessava-me mais o estilo do que todo o resto. Descobri Gregory Corso, Lawrence Ferlinghetti... o Ginsberg ainda faz umas coisas de vez em quando".

1975


"Tive milhares de automóveis. O primeiro foi aos catorze anos. É uma espécie de tradição americana. Tirar a carta é como o Bar-Mitzvah.

(...)

"Nasci em Los Angeles, de muito tenra idade, no banco de trás de um táxi, no parque de estacionamento do Murphy Hospital, em Whittier, na Califórnia. Desde muito cedo, tive de tomar decisões difíceis. A primeira foi ter de pagar, para aí, um dólar e oitenta e cinco cêntimos que o taxímetro marcava para poder sair. Ainda não usava calças e tinha-me esquecido do dinheiro no outro 'babygrow'. Assim que saí do táxi fui à procura de emprego. O primeiro que encontrei foi numa das enfermarias da maternidade. Acabaram por me despedir o que me desiludiu bastante com o mercado de trabalho.

1976

(2007)

10 February 2007



Jack Kerouac/Vários - Reads On The Road
 
 
 
 
Lawrence Ferlinghetti/Dana Colley - A Coney Island Of The Mind
 
 

 
Nick Cave/Mick Harvey/Ed Clayton Jones - And The Ass Saw The Angel

Naqueles anos da segunda grande guerra em que o bebop nascia no nº 210 da West 118th Street, em Upper Manhattan, onde se localizava a Minton's Playhouse, um dos frequentadores mais assíduos era um "scat singer" e ocasional executante de bongos, de seu nome Jack Kerouac. Dizzy Gillespie chamava-lhe "that Frenchman" (ele era de ascendência franco-canadiana) e chegou a intitular um dos seus arranjos "Kerouac". Com a companheira da altura, Edie Parker, batia os clubes do Harlem, convivia entre "sets" com Billie Holiday, partilhava copos com Lester Young, Coleman Hawkins e Charlie Parker e, aí mesmo, modelaria o seu estilo de escrita (é verdade, Jack, para além de místico cristão/budista, "lonesome traveller", devoto de anfetaminas, cannabis e alcoólico, era escritor) que — em especial, no clássico On The Road, recentemente considerado pela Modern Library um dos 100 romances do século — procurava reproduzir o método espontâneo e "automático" de improvisação do jazz da época. Nomeadamente o de Bird, (como ele próprio referia), "blowing a phrase on his saxophone till he runs out of breath, and as he does, his sentence, his statement's been made...and that's how I separate my sentences, as breath separation of the mind". Pelo caminho, literalmente pelo caminho (com William Burroughs, Allen Ginsberg, Gregory Corso, Neal Casady e outros), criou a "beat generation" — isto é, inventou a matriz de todos os modelos culturais "alternativos" que iriam dominar a segunda metade do século — e ganhou merecidamente a qualificação de "spontaneous bop prosodist".

 
Jack Kerouac Reads On The Road revela, entretanto, aquela sua faceta que (tal como o anterior Kerouac-Kicks Joy Darkness, de 1997, aliás, como este, produzido por Lee Ranaldo, dos Sonic Youth) ajuda a reavaliar algumas das nem sempre reconhecidas debilidades da sua obra-escrita-nas-páginas-dos-livros. Pela muito simples razão de que a maioria dos textos de Kerouac, ainda que impressos e publicados, eram concebidos de acordo com a antiquíssima tradição da musicalidade da palavra dita ao vivo, com ou sem (mas frequentemente com) acompanhamento musical, de acordo com a tal "breath separation of the mind" como pontuação natural e orgânica. Tão inspirado pelo bebop como pela escrita automática de William James e dos surrealistas, pelos "trance poems" de Yeats, os happenings do Black Mountain College, as gravações de "spoken word" de Carl Sandburg, Dylan Thomas e Langston Hughes ou a pintura de Jackson Polllock, no Outono e Inverno de 1957, Kerouac recitaria alguns dos seus textos em público no espaço de diversos clubes do Greenwich Village, na sequência do que gravaria os álbuns Poetry For The Beat Generation, Blues And Haikus e Readings By Jack Kerouac On The Beat Generation (este recentemente republicado em CD pela Verve/Polygram em luxuosa edição).  O que, agora, porém, se recolhe são tanto ignoradas interpretações suas propriamente musicais — ao lado de instrumentistas não identificados — carregadas de um inesperado humor de crooner talentoso ("Ain't We Got Fun", "Come Rain Or Shine", "When A Woman Loves A Man" e "Leavin' Town" não se comparam desfavoravelmente com Chet Baker, Armstrong ou... Bob Dylan), como excertos das suas leituras de "On The Road", "Orizaba 210 Blues" e "Washington D.C. Blues", só com voz ou acompanhado pelos magníficos cenários sonoros de David Amram e John Medeski que simultaneamente colocam em evidência a tal música interior latente nos textos e sublinham o seu sentido. A fechar, um previsível (mas sempre excelente) Tom Waits, com os Primus, na qualidade de homenageante que deve quase tudo ao homenageado.
 
No mesmo registo se situa o CD de A Coney Island Of The Mind, a mítica colecção de poemas de 1958 de Lawrence Ferlinghetti, ele próprio "beat" ilustre e editor — através da sua City Lights Books — de quase todos os outros "beats", aqui lendo muito burroughsianamente (isto é, hipnoticamente) a sua poesia envolvida pelas improvisações no saxofone de Dana Colley (dos Morphine) e de um conjunto de outros músicos que estabelecem uma admirável ponte entre o espírito da era original e os tempos actuais. O que, tal como acontece com o melhor de Kerouac, chama inevitavelmente à conversa a desagradável (mas, neste caso inteiramente apropriada) palavra "intemporal". 
 
 
A comprovar, ao mesmo tempo, o fascínio do texto lido e a contribuição decisiva da "beat generation" para a forma como hoje encaramos esse género, fica, entretanto, And The Ass Saw The Angel, album de leituras de Nick Cave do seu romance com o mesmo título, acompanhado da "banda sonora" adicional de Mick Harvey e Ed Clayton Jones e da música incidental para a dramatização que, dele foi realizada. Cave é um superlativo "songwriter" e intérprete mas, na única tentativa novelística, revelou ser pouco mais do que um descendente menor e tardio do "sulismo" literário de Flannery O'Connor e Faulkner. Na sua voz inconfundíel (e na atmosférica música/sonoplastia que a enfatizam), contudo, tudo parece ganhar uma superior dimensão que, decerto não por acaso, recorda fortíssimamente o ambiente dramático do melhor álbum de "spoken word" português, Müller no Hotel Hessischer Hof, dos Mão Morta. A voz ressoa adequadamente apocalíptica e todo o bíblico dramatismo alucinado ecoa com uma intensidade que, na página escrita, era pouco mais do que caricatural. Afinal, lá está, a lição aprendida com os "beats"... (1999)