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28 July 2020

COMO SE FOSSE HOJE 


Durante a Convenção Nacional Democrática de 1968, em Chicago, por iniciativa dos “yippies” do Youth International Party, o porco Pigasus foi apresentado enquanto candidato à presidência dos EUA, sob o lema “Eles nomeiam um presidente e ele devora o povo. Nós nomeamos um presidente e o povo come-o”. No centro da operação, Jerry Rubin, Abbie Hoffman e Phil Ochs que comprara o suino de 66 quilos a um criador. Durante o julgamento dos Chicago Seven – Hoffman, Rubin, David Dellinger, Tom Hayden, Rennie Davis, John Froines e Lee Weiner – que, daí e dos protestos de rua em que participaram resultaria, depondo em tribunal a favor da defesa, Ochs recitou a letra da sua canção ‘I Ain't Marching Anymore’ (“It's always the old to lead us to the wars, always the young to fall, now look at what we've won with a saber and a gun, tell me is it worth it all?”) e, à saída, cantou-a para os jornalistas. 


O puto que, adolescente, se imaginara John Wayne, James Dean e Elvis Presley num só, ao chegar a Greenwich Village em 1962, depressa se transformaria numa das figuras destacadas da cena folk politicamente activa, que preferia ser visto como “singing journalist”, autor de “topical songs”. Apesar de uma oscilante rivalidade com Bob Dylan, não hesitou em dar-lhe a benção quando o “Dylan eléctrico” foi excomungado pela ortodoxia folk. Na verdade, ele próprio viria a incorrer em heresia nos magníficos Pleasures Of The Harbor (1967) e Tape From California – cofres de assombrosas canções densamente orquestradas como "Floods Of Florence", "The Crucifixion" ou "The Party" – ou, quando, desencantado com a mansidão folk, decidiu ser imperativo “transformar Elvis em Che Guevara”. The Best Of The Rest: Rare and Unreleased Recordings recolhe 20 versões alternativas, demos e inéditos do período entre I Ain’t Marching Anymore (1965) e In Concert (1966), da aterradoramente kafkiana "The Confession" (“When agreement is full, the switch must be pulled and the chair leaves no hope for correction, but the chances are large he was guilty as charged, after all, he made a confession”) ao enredo desgraçadamente intemporal de "In The Heat Of The Summer" (“Now no one knows how it started, why the windows were shattered, but deep in the dark, someone set the spark and then it no longer mattered, down the streets they were rumbling, all the tempers were ragin', oh, where, oh, where are the white silver tongues who forgot to listen to the warnings?”). Exactamente tudo como se fosse hoje.

02 April 2018

SEM BANDA SONORA 


Quando, há cerca de três semanas – a propósito de um abaixo-assinado de estudantes universitários contra a elevação a catedrático de um ex-gestor da Tecnoforma –, o douto Vital Moreira, acidamente, opinou “Era o que faltava!... pelos vistos, há quem proponha o regresso à autogestão estudantil de Maio de 1968...” (I), alguém deveria ter-lhe chamado a atenção de que, contra ventos e marés políticos, a reputação dos "soixante-huitards" não poderia estar, actualmente, melhor cotada. Pelo menos, no país de origem: segundo uma sondagem encomendada pelo “Nouveau Magazine Littéraire” à Harris Interactive, 79% dos inquiridos atribui à revolta de 68 consequências positivas para a sociedade francesa, incluindo-se nesses 87% dos eleitores de Macron e até 78% dos de Marine Le Pen. Meio século bastou, de facto, para que muitas das palavras de ordem e iconografia insurrectas tivessem sido recuperadas e domesticadas (ironicamente, segundo a técnica do "détournement" (XVI) praticada pelos Situacionistas de Debord e Vaneigem, motor ideológico e criativo da sublevação): “Sous les pavés, la plage” já foi comédia de boulevard e slogan da Orangina Schweppes; em 2005, os hipermercados E. Leclerc, na campanha “E. Leclerc defend votre pouvoir d’achat”, recuperaram diversos cartazes de Maio (por sua vez, "détournés" por uma Brigade Anti-Pub sob o lema “E. Leclerc vous prend vraiment pour des cons”); a Gucci, num video da campanha Outono 2018, recria o Maio de 68, “inspirada por Truffaut e Godard”; e “Não tenho nada para dizer mas apetece-me dizê-lo” converteu-se no modus operandi corrente da tribo mundial de comentadores e tudólogos.


Mas, sobretudo, não esquecer o golpe de misericórdia final quando, em 2009, o governo de Sarkhozy impediu a aquisição pela universidade de Yale do arquivo de Guy Debord, considerando-o “um dos últimos grandes intelectuais franceses”. Consideravelmente mais comedida que as investidas dos contemporâneos radicais norte-americanos – Yippies, Black Panthers, Weathermen –, à revolta de 68, faltou, especialmente, uma componente essencial: a banda sonora. Da explosão do ano iniciado sob o signo de "Déshabillez-moi", de Juliette Greco, à excepção de "Les Anarchistes", de Leo Ferré (estreada na Mutualité, a 10 de Maio, primeira noite das barricadas no Quartier Latin), todo o cancioneiro que se lhe refere – Colette Magny, Claude Nougaro, Brassens, Moustaki – é desgraçadamente posterior. De uma outra revolução mais próxima e musicalmente riquíssima, "Grândola", 40 anos depois,  permanecia uma arma poderosa contra ex-gestores da Tecnoforma.

18 July 2017

ASSALTO TOTAL 


A 23 de Julho de 1967, a “Motor City” explodiu. Quatro anos antes, os 125 000 manifestantes da Walk To Freedom March haviam desfilado pacificamente pela Woodward Avenue, na qual Martin Luther King ensaiaria o discurso “I Have a Dream” que, semanas depois, iria proferir em Washington D.C.. Mas, quando, às primeiras horas daquele domingo de Julho de há 50 anos, a polícia realizou um brutal raide a um clube na esquina da 12th Street – hoje, o Rosa Parks Boulevard – onde se celebrava o regresso do Vietname de dois GI negros, durante cinco dias, Detroit entrou em estado de guerra. Balanço final: 43 mortos, 1 189 feridos, 7 200 detenções, e mais de 2 000 edifícios destruídos. Vindo de Flint, John Sinclair tinha chegado a Detroit em 1964. Na universidade, lera os evangelhos segundo Ginsberg, Ferlinghetti, Corso e Kerouac, salmodiara ao som de Coltrane e descobrira o santíssimo sacramento da cannabis sativa.



Não tardou muito até que Sinclair (que, entretanto, escrevia para revistas de jazz, publicara três livros de poesia - This is Our Music, Fire Music: A Record e Meditations: A Suite for John Coltrane - e conhecera Ginsberg e Ed Sanders, dos Fugs), com vários outros "agents provocateurs" locais, tivesse criado a Artists’ Workshop dedicada à insubmissão perante a “square culture” dominante. Inalando profundamente o ar do tempo, a Workshop daria origem à comuna Trans-Love Energies que tanto acolheria os MC5 (brigada de agitadores sonoros "garage-proto-punk" mas amantes de Albert Ayler, Archie Shepp, Sun Ra e Coltrane) como, em 1968, serviria de incubadora para o White Panther Party. Fundado, segundo a lenda, por instigação do Black Panther, Huey P. Newton, o programa mínimo era esclarecedor: "a total assault on the culture by any means necessary, including rock and roll, dope, and fucking in the streets". Irmãos de armas (ainda mais) pedrados dos Yippies de Jerry Rubin, Abbie Hoffman e Phil Ochs, iria ser por aí mesmo que o FBI lançaria o ataque, prendendo Sinclair, apanhado na posse de dois cigarros “aromáticos”, pelo que, em 1969, seria condenado a dez anos de prisão. Libertado em 1971, após uma incansável campanha a que John Lennon se associaria, Sinclair, na sequência da desintegração dos White Panthers, gravaria quase três dezenas de álbuns de "spoken-word". Beatnik Youth Ambient (produzido por Martin Glover/Youth) é o último e belíssimo estojo para a voz de "grizzly" de John Sinclair, sobre fundo de jazz e electrónica mutantes, invocar a memória dos seus heróis literários e musicais.

Edit: Escutar o reverendo Jack Van Impe pregando contra o rock & roll e a contracultura, em 1969, referindo-se aos MC5, John Sinclair e ao White Panther Party (sugerido na caixa de comentários)

13 April 2016

NOT DEAD? 


O caldo de cultura dos irmãos David e Stuart Wise era o Situacionismo de Debord e Vaneigem, vitaminado pelo niilismo estético radical de Pisarev e pelo anarquismo norte americano do “Black Mask” de Ben Morea e dos UAW/MF (Up Against the Wall Motherfuckers), também inspirador dos Yippies de Abbie Hoffman, Jerry Rubin, Phil Ochs e John Sinclair – inserir aqui derivação para o White Panther Party – e da guerrilha urbana dos Weathermen. Foi aí que, em Londres, entre o final de 60 e início de 70 do século passado, ao cuidado dos Wise, germinou o colectivo insurreccional King Mob, semente de inúmeras acções de choque como a ocupação selvagem de espaços públicos e universidades, a publicação de listas de celebridades a abater, a vandalização de cadeias de "fast food", as campanhas de panfletos de BD "détournée" e graffiti – o mais célebre: “Same thing day after day - tube - work - dinner - work - tube - armchair - TV - sleep - tube - work - how much more can you take? - one in ten goes mad, one in five cracks up” – ou a distribuição gratuita de brinquedos no Selfridges por um Pai Natal delinquentemente generoso. Em 1978, David Wise escreveria The End Of Music acerca do incêndio punk (em fase de rescaldo mas ainda activo) no qual tivera papel destacado um tal Malcolm McLaren, “inventor” dos Sex Pistols e, pouco tempo antes, um dos activistas da operação Selfridges.


Há três semanas, Joe Corré, fiho de McLaren e Vivienne Westwood, na boa tradição familiar, fez explodir outra bomba: perante a declaração – por iniciativa do British Film Institute, British Library, Design Museum, Museum of London, Photographers' Gallery, Rough Trade e Roundhouse – de 2016 como o “Year of Punk”, anunciou que, a 26 de Novembro, em Camden, por ocasião do 40º aniversário de "Anarchy in The UK", dos Pistols, lançará fogo à sua colecção de memorabilia punk, no valor de 5 milhões de libras, declarando “O punk transformou-se numa peça de museu. As pessoas estão anestesiadas, sentem que já não têm uma voz. Desistiram de lutar por aquilo em que acreditam. Temos de rebentar com esta merda toda outra vez!” Os ventos, porém, não estão de feição para os “gangsters of the new freedom” e é assaz duvidoso que venha a encontrar muitos aliados: do lado de lá do Atlântico, no Queens Museum, de Nova Iorque, entre 10 de Abril e 31 de Julho, será exibida a exposição “Hey! Ho! Let’s Go: Ramones and the Birth of Punk”. Punk’s not dead?

11 August 2014

O SONHO TINHA ACABADO


Quase meio século de distância pode distorcer um pouco as memórias. Mas, por mais que Graham Nash garanta que os Crosby, Stills, Nash & Young e as canções que compunham fossem produto de preocupações humanistas e não declaradamente políticas – como se umas e outras pudessem ser dissociadas –, a verdade é que, nessa época (final de anos 60/início de 70 do século passado), tudo era eminentemente político: as drogas, o estilo de vida, a alimentação, o sexo, as artes, até o próprio corte de cabelo como David Crosby deixaria claríssimo em "Almost Cut My Hair": “Almost cut my hair, it happened just the other day, it was gettin' kinda long, I could have said it was in my way, but I didn't and I wonder why, I feel like letting my freak flag fly, yes I feel like I owe it to someone”. A “freak flag” tanto podia residir no comprimento capilar como na deriva terrorista dos Weathermen – inspirados por Dylan, em "Subterranean Homesick Blues": “You don’t need a weatherman to know which way the wind blows” –, no anarco-marxismo-tendência-Groucho dos yippies do Youth International Party (fundado, entre outros, por Jerry Rubin e Abbie Hoffman, em torno dele gravitariam Allen Ginsberg, Phil Ochs e os MC5) que, para as eleições presidenciais de 1969, nomeariam o porco Pigasus, no afro-nacionalismo dos Black Panthers, ou no novo paganismo lisérgico da League For Spiritual Discovery, de Timothy Leary.

O candidato Pigasus

Em 1974, porém, vivia-se já a ressaca das grandes comunhões cósmicas e dos devaneios comunitários – Lennon decretara que “the dream is over”, o punk estava a dois anos de distância e os CSNY, porta-bandeiras do activismo da aristocracia hippie de Laurel Canyon, quatro anos após a separação, apenas acediam a meter as birras no bolso e a reunir-se para uma digressão de 31 concertos, essencialmente (garante Stephen Stills, “não é bem assim”, suaviza Nash), “for the money”. David Crosby chamou-lhe “Doom Tour”, o manager Chris O’Dell qualificou-a como “a mais disfuncional reunião de egos na história do rock’n’roll” mas, pelo que se escuta nos três CD e no DVD de CSNY 1974, citando Graham Nash, eram ainda “uma bela banda”. Depois da última data em Wembley, Crosby voltou para a Califórnia, Stills viajou para França e Young e Nash meteram-se num Rolls Royce de 1934 apontado para o deserto do Sahara. Não passaram da Bélgica.

11 July 2014

 "ÉRAMOS UMA BELA BANDA"



Do lado de lá da linha, Graham Nash saúda-me silabando meticulosamente o meu nome e, antes sequer de me deixar formular a primeira pergunta, faz questão de me informar que, no final dos anos 60 – estava ele ainda nos Hollies –, tinha passado férias em Albufeira, no Algarve. Por compaixão, não lhe explico que o lugar que conheceu tem pouco a ver com o campo de concentração para matilhas de turistas que, hoje, é, até porque não era essa a razão da conversa: o pretexto era, sim, a publicação de Crosby, Stills, Nash & Young Live 1974, um "box-set" com todas as mordomias habituais (3 CD, DVD, Blue Ray, "booklet", vinil) que documenta o famigerado “Doom Tour” que, após quatro anos de separação e vasta acrimónia, voltou a reunir o quarteto. Como adiante se verá, por motivos vários e, por vezes, opostos.

Numa entrevista à “Rolling Stone”, confessou que este tinha sido o projecto mais difícil de toda a sua vida...
Sem a menor dúvida. Por diversas razões. Em primeiro lugar, porque é muito difícil pôr quatro pessoas de acordo sobre alguns assuntos. Depois, do ponto de vista técnico, era uma tarefa muito complexa. Por exemplo, imagine que uma das duas vozes que cantavam para um mesmo microfone, estava ligeiramente desafinada. É impossível corrigi-la sem que isso afecte a outra. Para além disso, lidar com oito concertos, em oito salas diferentes, com dimensões e acústicas também muito variáveis e pretender que tudo soe como se se tratasse de um único concerto não é brincadeira.

E imagino que a obsessão de Neil Young pela altíssima fidelidade também deve ter sido outro grande problema?
Sim, sim, e abençoado seja. Só se satisfaz com o melhor. A atitude dele está completamente certa. Eu já tinha feito a mistura de, pelo menos, dez das canções quando o Neil entendeu que deveríamos optar pela máxima resolução possível. Tivemos de deitar fora essas dez e começar tudo de novo.



Concluído o processo, parece-lhe que o álbum apresenta uma versão bastante fiel de como os CSNY soavam, na altura?
Eu tinha ouvido um "bootleg" do concerto de Wembley e, francamente, não foi um grande concerto. Estávamos todos demasiado excitados, tínhamos consumido drogas a mais, não tinha sido grande coisa. Não queria que os nossos fãs pensassem que tinha sido sempre assim, noite após noite.

Não consumiam drogas todas as noites... 
Consumíamos, sim (risos). Mas houve concertos melhores do que outros. O que eu fiz foi recolher a melhor interpretação de cada uma das canções a dei-as a ouvir ao Neil, ao David e ao Stephen que aprovaram a ideia.

Afirmou também, algures, que através deste registo, se poderá confirmar que os CSNY eram “a very, very decent rock band”. É nessa categoria que gostariam de ser recordados?
Exacto. Levávamos a música muito a sério. Acredito que a nossa música irá durar muito mais do que os nossos corpos físicos. Daqui a 50 ou 100 anos, ela continuará a ser escutada e quem o fizer aperceber-se-á de que éramos uma bela banda.

No entanto, em 1974, as relações entre vós estavam longe de ser as melhores. O próprio Stephen Stills terá dito que tinham feito uma tournée anterior por causa da música, outra por causa das miúdas mas que esta tinha sido só pelo dinheiro...
Era a opinião dele, não a minha. Não me interprete mal: é muito bom quando nos pagam uma pipa de dinheiro, não tenho nada contra. Mas não foi esse o motivo por que nos decidimos a tocar. Fizemo-lo porque tínhamos as canções, éramos quatro cantores e músicos fortíssimos e constituíamos uma das melhores bandas do mundo na altura.



Quarenta anos depois, em que medida lhe parece que a música dos CSNY poderá continuar a ser relevante?
Julgo que não poderia ser mais. Onde, antes, se falava acerca da guerra do Vietname, poderá falar-se, agora, das do Iraque ou do Afeganistão. O nosso absoluto ódio pela administração de Nixon é idêntico ao que sentimos pela de George W. Bush. Parece que a humanidade não aprende com a História. Muita gente qualificou-nos como uma banda política mas, na realidade, éramos apenas um grupo bastante humano. Quando se assassina a tiro quatro estudantes por exercerem o legítimo direito de protestar contra aquilo que o governo, em seu nome, faz, como aconteceu na Universidade de Kent State, no Ohio, em 1970, trata-se de política? Não, é uma história humana. Quando Robert Kennedy foi assassinado e David Crosby escreveu "Long Time Gone", é uma canção política? Não, é uma canção humana. Quando escrevi "Chicago", a propósito de a Convenção Democrática ter sido interrompida pelos protestos dos yippies e do nosso desejo de os apoiar e angariar fundos para a sua defesa, isso faz dela uma canção política? Não me parece, penso que se trata de uma canção humanista.



Já consegue ter um entendimento preciso daquilo que cada um de vós, individualmente, trouxe à banda?
Sim, sim. O David Crosby é um dos músicos mais singulares que conheci. Não escreve como eu ou o Neil ou o Stephen. Incorporou na música da banda, acordes e afinações diferentes que, não sendo jazzísticas, são muito particulares. Na minha opinião, o Stephen Stills é um génio: toca piano, guitarra acústica e eléctrica, baixo, escreve arranjos. O Neil Young transportou uma atmosfera mais negra e cortante para a nossa música. Quanto a mim, sempre quis assegurar que o trabalho aparecia feito. Sou inglês e, como sabe, durante a Segunda Guerra, a Inglaterra foi destruída pelos bombardeamentos. Isso desenvolveu em nós uma urgência de fazer o que tem de ser feito porque, amanhã, podemos já não estar cá. Musicalmente (na minha banda anterior, os Hollies, tivemos 17 singles no top 10), sei como escrever uma canção cuja melodia, uma vez escutada, não sai do ouvido. Por outro lado, quando a minha voz e as do David e do Stephen cantavam em harmonia, mais ninguém no mundo soava como nós.

Sente que, na música que se faz actualmente, existe alguma descendência vossa?
Nós fomos apenas um elo da longuíssima cadeia que começou algures quando, numa caverna alguém percutiu um tronco, e, daí prosseguiu até aos Weavers, Pete Seeger, Bob Dylan, Peter Paul & Mary, Phil Ochs... e, hoje, por exemplo, os Fleet Foxes ou os Mumford & Sons em quem escutamos – e, com isso, nos sentimos lisonjeados – ecos da nossa música. 

13 September 2011

É SEMPRE MELHOR A SURPRESA



Sérgio Godinho - Mútuo Consentimento

Exactamente quarenta anos depois de Os Sobreviventes (e, já agora – que o ano de 1971 foi um verdadeiro separador de águas para a música portuguesa –, também após Mudam-se Os Tempos, Mudam-se As Vontades, de José Mário Branco, e Cantigas Do Maio, de José Afonso), é inteiramente oportuno perguntar: que é que tem o Godinho que é diferente dos outros? Não se trata, naturalmente, de estabelecer hierarquias (no "rating" da República, os títulos e acções de qualquer um desses três são um indiscutível "triple A") mas de procurar identificar os traços que, desde o início, o distinguiram nesse movimento crucial que muito bem poderia ter sido designado (por mais do que uma boa razão) como "nouvelle vague". Partilhando a atitude e o posicionamento político (em poucas palavras: anti-Estado Novo) a que a época, quase instintivamente, obrigava quem não desistia de fazer uso do cérebro e se dava mal com o paroquial e beato provincianismo luso, Sérgio Godinho e Zé Mário, de Paris (e do resto do mundo) para Portugal, irromperam, tanto em contraste nítido com a estética das cançonetas nacional-senis do “regime” como com o bocejante baladeirismo “contestatário” de transviada e tardia descendência folk transatlântica (tratando José Mário Branco de, por arrasto e no cargo de produtor de Cantigas Do Maio, contagiar José Afonso). Sérgio, contudo, já na altura, sem abdicar do minucioso trabalho sobre os textos, era, ainda que com vestígios francófilos da "chanson", muito claramente, uma criatura da cena propriamente pop/rock anglo-americana, mais hippie/yippie do que militante alinhado, mais Dylan do que Pete Seeger. Isto é, o tipo de escritor de canções sobre quem a passagem do tempo – mesmo que, aqui e ali, lhe carimbe, indelevelmente, uma data – tende a ser generosa.



Cerca de três dezenas de álbuns – entre registos de originais, ao vivo e compilações – mais tarde, bastará passar os olhos pela plateia de um concerto de Sérgio para nos apercebermos de como “transgeracional” é o seu nome do meio. E, para tal, não contribuíram só as múltiplas vidas que, do estúdio para o palco e de volta ao estúdio, foi insuflando em parcela importante do seu cancioneiro (nada de cirurgias plásticas para passar rugas a ferro: apenas um processo natural de mudança permanente) mas, principalmente, o trabalho e colaboração com sucessivas gerações de músicos-cúmplices, espécie de transfusão de sangue contínua capaz de manter elevado o metabolismo criativo. Exemplo maior disso foi O Irmão Do Meio (2003), magnífica revisão de carreira em formato de duetos (com Camané, Caetano Veloso, Xutos, Milton Nascimento, Jorge Palma, David Fonseca...) e, de forma constante, o convívio criativo com Nuno Rafael (Despe & Siga) e elementos dos Clã.



Mútuo Consentimento, primeiro disco desde Ligação Directa, de 2006, coloca, entretanto, um problema que será ou não aquele a que, em entrevista recente ao “i”, Godinho se referia: “As minhas canções têm muitas vezes (...) um tempo de apreensão relativamente longo. É-me dito recorrentemente que a primeira vez que as ouvem estranham e só depois é que se entranham. Mas gosto que seja assim. É pior quando entra à primeira e depois uma pessoa já está farta”. Dir-se-ia, porém, que, desta vez, numa equipa bastamente testada e lubrificada, o que, inexplicavelmente, encrava são os arranjos: "Mão Na Música", manifesto em "spoken-word", pedia mais do que "wallpaper" de fundo, "Bomba-Relógio" pesa toneladas em comparação com a elegância da versão que dela fez Cristina Branco, "Acesso Bloqueado" é Godinho-vintage mas mobilado de forma automaticamente previsível, o que se repete em diversas outras e se redime em "A Vida Sobresselente" (com Noiserv), "Dias Consecutivos" (na companhia de Bernardo Sassetti) e "Intermitentemente" (com Sassetti e a Roda de Choro de Lisboa). Por outras palavras: aqui, estranha-se o que imediatamente se reconhece e entranha-se o que surpreende. O que sempre foi o melhor de Godinho.

(2011)

12 July 2010

A PROPÓSITO DE PROGRAMAS ALTERNATIVOS
E TAMBÉM DE CANDIDATURAS PRESIDENCIAIS



Pigasus the Immortal

“The nomination of the boar hog Pigasus for President of the United States by the Yippies had been the most transcendentally lucid political act of the twentieth century...” (Robert Anton Wilson, The Illuminatus! Trilogy)

At the Democratic National Convention in Chicago in 1968, the Yippies (Youth International Party) nominated a pig for president, with the campaign pledge: “They nominate a president and he eats the people. We nominate a president and the people eat him”. This porcine political maneuver was the brainchild of sixties activists Abbie Hoffman and Jerry Rubin. (aqui)

(2010)