(sequência daqui) Não é regra que convites deste género sejam motivo de obras memoráveis mas, diga-se já, All My Friends é uma notabilíssima excepção. Livremente inspirado pelos textos e discuros da sufragista Carrie Chapman Catt, e contando com a colaboração do ensemble de cordas The Knights, do quarteto de metais The Westerlies, do San Francisco Girls’ Chorus, de elementos dos Punch Brothers e da folksinger Anaïs Mitchell, verdadeiramente decisivos foram os soberbos arranjos orquestrais de Tanner Porter que transportam as belíssimas canções magnificamente jonimitchellianas de O'Donovan para o plano de clássicos como American Gothic, de David Ackles. O remate com "The Lonesome Death of Hattie Carroll", de Dylan ("You who philosophize disgrace and criticize all fears, take the rag away from your face, now ain’t the time for your tears") não poderia ser mais perfeito.
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24 July 2024
05 March 2021
Em 2008, dando sequência a um trabalho de pesquisa e produção levado a cabo por Andy Zax, a Rhino Records propôs-se compilar e reeditar todas as gravações conhecidas de David Ackles para a Elektra Records. Em concreto: os álbuns David Ackles, Subway to the Country e American Gothic, mais oito temas inéditos e/ou versões diferentes entretanto editadas em single.
There is a River: The Elektra Recordings estava pronto. Alinhamento, booklet - incluindo textos de Elvis Costello e Bernie Taupin (este último produtor de American Gothic) –, número de catálogo atribuído (8122-74884-2). No último instante ruiu o acordo com os representantes legais do espólio de David Ackles e a edição abortou. Ao que se sabe, foram na altura distribuídas algumas cópias promocionais. Andarão por aí, algures...
(daqui)
19 February 2020
AGUARELA INGÉNUA
Gato repetidamente escaldado pelas inúmeras e desavergonhadas campanhas de "hype" à volta de “génios incompreendidos na sua época” que, trazidos à luz, se revelam muito pouco geniais e justissimamente ignorados, teme, naturalmente, a água fria de mais uma “inigualável descoberta” pronta a servir. Foi, pois, inteiramente justificado que, ao ser anunciada a exumação de duas preciosidades do início dos anos 70, desde então remetidas para a clandestinidade, e cujo autor, durante os 40 anos seguintes, se vira obrigado a sobreviver como jardineiro, operário e trabalhador rural, a oferenda tenha sido recebida com os dois pés firmemente colocados atrás. Afinal, por uma vez, o "hype" tinha toda a razão de ser: Bill Fay (1970) e Time of The Last Persecution (1971) – muito especialmente o primeiro – eram o género de peças perante as quais apenas podia pensar-se “Mas como foi possível?...”
Entusiasticamente apregoado por Jeff Tweedy, David Tibet, Nick Cave e Jim O’Rourke, era, de todo, impossível não alinhar no coro. E fi-lo: Bill Fay era “coisa da estatura de Goodbye and Hello, de Tim Buckley, dos quatro primeiros de Scott Walker, de American Gothic de David Ackles, ou, do ponto de vista da encenação sinfónica, de Songs Of Love And Hate, de Leonard Cohen”. Provavelmente decisivas eram as orquestrações de Mike Gibbs (jazzman às ordens de Carla Bley, Bill Evans, Peter Gabriel, Marianne Faithfull, e Joni Mitchell) porque, embora também valiosos, Time of The Last Persecution e os dois que gravaria pós-ressurreição (Life Is People, de 2012, e Who Is the Sender?, de 2015), sem a mão de Gibbs, tendiam a aconchegar-se demasiado às ecografias da alma dos velhos "singer-songwriters". Countless Branches vem confirmar essa ideia: quase só pele e osso de voz e piano com ocasionais pinceladas transparentes de violoncelo e trompete, é uma aguarela intimista de deslumbramento cripto-cristão perante o mundo, a vida e os humanos, talvez excessivamente ingénua – confrontar com Leonard Cohen - para um cavalheiro de 77 anos.
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16 July 2019
VINTAGE (CDXCVI)
Julie Driscoll, Brian Auger &
The Trinity - "Road To Cairo" (D. Ackles)
(noutro vídeo aqui)
25 June 2019
23 June 2019
LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (LVI)
(com a indispensável colaboração do R & R)
(clicar na imagem para ampliar)
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11 December 2015
EVERYDAY I WRITE THE BOOK
Comecemos, então, pelo princípio. Isto é, pelo capítulo 6, "London’s Brilliant Parade": “Nasci no mesmo hospital em que Alexander Fleming descobriu a penicilina. Peço, antecipadamente, desculpa por não ter sido uma dádiva equivalente à humanidade. Há muitos lugares em Londres que oferecem a sensação de lhes pertencermos: Camden, Stepney, Hampstead, Brixton, até Shepherd’s Bush. Paddington não é um deles, a menos que se seja um urso de ficção. É um lugar de passagem, uma estação no tabuleiro do Monopólio”. Em epígrafe, “From the gates of St. Mary’s, there were horses in Olympia and a troley bus in Fulham Broadway, the lions and the tigers in Regent’s Park couldn’t pay their way, and now they’re not the only ones”. É um mapa instantâneo das origens de Declan Patrick MacManus, aliás, Elvis Costello: o hospital de St. Mary’s, à beira de Paddington e das competições equestres do Olympia Horse Show. Há uma prova do feliz acontecimento na página 406 de Unfaithful Music & Disappearing Ink: a reprodução de um minúsculo recorte de 6 linhas do “New Musical Express” de Agosto de 1954 em que o semanário “dá os parabéns a Ross MacManus, trompetista-vocalista da Arthur Rowberry Band, cuja mulher, Lillian, o presenteou com um filho na passada terça-feira. O bebé chamar-se-á Declan Patrick”.
Não é tudo rigorosamente verdade – 25 de Agosto de 1954 foi uma quarta-feira – mas isso não deverá incomodar demasiado Costello que, não sendo um efabulador compulsivo como Tom Waits, nas 670 páginas destas suas "memoirs", não se esquiva a confessar episódios nos quais, sem cerimónias, reconfigura os factos em função das circunstâncias. Por exemplo, aquele, acontecido na Casa Branca, em 2010, aquando da entrega a Paul McCartney do Gershwin Prize for Popular Song. Integrando o grupo de músicos que actuariam perante o homenageado, Barack Obama e a corte de convidados, coube-lhe interpretar "Penny Lane" que apresentou evocando quão importante tinha sido para um miúdo de 13 anos escutar no rádio, “ao lado do meu pai, da minha mãe e do gato”, uma canção “tão fantástica acerca de uma anónima rua suburbana, muito próxima daquela onde, em criança, a minha mãe vivera”. Na realidade, não havia gato algum e, por essa altura, os pais estavam já separados...
É também indispensável não contar com uma narração cronologicamente ordenada. Da vaga recente de autobiografias e memórias de medalhados estadistas do pop/rock – o primeiro volume das Chronicles, de Dylan, a Autobiography, de Morrissey, Girl In a Band, de Kim Gordon –, Costello tende mais para o estilo-Dylan: ora está a justificar a sua má reputação inicial por culpa do maldito diastema (“parece que o espaço entre os meus dois dentes incisivos, que fizeram Jane Birkin, Ray Davies e Jerry Lewis tão atraentes, teve o efeito de fazer soar metade do que digo como uma provocação ou um insulto”); ora salta para o meio da década de 80 e, ele que se reivindica perito em “sentimentos de culpa católicos”, faz público acto de contrição acerca da sua condição de predador sentimental (“Escrevi cartas, seduzindo raparigas diferentes, levando-as a acreditar fosse no que fosse que desejassem acreditar (...) Depois, escrevi canções tentando convencer-me que o fazia em busca do amor e não apenas das boas e velhas luxúria e cobiça e de mais dois ou três dos restantes pecados mortais”); ora, ao longo de 20 assombrosas páginas faz desfilar uma História viva da Irlanda-Reino Unido-EUA iniciadas com o bisavô, John MacManus (“que, como muitos irlandeses nascidos nos anos da Grande Fome, se safaram da Irlanda mal tiveram idade para isso”), continuadas com o avô, Patrick – entre as carnificinas da primeira guerra mundial e da guerra de independência da Índia, e a carreira como executante de trompa que, a bordo do White Star Liner, terá conhecido Duke Ellington – e, depois com as perturbadas evocações do pai, já doente de Parkinson, sobre os anos da Grande Depressão, quando “muitas coisas tiveram de ser cortadas ao meio: a força de trabalho, o salário, o pão”.
Mom, dad, Declan & no cat
Dispersas um pouco por todo o livro, há elucubrações teóricas sobre o que distingue bandas inglesas e americanas (“As melhores bandas inglesas preocupam-se mais com ‘como começamos?’ do que com ‘como acabamos?’”); inventários detalhados de onde e a quem foram surripiados arranjos, melodias, riffs, introduções; desabafos como o de nunca ter conseguido convencer nenhum dos seus primeiros comparsas a escutar um álbum de David Ackles; as cumplicidades diversas com Dylan, Robert Wyatt, Allen Toussaint, Bacharach, Chet Baker, Johnny Cash, Diana Krall, T Bone Burnett; as dementes digressões com os Attractions através da América; a figura sempre presente e ausente do pai – perdido à procura de uma estrofe para "This House Is Empty Now", de Painted From Memory, sintetiza o espírito de Unfaithful Music & Disappearing Ink em duas frases: “Tinha, agora, de encontrar ainda mais palavras. O meu pai entrou no meu quarto quando eu tinha oito anos e ofereceu-mas”.
Poderia ser um momento cinematográfico como são, aliás, inúmeros outros no decurso dos 36 capítulos. Até porque ele cuidou de que, para eles, existisse a banda sonora adequada: um duplo álbum (quase) homónimo com outros tantos temas da sua discografia mais dois inéditos – "April 5th", com Rosanne Cash e Kris Kristofferson, e "I Can’t Turn It Off", relíquia dos primórdios assinada por D. P. Costello. Afinal, exactamente o mesmo tipo que escreveu “I'm a man with a mission in two or three editions, and I'm giving you a longing look, everyday, everyday, everyday I write the book”.
07 April 2015
Mui compreensivelmente, Allan Jones, na “Uncut”, pergunta a David Corley porque lhe foi necessário tanto tempo para gravar o álbum de estreia. E ele responde “É preciso viver uma vida para poder escrever sobre ela. Não é coisa que possa ser inventada”. E, ao "Hear! Hear!" Music, quase em modo Fight Club, explica: “Tenho duas regras acerca da escrita de canções. A primeira é: ‘é melhor ter algo para dizer’; e a segunda é: ‘é melhor ter algo para dizer’”. Não estaremos, pois, perante o caso inédito de um “difícil primeiro álbum”, uma vez que não se terá tratado de uma questão de dificuldade mas apenas de respeitar o imprescindível período de maturação. O que, contudo, não torna menos invulgar o facto de Corley, só agora, aos 53 anos, ter publicado o primeiro tomo da sua discografia, Available Light, e reclama algum conforto biográfico. Filho de Lafayette, Indiana, fugiu do "Twinkle, Twinkle Little Star" nas aulas de piano e atirou-se a um "songbook" dos Beatles, estudou informática na Universidade de Athens, Georgia (na mesma altura em que os R.E.M., moços da mesma criação, por lá iam começando a fazer história), e não hesitou em adquirir o estatuto de "dropout".
Nos trinta e picos anos seguintes, foi camionista, carpinteiro, empregado de mesa, operário, barman, agricultor. Mas aquele tipo menos comum de elemento das classes laboriosas que lia Joyce, Whitman, Blake e Rilke enquanto, na consagrada tradição americana, deambulava, de costa a costa. E ia vivendo imensamente mais do que o indispensável para ter algo que dizer. Da destilação de tudo isso, em registo de exemplar classicismo (imaginem o mais que perfeito lugar geométrico onde Springsteen, Willy Vlautin, Mark Eitzel, Dylan, Van Morrison, Randy Newman, Tom Waits, David Ackles e Lou Reed coabitam – sim, são esses os seus pares) e interpretadas com o género de voz de quem já consumiu a quantidade de cigarros e bourbon recomendada, as dez canções de Available Light, balanço e contas de perdas, desencontros e erros (“I hopped up into my truck but I headed to the wrong bar, got way too fucked-up, started wishin' on the wrong star, but the sky, man, it's so large, that's just an easy mistake”), constituem exactamente aquilo que se costuma designar como clássico instantâneo.
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04 July 2013
VINTAGE (CLIII)
David Ackles - Ballad Of The Ship Of State
Is this ship going home ?
Will you take some old young men for crew ?
We left our flag in tatters
Where it fell along the shore.
They said a flag's what matters,
But nothing matters anymore
'Cause you're ten years overdue !
Ten years !
Do you have some room within your hold
For some friends of ours who won't be growing old ?
Why won't you answer us ? Why aren't we told ?
Is this ship going home ?
Listen, all of you !
Shut up and listen to me !
You don't have to shout, we hear you.
You don't have to wave, we see.
It's just that we're very surprised
To find you alive.
We were told there was nothing going on
And that all of you'd gone.
Is this ship going home ?
You must have room, we are so few.
Ten years we've stood here waiting
For a ship to hove in view.
We will have no more of waiting.
Tell the captain, tell the crew
That they're ten years overdue !
Ten years !
Listen, all of you !
Shut up and listen to me !
The captain is locked in his quarters.
He is busy and can't be disturbed;
And as for the crew,
I'd watch out were I you,
For we can't keep their appetites curbed.
No, we can't keep their appetites curbed.
Is this ship going home ...
Please, please. Get up off your knees.
You must see it's better this way.
You were such doughty fellows
While fighting the yellows
That they might even ask you to stay.
Yes, they might even ask you to stay.
Don' t you get the idea ?
You're much better off here.
You're not welcome at home anymore
'Cause we're all so bored with the war.
Cast off, Mister Mate !
Is this ship going home ...
23 September 2012
PONTE SOBRE ÁGUAS INQUIETAS
Bill Fay - Life Is People
Quando, no início da década de 70 do século passado, os dois primeiros álbuns de Bill Fay foram publicados, alguém terá dito, convictamente, ao seu manager da altura, Terry Noon, que era “apenas uma questão de tempo até que a música dele fosse reconhecida”. Não podia estar mais certo. Embora devesse ter acrescentado a medida exacta desse tempo: à volta de quarenta anos. Na realidade, entre o assombroso Bill Fay (1970) e o actual Life Is People, as quatro décadas que decorreram não foram integralmente vazias na biografia musical de Fay: no ano a seguir à estreia, gravou Time Of The Last Persecution e o seu reiterado insucesso comercial (“vendeu cerca de 2000 cópias”, confessa, hoje, Fay, provavelmente, desconhecendo que, no eBay, as prensagens originais oscilam entre os 400 e os 1000 e tal dólares) valeu-lhe o fim do contrato com a Deram/Decca. O rosto hirsuto de sonâmbulo profeta bíblico do fim dos tempos que exibia na fotografia da capa terá estado na origem da lenda menor que, a partir daí, emergiu: qual Syd Barrett ou Salinger britânico, Bill Fay teria desertado da sociedade e abraçado uma vida de eremita antisocial, curando males do corpo e da mente. Nada mais longe da verdade: pura e simplesmente, ele que nunca tinha autenticamente sonhado com uma carreira de popstar, limitou-se, pacatamente, a regressar a uma existência das 9 às 5, trabalhando como operário fabril, jardineiro ou trabalhador rural. E continuou a compor, procurando, como diz ainda agora, à beira dos 70 anos, “descobrir os mistérios daquela longa sequência de teclas brancas e pretas” que lhe pudessem revelar os motivos por que não conseguia largar os discos de Bob Dylan e de Schoenberg e lhe fizessem ser capaz de explicar a admiração que "See Emily Play", dos Pink Floyd, lhe provocava.
Entretanto, aqueles dois únicos álbuns gravados ambos em sessões únicas de estúdio, iam conquistando fãs. Tanto o primeiro – coisa da estatura de Goodbye And Hello, de Tim Buckley, ou de American Gothic, de David Ackles –, envolto nos vertiginosos arranjos orquestrais de Mike Gibbs (“quando cheguei ao estúdio imaginei que tinha entrado numa outra versão da 5ª do Beethoven”), como Last Persecution, dividido entre uma escrita mais convencional e as labaredas da guitarra "free" de Ray Russell, juntaram nos louvores Jim O’Rourke, Nick Cave, Marc Almond, Jeff Tweedy (Wilco) e David Tibet que, em mera genuflexão ou de forma mais expedita, cuidaram de, a conta gotas, ir retirando uma ou outra pérola do baú. Assim foram surgindo, em 2004, From the Bottom of an Old Grandfather Clock, uma óptima colecção de demos de entre 1966 e 1970 capaz de envergonhar Sgt. Peppers, Tomorrow, Tomorrow & Tomorrow (2005) e Still Some Light (2010) – no total, 63 canções oscilando entre registos artesanais e outros que poderiam figurar num "best of" de Robert Wyatt, Peter Hammil e Randy Newman, fossem eles como a Santíssima Trindade – e, desta vez, Life Is People. Mais dylaniano (e, talvez, também, mais newmaniano) do que antes, com um timbre de voz, aqui e ali, também próximo de Peter Gabriel, é um ciclo de canções apaziguadas e apaziguadoras que faz lembrar as daquela época em que Nick Cave se assumiu como “The Good Son”: o mundo pode ser um vale de lágrimas mas, algures, existe sempre uma "bridge over troubled water" (e o recorte de hino cristão comunitário atravessa, por vezes, excessivamente, todo o disco) através da qual se chega a mais verdes pastagens. Não será a obra-prima de Fay mas, ainda assim, é um belíssimo álbum.
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12 September 2012
VINTAGE (CIV)
David Ackles - "Laissez-Faire"
Money for cigarettes
Pennies for wine
Don't let them take that away, bud
It's all I have to call mine
Listen buddy, that's all I have to call mine
I've got no overhead
No taxes to pay
I've just got one roll away bed
That they want to roll away
Sure I've heard what they're saying
Share the wealth
Ah that's what they're saying
But I don't believe it
The government takes all the cash
And eats it or something
So the rich get richer
And the poor get nothing
So leave me my
Money for cigarettes...
Pennies for wine
Don't let them take that away, bud
It's all I have to call mine
Listen buddy, that's all I have to call mine
I've got no overhead
No taxes to pay
I've just got one roll away bed
That they want to roll away
Sure I've heard what they're saying
Share the wealth
Ah that's what they're saying
But I don't believe it
The government takes all the cash
And eats it or something
So the rich get richer
And the poor get nothing
So leave me my
Money for cigarettes...
04 March 2010
A EXCEPÇÃO QUE IMPORTA
Peter Gabriel - Scratch My Back
Das críticas até agora publicadas sobre o último disco de Peter Gabriel, poucas são aquelas que, logo nas primeiras linhas, se conseguem desobrigar da sacramental referência ao significado profundo do "álbum de versões": ou se trata do caso do artista, em panne criativa mas preso por obrigação contratual à necessidade de desovar mais um opus, que justifica como "a homenagem que sempre sonhou prestar às suas grandes fontes de inspiração"; ou, por mera preguiça e desejo de uma sabática a que o patronato franze o nariz, opta pela finta em pose para a História, apresentando a sua releitura definitiva do "songbook" do cânone ocidental; ou será, enfim, uma combinação das diversas modulações dessas hipóteses, historicamente legitimadas, na era moderna, a partir de exemplos ilustres como Pin Ups, de David Bowie”, e These Foolish Things, de Bryan Ferry. O que, de um modo geral, é absolutamente verdade. Como sempre, porém, são as excepções que importam. E – arrume-se já a questão – Scratch My Back, qualquer que seja a sua motivação, é uma delas. E das melhores. O título e o conceito decorrem da expressão inglesa "scratch my back and I’ll scratch yours" que, muito imperfeitamente traduzido, será qualquer coisa entre "amor com amor se paga" e "temos de ser uns para os outros". Por outras palavras, nesta gravação (gasolina sobre o fogo da tese malévola: a primeira do inventor da Real World desde Up, de 2002), Gabriel, cantor, interpreta doze canções de outros tantos autores que, em troca, no anunciado volume simétrico – And I’ll Scratch Yours – se ocuparão de igual número das dele.
"Heroes" (D. Bowie)
Primeira surpresa: os reinterpretados vão de "modern classics" como Lou Reed, Randy Newman, David Bowie, Paul Simon, Talking Heads e Neil Young, a gente bastante mais recente da estirpe de Regina Spektor, Arcade Fire, Elbow, Bon Iver, Stephin Merritt e Radiohead. A segunda é o dogma: nada de guitarras nem bateria ou "groove" rítmico. Antes, os arranjos (piano, cordas e sopros) cinematicamente orquestrais ou austeramente glaciais – repletos de alusões a Reich, Arvo Pärt, Stravinsky ou Vaughan Williams –, do ex-Durutti Column, John Metcalfe, que oferecem à voz de Peter Gabriel a mesma espartana paleta de emoções que John Cale teceu, para si mesmo, em “Heartbreak Hotel” ou, para Nico, em The Marble Index. Constatação irrefutável: “Mirrorball” (Elbow), “Listening Wind” (Talking Heads), “Flume” (Bon Iver), ou as enormes “My Body Is A Cage” (Arcade Fire) e “Après Moi Le Déluge” (Regina Spektor) são absolutos triunfos e quase todas as restantes, num plano em que os termos de comparação musicais são American Gothic, de David Ackles, Songs Of Love And Hate, de Cohen, Opiates, dos Anywhen, ou The Love Songs, de Peter Hammill, ficam-lhes muito pouco atrás.
(2010)
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13 August 2008
ELEGANTE PERVERSÃO
(revisão a partir daqui)
Beck - Sea Change
Beck, com Mutations (se decidirmos não incluir o colateral One Foot In The Grave), já tinha gravado o seu John Wesley Harding. A que, procedendo em sentido inverso como nele não poderia deixar de ser, havia feito suceder o seu Blonde On Blonde, isto é, Midnite Vultures. Austeridade e excesso barroco. O paralelismo com Bob Dylan faz todo o sentido: se o que Beck escreve são canções da era pós-sampling, pós-hip hop, se quiserem também, pós-rock, ele e Dylan concentram em si uma tradição musical da América profunda: a música de rua, a matriz rural country e folk, a apetência urbana do rock. Dylan alimentava-se de Woody Guthrie, Cisco Houston, Leadbelly e Hank Williams. Beck não esqueceu nenhum desses mas acrescentou-lhes partículas da memória de Dr. John, James Brown, Tom Jobim, George Clinton, Stockhausen, Cameo, Beatles, Curtis Mayfield, T. Rex, Prince, Captain Beefheart, Barry White e... Bob Dylan. Daí que, de Mellow Gold a Odelay, Mutations ou Vultures, muitos se tenham visto em palpos de aranha para caracterizar o que ele faz. De mutant-folk-machine a surreal-junk-rock, folk-hop ou spastic-future-funk, as designações proliferaram sem nunca, no entanto, acertarem verdadeiramente no alvo.
E, agora, com Sea Change, vão, inevitavelmente voltar a disparar ao lado. Porque se, acerca do sucessor de Midnite Vultures — essa gloriosa celebração da mais infecciosa promiscuidade estética literalmente "fin de siècle" cujo lema era "mixing business with leather, Christmas with Heather, freaks flock together" a bordo do "goodship ménage à trois" —, a boataria falava de outro retorno à "pureza" das raízes folk/country com ecos de Neil Young e outras luminárias "acústicas", a verdade é que, sendo vagamente isso, não é, de facto, senão outra elegantíssima perversão das regras de um jogo só parecido com esse. Sim, predominam os timbres acústicos, os andamentos são repousados e as atmosferas reflexivas, mas em quase todos os doze temas, mais subtil ou mais obviamente, algo nos arranjos ou no design da encenação instrumental amplifica, desfigura ou contraria aquilo que noutros seria o desgraçadamente previsível álbum-acústico-de-baladas-folk-country: "Paper Tiger" é soturno funk de câmara com sumptuosa orquestra de cordas à maneira de um hiper-Isaac Hayes, "Lonesome Tears" só pode ser descrita como country-expressionista-sinfónico com crescendo final "à la" "A Day In The Life", "Lost Cause" aloja a mais pura candura melódica folk numa moldura de fantasmagorias, distorções e "reverse tapes", "Round The Bend" parece um felicíssimo casamento entre os sublimes ambientes orquestrais de American Gothic, de David Ackles (que Beck, seguramente, nunca ouviu), e a imaterialidade de David Sylvian (que ele, por certo, conhece), "Sunday Sun" ensaia uma quase raga psicadélica algures entre os Traffic e os Nirvana — que afloram de novo em "Little One" — e, de um modo geral, não permitam nunca que as episódicas slide-guitars e harmónicas vos enganem. Beck Hansen é imensamente maior que todos os estereótipos em que o pretendam encarcerar e, venham as marés de que lado vierem, Sea Change é apenas outra desmedida prova disso.
(2002)
03 July 2008
JUVENTUDE COLOSSAL
Bill Fay - Bill Fay
Bill Fay - Time Of The Last Persecution
Solicite-se o auxílio do bom velho amigo Google para uma pesquisa acerca de “Bill Fay” e, logo no topo da primeira página, depararemos com “www.billfay.co.uk- Welcome to the ONLY Bill Fay site on the 'net”. Naturalmente, desconfiamos que aquele “the ONLY Bill Fay site on the 'net” possa ser publicidade enganosa mas, meia dúzia de páginas mais tarde, para além da inevitável (mas curta) entrada na Wikipedia – e lá está o link para “the only dedicated Bill Fay site” –, de umas quantas (poucas) recensões a propósito da reedição dos seus álbuns (uma delas assinada por Julian Cope), do site do homónimo evangelista que deseja partilhar connosco “a palavra de Cristo”, do daquele outro “tough, effective courtroom veteran Bill Fay” que se apresenta como candidato Republicano ao “Dallas County's Criminal District Court No. 3” ou ainda do enigmático “OkCupid.com: Solteiros interessados em Bill Fay”, na verdade, exclusivamente dedicado a Bill Fay, aquele parece ser caso único. À primeira vista, nenhum motivo de espanto: os dois álbuns que Bill Fay publicou em 1970 e 1971 passaram totalmente despercebidos à época e o prolongadamente inédito terceiro (Tomorrow Tomorrow And Tomorrow) só saiu das trevas em 2005.
Tudo se torna, contudo, absolutamente incompreensível quando colocamos a girar o disco de estreia: não, não estamos, mais uma vez, perante a estafada manobra dos operacionais do “hype” que pretendem, à viva força, convencer-nos de que mais um génio foi cruel e injustamente ignorado pelos seus contemporâneos e, só agora (em boa parte, devido à pública devoção de Jeff Tweedy, dos Wilco), finalmente, reconhecido: da primeira à última faixa, Bill Fay é o tipo de álbum para o qual o adjectivo “colossal” foi cunhado por medida. Orquestrado por Mike Gibbs (um dos mais notáveis músicos do jazz britânico da altura que colaboraria também com Carla Bley, Mike Westbrook, Bill Evans, Peter Gabriel, Marianne Faithfull, Gary Burton e Joni Mitchell) é – estou a pesar cuidadosamente as palavras – coisa da estatura de Goodbye and Hello, de Tim Buckley, dos quatro primeiros de Scott Walker, de American Gothic, de David Ackles, ou, do ponto de vista da encenação sinfónica, de Songs Of Love And Hate, de Leonard Cohen. Os textos de algumas canções poderão acusar a contaminação de uma certa “naïveté” hippie da era (o Tim Buckley inicial também e isso em pouco ou nada o diminuiu) mas é impossível não perder instantaneamente o pé perante as sucessivas vagas de crescendos orquestrais que arrastam tudo – melodias, palavras, voz – à sua frente. Em comparação, Time Of The Last Persecution, o segundo, quase parece um acto de deliberada rendição face ao convencionalismo do “songwriting” umbiguista da época. Igualmente fracassado comercialmente e única sombra que poderia (mas não pode) obscurecer a fulgurante luz anterior.
(2008)
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26 October 2007
TOP 100 DO SÉCULO XX (II)
(organizado - ordem alfabética - para a revista Op em 2003)
BRIAN ENO - Eno Box I e II
BRUCE SPRINGSTEEN - Darkness On The Edge Of Town
BUSH TETRAS - Boom In The Night
THE BYRDS - Box Set
CABARET VOLTAIRE - Red Mecca
CAPTAIN BEEFHEART - Trout Mask Replica
THE CINEMATIC ORCHESTRA - Motion
THE CLASH - London Calling
THE COWBOY JUNKIES - The Trinity Session
DAVID ACKLES - American Gothic
[numa outra lista de 1999/2000 que ficou seriamente amputada e incompleta surgiu isto:
DAVID ACKLES
David Ackles (Road To Cairo, na edição norte-americana)
Produção: David Anderle e Russ Miller
Intervenientes: Michael Fonfara, Danny Weiss, Douglas Hastings, Jerry Penrod, John Keliehor, David Ackles
Primeira edição: Elektra, 1968
Quando, após mais de vinte anos fora de catálogo, os três discos de David Ackles para a Elektra foram reeditados em CD, um dos primeiros telefonemas de aplauso a chegar aos escritórios da Warner foi de Elvis Costello. À excepção de um quase-hit na voz de Julie Driscoll ("Road To Cairo"), praticamente ninguém o conhece. Mas, quem o conta na lista dos seus, sabe o tesouro que possui. American Gothic (álbum do ano para o "Melody Maker", em 1972), a terceira gravação, comparada (justamente) com Aaron Copland, John Ford e David Lynch, será a jóia oficial da coroa mas foi no extraordinário primeiro álbum — acompanhado pelos Rhinoceros, então a "house band" da Elektra — que a escrita, o canto e a música de Ackles desbravaram o caminho que, depois dele, Tim Buckley, Leonard Cohen, Scott Walker, Tom Waits, Randy Newman e o Nick Cave das Murder Ballads haveriam de trilhar. Herdeiro de uma família do "show business" do Illinois, criança-prodígio da TV, preso cinco vezes por roubo enquanto jovem, estudante da antiga língua saxónica na universidade de Edimburgo e de cinema na Califórnia, interessado por música coral e para bailado, trabalharia, a seguir, como pianista, jardineiro, segurança de uma fábrica de papel higiénico, responsável por um jardim infantil, detective privado e vendedor de automóveis. Um educativo curso intensivo para quem, como ele, desejava conhecer a América profunda e retratá-la em música. Gravou três discos cruciais, reformou-se como professor universitário e morreu em 1999, aos 62 anos, de cancro do pulmão.
OUVIR TAMBÉM: Subway To The Country (David Ackles); Music From Big Pink (The Band); Murder Ballads (Nick Cave): Songs Of Love And Hate (Leonard Cohen); Climate Of Hunter (Scott Walker); The River (Bruce Spingsteen); Sail Away (Randy Newman); Small Change (Tom Waits)]
(2007)
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