(sequência daqui) Não é regra que convites deste género sejam motivo de obras memoráveis mas, diga-se já, All My Friends é uma notabilíssima excepção. Livremente inspirado pelos textos e discuros da sufragista Carrie Chapman Catt, e contando com a colaboração do ensemble de cordas The Knights, do quarteto de metais The Westerlies, do San Francisco Girls’ Chorus, de elementos dos Punch Brothers e da folksinger Anaïs Mitchell, verdadeiramente decisivos foram os soberbos arranjos orquestrais de Tanner Porter que transportam as belíssimas canções magnificamente jonimitchellianas de O'Donovan para o plano de clássicos como American Gothic, de David Ackles. O remate com "The Lonesome Death of Hattie Carroll", de Dylan ("You who philosophize disgrace and criticize all fears, take the rag away from your face, now ain’t the time for your tears") não poderia ser mais perfeito.
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24 July 2024
26 December 2013
A realeza folk gosta de se apresentar na companhia de gatos: Dylan, deixou-se fotografar com eles em diversas circunstâncias, e, em especial, na capa de Bringing It All Back Home, com o seu "Rolling Stone" ao colo (em Rock Dreams, Guy Peellaert desenhá-lo-ia-o no interior de uma limusine abraçando outro tigre de bolso); Joan Baez, é omnipresente nas imagens do Google com uma pequena pantera negra nos braços; Joni Mitchell escreveu "Man From Mars" dedicada ao bem amado "Nietzsche" – arraçado de ocelote – e pintou-o (nomeadamente, na capa de Taming The Tiger); June Tabor escolheu-os para as capas de Abyssinians e Angel Tiger; Suzanne Vega não esconde o enlevo pelos "lounge tigers", "Caramel" e "Cinnamon", evocados em "Caramel" (que, bastante a propósito, seria incluída na banda sonora de The Truth About Cats And Dogs); e, acerca de Leonard Cohen, conhece-se a lenda dos seus poderes sobrenaturais de "cat whisperer", por meio dos quais terá devolvido a saúde ao felino "Hank" (assim baptizado em honra de Hank Williams). Mas, apesar disso, nenhum deles tinha tido, até agora, a honra de se juntar aos seus pares mais célebres do cinema como o "Orangey", de Breakfast At Tiffany's, o denunciante involuntário de Harry Lime/Orson Welles em O Terceiro Homem, o companheiro de Philip Marlowe no Long Goodbye, de Altman, ou a fabulosa assombração a preto e branco do genérico de Saul Bass para Walk On The Wild Side, coreografada sobre a música de Elmer Bernstein.
A sorte coube ao laranja, "Ulysses", encarregado de, em Inside Llewyn Davis, de Joel e Ethan Coen, representar o anónimo vadio que, na capa do álbum Inside Dave Van Ronk, espreita da mesma porta do Village a que este se encosta. Llewyn Davies não é Van Ronk, tal como o Salieri de Amadeus não era o Salieri histórico. Mas, nesta libérrima revisitação dos anos do folk revival nova-iorquino conduzida metaforicamente pela deambulação de um Ulysses de quatro patas, mais ou menos reconhecíveis ou com as identidades trocadas, não deixam de se encontrar marcas e figuras de uma era determinante para a música popular. Se Van Ronk era “o mayor de MacDougal Street” – esse santuário onde se situavam o Gerde’s Folk City, o Cafe Wha? ou o Gaslight Cafe, locais de peregrinação dos "beats", de Auden, Pollock, Miles Davis, Dylan Thomas, Gore Vidal e "tutti quanti" –, erudito supremo em matéria folk, isso não bastou para que, com o surgimento de Bob Dylan, em 1961 (a quem, em No Direction Home, de Scorsese, ele acusa justamente de lhe ter roubado o arranjo de "House Of The Rising Sun"), enquanto representante da geração de puristas ortodoxos, o seu tempo tivesse passado. Na banda sonora do filme (superiormente produzida por T Bone Burnett, reincidindo, ao lado dos Coen, após O Brother, Where Art Thou?), esse momento é assinalado pelo "Farewell", de Dylan, logo antes de "Green, Green, Rocky Road", do próprio Van Ronk. A restante cenografia musical – às mãos de Marcus Mumford, Punch Brothers e do improvável mas correctíssimo Justin Timberlake –, de tradicionais a temas de Tom Paxton, Brendan Behan e Ewan MacColl, é objecto de engenhosa reconstituição histórica. Tanto quanto os mil ardis de Ulysses.
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17 December 2013
31 December 2012
MÚSICA 2012 - INTERNACIONAL (I)
(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 20)
Bob Dylan - Tempest
Lambchop - Mr. M
Sharon Van Etten - Tramp
The Magnetic Fields - Love At The Bottom Of The Sea
Punch Brothers - Who’s Feeling Young Now?
The Wave Pictures - Long Black Cars
Regina Spektor - What We Saw From The Cheap Seats
Saint Etienne - Words And Music By Saint Etienne
Bill Fay - Life Is People
Grizzly Bear - Shields
* a ordem é razoavelmente arbitrária...
(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 20)
Bob Dylan - Tempest
Lambchop - Mr. M
Sharon Van Etten - Tramp
The Magnetic Fields - Love At The Bottom Of The Sea
Punch Brothers - Who’s Feeling Young Now?
The Wave Pictures - Long Black Cars
Regina Spektor - What We Saw From The Cheap Seats
Saint Etienne - Words And Music By Saint Etienne
Bill Fay - Life Is People
Grizzly Bear - Shields
* a ordem é razoavelmente arbitrária...
25 May 2012
A ÚLTIMA FRONTEIRA
The Chieftains - Voice Of Ages
The Chieftains - Voice Of Ages
“Chamo-me Cady Coleman, sou astronauta da NASA, sejam bem-vindos à Estação Espacial Internacional! Quis trazer comigo alguma coisa que me recordasse da minha ascendência irlandesa. E, uma vez que também toco flauta, pensei ‘porque não flautas irlandesas?...’” Mas não quaisquer flautas irlandesas: uma de Matt Molloy, um "tin whistle" de Paddy Moloney (ambos dos Chieftains) e ainda uma terceira de Ian Anderson, dos Jethro Tull – com quem ela, a 12 de Abril do ano passado, em dueto Terra-Espaço, tocou a "Bourrée em Mi menor", de Bach (incluída no segundo álbum dos Jethro), por ocasião do cinquentenário da pioneira expedição de Yuri Gagarin, a bordo da nave Vostok 1.
E, porque parece ter queda para comemorações de meio século, ei-la, agora, repetindo a proeza na última faixa do álbum dos Chieftains (muito apropriadamente intitulada "Chieftains In Orbit"), publicado no momento em que Molloy, Moloney e associados comemoram idêntica efeméride de carreira. A verdade é que o espaço deve ser o único local que a música dos Chieftains ainda não tinha explorado – da China, à Galiza, ao México, a Nashville, ao Canadá ou à Terranova, na companhia de gente tão diversa como Van Morrison, Elvis Costello, Pavarotti, Ry Cooder, Madonna, os Stones, Stanley Kubrick e os Who – e o Governo irlandês bem poderia, sem prejuízo, extinguir os ministérios dos Negócios Estrangeiros, Turismo e Cultura e distribuir as suas competências por esta tão vastamente superior instituição. Voice Of Ages, na imensa variedade de convidados que, uma vez mais, convoca é, inevitavelmente, irregular, mas momentos como o de Cady Coleman ou outros com Imelda May, Pistol Annies, Carolina Chocolate Drops, Bon Iver, Punch Brothers, Lisa Hannigan, Decemberists e The Low Anthem tornam-no obrigatório.
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08 April 2012
UMA VEZ NUM SÉCULO
Punch Brothers - Who’s Feeling Young Now?
Punch Brothers - Who’s Feeling Young Now?
T-Bone Burnett, acerca dos Punch Brothers, não poupa palavras: “É uma das mais incríveis bandas que este país já produziu. Chris Thile, o bandolinista, é um daqueles músicos que aparecem uma vez num século, como Louis Armstrong”. Não é paleio de marketing, é mesmo para levar a sério. Pela solidíssima razão de que, como muito raramente acontece, perante Who’s Feeling Young Now?, é possível escrever a oh quão desejável frase, “nunca ouvi nada parecido”. E acrescentar-lhe, logo a seguir, um assaz apropriado “Uau!”. É verdade que, à primeira vista, se trata apenas de um tradicionalíssimo quinteto de "bluegrass" (esse subgénero da country germinado nas montanhas Apalaches, território selvagem de mestiçagens várias, onde terão até habitado os misteriosos afroportugueses, Melungeons), juntando ao bandolim de Thiele (cúmplice de Yo Yo Ma, Béla Fleck, Dolly Parton e Jack White) o violino de Gabe Witcher, o banjo de Noam Pikelny, a guitarra de Chris Eldridge e o contrabaixo de Paul Kowert.
O que já faz arregalar os ouvidos é darmo-nos conta de que esta gente, sem abdicar do virtuosismo próprio do género – mas, correcção: aqui é impossível falar de géneros! –, esborracha, sem cerimónias, os traços de identidade do que nos habituámos a chamar folk, jazz, clássica, contemporânea ou rock, desfibra implacavelmente "Kid A", dos Radiohead (como, na anterior encarnação, Nickel Creek, Thiele havia feito a 'Spit On A Stranger', dos Pavement), pulveriza "Flippen" dos suecos, Väsen, inventa as canções que Ray Davies (não) teria escrito com Kurt Weill ("Patchwork Girlfriend") ou que um Costello-"hillbilly" sofisticado assinaria de bom grado ("Hundred Dollars"), e pelo caminho, cria aquilo que, sem exagerar muito, foi descrito como “o resultado de complexos algoritmos introduzidos num processador interplanetário”.
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