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segunda-feira, 11 de novembro de 2019

O Melhor de TEREZA TAROUCA


TEREZA TAROUCA (1942-2019)

Faleceu esta madrugada, dia 11 de Novembro, a minha fadista preferida de todos os tempos. Tinha 77 anos e não resistiu a uma pneumonia dupla, depois de um período de internamento no Hospital S. Francisco Xavier, em Lisboa. Nascida a 4 de Janeiro de 1942, em Lisboa, Teresa de Jesus Pinto Coelho Telles da Silva adotou o nome artístico de Tereza Tarouca, indo buscar um velho apelido de família (é bisneta dos Condes de Tarouca). "Testamento", na década de 1960, "Mouraria", "Deixa Que te Cante um Fado", "Saudade, Silêncio e Sombra", “Meu Bergantim, "Fado, Dor e Sofrimento", "Passeio à Mouraria", ou "Ora Bate, Bate" contam-se entre os sucessos de Tereza Tarouca. Oriunda de uma família ligada à música – é prima de Frei Hermano da Câmara e prima afastada de Maria Teresa de Noronha –, Tereza Tarouca cresceu no seio de uma família de posses. Parte da infância passou-a numa quinta em Torres Vedras. Mas a família possuía outras propriedades, como uma outra quinta em Ponte de Lima, cujo ambiente a marcou. Começou a cantar com apenas 13 anos, no Salão dos Bombeiros de Oeiras. De seguida foi entrevistada no Rádio Clube Português e cantou na televisão, o que levou especialistas em música a considerarem-na a “menina-prodígio” da década de 1950.



Na altura, sabia apenas um fado, pelo que teve que alargar rapidamente o reportório. Uma grande ajuda foi a de Pedro Homem de Mello que, ao longo do tempo, escreveu-lhe dezenas de letras, numa profícua relação artística. Aos 15 anos, assinou um contrato com a RCA e gravou o seu primeiro disco. E três anos depois recebeu o prémio da Casa da Imprensa. Tardou no entanto em profissionalizar-se. Só o fez de resto, após alguns concertos no Casino da Figueira, por exigência dos produtores. Aos poucos, a sua voz ganhou fama em Portugal. E foi cantando no estrangeiro, em países como Bélgica, Espanha, Estados Unidos, Dinamarca e Brasil. E também em casas de fados, de que se destaca o Novita, propriedade de Nuno da Câmara Pereira. Cantou poemas e músicas de fados clássicos de autores como António de Bragança, João de Noronha, Alfredo Marceneiro, Pedro Homem de Mello, Francisco Viana, Maria Manuel Cid, Casimiro Ramos, João de Noronha, Nuno de Lorena João Ferreira-Rosa, Alda Lara, entre outros. Tereza Tarouca foi a primeira fadista a cantar Fernando Pessoa. Em 1973 foi convidada para o Festival RTP da Canção, em cuja primeira parte interpretou “Cai Chuva do Céu Cinzento”, fado que criou com letra do autor de “Mensagem”.



Em 1989, foi editado o disco “Tereza Tarouca canta Pedro Homem de Mello”, trabalho considerado emblemático na carreira da fadista. Em Maio de 1994 comemorou os 33 anos de carreira no Teatro Tivoli, em Lisboa, tendo continuado a cantar com regularidade. Em 1996, atuou no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, e em 2003, no restaurante e casa de fados “Velho Páteo de Sant´Ana”, em Lisboa, onde foi fadista residente. Em 1997, participou como "Atração de Fado" na revista “Preço Único”, no Teatro ABC, ao Parque Mayer, e, um ano depois, participou no musical “Fado… Esse malandro vadio”, de João Núncio com encenação de Francisco Horta. Em Junho de 2013, o então Presidente da República Cavaco Silva atribuiu-lhe o grau de comendadora da Ordem do Infante D. Henrique. A última atuação de Tereza Tarouca em público data de Outubro de 2013, durante a VIII Gala Amália, no Teatro S. Luiz, em Lisboa, recebeu o Prémio Amália de Carreira.



Esta coletânea reúne as suas melhores interpretações, algumas delas verdadeiros clássicos do Fado, tão difíceis de encontrar nos escaparates das discotecas: "Canção Verde", "Cai Chuva do Céu Cinzento", "Fado Dor e Sofrimento" ou "Saudade Silêncio e Sombra", por exemplo. O alinhamento inicia-se com uma confissão. "Não Sou Fadista de Raça" e termina com esse espantoso "Testamento" (com letra de Alda Lara):

À rapariga mais nova
Do bairro mais velho e escuro
Deixo os meus brincos lavrados
Em cristal límpido e puro

E àquela virgem esquecida
Sonhando alto uma lenda
Deixo o meu vestido branco
Todo tecido de renda

E este meu rosário antigo
De contas da côr dos céus,
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus

E os livros, rosários meus
Das contas doutro sofrer
São para os homens humildes
Que nunca souberam ler

Quanto aos meus poemas loucos
Esses que são só de dor
E aqueles que são de esperança
São para ti, meu amor

P’ra que tu possa um dia
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua
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