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06/01/2021

Homenagens no novo ano!

 Homenagens no novo ano a João Cutileiro que aprecio e a Carlos do Carmo.

João Cutileiro, Menina do colar (pormenor)

Museu Calouste Gulbenkian

João Cutileiro (1937-2021) Pormenor da obra Menina do colar, 1965 © Paulo Costa
https://gulbenkian.pt/noticias/joao-cutileiro-1937-2021/

S/ título - Fundação Calouste Gulbenkian


Carlos do Carmo 

02/05/2019

In memoriam, 500 anos sobre a morte de Leonardo da Vinci

Da Vinci detalhe de um desenho sobre o estudo de Leda
Com a gentileza do Google (BBC e Arte)

Resultado de imagem para leonardo da vinci

Adoro Leonardo da Vinci.
Gostaria de ter um pedacinho de um desenho...

Tenho-o em livros mas não é a mesma coisa.

Viva Leonardo da Vinci!


03/11/2016

Para a Margarida

Parabéns, Margarida!
Um resto de dia muito feliz. 


A pintura é uma poesia que se vê e não se sente, 
e a poesia é uma pintura que se sente e não se vê.

Leonardo da Vinci, Tratado de Pintura 
(retirado do Citador)

Study sheet with cats dragon and other animals - by Leonardo da Vinci
http://www.leonardodavinci.net/study-sheet-with-cats-dragon-and-other-animals.jsp


07/06/2016

A mentira e a verdade


Jules Joseph Lefebvre, Bras croisés sur la poitrine,
retirado do Pinterest

A verdade e a mentira: a verdade do pregador e a mentira dos ouvintes. As tres especies de mentiras com que os escribas e fariseos hoje contradisseram, caluniaram e quizeram afrontar e deshonrar o Filho de Deos.
(...)
No Maranhão até o sol e os céus mentem porque no Maranhão não há verdade.

Sermoens do Padre Antonio Vieyra da Companhia de Iesu, Prégador de Sua Magestade Quarta Parte,  Lisboa: Na officina de Miguel Deslandes, MDCLXXXIII, - Sermam da Quinta Dominga da Quaresma: Na Igreja da Cidade de São Luis  do Maranhão. Anno 1654, fls (291 a 317), 292 



A mentira e a verdade

A mentira dos amantes e a verdade dos amigos
são como os céus do Maranhão,
vislumbrados por Vieira:
os primeiros são doces e amargos
e os segundos dolorosos.

A mentira dos amantes que pregam o amor e a sedução.
A verdade dos ouvintes que tudo ouvem e nada crêem.
A mentira sob a égide do poder  frágil e breve.
A verdade sob o escudo da amizade.

A mentira do fogo que arde e se volatiliza.
A verdade da água que brota da nascente.
A mentira do amor que se dissipa
e a verdade do afecto consolidado.

A raiva e o ódio do primeiro.
A estima e o apreço do segundo.
A mentira abismo.
A verdade cubo gelado.

Qual é melhor?
A verdade ou a mentira?
A mentira ou a verdade?
Verdade.

ana

Radiohead - duas canções Creep e Fake Plastic Trees, duas músicas da banda que mais gosto.

07/01/2014

Afectos / memórias

Edgar Degas, Desenho de bailarina, c. 1877, 
Museo Nacional de Bellas Artes, Buenos Aires (Wikimédia commons)
File:Edgar Degas - Danseuse debout, c. 1877.jpg



Há afectos que nos tocam. Tinha comprado uma bailarina para colocar na árvore de Natal. Gostei da graciosidade.
Uma amiga enviou-me uma bailarina junto com o seu cartão de Natal, um cartão feito por ela. Fez-me sentir muito feliz. Obrigada.
Assim, a minha bailarina já não está sozinha. Desde pequena que adoro ballet. Passei a minha infância num local em que não havia professora. A "aprendizagem" de alguns passos foi feita através de um livro que foi oferecido à minha irmã mais nova. O título era Anita no ballet
O livro enchia-nos os olhos.
Cortesia da net, um livro vendido com cerca de 30 anos.


Edgar Degas, final de Arabesco, 1877, Museu D' Orsay, Paris (wikipedia)

File:Edgar Germain Hilaire Degas 025.jpg



21/10/2013

Leonardo da Vinci: alguns apontamentos

Imagem da capa interior e da primeira página do livro Notas de Cozinha de Leonardo da Vinci de Shelagh e Jonathan Routh, apresentado na Academia de Ciências de Lisboa.
Alguns dos projetos para dobrar guardanapos (ler a legenda no rodapé da imagem)


O livro é maravilhoso apesar de não se ter a certeza das notas e dos desenhos serem de Leonardo da Vinci ( Codex Romanoff) há quem defenda a probabilidade de o terem sido. Advogam essa tese os autores do livro e o presidente do Circolo Enogastronomico d'Italia que apresenta as suas razões na introdução do mesmo. Seja ou não seja, o facto é que os desenhos são fantásticos e parecem da lavra de Leonardo. A edição portuguesa é de 2013.

Uma fantasia que me encanta por muitas razões como me encanta Leonardo da Vinci.

05/08/2013

Leituras de Verão - Manuel Cintra

Nas férias, junto ao mar, os dias são maravilhosamente mais lentos...
Na praia... contemplando o mar e concentrando-me nas letras, palavras, poesia de escrita portuguesa. 

Em terra, longe do mar, após tarefas quotidianas: limpezas e afins, a lembrança de como a poesia nos pode deslumbrar.

Desenho de Mário Botas para o livro de poesia de Manuel Cintra, Dentada de Pássaro.



CAI-ME com estrondo na pele a solidão dos astros.
Estrondo completo, inteiro, sem entrelinhas.

Fico de corpo rebentado, recebendo o silêncio após colocar
pés sobre minas de guerra, minas de vida, esquecidas
por estes caminhos cerzidos no caminho abrupto do céu.
estão todas as veias escancaradas, feitas nascentes, e borbota
o sangue dirigindo-se em jorro ao traço que o céu
come na terra. Onde me encontro com o vazio redondo,
cheio de lágrimas, vento e mim.

Neste peito lento és uma gruta quente, perfurando-me do
coração ao sexo em marés regulares. Reconheço-te na
palma antiga da mesma mão, a tua agora atirada em fantasma
para esta praia de tempo onde vim saudar grãos,
um por um. Bebo, como um adolescente, o ar agonizante
do verão, carregando-me o peito de outono e de carne.

E espalmo-te com minúcia no rebordo dos meus lábios.
De todos os meus lábios.

Até me tornar boca.

Manuel Cintra, Dentada de Pássaro. Lisboa: edição do autor, distribuição etc, com vinheta da capa e "hors-texte" de Mário Botas (700 exemplares), p. 5.

15/07/2013

Lucrécia Bórgia

Lucrécia Bórgia foi o último livro que li. É uma biografia interessante escrita por Funck-Brentano. Lucrécia faleceu com 39 anos. O escritor revelou uma mulher com sentido do dever sempre que este lhe foi exigido. 

Lucrécia Bórgia, desenho de Leonardo da Vinci (cortesia do Google)


Lucrécia Bórgia casou três vezes, o terceiro casamento foi com Alfonso d'Este, duque de Ferrara. O casamento,  de teor político, favorecia o poder do pai, papa Alexandre VI. A duquesa de Ferrara nunca mais voltaria a Roma. Ironia do destino em Ferrara, na Universidade, estaria o humanista que iria combater a ostentação, a riqueza e a luxúria do Papa. Refiro-me naturalmente a Savonarola.

Em Ferrara nascera o sombrio e fogoso Savonarola, grande homem, grande coração, alma inflamada que achava que a vida não é feita para o divertimento e que atacou o fausto e a luxúria de Alexandre VI com tamanho encarniçamento e aspereza que o Papa, excomungando-o, acabara por o fazer morrer na fogueira.

Funck- Brentano, Lucrécia Bórgia. Porto: Livraria Tavares Martins, 1947, p. 167.

Pinturicchio ou Bernardino di Betto, possível Retrato de Lucrécia Bórgia, 1492-94 


Apesar de Donizetti contribuir para espalhar uma Lucrécia frívola, e alastrar a sua má reputação, achei pertinente colocar esta ária pois é o testemunho da sua importância. 

28/10/2012

A Flor do Caminho

Apesar de frágil a flor desta história é eterna. 
Todos gostaríamos de encontrar a nossa flor.
Sim. Porque todos temos uma flor, umas vezes mais escondida, outra anunciada e atrevida 
e ainda outra resguardada do Sol para não perecer com a sua luz.

Para uma amiga.:)

A fotografia é do livro: Platero e Eu, de Juan Ramón Jimenez, edição dos Livros do Brasil, sem data, p. 22 e 23. Desenhos de Bernardo Marques e tradução de José Bento.

O livro veio via Livraria Lumière pela mão da Cláudia. Obrigada por mo ter feito chegar.:)


Cortesia do youtube: Amos Lee - Flower. Dirigido por kneeon (P) (C) 2011 Blue Note Records.

03/05/2012

«Sou um louco que ama as pessoas» - Nijinsky

«Sou um louco que ama as pessoas», «a minha loucura é o amor pela humanidade». (…) «Não posso chorar tanto que as lágrimas me caiam em cima dos cadernos. Choro dentro de mim.» daquiNijinski, «Cadernos – O Sentimento», Assírio & Alvim, 2004.

Dança da Eleita no "Rito da Primavera", desenho de Valentino Hugo (1913)*

* Françoise Reiss, A Vida de Nijinsky, Lisboa: Editorial Estúdio Cor, p. 161, (Trad. José Saramago)

Não é o Palhaço de Nijinsky mas é uma música que gosto muito e porque não ligá-la ao bailarino?
The Irrepressibles -In This Shirt

30/03/2012

"Toldam-se os ares, murcham-se as flores"

Inês de Castro e o eterno amor. Ontem estive com Inês. Lima de Freitas, Inês*




«Toldam-se os ares,
Murcham-se as flores;
Morrei, Amores,
Que Inês morreu.

Mísero esposo,
Desata o pranto,
Que o teu encanto
Já não é teu.

Sua alma pura
Nos Céus se encerra;
Triste da Terra,
Porque a perdeu.

Contra a cruenta
Raiva íerina,
Face divina
Não lhe valeu.

Tem roto o seio
Tesoiro oculto,
Bárbaro insulto
Se lhe atreveu.

De dor e espanto
No carro de oiro
O Númen loiro
Desfaleceu.

Aves sinistras
Aqui piaram
Lobos uivaram,
O chão tremeu.

Toldam-se os ares,
Murcham-se as flores:
Morrei, Amores,
Que Inês morreu.»

Bocage




Lima de Freitas, Até ao fim do Mundo, Pedro e Inês
*Retirado daqui.




Três Canções de Inês compostas por Reinaldo Miranda com poemas de Inês Cavalcanti. Interpretação de Manuelai Camargo; viola Cyro Delvizio

11/03/2012

Geometrismos antes da Primavera e Prémio

Dedico esta postagem a MJ Falcão do blogue O Falcão de Jade que tem um olhar belo sobre o mundo e a natureza. Grata pelo "selo" com que me agraciou.

A natureza fascina-me. Interrogo-me, como é possível tanta beleza, quietude e infinitude em tudo que nos rodeia?
Não me canso de a comparar com os estudos do mestre Leonardo da Vinci. Os choupos (álamos) têm a beleza de obedecer a uma ordem, isto é, não conhecem o caos!


Quais são os contornos visíveis das árvores vistas à distância sob o pano de fundo do céu? *
Leonardo da Vinci, desenho
* p. 160 e 161

Os contornos da ramagem das árvores, quando têm por fundo o céu iluminado, apresentam uma forma que, em termos proporcionais, quanto mais distantes estão, mais se aproxima do esférico; e quanto mais perto estão, menos se assemelham à forma estética, como sucede na primeira árvore, a qual, por estar perto do observador, exibe as formas da sua ramaria.
*Leonardo da Vinci, Os Apontamentos de Leonardo (org. H. Hanna Suh), Lisboa: Centralivros Lda., 2007, p. 160-161.

Dedico o selo, que está do lado direito desta janela, aos seguintes blogues, por ordem alfabética:

http://aarteemportugal.blogspot.com/
http://carlotapiresdacosta.blogspot.com/
http://chezgeorgesand.blogspot.com/
http://cozinhadosvurdons.blogspot.com/
http://aduplavidadev.blogspot.com/
http://falcaodejade.blogspot.com/
http://grifoplanante.blogspot.com/
http://ac-wwwinterioridade.blogspot.com/
http://livrarialumiere.blogspot.com/
http://mararavel.blogspot.com/
http://memoriasimagens.blogspot.com/
http://myra-parole.blogspot.com/
http://palavrasdaquiedali.blogspot.com/
http://presepiocomvistaparaocanal.blogspot.com/
http://sobreorisco.blogspot.com/

Para todos os que aqui não cabem também ofereço e estou grata pela visita!:)))

O prémio possui três regras:1 - Se aceitar, exibir a imagem.2 - Linkar o blogue do qual recebeu o prémio3 - Escolher 15 blogues para entregar o prémio Dardos.

06/03/2012

"Nossos corpos agora estão feridos"

Uma tarde com Manuel Alegre, o poeta, o político mas acima de tudo o homem que é.

As palavras que se focaram: liberdade de expressão, democracia e justiça social. Em suma, encontrámos humanidade. Apesar do poema falar de amor hoje o verso que serviu de título podia ser fruto da realidade que vivemos.

Manuel Alegre

Leitura de um poema sobre o mar e o povo português.


Desenhos de João Cutileiro

(p. 7 do livro indicado)


"Trovas do Tempo que Passa"-letra de Manuel Alegre
"Fado" - letra de Manuel Alegre

23/02/2012

Box

Desde pequena que convivo com máquinas fotográficas. O meu pai andava sempre com uma fosse para onde fosse.

A película era a forma de reter as histórias de família. Em casa dos meus pais há várias câmaras antigas e modernas.

O meu pai não assistiu à era digital. Provalemente iria achar que é bom para quem não sabe tirar fotografias.
Teria razão, não sei, mas a verdade é que me deixou o gosto pela fotografia e, apesar de não saber nada do assunto, ele transmitiu-me a vontade de apanhar pequenas histórias.
Recebi este livro recentemente e não consegui deixar na pilha de livros que tenho para ler.
Günter Grass escreveu a(s) sua(s) história(s) de família através da Box uma Agfa. Não obstante ter outro livro dele para ler este ganhou novo significado.
O trecho escolhido foi a pensar no meu pai que adorava tocar piano. Nunca teve um piano de cauda mas vertical ou de parede (não sei se é assim que se diz) era onde ele extravasava as suas alegrias e tristezas.
Ao meu pai. xxxxxxxxxxxO desenho é do escritor.




Günter Grass, A Caixa, Histórias da câmara escura, Lisboa: Casa das Letras, 2008, página 45. (trad. Paulo Rêgo)

21/02/2012

Regeneram-se os ciclos

Leonardo da Vinci, desenho de uma árvore

Myra Landau, Árvore Solitária.

Árvores

murmuram segredos em dias de vento,
choram em dias de chuva, lamentam-se desnudando-se no Outono.

Nuas aguardam que Flora apareça para as vestir de novo. Sorriem.
Regeneram-se os ciclos numa translação perfeita.




"TREE SONG" : Extrait du ballet "BLUE LADY" de Carolyn Carlson. Musique René Aubry. Lumières Claude Naville. Filmé au Théatre De La Ville (1984).

Agradeço a Myra a sua árvore e deixo esta citação de Leonardo:

O sol dá às plantas a vida e o espírito, e a terra alimenta-as com a humidade.

Leonardo da Vinci, Os Apontamentos de Leonardo (org. H. Hanna Suh), Lisboa: Centralivros Lda., 2007, p. 152.

10/01/2012

Nu

Reflexão depois de ler um livro que comprei na Livraria Lumière sobre Inês de Castro.


Paulo Ferreira, (Lisboa, 1911-1999)

Desenho a tinta da china e aguarela, altura: 22,5; largura: 34cm, Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea. Lisboa



Nu feminino deitado numa cama, de frente, cabelo apanhado atrás, com o cotovelo direito assente numa cómoda, baixando o olhar para o lado esquerdo, e com um bandolim encostado no fundo. (Retirado da Matriznet).




"Um grande amor nunca é espontâneo".

Agustina Bessa-Luís, Adivinhas de Pedro e Inês




Talvez a Agustina tenha razão.... Será?
Do amor tantos poetas, escritores, pintores, cantores, filósofos... escreveram, desenharam, meditaram, cantaram. Porém, ninguém consegue apreender totalmente a essência dessa palavra. Há uma certa impossança em abraçar o vocábulo. Terá Pedro vislumbrado a essência em Inês?


Placido Domingo - Tosca - E lucevan le stelle

07/08/2011

Um desenho, uma Vitória, Sensibilidade

A Vitória de Samotrácia que existe no Louvre é uma das peças escultóricas que admiro e que nunca me cansa a vista, pelo contrário, alimenta-me o espírito. Já coloquei a fotografia da escultura e a ela dediquei um post. Mas descobri esta Vitória, linda, cujo panejamento voa como a de pedra. O vento, a grandeza, a vitória... ei-la aqui triunfante!


MJ Falcão foi a desenhadora e não a acha perfeita. Pois, eu acho.

MJ Falcão, Vitória de Samotrácia, 1989.


Desenho a carvão.

02/08/2011

A Palavra, Miguel Torga

Jorge Marinho perpetua Miguel Torga na sua pintura. Retirada daqui.


Adolfo Rocha (Miguel Torga) entre os bichos como o livro que escreveu e porque entendia a sua linguagem. Foi médico, escritor, poeta e ensaísta e sobretudo, uma pessoa humana.
Miguel Torga, desenho a carvão de Isolino Vaz


De Miguel Torga, A Palavra porque as palavras são o código mais importante de um povo.

A Torre da Universidade...


A PALAVRA

Falo da natureza.
E nas minhas palavras vou sentindo
A dureza das pedras,
A frescura das fontes,
O perfume das flores.
Digo, e tenho na voz
O mistério das coisas nomeadas.
Nem preciso de as ver.
Tanto as olhei,
Interroguei,
Analisei
E referi, outrora,
Que nos próprios sinais com que as marquei
As reconheço, agora.

Miguel Torga, S. Martinho da Anta, 13 de Abril de 1965,


Retirado da Casa Fernando Pessoa - Banco de Poesia.


Universidade de Coimbra
Faculdade de Direito



O 7 em especial para o Pedro Coimbra

(fotografia tirada de uma foto antiga do Formidável, exposta no Fórum de Coimbra)



Às memórias!





Ontem li que uma iraniana, Ameneh Bahrami, desfigurada e cega com ácido por recusar um pretendente perdoou o seu agressor da pena de talião que fora pedida por ela. A nobreza de sentimentos ressaltou e a palavra foi mais importante do que os actos. A isto chamo civilidade.


Não pude deixar de relacionar o poema de Miguel Torga com esta atitude. O mundo dos homens é feito com palavras, pena que às vezes elas sejam desprovidas de humanidade!


Este vídeo tem umas fotografias bonitas de Coimbra, de uma Coimbra que ainda existe e de outra que já não existe. Pedro enjoy.

30/07/2011

Antagonismos

Leonardo da Vinci é um dos homens do Humanismo e Renascimento que admiro. Em conversa com a Isabel do blogue Palavras Daqui e Dali soube que encontraria um livro de desenhos dele a um custo muito simpático. Assim, a juntar a vários que tenho do autor encontrei esta relíquia: Os Apontamentos de Leonardo. Escolhi o desenho O Prazer e a Dor porque esta dualidade é inevitável, faz parte da essência humana.

Leonardo da Vinci, O Prazer e a Dor, Desenho




O Prazer e a Dor representados como gémeos, porque nenhum deles existe sem o outro e é como se estivessem unidos costas com costas, porque são o contrário um do outro.


Leonardo da Vinci, Os Apontamentos de Leonardo, Nova Iorque: Parragon Books Ltd, 2007, p.124 (trad. Manuel Cordeiro pp. 1-131; org. por H. Anna Sue)


Para os amantes de arte, e não só, o livro compõe-se em três partes fundamentais:


Beleza, Razão e Arte que se subdivide em: I-Sobre Pintura; II-Figuras Humanas; III-Luz e Sombra IV- Perspectiva e Percepção Visual; V-Estudos e Esboços;


Observação e Ordem que se divide em: VI-Anatomia; VII-Botânica e Paisagem; VIII-Geografia; IX-Física e Astronomia;


Questões Práticas que por sua vez se subdivide em: X- Arquitectura e Planeamento; XI-Escultura e Metalurgia; XII-Inventos; XIII-Conselhos Práticos; XIV-Filosofia, Aforismos e Documentos Vários.

O livro custou apenas 7,49 euros.


Ao passar na Linguagem dos Pássaros, da Blue, ouvi David Sylvian que gosto muito ao qual juntei a voz cristalina de Virginia Astley


Some small hope

13/06/2011

Santo António e Fernando Pessoa

Domingos António de Sequeira, Santo António e o Menino, 1796


Desenho a lápis preto e sanguínea Museu Nacional de Arte Antiga


Parabéns Fernando Pessoa

SANTO ANTÓNIO

Nasci exactamente no teu dia —
Treze de Junho, quente de alegria,
Citadino, bucólico e humano,
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir...
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!

Santo António, és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Católico, apostólico e romano.

(Reflecti.
Os cravos de papel creio que são
Mais propriamente, aqui,
Do dia de S. João...
Mas não vou escangalhar o que escrevi.
Que tem um poeta com a precisão?)

Adiante ... Ia eu dizendo, Santo António,
Que tu és o meu santo sem o ser.
Por isso o és a valer,
Que é essa a santidade boa,
A que fugiu deveras ao demónio.
És o santo das raparigas,
És o santo de Lisboa,
És o santo do povo.
Tens uma auréola de cantigas,
E então
Quanto ao teu coração —
Está sempre aberto lá o vinho novo.

Dizem que foste um pregador insigne,
Um austero, mas de alma ardente e ansiosa,
Etcetera...
Mas qual de nós vai tomar isso à letra?
Que de hoje em diante quem o diz se digne
Deixar de dizer isso ou qualquer outra coisa.

Qual santo! Olham a árvore a olho nu
E não a vêem, de olhar só os ramos.
Chama-se a isto ser doutor
Ou investigador.

Qual Santo António! Tu és tu.
Tu és tu como nós te figuramos.

Valem mais que os sermões que deveras pregaste
As bilhas que talvez não concertaste.
Mais que a tua longínqua santidade
Que até já o Diabo perdoou,
Mais que o que houvesse, se houve, de verdade
No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,
Vale este sol das gerações antigas
Que acorda em nós ainda as semelhanças
Com quando a vida era só vida e instinto,
As cantigas,
Os rapazes e as raparigas,
As danças
E o vinho tinto.

Nós somos todos quem nos faz a história.
Nós somos todos quem nos quer o povo.
O verdadeiro título de glória,
Que nada em nossa vida dá ou traz
É haver sido tais quando aqui andámos,
Bons, justos, naturais em singeleza, Que os descendentes dos que nós amámos
Nos promovem a outros, como faz
Com a imaginação que há na certeza,
O amante a quem ama,
E o faz um velho amante sempre novo.
Assim o povo fez contigo
Nunca foi teu devoto: é teu amigo,
Ó eterno rapaz.

(Qual santo nem santeza!
Deita-te noutra cama!)
Santos, bem santos, nunca têm beleza.
Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? ...
Tira lá essa capa!
Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico
Em fantasia, promoveu-te a manjerico.

És o que és para nós. O que tu foste
Em tua vida real, por mal ou bem,
Que coisas, ou não coisas se te devem
Com isso a estéril multidão arraste
Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem,
Essa prolixa nulidade, a que se chama história,
Que foste tu, ou foi alguém,
Só Deus o sabe, e mais ninguém.

És pois quem nós queremos, és tal qual
O teu retrato, como está aqui,
Neste bilhete postal.
E parece-me até que já te vi.

És este, e este és tu, e o povo é teu —
O povo que não sabe onde é o céu,
E nesta hora em que vai alta a lua
Num plácido e legítimo recorte,
Atira risos naturais à morte,
E cheio de um prazer que mal é seu,
Em canteiros que andam enche a rua.

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,
Sê sempre assim!
Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.
Foste Fernando de Bulhões,
Foste Frei António —
Isso sim.
Porque demónio
É que foram pregar contigo em santo?




Fernando Pessoa: Santo António, São João, São Pedro. Fernando Pessoa. (Organização de Alfredo Margarido.) Lisboa: A Regra do Jogo, 1986. Daqui

Em especial para MJ Falcão com um beijinho.




Para todos os que vivem em Lisboa, boa festa! :)

Obrigada Margarida pelo site - MatrizNet!

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