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29/03/2013

Janela ao longe

A luz é mais intensa.
O Astro-Rei parecendo mais próximo continua, porém, distante.

Janela rasgada nas muralhas do Castelo de Óbidos.

Ah, a Música

Quem terá deixado esquecida
esta música ouvida num canto da rua?
Ninguém de quem passa nela repara
No entanto— é ela — faltava no dia de chuva
No meu dia de chuva?
Meu seria decerto este dia
pois por mais precário que eu seja
nenhuma chuva fora podia cair
se acaso em mim não caísse
Cai chuva e há música em meu coração
Era mera ilusão o dia de chuva

Ruy belo, in Aquele Grande Rio Eufrates (banco de poesia Casa Fernando Pessoa).


Mozart, A Flauta Mágica

18/04/2011

O Portugal Futuro - para que seja possível

Como membro nº 4 do Clube dos Poetas Vivos, criado por MJ Falcão aqui fica a minha esperança para Portugal.


Ontem, Domingo de Ramos pus em prática a máxima de Camus 1) A vida ao ar livre, (caderno nº 3),

Albert Camus, primeiros cadernos, Lisboa: Livros do Brasil, sd. p. 125.

Num passeio com muito sol trouxe a natureza para casa, espero que ela não se zangue.


Giestas amarelas e rosmaninho

O PORTUGAL FUTURO

0 portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro


Ruy Belo, O PORTUGAL FUTURO, In Boca Bilingue


Agua e Vinho - Egberto Gismonti, Concerto no Festival de Música de Coimbra 2010 (FESMUC 2010) - Biblioteca Joanina (Universidade de Coimbra)

27/04/2010

Os balcões sucessivos sobre o rio

Rio Tejo

Os balcões sucessivos sobre o rio

Os balcões sucessivos sobre o rio
as tesouras de poda nas roseiras
a sonolência lânguida e perversa
esse todo coerente e sobre ele apenas
a abóbada da minha perfeição
é esse o meu convite à desistência
a pena menos pública do mundo nos
lagos das finas flores dos sabugueiros
onde a mulher soltava os cabelos
pra que neles se prendesse o cheiro a erva
Ela tinha um aspecto inesperado
vinha com o vestido cor magenta nos
braços que lhe cresceram sobre a terra
movia-se ao andar como uma barca
Importa-me é o curso do dia e da noite
Vou andar um bocado nos caminhos
é pela hora em que não há ninguém
nudez desprevenida dos meus dias
mas só de noite desço até ao mar após
as sete horas da tarde hora crepuscular
os cheiros confortáveis e antigos
imagens dum lirismo fraudulento
um conforto algum tanto apreensivo
coisas que desde a infância a construíam
Mudo de opinião continuamente
espero o teu regresso pela tarde
e cuidadosamente velo a minha cólera
A vida é para mim pesar de pálpebras
leitura de discursos no outono
na casa abandonada e submetida à chuva
Regresso afinal aos próprios hábitos
sorrisos de mulheres sobre a areia
sou fiel à tristeza e pouco mais
e meto então um lenço num dos bolsos
que cheira ao perfume dos pinheiros
Ave de alarme sou deixem-me só
sou um contemporâneo assisto a tudo
os sinos vesperais nos dias de verão
o cão que passa numa encruzilhada
um cântaro que racha inexplicavelmente
confundido no hálito do mar
a minha saudação aos infantes do medo
crianças que iniciam o andar
Espero por alguém espero pelo sol
pla doçura estival da laranjeira
ando pelos caminhos muito tempo
e passo pelas portas devassadas pelos ventos
em cujos gonzos sopram agonias
E espero de novo a floração da primavera
Não quero nada quero estar presente sobre
as dunas do começo dos pinhais
nesse mundo de medos e animais
onde abri os meus olhos para a luz de agora
E perco todo eu em contriçães
ó terra branca e carnal e triste
as minhas madrugadas do sargaço
abertas nos bocejos da neblina
quando o tempo é suave e chega em dunas
à sensibilidade das narinas
nas horas generosas da maré

Ruy Belo, Despeço-me da Terra da Alegria, Lisboa: Editorial Presença, 1978, p. 19-21

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