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05/07/2020

- Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara. Saramago

Dia 5 de julho, 2019
"A culpa foi minha, chorava ela, e era verdade, não se podia negar, mas também é certo, se isso lhe serve de consolação, que se antes de cada acto nosso nós puséssemos a prever todas as consequências dele a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala.“


...
(livro dos conselhos)
- Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara. 

- É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade.
- Quantos cegos serão precisos para fazer uma cegueira.
- Se queres ser cego, sê-lo-ás.
- O medo cega.
- O medo cega... são palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegámos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos.
- Alguns irão odiar-te por veres, não creias que a cegueira nos tornou melhores, Também não nos tornou piores.
- A cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança.
- Água mole em brasa viva tanto dá até que apaga, a rima que a ponha outro.
- A força e a natureza das circunstâncias influem muito no léxico.
- Mas quando a aflição aperta, quando o corpo se nos desmanda de dor e angústia, então é que se vê o animalzinho que somos.
- Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.
- É que vocês não sabem, não o podem saber, o que é ter olhos num mundo de cegos.
- Costuma-se até dizer que não há cegueiras, mas cegos, quando a experiência dos tempos não tem feito outra coisa que dizer-nos que não há cegos, mas cegueiras.
- Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.

 José.Saramago, Ensaio sobre a cegueira. Companhia das Letras. (24º impressão), 2002.

Cortesia youtube

17/05/2017

Yesterday

was black day...



Uivemos, disse o cão.
Livro das Vozes

José Saramago, Ensaio Sobre a Lucidez. Lisboa: Caminho, 2004, s/nº p



29/09/2016

Se podes olhar...

José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira, Lisboa: Coleção Essencial Livros RTP

Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.
Livro do Conselhos (s/nº p.)

12/12/2015

O POEMA É UM CUBO...




O POEMA É UM CUBO DE GRANITO

O poema é um cubo de granito,
Mal talhado, rugoso, devorante.
Roço com ele a pele e o negro da pupila,
E sei que por diante
Tenho um rasto de sangue à minha espera
No caminho dos cães
Em vez da primavera.

 José Saramago, Provavelmente Alegria, Lisboa: Caminho, 1985.


Uma caixinha de música sempre me fez lembrar um cubo mágico
daí o trocadilho: Flauta Mágica, ouça-se e veja-se Papagena, Papageno.

06/11/2015

A Ponte

Bridge Over Troubled Water


A Ponte

Vidraças que me separam 
Do vento fresco da tarde 
Num casulo de silêncio 
Onde os segredos e o ar 
São as traves duma ponte 
Que não paro de lançar 

Fica-se a ponte no espaço 
À espera de quem lá passe 
Que o motivo de ser ponte 
Se não pára a construção 
Vai muito mais a vontade 
De estarem onde não estão 

Vem a noite e o seu recado 
Sua negra natureza 
talvez a lua não falte 
Ou venha a chuva de estrelas 
Basta que o sono consinta 
A confiança de vê-las 

Amanhã o novo dia 
Se o merecer e me for dado 
Um outro pilar da ponte 
Cravado no fundo do mar 
Torna mais breve a distância 
Do que falta caminhar 

Há sempre um ponto de mira 
O mais comum horizonte 
Nunca as pontes lá chegaram 
Porque acaba o construtor 
Antes que a ponte se entronque 
Onde se acaba o transpor 

Sobre o vazio do mar 
Desfere o traço da ponte 
Vá na frente a construção 
Não perguntem de que serve 
Esta humana teimosia 
Que sobre a ponte se atreve 

Abro as vidraças por fim 
E todo o vento se esquece 
Nenhuma estrela caiu 
Nem a lua me ajudou 
Mas a ruiva madrugada 
Por trás da ponte aparece. 

José Saramago, Provavelmente Alegria. Alfragide: Caminho, 1985, p. 83.


Cada tempo tem a sua interpretação



07/04/2015

"Talvez"

Tamara Lempicka Maternidade, 1928
La maternità in un affresco di Mariani affreschi che riprende il dipinto "Mère enfant" di Tamara de Lempicka (1898-1980)


No Coração, Talvez

No coração, talvez, ou diga antes: 
Uma ferida rasgada de navalha, 
Por onde vai a vida, tão mal gasta. 
Na total consciência nos retalha. 
O desejar, o querer, o não bastar, 
Enganada procura da razão 
Que o acaso de sermos justifique, 
Eis o que dói, talvez no coração. 

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"


31/12/2014

Votos para o novo ano

Citação 1 - uns pássaros trouxeram-me a citação de Saramago que abarca com profundidade a relação entre os seres humanos.



Agradeço a quem me ofereceu esta ideia.

Detalhe de uma das seis tapeçarias da Dama e o Unicórnio, século XV (c.1490), 
Museu Nacional da Idade Média, antiga abadia de Cluny, Paris. (imagem cortesia do Google)

Votos para o novo ano:

Compreensão/Generosidade.
Lucidez/Sapiência.
Fortuna/Graça.
Beleza/Ser.
Amizade.
Alegria.
Paz.


Citação 2 -  retirada dum dos últimos livros que li este ano:

A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. 
O que vemos não é o que vemos, senão o que somos.

Citação de Bernardo Soares [Livro do Desassossego, p. 387] no livro de 
Almeida Faria, O murmúrio do mundo. Lisboa: Tinta da China, 2012, p. 140.

 Bom Ano!


23/06/2013

Viagens...

Hieronymus Bosch, detalhe de O Jardim das Delícias,(1480-1505) painel central, Museu do Prado
(Wikipedia)*
File:Hieronymus Bosch - The Garden of Earthly Delights - Prado in Google Earth-x2-y1.jpg


Formou Deus o homem, e pôs num paraíso de delícias; tornou a formá-lo a sociedade, e o pôs num inferno de tolices.
O homem - não o homem que Deus fez, mas o homem que a sociedade tem contrafeito, apertando e forçando, em seus moldes de ferro, aquela pasta de limo que no paraíso terreal se afeiçoara  à imagem da divindade-, o homem, assim, aleijado como nós o conhecemos, é o animal mais absurdo, mais disparatado e incongruente que habita na Terra.

Almeida Garret, Viagens na Minha Terra. Circulo de Leitores, 1987, p. 123.

Detalhe do volante direito do Jardim das Delícias*
File:Hieronymus Bosch - The Garden of Earthly Delights - Prado in Google Earth-x4-y1.jpg

No blogue de Lídia Borges, Searas de Versos, li um trecho do livro de Saramago, A Viagem a Portugal.  A leitura levou-me a procurar o livro na Biblioteca Municipal. 
Eis que ao folheá-lo, na primeira página que antecede o índice, li a dedicatória:
A quem me abriu as portas e mostrou caminhos
- e também em lembrança de Almeida Garret,
mestre de viajantes.

Estando na biblioteca, logo procurei o livro de Garret que li há alguns anos. Numa leitura transversal deparei-me com o trecho que transcrevi. Olhei para o horizonte, para todos os que se deixam corromper quer na política, quer numa outra atividade, e faça-se jus a Garret que magistralmente descreve a natureza humana.
Não pude deixar de sorrir, ao olhar para trás, e aperceber-me que não dei a importância que as Viagens na Minha Terra merecem. O brilhantismo académico, o humanismo e a eloquência são apanágio do grande escritor.

Quanto a Saramago, a sua Viagem a Portugal prende a nossa atenção. Pegamos na mochila, na máquina fotográfica e cada momento retratado na escrita transforma-se em realidade. Não supera Garret, nem é essa a intenção, a singularidade de cada escritor marca a sua genialidade.

Pátio das Escolas, Universidade de Coimbra

Fotografia retirada da Wikipedia
File:Universitat de Coïmbra - Sala d'actes.JPG

Enfim, esta é a Universidade de Coimbra, donde muito terá vindo de Portugal, mas onde algum mal se preparou. O viajante não vai entrar, focará sem saber que jeito tem a Sala dos Actos Grandes e como é por dentro a Capela de São Miguel. O viajante às vezes é tímido. Vê-se ali, no Pátio das Escolas, rodeado de ciência por todos os lados, e não ousou ir bater às portas, pedir esmola de um silogismo ou um livre-transito para os Gerais. Junte-se  a esta cobardia a convicção profunda eem que está o viajante de que a universidade não é Coimbra, e perceber-se-á por que a este Pátio das Escolas se limita a dar a volta, sem gosto pelas estátuas da Justiça e  daFortaleza que o Laprade armou na Via Latina, mas de gosto rendido diante do portal manuelino da Capela de São Miguel, e tendo entrado pela Porta Férrea por ela tornou a sair.

José Saramago, Viagem a Portugal. Lisboa: Caminho, 1995 (11ª edição), p. 137.

A Universidade de Coimbra foi consagrada pela UNESCO Património Mundial [para nossa alegria].

01/06/2013

"A força esmaga a fraqueza"



 A fraqueza alimenta a força para que a força esmague a fraqueza. 

José Saramago, in Cadernos de Lanzarote (1994)'
[Um país em que os reformados têm que procurar emprego não é um país que se preze.]


17/11/2012

A pujança do Outono

A pujança do Outono. 
A paleta é triunfante: o sol atravessa obliquamente o jardim e faz reviver as cores. A sintonia entre a luz e a sombra é convidativa à contemplação. 
Ouve-se a brisa suave e a folha que cai lentamente num bailado perfeito. A paisagem apela à quietude, à ordem e à harmonia.
A beleza majestosa do jardim barroco torna distante o barulho da cidade, o frenesim diário e pára os ponteiros do relógio que chamam para as orações profanas.

Jardim Botânico da Universidade de Coimbra








«Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.»
José  Saramago na contracapa do Provavelmente Alegria.


Bom dia!

05/10/2012

Escadas ou dos dias que correm...

Casa dos Bicos, Fundação Saramago, Lisboa


No último feriado da Implantação da República:

FALA DO VELHO DO RESTELO AO ASTRONAUTA

Aqui, na Terra, a fome continua, 
A miséria, o luto, e outra vez a fome.

José Saramago, Poemas Possíveis. Lisboa: Caminho, 1998.
O poema todo aqui.


28/06/2012

Manual da Pintura e da Caligrafia

István Orosz

O Manual da Pintura e da Caligrafia de José Saramago é uma interessante abordagem ao jogo de espelhos barroco. A duplicidade entre o "eu" retratado e o "eu" real, ou como o pintor o vê, espanta o leitor. É um belo exercício entre a escrita e a pintura. É uma metáfora entre a realidade intrínseca do eu e o eu como deseja ser visto. A personagem principal chama-se S. O livro é uma viagem ao interior de nós mesmos, usando a linguagem comparativa entre a escrita e a pintura. Está a ser uma boa surpresa ler este livro.


O ilustrador húngaro, István Orosz, na mesma linha de Escher, aborda a realidade ilusória que liga tão bem, a meu ver, com o Manual de Saramago. Ou seja, é a simbiose perfeita entre o "eu interior e o "eu" retratado que se vê da janela.

Tenho dois retratos em dois cavaletes diferentes, cada um em sua sala, aberto o primeiro à naturalidade de quem entra, fechado o segundo no segredo da minha tentativa frustrada, e estas folhas de papel que são outra tentativa, para que vou de mãos nuas, sem tintas, nem pincéis, apenas com esta caligrafia, este fio negro que se enrola e desenrola, que se detém em pontos e vírgulas, que respira dentro de pequenas clareiras brancas e logo avança sinuosa, como se percorresse o labirinto de Creta ou os intestinos de S. (interessante: esta última comparação veio sem que eu a esperasse ou provocasse. Enquanto a primeira não passou de uma banal reminiscência clássica, a segunda, pelo insólito, dá-me algumas esperanças: na verdade, pouco significaria se eu dissesse que tento devassar o espírito, a alma, o coração, o cérebro de S. : as tripas são outra espécie de segredo.) E tal como já disse logo na primeira página, andarei de sala em sala, de cavalete em cavalete, mas sempre virei dar a esta pequena mesa, a esta luz, a esta caligrafia, a este fio que constantemente se parte e ato debaixo da caneta e que, não obstante, é a minha única possibilidade de salvação e de conhecimento.

José Saramago, Manual de Pintura e Caligrafia, Lisboa: Caminho, 2006 (6ª edição), p. 45-46.


22/06/2012

"A Maior Flor do Mundo"

Casa dos Bicos - Fundação José Saramago 
Casa dos Bicos,  uma excelente recuperação do edifício

Perspectiva dos Bicos

Do Memorial do Convento uma frase para a viagem de Saramago


Biblioteca
Sala de exposição com as obras e os principais aspectos da vida literária de Saramago 
Títulos, fotografias e documentos diversos

Um poema na contracapa do caderno de apontamentos ilustrado com uma pintura da filha de Saramago, Violante Saramago Matos. Têm o bom gosto das páginas não possuírem linhas. Podemos colocar pensamentos, guardar flores e fazer desenhos.

Como eu gostava que a minha rosa crescesse assim... (animação revisitada)



11/11/2011

O íntimo rumor que abre as rosas.

Entre cores o casario, Porto



Se hoje comer uma castanha quero que com ela venha este poema:

É tão fundo o silêncio

É tão fundo o silêncio entre as estrelas.
Nem o som da palavra se propaga,
Nem o canto das aves milagrosas.
Mas lá, entre as estrelas, onde somos
Um astro recriado, é que se ouve
O íntimo rumor que abre as rosas.

José Saramago, Provavelmente Alegria, Lisboa: Caminho, 1998, p.34 (4ªedição)

14/10/2011

É caso para lembrar Saramago...

Rio Tejo


«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos.»

José Saramago, Cadernos de Lanzarote, Diário III, Lisboa: Caminho, 1998, pág. 148

18/06/2011

José Saramago

Pilar coloca as cinzas de Saramago em frente à casa dos Bicos, ou casa D. Brás de Albuquerque, debaixo da oliveira centenária que veio da terra natal do escritor para esse propósito.







A vontade do escritor era ser sepultado junto à velha oliveira em Azinhaga do Ribatejo. Porém, gente da cultura e do poder político quiseram homenagear José Saramago na cidade onde viveu a maior parte da sua vida. Assim, jaz em frente à Fundação Saramago que fica na Casa dos Bicos onde todos os portugueses poderão visitar parte do espólio da sua biblioteca.

O último livro que li de Saramago, após a sua morte, intitula-se: O Ano da Morte de Ricardo Reis.
Dele retiro este trecho porque hoje julgo pertinente lembrar:



Um homem deve ler de tudo, um pouco ou o que puder, não se lhe exija mais do que tanto, vista a curteza das vidas e a prolixidade do mundo. Começará por aqueles títulos que a ninguém deveriam escapar, os livros de estudo, assim vulgarmente chamados, como se todos o não fossem, e esse catálogo será variável consoante a fonte de conhecimento aonde se vai beber e a autoridade que lhe vigia o caudal, neste caso de Ricardo Reis, aluno que foi dos jesuítas, podemos fazer uma ideia aproximada, mesmo sendo os nossos mestres tão diferentes, os de ontem e os de hoje. Depois virão as inclinações da mocidade, os autores de cabeceira, os apaixonamentos temporários, os Werther para o suicídio ou para fugir dele, as graves leituras de adultidade, chegando a uma certa altura da vida já todos, mais ou menos, lemos as mesmas coisas, embora o primeiro ponto de partida nunca venha a perder a sua influência, com aquela importantíssima e geral vantagem que têm os vivos, vivos por enquanto, de poderem ler o que os outros, por antes do tempo mortos, não chegaram a conhecer.



José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Lisboa: Caminho, 2007, p. 137



Dueto das Flores Lakmé

20/06/2010

Morri pela Beleza! Emily Dickinson

A verdade. O que é a verdade? A minha, a tua ou a dele? O que é a verdade?
Só sei que já me magoei por querer viver com a verdade, o que ela é não sei.
Reflexão no início da tarde em que se homenageou Saramago no seu último acto.
Rosácea, Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, Coimbra


Morri pela Beleza

Morri pela Beleza - mas mal me tinha
Acomodado à Campa
Quando Alguém que morreu pela Verdade,
Da Casa do lado -

Perguntou baixinho "Por que morreste?"
"Pela Beleza", respondi -
"E eu - pela Verdade - Ambas são iguais -
E nós também, somos Irmãos", disse Ele -

E assim, como parentes próximos, uma Noite -
Falámos de uma Casa para outra -
Até que o Musgo nos chegou aos lábios -
E cobriu - os nossos nomes -

Emily Dickinson, in "Poemas e Cartas"
Tradução de Nuno Júdice

18/06/2010

Vinheta 2 - Para Saramago!

A vinheta desta semana é em homenagem a Saramago por levar Portugal para lá das fronteiras.
A imagem é de Patrícia Mc Quade e quem ma deu a conhecer foi Ivan. Grata.
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"(...) ao contrário do que se julga e pôs a correr foi um botânico o autor da célebre frase, Uma rosa é uma rosa é uma rosa, um poeta teria dito apenas, Uma rosa, o resto caberia no silêncio de contemplá-la."

José Saramago, História do Cerco de Lisboa, Lisboa: Editorial Caminho,1989.


Dulcineia

Quem tu és não importa, nem conheces
O sonho em que nasceu a tua face:
Cristal vazio e mudo.
Do sangue de Quixote te alimentas,
Da alma que nele morre é que recebes
A força de seres tudo.

José Saramago

Saramago!

Para Saramago.



Fala do Velho do Restelo ao Astronauta

Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.

Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.

No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.

Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.
José Saramago

05/06/2010

É tão fundo o silêncio!

Por vezes desejamos o silêncio e o céu cheio de estrelas...
outras que ele não se instale!
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Detalhe Van Gogh, Café Terrace at Night. September 1888
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Oil on canvas. Rijksmuseum Kröller-Müller, Netherland
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É tão fundo o silêncio

É tão fundo o silêncio entre as estrelas.
Nem o som da palavra se propaga,
Nem o canto das aves milagrosas.
Mas lá, entre as estrelas, onde somos
Um astro recriado, é que se ouve
O íntimo rumor que abre as rosas.

José Saramago,
In Provavelmente Alegria, Caminho, 1987, 3.ª edição; 1.ª edição, Livros Horizonte, 1970
Nick Kave and The Bad Seeds:

Where the Wild Roses Grow - Nick Cave & Kylie Minogue



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