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terça-feira, 22 de setembro de 2015

Ras-el-Hanout

              Qualquer abordagem à portentosa cozinha marroquina passa inevitavelmente por uma mistura de especiarias que é a pedra de toque daqueles sabor e aroma especiais que tornam inconfundíveis os pratos marroquinos, mesmo em comparação com outras cozinhas magrebinas próximas: o Ras-el-Hanout.
Traduzindo “ras-el-hanout”, teremos algo como “o melhor da loja” ou, mais livremente, “topo de gama”, embora não exista nenhuma fórmula, nem qualitativa, nem quantitativa que o defina, existindo sim tantas composições quantos os preparadores, sendo mesmo vulgar que seja a própria cozinheira que prepara a mistura a seu gosto, como aliás se passa com qualquer das mais famosas misturas de especiarias, o caril, o tandoori, a dukkah, o Garam masala ou o Shichimi Togarashi.
Encontrei nas minhas visitas a Marrocos, Ras-el-Hanout desde 5 a 51 componentes, tendo nestes mais “emaranhados” a presença de elementos estranhos ao mundo dos sabores, como por exemplo a mosca cantárida, um afrodisíaco tóxico com que muitas vezes o vendedor tenta apimentar o seu produto, seja ou não verdade que a tal mosca lá está.
Sempre que lá vou, trato de me abastecer em quantidade e qualidade, tendo até já fornecedores habituais em Marraquexe e Marzagão.  Há, no entanto, uma dificuldade inultrapassável: as misturas de especiarias são, ainda mais que as especiarias isoladas, extremamente sensíveis à passagem do tempo e, na verdade, três ou quatro meses depois da compra, a qualidade é já manifestamente afectada e seis meses depois aquele que tinha sido um garboso Ras-el-Hanout, está pronto para ir para o lixo. Tentei todos os truques, o vácuo, a congelação e nada!
Se não vai trimestralmente a Marrocos, resta-lhe comprar online, sujeitando-se ao que lhe sair, ou então fazê-lo, que é o que eu faço; dá algum trabalho mas compensa. Esta receita que vos deixo, começou por ser uma “21 épices”, fornecida no meio de indescritíveis dificuldades linguísticas (ele só fala árabe!) pelo meu fornecedor de Marzagão. Um ano depois, perante as dificuldades insuperáveis que tive em obter alguns dos componentes, ele baixou a fórmula para “17 épices”, todas de fácil obtenção em Portugal e o resultado é soberbo. Aconselho a preparação em muito pequenas quantidades, já que o tempo, tal como para os de compra, também vai passar sobre o nosso Ras-el-Hanout.  

Ingredientes:

"17 épices"


10 g de raiz de cúrcuma (açafrão das índias)
7 g de raiz de gengibre
3g de paprika
2 g de pimenta branca
2 g de pimenta preta
2 g de bagas de pimenta da Jamaica
3 g de vagens de cardamomo (só as sementes)
6 g de canela
1,5 g cravinho inteiro
1,5 g macis
1,5 g de malagueta
2 g de cominho sementes
1,5 g de sementes de anis
1,5 g de coentro (sementes secas)
1,5 g de sementes de funcho
1 noz-moscada ralada
0,1 g açafrão, estames ou 1g de açaflor

Preparação:

Leve ao lume numa frigideira seca as pimentas, o funcho, o cravinho, as sementes de cardamomo e os cominhos, para tostar sem queimar.
Retire de imediato, do calor e da própria frigideira, assim que sentir o inconfundível aroma dos cominhos aquecidos.
Junte todas as sementes inteiras no almofariz ou no processador e moa até ficar em estado de pó fino.
Junte depois os ingredientes já moídos e misture muito bem.
Passe por uma peneira fina para reter umas palhas que sempre ficam e guarde em frasco hermético, no frigorífico, com data no rótulo.
Utilize no prazo de 2-3 meses, após o que deve perder a pena e deitá-lo fora.

O prazer de fazê-lo de novo, com a sinfonia de aromas a perfumar toda a casa, faz com que se deseje que o tempo passe depressa.

domingo, 20 de março de 2011

Tajine de Frango e Frutos Secos

............... Em Marrocos, um dos meus destinos prediletos, costumo andar a pé.
Esse facto, que proporciona uma viagem "de proximidade" maravilhosa, tem como inconveniente a impossibilidade de carregar coisas pesadas, frágeis e volumosas. Ou seja, trago os temperos mas não consigo trazer a tajine (e mandá-la por correio é arriscado e exorbitante!).
Sabendo desse meu desgosto antigo de não ter uma tajine verdadeira e ter de fazer as Tajines - (tajine com minúscula é o recipiente, Tajine com maiúscula o nome genérico de qualquer comida lá feita) - em caçarolas ou tachos de barro, a minha irmã Teresa resolveu oferecer-me esta magnífica tajine vinda do Marrocos profundo, lá das bandas do Sahara.
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Em Marrocos a Tajine é omnipresente e transversal a todos os estratos sociais e a todas as cozinhas, desde as mais simples (e deliciosas) comidas em sítios paupérrimos de beira de estrada na orla do deserto, até às mais sofisticadas e luxuosas de Marrakech e Casablanca. Depois de vos ter falado já de Tajines em geral e de uma Tajine de cherne, ambas em 2009, deixo hoje aqui uma Tajine de frango de complexidade média, para estreia da minha nova tajine.
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Ingredientes:
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1 frango
2 cebolas
2 dentes de alho
3 colheres de sopa de óleo de argão (ou girassol, ou azeite)
3 troços de pimento verde + 3 de vermelho
1/2 beringela
50g de sultanas amarelas
3 figos secos
6 tâmaras sem caroço
1 cenoura
Azeitonas descaroçadas
1/2 limão de conserva (só a casca)
2 colheres de sopa de Ras-el-Hanout, ou, 3partes de Gengibre em pó, 3 partes de Açafrão da India (Cúrcuma), 3 partes de Paprika doce, 2 partes de coentro em pó, 1 parte de Paprika picante (piri-piri), 1 parte de Cominhos, 1 parte de Pimenta Preta, 1 parte de Canela em pó, 1 parte de Cravo e um pouco de cardamomo preto.
Sal
Couscous cozidos ou pão
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Preparação:
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Ponha no fundo da tajine a cebola em falhas, alhos, sultanas e tâmaras abertas. Tempere com uma colher de sopa de Ras-el-Hanout (ou a mistura de especiarias) e coloque por cima, disposto em roda, o frango em pedaços grandes (8 a 10 partes), previamente temperado com a segunda colher de especiarias. Tempere de sal e coloque então os vegetais e frutos secos sobre a carne, terminando com as azeitonas, tiras de casca de limão em conserva e um copo de água.
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Regue por cima com a gordura, se quiser pode pôr por cima, polvilhado mais um pouco de especiarias, tape com o cone da tajine ou com o testo do tacho e leve a lume, primeiro médio e baixo assim que começar ferver, durante cerca de 30-40 minutos após fervura, evitando destapar durante este tempo.
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Sirva com couscous cozidos ou simplesmente com pão.
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