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sábado, 27 de agosto de 2011

O Tempo Reencontrado, de Raúl Ruiz (1999)

Poucos cineastas se podem gabar de ter uma obra tão longa como o chileno Raúl Ruiz, falecido há dias, vítima de cancro. Desde 1963 e até 2010 realizou um total de 112 filmes, entre longas e curtas, ficção e documentário, o último dos quais o extraordinário «Mistérios de Lisboa», uma tarefa de peso cujo resultado esteve à altura do génio de Camilo Castelo Branco. Já em 1999 Raúl Ruiz se tinha voltado para uma outra grande obra, em vários sentidos, da Literatura mundial: «Em Busca do Tempo Perdido», de Marcel Proust.

É o último dos sete volumes desta obra de Proust, «O Tempo Reencontrado», que dá o título ao filme, que começa por nos mostrar o escritor acamado e às portas da morte. Depois de ditar um trecho do livro à sua empregada, começa a olhar para fotografias do passado e recorda a sua vida e a das personagens de «Em Busca do Tempo Perdido». Não conhecendo o material de base, apesar de ter muita curiosidade em conhecê-lo, é-me difícil comparar o filme com o livro, que é considerado uma das obras-primas da Literatura mundial.

Esta adaptação de Raúl Ruiz, que conta com um enorme elenco recheado de grandes estrelas (Catherine Deneuve, Emmanuelle Béart, Vincent Perez, John Malkovich ou Pascal Greggory, para focar apenas alguns dos nomes mais conhecidos), é um belo filme, que retrata não só uma certa sociedade francesa do final do século XIX e início do século XX, mas também as relações entre os vários membros desta sociedade, a vários níveis, focando temas como o amor, a infância, a homossexualidade ou a guerra. Tal como em «Mistérios de Lisboa» a recriação de época está bastante bem conseguida.

Mas, talvez fruto dos delírios do narrador, que é o próprio Proust que vai recordando episódios da sua vida, o filme acaba por se tornar um pouco confuso. Além do recurso a elementos oníricos, sobretudo no início do filme, os inúmeros avanços e recuos na narrativa forçam-nos a estar demasiado atentos, pois à mínima distracção corremos o risco de perder o fio à meada. Outro dos problemas em «O Tempo Reencontrado» é uma certa perda de ritmo quando começa a chegar ao final, algo que num filme com cerca de duas horas e meia pode levar o espectador a entrar em desespero. Agora falta ler a obra de Proust para poder compará-la com a sua adaptação, que pelo menos serviu para abrir o apetite.

Nota: 3/5

Site do filme no IMDB

domingo, 10 de abril de 2011

A Bela de Dia, de Luís Buñuel (1967)

Será «A Bela de Dia» uma história real ou um sonho de Séverine (Catherine Deneuve), a personagem principal deste filme de Luís Buñuel? Não sabemos e reza a lenda que o realizador, um dos maiores mestres do cinema surrealista, nunca chegou a esclarecê-lo. O filme começa com um sonho e acaba num sonho/alucinação da própria Séverine. Pelo meio temos uma história bastante pontilhada de elementos oníricos, onde todos os personagens participam, de uma forma ou de outra, tão ao gosto de Buñuel.

Comecemos pela história. Séverine é uma mulher sexualmente reprimida que acaba por ceder à tentação de ir trabalhar num bordel clandestino, onde se transforma em Belle de Jour, ou Bela de Dia numa tradução literal, porque todas as meninas têm de ter uma alcunha e como ela só pode trabalhar até às 5h da tarde, a Madame Anais (Geneviève Page) pensa que este é o nome ideal. Este trabalho de Séverine acaba por ser fundamental para a sua evolução sexual e é onde surgem os episódios mais caricatos, sobretudo com os fetiches dos clientes da casa de passe. Tudo culmina quando Husson (Michel Piccoli), um amigo do marido de Séverine, descobre o seu segredo e ela acaba por deixar a casa de Madame Anais.

Como muitos filmes de Buñuel, «A Bela de Dia» pode ter inúmeras leituras. Mas no fundo, tudo gira à volta do sexo. Temos a libertação sexual de Séverine, que acaba por nunca ir para a cama com o marido, mas com os clientes atende os pedidos mais estranhos. Veja-se a cena do duque ou o professor submisso. Eventualmente acaba por se apaixonar por um deles e o 'romance' termina mal. Os próprios sonhos de Séverine têm praticamente todos algo a ver com sexo. Temos a personagem de Husson, presença bastante recorrente nos sonhos de Séverine, que apesar de casado frequenta prostitutas.

E como não podia deixar de ser, a crítica volta a estar presente na obra de Buñuel, nomeadamente contra os seus alvos favoritos: a burguesia, meio de onde vem Séverine, personagem que não trabalha o que poderá dar a entender que travou conhecimento com a casa de Madame Anais para ocupar o tempo, e algumas das personagens centrais; e a Igreja, que desta vez surge pouco, mas não deixa de levar a sua bicada quando vemos Séverine a chegar da primeira vez à casa de passe e surge uma cena do passado em que ela, ainda criança, rejeita tomar uma hóstia. Quando se trata de escolher o pecado, ou seja, entrar no misterioso apartamento, Séverine não hesita.

Nota: 4/5

Site do filme no IMDB

Belle du jour: Catherine Deneuve

Catherine Deneuve, em «A Bela de Dia», de Luís Buñuel

sábado, 19 de março de 2011

Roman Polanski: Procurado e Desejado, de Marina Zenovich (2008)

Roman Polanski continua a ser hoje em dia um dos grandes nomes do Cinema, com um talento inegável. Mas por detrás deste enorme talento está uma vida bastante polémica e conturbada. Sobrevivente do Holocausto, onde perdeu alguns membros da família, começou a realizar curtas-metragens na Polónia natal durante a década de 1950 e na década de 1960 desponta finalmente quando filma «Repulsa», com uma jovem Catherine Deneuve. A partir deste filme começa a ser reconhecido um pouco por toda a parte e acaba por seguir para os EUA onde prometia vir a iniciar uma grande carreira. Prova disso são filmes como «A Semente do Diabo» ou «Chinatown», os únicos que conseguiu filmar em território norte-americano. A trágica morte da sua esposa Sharon Tate, em avançado estado de gravidez, às mãos da seita de Charles Manson acaba por devastar a sua vida.

A sua estadia nos EUA muda abruptamente em 1977 quando é acusado de violação de uma rapariga de 13 anos. Esta acusação e a iminência de uma condenação levaram o realizador polaco a sair do país, onde ainda hoje não pode entrar. «Roman Polanski: Procurado e Desejado» é um documentário realizado por Marina Zenovich em 2008 sobre o julgamento, com entrevistas a todos os protagonistas no processo, incluindo os advogados e a jovem que esteve no centro do caso. Só não surgem o juiz, que já faleceu, e o próprio Polanski, apesar de surgirem várias imagens de arquivo onde o realizador aborda o assunto.

Sem ser um filme favorável ou contrário aos eventos passados na mansão de Jack Nicholson onde tudo se terá passado, (penso que fica bem clarificado com todos os depoimentos o que se passou durante a sessão fotográfica e não querendo condenar ninguém, penso que o comportamento de Polanski com uma menor naquele caso não terá sido o melhor) o documentário consegue analisar um julgamento bastante surreal, palavra que chega mesmo a ser utilizada por um dos advogados, onde o protagonista acaba por ser o juiz Rittenband, um magistrado com um certo gosto pelo estrelato, não estivesse ele na terra delas.

Paralelamente ao processo que vai decorrendo em tribunal, o filme aborda um pouco da carreira de Polanksi até aquela altura e foca a sua personalidade, o que acaba por ser um trunfo e um atractivo para os fãs do cineasta. Mas este filme pode ser visto não só como o relato de um episódio da cultura popular que fez correr muita tinta na altura (e ainda nos dias de hoje), o que se vê nos enormes batalhões de jornalistas que invadem o julgamento, mas também a forma como funciona (ou não) uma justiça que se não é surreal acaba por ser considerada no mínimo peculiar.

Nota: 4/5

Site do filme no IMDB