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quarta-feira, 7 de março de 2012

A Invenção de Hugo, de Martin Scorsese (2011)

Martin Scorsese fez um filme para um público mais jovem. E em 3D. Ditas desta forma, assim simples, as duas frases anteriores poderiam parecer mentira há alguns anos. Mas hoje, neste ano da graça de 2012, não são. Martin Scorsese, o realizador de «Taxi Driver», «Tudo Bons Rapazes» ou o mais recente «The Departed - Entre Inimigos», conseguiu a proeza de juntar num só filme aquelas duas características que lhe desconhecíamos, criando uma obra singular no seu percurso, que só não é de todo estranha aos seus fãs devido à homenagem que faz aos primórdios do Cinema e a um dos grandes nomes dos primeiros anos da Sétima Arte, que levou a magia a entrar directamente no grande ecrã: George Mélies.

Baseado num livro de Brian Selznick, «A Invenção de Hugo» narra as aventuras de Hugo Cabret (Asa Butterfield), uma criança órfã que vive numa estação de comboios de Paris nos anos 1930, onde trata da manutenção dos relógios, métier que lhe foi ensinado pelo tio alcoólico. Durante as suas divagações diárias trava conhecimento com o dono de uma loja de brinquedos, a quem rouba peças para reconstruir um autómato que o pai de Hugo tinha encontrado antes de morrer. É durante esta tentativa de reconstrução do autómato que Hugo conhece Isabelle (Chloë Grace Moretz), filha do dono do loja, que mais tarde as duas crianças descobrem ser George Mélies (Ben Kingsley).

Este filme não podia ser mais diferente das obras anteriores de Martin Scorsese. Aqui não há gangsters nem mafiosos (o mais próximo que temos disso é um Sacha Baron Cohen a fazer de guarda da estação, mau como as cobras, mas mesmo assim, longe de ser um grande vilão), apenas uma história simples que nos leva a conhecer um pouco mais a magia da Sétima Arte, com a ajuda de um dos pioneiros dos efeitos especiais. E a descoberta do Cinema pelos dois jovens protagonistas é das mais belas sequências de «A Invenção de Hugo». Talvez seja precisamente devido à presença de Mélies (e alguns dos seus filmes e a sua filmagem são recriados no filme de Scorsese) que este filme tenha sido feito em 3D, actualmente a técnica que mais aproximará a Sétima Arte da magia. Não tive oportunidade de ver esta versão, mas diz quem viu que está bastante bem conseguida e Scorsese já admitiu ter ficado fascinado com as potencialidades da tecnologia.

Apesar de alguns bons momentos, o grande defeito de «A Invenção de Hugo» é que não parece ser um filme realizado por Martin Scorsese, mas antes por Steven Spielberg. Que por acaso até tem um filme novo nas salas por estes dias e recentemente lançou uma adaptação de Tintim em 3D. O fascínio da descoberta do Cinema está lá, mas aparentemente falta ali um rasgo de génio do realizador nova-iorquino. O que não significa que «A Invenção de Hugo» não deixa de ser um belo filme, apesar de ser uma 'carta fora do baralho' no conjunto da obra de Martin Scorsese.

Nota: 3/5

Site oficial do filme

Site do filme no IMDB

domingo, 9 de janeiro de 2011

Tulpan, de Sergei Dvortsevoy (2008)

Para quem apenas conhece o Cazaquistão através da personagem Borat, criada pelo comediante Sacha Baron Cohen, «Tulpan» não é o filme indicado. Ao contrário do jornalista cazaque, «Tulpan» retrata as peripécias do jovem Asa que regressou da Marinha e vive nas estepes do Cazaquistão a ajudar o seu cunhado pastor. Um dos objectivos de Asa é tentar encontrar uma esposa para conseguir que lhe dêem um rebanho de ovelhas para tomar conta. A Tulpan que dá o nome ao filme de Sergei Dvortsevoy, que se estreia aqui na ficção, é a tal esposa que o jovem tanto procura. Só que Tulpan tem outros planos. Além de rejeitar o pretendente, por achar que ele tem orelhas grandes, prefere fugir da estepe em busca do sonho da grande cidade, onde pode estudar.

Aos olhos ocidentais «Tulpan» parece uma comédia, mas é um daqueles filmes sérios de uma humanidade gigantesca. Todas as personagens representam pessoas que vivem em condições bastante diferentes das nossas para conseguirem sobreviver. E todas têm gosto em viver, apesar das dificuldades. Algo que nós, nos nossos mundos apressados, nem sempre nos podemos gabar. Não sendo um daqueles filmes que marcam, «Tulpan» faz lembrar um pouco os filmes de Kusturica, apenas para citar um nome mais conhecido. Tem episódios caricatos, como aquele em que um amigo de Asa (uma das personagens mais mirabolantes de «Tulpan», que considera pornografia arte e passa a vida no seu tractor a ouvir «Rivers of Babylon», dos Boney M. como se fosse a melhor música do mundo) tenta comparar as orelhas do jovem com as do Príncipe Carlos ou a cena da visita do veterinário, mas também alguns sérios, como quando Asa conta o seu sonho a Tulpan, numa das mais belas cenas do filme.

Mas «Tulpan» acaba por falhar porque tem um argumento de certa forma fraco. A história em si é uma boa premissa, mas avança aos soluços e os episódios parece que não têm grande fluidez. A própria maneira de filmar de Sergei Dvortsevoy está bastante agarrada ao documentário. Basta ver a cena em que Asa ajuda uma ovelha a dar à luz. As cenas da natureza também são muito belas e espelham bem a aridez das estepes do Cazaquistão. A estreia de Sergei Dvortsevoy na ficção pode ser quase visto como a outra face de «Borat».

Nota: 3/5

Site do filme no IMDB