..............……………(A luz está agora no máximo da sua intensidade)
O ENCENADOR-NARRADOR
(…) Esta luz é um truque teatral destinado a permitir que V. Exas. Vejam o que se passa na escuridão.
(… ) E nada de ruídos, está a travar-se uma batalha e uma batalha é uma coisa sagrada. Os civis –e V.Exas., não passam de civis desprezíveis– não têm o direito de interromper as batalhas. Se não fosse isso, até eram capazes de alterar o curso da História prejudicando gravemente os generais que não têm outra possibilidade de nela figurar. (…) O Encenador volta a sentar-se e o general diz, em tom pomposo de festa de juramento de bandeira:
O GENERAL – Eu sou o general zero, escolhido para dirigir esta batalha por ter obtido a melhor classificação do meu curso: 20 em ginástica, 20 em aprumo militar, 20 em pontualidade, 20 em respeito pelos meus superiores hierárquicos. Dentro de zero minutos os meus oficiais reunir-se-ão aqui para discutir o plano zero que me permitirá pôr termo a esta guerra antes de ser reformado. Estou farto de ouvir a minha mulher.
VOZ DE MULHER – Pede a reforma, filho, e deixa-te de fantasias. Olha que é melhor pedi-la já, enquanto estás na mó de cima, do que esperares pelo fim da batalha. Prefiro a tua reforma de general vivo, à minha pensão de viúva de herói morto. Pede a reforma, que já tens idade para ter juízo.
O GENERAL – Pois é , mas lá se vai o carro de graça, a gasolina por metade do preço, o impedido, os convites oficiais… e ninguém torna a fazer-me continência na rua…
VOZ DE MULHER – E depois? Ainda não estás farto de fitas? Olha, filho, passas a ser aquilo que és e mais nada. Pede a reforma. Pede a reforma, que eu faço-te uma açordinha de chouriço como tu gostas…
O ENCENADOR – Esta cena doméstica revela o péssimo gosto do autor. (…)
O GENERAL – Enquanto a Pátria estiver em perigo, é meu dever sacrificar-me até à última gota de sangue (…)
Luis de Sttau Monteiro
In: A Guerra Santa (Teatro Minotauro) 1967
Não obstante a opinião do encenador a respeito do gosto do autor, entendo que bem avisados andam os que dizem que as mulheres têm normalmente razão. Dessem-lhes os maridos ouvidos e nada disto se passaria.
Por outro lado, eu, que de guerras nada percebo e que, nesta matéria, tenho por única referência o valente soldado Chveik, que além de estar na base mais “básica” da pirâmide, ainda por cima era solteiro e não tinha quem lhe desse destes conselhos, também acho que são mais os chefes do que os índios.