É
importante trazer de novo a talhe de foice, a realidade que Michel
Foucault classificou de "fascismozinho reles", ao
referir-se ao pequeno repressor que se insinua dentro de cada
indivíduo e que extravasa tanto no seio familiar, como no quotidiano
do trabalho (ou do não trabalho) e que, até nas situações mais comezinhas, não se
consegue eliminar mesmo por quem, dotado de uma elevada consciência
política, tenha domínio sobre os mecanismos de sublimação da ética, da
educação e da honestidade intelectual.
Urge reconhecer
que essa ideia corresponde ao ambiente em que se vive neste tempo de lâminas, mesmo quando, paradoxalmente, nele estão inscritas a indiferença e a apatia.
Uma
prática do dia-a-dia, ora semi-invisível ora às escâncaras, de
subtis ou grosseiras opressões, que faz das relações interpessoais
uma ruína e despreza as minorias; que ignora os idosos e os
deficientes, que espezinha os humildes e os diferentes; que exerce
crueldade sobre os animais, etc.
Daí que se possa experimentar
alguma apreensão e até receio, pelo ovo de serpente que se está a
pretender chocar.
E porque a nossa memória é também feita da
memória dos outros, urge não baixar a guarda e estar atento aos
cenários sombrios que, inevitavelmente, poderão resultar do
ressurgimento de uma mentalidade hipócrita, obscurantista e
anti-social que, paulatinamente, pode querer instalar-se de novo.
Imagem: O ovo da serpente - Ingmar Bergman
bth: Janeiro2010 (texto revisto)