O regime já dava sinais evidentes de decomposição acelerada, mas não me safei e lá fui, com algum atraso, carregando o insustentável peso da angústia, a que acrescia uma mala contendo umas quantas latas de conserva, meia dúzia de peúgas e cuecas, uma escova de dentes e um sabonete, um ou dois livros e lugar marcado no “transporte do longe”, para fazer a viagem que há muito temia, rumo àquilo que mais detestava e que, para mim, ficava entre nenhures e sítio nenhum.
Ainda não tinha acabado de trepar o estribo e já o meu pé esquerdo (só podia...) se rebelava e deixava cair o sapato no chão, o que me fez dizer para a abotoadura: Este ainda não experimentou a botifarra e já está a protestar...
Mal eu sabia que se tratava de uma premonição das inúmeras vicissitudes porque iria passar o dito pé esquerdo.
Quando ao fim de algumas horas cheguei ao local de destino, já tinha havido tempo de partilhar com outros, não só as ansiedades, mas também as estratégias de sobrevivência para os próximos, no mínimo, três meses.
Assim que pus o pé esquerdo (superstições) no solo, logo um indivíduo, vestido de verde e com uma voz tonitruante, proferiu de supetão uma frase demolidora que vibrou nos meus ouvidos, qual martelada numa bigorna e me fez tropeçar num lancil: -Cigarros apagados e tudo encostado à parede!!!
A coisa prometia. Seguiu-se uma curta marcha até um edifício manhoso e escuro que nos escancarou um largo portão, cujos gonzos produziam um som sinistro, para nos receber com a frieza própria de uma tarde invernosa e cinzenta de doer.
Decorridos breves instantes, dei por mim no meio de um recinto enorme, rodeado de paredes soturnas com muitas portas e janelas, de uma das quais saía um cheiro pestilento a qualquer coisa, que mais tarde vim a saber -mas não a provar- que se tratava de feijão com couves (de sublinhar que esse odor se manteve durante os três meses em que 'frequentei' o local).
Não vomitei a sanduíche que tinha engolido momentos antes, porque, bem avisado, já estava numa de “nem nado nem faço ondas”.
E foi exactamente ali, naquela espécie de quintal gigantesco, que nos dispuseram em diversos círculos e nos arremessaram várias peças de vestuário, escolhidas a “olhómetro” por dois indivíduos de catadura desagradável e acentuada proeminência abdominal.
A mim, tocaram-me três botas do pé esquerdo (tinha que ser esse), facto que me obrigou, no dia seguinte, a andar por 'Ceca e Meca' à procura do outro azarento a quem tinham calhado as três botas do pé direito e que, tal como eu, ficou a "apanhar bonés" e corria perigo de queda, à primeira ordem de meia-volta volver.
A propósito de bonés, também fui contemplado com uma boina, que estava para a minha cabeça, como o pneu de um TIR está para um “Fiat 500” -esclareça-se a bem da verdade que a usei até a conseguir trocar, graças a um jornal enrolado a preceito e colado no forro da dita.
Entretanto um outro anfitrião, mais polido, ia dividindo a maralha, em casados e estudantes de um lado e o "resto" do outro.
Mais por tropismo do que por iniciativa própria, tal era a inquietação, acabei por me juntar ao grupo dos primeiros e, dado que não podia mudar de estado civil -lato sensu- no instante, balbuciei timidamente que tinha exames para fazer.
Graças a esse expediente (verdadeiro), como que por artes mágicas, consegui safar-me de pernoitar no casarão imundo, durante aquele abominável trimestre, prerrogativa essa que apenas se aplicava aos milicianos que não faziam parte do tal "resto"...
E foi assim que decorreu o primeiro dia de um longo período de "anestesia dolorosa” que durou exactamente: três anos, três meses, treze dias e meia hora.