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02/05/17

Sacha, outra história

A dona tinha ido comprar umas vitualhas de última hora e como sol batia impiedoso eu e o Sacha recolhemo-nos na sombra da tranqueira da entrada, indiferentes ao vem e vai de quem saia ou entrava.
Entretanto aproximou-se de nós um carro atafulhado de compras,  conduzido por uma senhora generosa em ádipe, que deixou escapar entredentes: Que coisa tão feia! 
Confesso que não obstante ter ficado na dúvida, se o galanteio se dirigia a mim ou ao meu cãopanheiro, não hesitei em retorquir-lhe: Há quanto tempo não se vê ao espelho, minha senhora? Mas ela ignorou a pergunta e dirigiu-se ao jipe (só podia...). 
O sacha mantinha-se impávido, apenas tinha olhos para a porta movível, atento ao regresso da dona. O incidente parecia ultrapassado.
Só que, inesperadamente, perfilou-se na minha frente um lutador de wrestling envergando uma t-shirt M sobre um tronco XXL, que lhe permitia exibir um proeminente palmo de uma espécie depósito arredondado e peludo de cerveja pós-bebida e mais acima uma cabeça emoldurada por um curioso penteado em forma de risco ao meio, bem largo, com farripas a cobrir-lhe o par de orelhas capazes de pedir meças às do meu amicão. 
Nem me mexi. Pudera!...
Também não foi necessário. O sacha percebeu tudo e ergueu-se num ápice, mostrando uma linha longitudinal de pelo eriçado da cabeça à cauda, mas sem emitir um único som.
De imediato ensaiei uma subtil pressão na trela e ciciei-lhe: Senta! Ele, como sempre, aquiesceu. 
O Neandertal também terá antecipado o receio de uma “luta”, sem combinação prévia, e retirou-se mudo como tinha surgido, quem sabe se murmurando que eu tinha acertado em cheio, a senhora já devia ter desistido de dar uso ao espelho e, considerando uma eventual comparação, o Sacha tinha um estalão perfeito. 


Apostila: Num tempo em que se fala tanto em canídeos, et pour cause, não me coibi de trazer à colação esta estória, porque se completam hoje doze anos desde que o Sacha adormeceu e está na hora do passeio virtual.

02/05/15

Sacha, uma história deliciosa

O Sacha ia connosco para todo o lado, exceptuando os locais onde a entrada de cães era interdita.
Como normalmente acontecia, levava-o comigo ao balcão do banco e o meu amicão, imperturbável, mantinha-se sempre ao  meu lado.
Um certo dia, a fila de espera demorou mais tempo do que era habitual e quando chegou a minha vez de ser atendido, ele demonstrou a sua impaciência e zás!
Vá de apoiar as patas no balcão, deixando o funcionário de tal modo assarapantado que logo recuou dois ou três passos.
Para repor a tranquilidade, disfarcei o sorriso e apenas me ocorreu dizer:
Não se assuste porque é um cão muito dócil, apenas não lhe agradam as longas esperas e, como sabe que eu pretendo inclui-lo como membro da conta, está ansioso por preencher e assinar a ficha de titularidade, já que da próxima vez faz questão absoluta de ser ele a comprar a ração.

Apostila: No dia seguinte, o aviso que proibia a entrada a cães já estava afixado na porta da dependência bancária

02/05/14

Sacha


                                                       Foto: jrd

Passaram nove anos desde que o Sacha adormeceu. É de novo tempo de recordar as esquinas e as sombras das árvores que inundavam os passeios, onde cada pedra tinha um encanto diferente e cada portal um novo cheiro.
Aqui vou eu, vagarosamente, como sempre acontecia, enquanto recordo o sorriso de ternura que costumava fazer, pela maneira como ele compreendia tudo o que lhe dizíamos, com excepção de um simples detalhe: Nunca conseguimos explicar-lhe que quando tocavam a campainha da porta, não era necessariamente para ele...


02/05/13

Sacha, hoje de novo e sempre

O Sacha não usava coleira em casa, não gostava. Na rua não se importava, porque sabia que esse adereço fazia parte das regras do jogo, apesar de nunca ter percebido porque é que certos homens -que não eram como ele- não a usavam.
Em casa, dizia-me ele, entre duas lambidelas, à volta do meu pescoço só o teu braço de fiel companheiro.

02/05/12

Sacha

O Sacha deu-me momentos de grande plenitude. Felizmente para mim, que fui capaz de os receber.
Mesmo depois de tanto tempo, o meu eterno 'cãopanheiro' ainda continua a dar-me este espanto e esta comoção de conservar bem viva a sua memória.
Há vivências que não se explicam, sentem-se.

02/05/11

Sacha

O Sacha não se comportava como um ser humano. O Sacha imaginava que nós eramos cães como ele.

02/05/10

Amicão

Hoje, de novo, o que eu gostava era de poder abraçar-te com o olhar.

02/05/09

Da memória (hoje)

"Não vão longe os tempos do gladiador e das suas lutas imaginárias contra tudo o que mexesse por entre veredas e escarpas nas margens do Tejo profundo.
Agora o Sacha está muito fragilizado, o frio demasiado severo, bastou atentar no seu olhar de seta e no abanar das suas orelhas, para que todos entendessemos o caminho do regresso.
É assim; há relações que não são explicáveis, sentem-se e vivenciam-se.
Muitos podem ter um Boxer, mas nem tantos podem saber da cumplicidade do seu olhar humano ou entender o abanar das suas orelhas."
La pipe - 2005

02/05/08

Sacha

........... Foto: jrd


Hoje, de novo.

"Eu e o Sacha gostamos muito de conversar. Trata-se de um velho hábito que nos vem do tempo dos longos passeios à beira mar nas areias do Guincho, quando ambos arrostávamos com a inclemência da ventania e sorvíamos avidamente as gotas de espuma da maré-cheia da nossa felicidade.
Ainda me lembro quando, num repente, ele se detinha junto a uma qualquer concha e começava a escavar furiosamente a quatro patas, de tal forma que, muitas vezes, pensei que só parasse nos antípodas.
Era o tempo da plenitude e da perfeita simbiose entre o cão e o dono; das pausas com palavras ensinadas e aprendidas, das festas da cabeça à cauda, dos olhares, das lambidelas e das patas dadas com a vertigem da pressa de retomar o passeio; das correrias de vai e vem, atrás de um brinquedo, imaginário ou real, de rebolar na areia molhada, aqui e ali, por entre um naco de conversa ou dois gritos/latidos soltados sempre que a distância se fazia longe.
Hoje movimentamo-nos noutros espaços e são outros os tempos e os ritmos, mas havemos de continuar a conversar, Sacha: Quando no repouso do gladiador que sempre foste, vieres deitar a tua cabeça nos meus pés e num suave abanar de orelhas convocares a minha atenção de eterno amigo."
La Pipe - Agosto 2004