Oslo fjord
Quando
chegámos ao deque superior, já os contingentes italiano e japonês
tinham invadido o espaço.
Enquanto
uns gesticulavam "ruidosamente" sobre se seria preferível
instalarem-se antes na proa do ferry, os outros irradiando a simpatia habitual que os caracteriza, entretinham-se a
fotografar-se mutuamente pela enésima vez e distribuíam, divertidos, chapéuzinhos e casacos por tudo o que era cadeira.
Assim
sendo, sem problemas de consciência e fazendo jus ao velho atavismo
dos cordões do desenrasca, não hesitámos em nos lançar numa
abordagem, tipo raide, a umas cadeiras menos expostas, mudar os
acessórios para outras e deslizar subtilmente para a primeira fila
de mesas, a dois passos da popa. Os simpáticos nipónicos haveriam
de resolver o problema, do que era de quem, pacificamente, como é
seu apanágio.
Esperavam-nos
dezasseis horas de viagem de regresso a casa, o final de tarde estava
agradável e, enquanto fosse dia, era ali que estaríamos bem a ler,
a conversar e a deleitar-nos com a beleza do Fiord de Oslo.
Mal
nos tínhamos instalado, com aquele ar triunfante que, como bons
portugueses, costumamos assumir sempre que se trata de celebrar os
feitos gloriosos da navegação, quando, surgido sabe-se lá de que
portaló, se instalou à nossa frente, bem junto à amurada, um
autêntico muro, não da “vergonha”, porque isso já lá vai, nem
tão pouco dos “sem vergonha”, como o da Cisjordânia e o de
Tijuana.
Era
sim, uma cortina de carne e osso que apontava, em média para os 1,90
m e cujo revestimento de ádipe, reflectia à saciedade o culto dos "big mac" na pátria do caviar. Uma boa dúzia de russos, opacos e
da pesada, autênticos "armários" com ar de novos-ricos da
era Putin, verdadeiros filhos de esturjão com aspecto de
intrujão, que não possibilitaram qualquer “glasnost” capaz de
nos permitir desfrutar da paisagem, sem ficar com uma espécie de
torcícolo de tanto nos esticarmos.
Por
uma vez o palpite marinheiro falhou, não ganhámos nada em sair de
Oslo de costas, só para termos a ilusão de que ainda estávamos a
chegar.
Texto revisto