Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!
Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E a ânsia de o conseguir!
Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.
Fernando Pessoa
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01/12/13
21/08/13
Um táxi com Pessoa(s) dentro...
O táxi chegou num instante, como é norma acontecer em Copenhaga, o motorista, solicito, disponibilizou-se de imediato para nos ajudar com a bagagem, atitude essa que já não é tão habitual, porque os escandinavos têm muitas qualidades, mas a gentileza não é propriamente um dos seus atributos mais característicos, ou melhor, o seu conceito de amabilidade é muito diferente do nosso.
Após termos iniciado o percurso, apercebi-me que, enquanto conduzia, nos ia observando atentamente pelo retrovisor e logo que nos ouviu falar, rasgou um largo sorriso e de pronto nos interpelou: Portugueses?... Lisboa?...
Perante a resposta afirmativa, acentuou ainda mais o sorriso, disse-nos que tinha visitado recentemente a nossa cidade e deixou-nos verdadeiramente espantados, quando, em lugar de tecer os habituais elogios ao sol e à cozinha portuguesa, o nosso simpático interlocutor proferiu a seguinte e surpreendente exclamação: Fernando Pessoa, A Great Poet!
A partir daí foi sempre a guiar, perdão, a desfiar, falou-nos das seis obras do poeta traduzidas para dinamarquês, de como lamentava não conhecer a nossa língua porque, sublinhou,"Traduttore traditore", sobretudo em poesia, enquanto dava uma ênfase muito especial à enorme admiração que nutria pelo poeta.
Depois prosseguiu com entusiasmo citando a Lisboa antiga e histórica, o Bairro Alto, o Chiado, até que, claro, “chegou” à Brasileira, para, de supetão, se referir a estátua e questionar-nos sobre a sua existência no exacto local onde se encontra, sempre tão cheio de gente, sugerindo mesmo que sendo o poeta um ser solitário não iria provavelmente concordar com o sítio escolhido.
Depois prosseguiu com entusiasmo citando a Lisboa antiga e histórica, o Bairro Alto, o Chiado, até que, claro, “chegou” à Brasileira, para, de supetão, se referir a estátua e questionar-nos sobre a sua existência no exacto local onde se encontra, sempre tão cheio de gente, sugerindo mesmo que sendo o poeta um ser solitário não iria provavelmente concordar com o sítio escolhido.
Devo confessar o nosso embaraço, já que nunca tínhamos analisado a situação sob aquela perspectiva.
Ainda esboçámos um comentário acerca da simbologia que constituía o local de culto e a forte ligação de Pessoa àquele espaço. Nem assim, o nosso interlocutor ficou convencido.
Entretanto, o percurso aproximava-se do fim, mas ainda houve tempo para trazer à colação Saramago e sugerir um livro a propósito: "O ano da morte de Ricardo Reis" (Det år Ricardo Reis døde).
Retorquiu-nos que já sabia que o livro estava editado na Dinamarca e que fazia tenção de o ler, assim como uma edição prestes a ser publicada de o "Livro do Desassossego (Rastløsheden bog) de Fernando Pessoa/ Bernardo Soares, que apenas conhecia em inglês.
Por fim e para nos deixar completamente estupefactos, “ensinou-nos” que o poeta tinha escrito sob setenta e dois nomes diferentes, entre heterónimos e personagens fictícias.
Já sabíamos da existência de muitos “Pessoanos”, verdadeiros conhecedores, oriundos destas paragens, mas este foi o primeiro que conhecemos tão de perto.
Nota de roda-pé: O simpático vicking, confessou-nos com alguma decepção, que se sentiu enganado aquando da chegada a Lisboa, porque um seu colega de profissão lhe cobrou quatro vezes mais para o levar do aeroporto ao hotel, do que o preço que pagou pelo percurso inverso quando terminou a estadia na Capital.
(Sentimos alguma vergonha).
(Sentimos alguma vergonha).
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