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22 julho, 2024

Pétala nº 3827


“Fui para Paris em meados dos anos setenta e fui ali muito pobre e muito infeliz. Gostaria de poder dizer que fui feliz como Hemingway: «Paris nunca se acaba, e a memória de cada pessoa que ali viveu é diferente da memória de qualquer outra (…)  éramos muito pobres e muito felizes”

«Depois de se viver em Paris, fica-se incapacitado para viver em qualquer sítio, Paris incluído.(John Ashbery)
O passado, dizia Proust, não só não é fugaz, como não sai do sítio. Com Paris passa-se o mesmo, nunca partiu em viagem. E ainda por cima é interminável, nunca se acaba.” 
“Que Paris nunca acabasse deve ter sido para Quiroga (…) um verdadeiro pesadelo. Vejam o que escreveu no seu diário: “Que angústia tão grande! Há momentos em que quase choro. E acontecer-me isto em Paris, sem ter uma única pessoa a quem recorrer! Cada dia que passa, em vez de ter mais esperança, é mais escuro»

“Pensem quais podem ser as razões básicas para o desespero. Cada um de vocês terá as suas. Proponho-vos as minhas: a volubilidade do amor, a fragilidade do nosso corpo, a opressiva mesquinhez que domina a vida social, a trágica solidão em que no fundo todos vivemos, os reveses da amizade, a monotonia e a insensibilidade que andam associadas ao costume de viver. No outro lado da balança, encontramos Paris. Essa cidade, talvez porque nunca se acaba e porque, além disso, é maravilhosa, pode com tudo, pode com todas as causas que ao homem se deparam para ser infeliz.” 

 “… quando me ouvirem dizer (…) que Paris nunca se acaba, o mais provável é que o esteja a dizer ironicamente.”
“Uma frase de Rilke «Conquistai as profundidades, a ironia não desce aí.» E uma de Jules Renard: “A ironia é o pudor da humanidade.» Vou ser sincero: as duas frases, por muito discutíveis que sejam, parecem-me perfeitas. Embora da que mais goste seja a minha: «A ironia é a mais elevada forma de sinceridade». 

ENRIQUE VILA-MATAS, escritor espanhol (1948-), in “Paris Nunca se Acaba”(2003), Ed. Teorema, 2005

(“Paris nunca se acaba” é uma revisão irónica dos tempos de aprendizagem literária do narrador na Paris dos anos setenta, e é também o título do último capítulo de "Paris é uma festa", romance póstumo de Ernest Hemingway, publicado tem 1964.)

ERNEST HEMINGWAY, escritor norte-americano (1899-1961) - Prémio Nobel de Literatura, 1954
JOHN ASHBERY, poeta norte-americano (1927-2017)
MARCEL PROUST, escritor francês (1871-1922)
HORACIO QUIROGA, escritor /contista uruguaio (1978-1937)
RAINER MARIA RILKE, poeta e romancista austríaco (1875-1926) 
JULES RENARD, escritor francês (1864-1910)


Paris? 
Gosto tanto de Paris.
A melhor cidade quando se está apaixonado, a pior quando não se está.”

PATRÍCIA REIS, jornalista e escritora portuguesa (1970 -), in
Chave de entendimento para uma sinfonia perdida”, Ed. Expresso, 2018 


(fotos PIXABAY)

08 julho, 2024

Pétala nº 3825

"Walter Benjamin disse que um anjo nos recorda tudo o que esquecemos."
(Enrique Vila-Matas, in "Paris Nunca se Acaba")


“Não é por envelhecermos que esquecemos.”

“Uma lembrança nunca morre, apenas adormece.”

VALÉRIE PERRIN, escritora francesa (1967-), in "A breve vida das flores", Ed. Presença, 2022


"A memória é voluntária e o esquecimento também.”

"A minha maneira de lidar com a memória é confiar-lhe unicamente aquilo que ela depois tem orgulho em recordar.”
 
“Dizem que, à medida que envelhecemos, nos lembramos melhor dos primeiros anos. Eis uma das muitas e grandes ciladas que nos aguardam: a vingança senil.” 

JULIAN BARNES, escritor inglês (1946-), in “Amor & Cª”, Ed. Quetzal, 2023 


“… os velhos, como tirando isso não têm mais nada para fazer, contam o passado como ninguém. Não vale a pena procurar nos livros ou nos filmes: como ninguém.”

“… quando um velho morre é uma biblioteca que arde…”

VALÉRIE PERRIN, escritora francesa (1967-), in "os esquecidos de domingo", Ed. Presença, 2023


(Fotos: PORTUGAL/Cascais - São Pedro do Estoril, 2024)

27 novembro, 2023

Pétala nº 3795

"Salvar qualquer coisa do tempo onde não voltaremos a estar." - (2)
(Annie Ernaux, in "Os Anos")


1950, 1960, 1970, 1980...

"O progresso era o horizonte de todas as existências."

"As pessoas afirmavam «isto está a mudar» ou «é preciso não embrutecer, se ficamos em casa ficamos estúpidos."

"Queixávamo-nos aos pais, «nunca vamos a lado nenhum!», e eles respondiam admirados «Onde é que queres ir, não estás bem aqui?»"

“Pensar, falar, escrever, trabalhar, existir de outro modo: julgávamos não ter nada a perder por experimentar tudo.”

"Tudo o que era ligeiro, frívolo, instantâneo, estava na moda."

“Centro Comercial… lugar mais importante das nossas vidas, o da inesgotável contemplação dos objetos, do gozo sereno… lugar de emoções rápidas e incomparáveis, curiosidade, surpresa, perplexidade, inveja, desgosto – de lutas rápidas entre as pulsões e a razão."

"Recordávamos a crítica dos nossos pais: «E não te chega para seres feliz tudo aquilo que tens?»

ANNIE ERNAUX, escritora francesa (1940-), in "Os Anos", Ed. Livros do Brasil, 2020
Prémio Nobel de Literatura, 2022

(Frases soltas encontradas nas 196 páginas do livro.)



(fotos net)

23 outubro, 2023

Pétala nº 3790

"Salvar qualquer coisa do tempo onde não voltaremos a estar." - (1)
(Annie Ernaux, in "Os Anos")


1950, 1960, 1970, 1980...

“Éramos ultrapassados pelo tempo das coisas.” 

“O tempo das coisas sugava-nos e obrigava-nos a viver sem parar…” 

“E não se envelhecia. Nenhuma das coisas à nossa volta durava tanto que pudesse ascender à condição de envelhecimento, eram substituídas, renovadas o mais depressa possível. A memória não tinha tempo para as associar a momentos da existência.”

“Ainda que se dissesse «toda a gente utilizará a informática», não tínhamos a mínima intenção de ter um computador. Era o primeiro objeto perante o qual nos sentíamos inferiores.”

"Vivíamos mergulhados na profusão de tudo, da informação geral à opinião de «peritos».

"Tudo se discutia e desencriptava." 

"O repertório dos saberes comuns aumentava."

"Algures no mundo havia mulheres a cobrirem-se com véus da cabeça aos pés."

ANNIE ERNAUX, escritora francesa (1940-), in "Os Anos", Ed. Livros do Brasil, 2020
Prémio Nobel de Literatura, 2022

(Frases soltas encontradas nas 196 páginas do livro.)



(fotos net)

16 outubro, 2023

Pétala nº 3789

“O passado nunca está morto. Nem sequer passou.” 
(William Faulkner, citado por Daniel Sokatch, in "Israel")


"O que se faz com um miúdo… que descobre subitamente os factos da vida e da morte?" 

“O que se faz com uma criança que com o seu dinheiro de bolso, compra um pequeno bloco laranja e aponta nele diariamente, a lápis, quantos israelitas restam depois do último atentado terrorista." 

"E um dia descobriu que uma parte dos israelitas são árabes…. 
Que os seus cálculos estavam todos errados, e que tinha de deduzir os árabes israelitas do número total dos israelitas."

"… que é possível viver uma vida inteira sem que essa vida tenha algum sentido." 

 "… uma vida que em nada nos faz sofrer nem nos dá realmente prazer. É viver por viver. Porque por acaso não estamos mortos.” 

DAVID GROSSMAN, escritor israelita (1954-), in “Até ao fim da terra”, Ed. Dom Quixote, 2012


“Invadiu-me de repente um terror daqueles que se sente apenas frente à negrura humana.” 

“Talvez a vida não seja de facto para todos.”

DAVID GROSSMAN, escritor israelita (1954-), in “A vida brinca comigo”, Ed. Dom Quixote, 2020

“… tal como aconteceu no passado, a história de Israel continuará a ser escrita em tons cinzentos.”

DANIEL SOKATCH, judeu, activista americano (1968-), in “Israel”, Bertrand Editora, 2021

(fotos net)

15 maio, 2023

Pétala nº 3772

“O que se passa com o presente que está sempre ansioso por julgar o passado?" 
JULIAN BARNES, escritor inglês (1946-), in “O homem do casaco vermelho”, Ed. Quetzal, 2021

“O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente...” 
MÁRIO QUINTANA, poeta brasileiro (1906-94)


(MALDIVAS, 2022)



15 novembro, 2022

Pétala nº 3671

“Acho que faz sentido que as pessoas olhem para trás com nostalgia, para um tempo antes de o mundo natural ter começado a morrer, antes de as nossas formas de cultura partilhadas terem sido reduzidas a marketing de massa e as nossas cidades e burgos se terem tornado verdadeiros centros de trabalho anónimos.” 

SALLY ROONEY, escritora irlandesa (1991-), in "Mundo Belo, onde Estás" (Beautiful World, Where Are You, 2021), Ed. Relógio D'Água, 2021


14 outubro, 2021

Pétala nº 3363

"COM A IDADE, TENDEMOS A OLHAR PARA O PASSADO em jeito de balanço, mas, curiosamente, arrependemo-nos sobretudo do que não fizemos nem vamos já a tempo de fazer. Cá em casa, tentamos, mesmo assim, combater o vazio mostrando um ao outro o que foi a nossa vida antes de estarmos juntos. (…) Adeus, futuro."  (Crónica: "Os deuses das moscas"

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA, editora, escritora, poetisa e letrista portuguesa (1959-), in "Adeus, futuro", Ed. Quetzal, 2021

20 setembro, 2021

Pétala nº 3345

As camadas da nossa vida repousam tão perto umas das outras que no presente adivinhamos sempre o passado, que não está posto de parte e acabado, mas presente e vivido.” 

BERNHARD SCHLINK, escritor alemão (1944-), in “O leitor”, Ed. ASA, 2009

14 abril, 2021

Pétala nº 3241

“A memória é uma armadilha, pura e simples, que altera, e subtilmente reorganiza o passado, de forma a se encaixar no presente.” 
MARIO VARGAS LLOSA, escritor peruano (1936-), in “Cinco esquinas”, Ed. Quetzal, 2016 
Prémio Nobel de Literatura, 2010

19 março, 2021

Pétala (s) nº 3215

“Olhar insistentemente o passado é mórbido, mas fugir dele é cobardia envergonhada.” 
 ROGÉRIO G.V. PEREIRA, https://conversavinagrada.blogspot.com/




02 março, 2021

Pétala nº 3200

“quem muito olha  o passado pode ficar preso dentro dele” 
ANA MARGARIDA DE CARVALHO, escritora portuguesa (1969-), in “O gesto que fazemos para proteger a cabeça” , Ed. Leya, 2019

26 fevereiro, 2021

Pétala nº 3196

“Temos que deitar abaixo o passado 
e tal como se constrói
andar por andar, janela por janela, 
e o edifício sobe 
assim, vamos descendo 
telhas quebradas primeiro, 
depois orgulhosas portas, 
até que do passado 
começa a sair pó 
como se se batesse
contra o chão"
PABLO NERUDA, poeta chileno (1904-73), versos do poema “Passado”. 
Prémio Nobel de Literatura, 1971

12 outubro, 2020

Pétala nº 3060

“O passado não retorna, mas, o Mundo bem que deu suas voltas por lá!"
DOUGLAS MELO, conhecido no seu blogue "DOUG-BLOGcomo  Doug, é um jornalista, escritor, blogueiro, professor/PhD (Philosophiæ Doctor) brasileiro (1970-)

20 agosto, 2020

Pétala nº 3008

“…não recuperamos o passado, recriamo-lo, transformamo-lo em dramaturgia. A memória adapta, vai colorir, adornar, mistura cimento com arco-íris, faz o que for preciso para que a história funcione.” 
MARÍA GAINZA, crítica de arte e escritora argentina (1975-), in “Hotel melancólico”, Ed. D. Quixote, 2019

14 agosto, 2020

Pétala nº 3002

"Que coisa monstruosa é o nosso passado, em especial se foi excitante.” 
MARÍA GAINZA, crítica de arte e escritora argentina (1975-), in “Hotel melancólico”, Ed. D. Quixote, 2019

31 maio, 2020

Pétala nº 2928

“A história é émula do tempo, repositório dos fatos, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro.” 
MIGUEL DE CERVANTES, escritor espanhol (1547-1616)

21 maio, 2020

Pétala nº 2918

“Sem pressa, o tempo transforma tudo em passado.”


DOUGLAS MELO, conhecido no seu blogue "DOUG-BLOGcomo  Doug, é um jornalista, escritor, blogueiro, professor/PhD (Philosophiæ Doctor) brasileiro (1970-)

08 março, 2020

Pétala nº 2844

“Somos demasiado impertinentes com o passado.” 
JULIAN BARNES, escritor inglês (1946-), in “O papagaio de Flaubert”, Ed. Quetzal, 2019

02 março, 2020

Pétala nº 2838

“O passado é uma costa distante que se afasta e nós estamos todos no mesmo barco.” 
JULIAN BARNES, escritor inglês (1946-), in “O papagaio de Flaubert”, Ed. Quetzal, 2019