quinta-feira, 23 de abril de 2009

O dia de hoje...

Pois é verdade, vou por aí, até Braga, onde me leva o generoso convite do meu querido amigo António Levy Ferreira e onde falarei à Rádio Universitária do Minho, no seu, dele, António, precioso progama Livros com Rum, e, depois, convivirei no Estaleiro Cultural Velha-a-Branca, com aqueles que estiverem disposto a conversar comigo.
Convites que me tocam e honram.
Dali, subo à Galiza, a ver Santiago de Compostela, os ossos de São Tiago e a imaginar a maravilhosa poetisa galega Rosalia de Castro, por ali, a versejar.
Cumprimentados os fantamas do Santo e de Rosalia, refugiar-me-ei no Gerês.
Isso significa que Sobre o Risco estará "fechado" até ao próximo dia 30. Um abraço!

quarta-feira, 22 de abril de 2009

A beleza inatingível


Ninguém terá feito mais pela divulgação da obra-prima de Thomas Mann, “Morte em Veneza”, do que o realizador italiano Luchino Visconti, apresentando outra obra-prima, inspirada na novela e com o mesmo título. Quando, hoje, procuram Veneza e a sua praia, ou o Lido, ou o “Grand Hotel des Bains”, aqueles que sabem -e são bastantes- mais depressa lhes ocorre o nome do italiano do que o de Mann (ou o de Mann por acréscimo). Quase se poderia dizer que “Morte em Veneza” mudou de dono. E, no entanto, é, de facto, uma das melhores criações do autor de “A Montanha Mágica”. Mas os admiradores do alemão e do italiano, que vibram, nas páginas da novela e nas cenas do filme, eventualmente, nas ruas de Veneza, com Gustav Von Aschenbach e o jovem Tadzio, hão de interrogar-se sobre a veracidade da história. Pois bem, ela aconteceu. Atenho-me às memórias da mulher do escritor, Katia Mann, “Souvenirs à bâtons rompus” (Albin Michel, 1975). No fim e ao cabo, a literatura limita-se a reproduzir, para lhe surpreender, os segredos, a vida. E, a grande literatura abre-nos janelas que nem sonhávamos, revela-nos pequenas-profundas coisas que desconhecíamos. Vamos aos factos.

Em 1911, Thomas Mann e Katia chegam de barco a Veneza. E, tal qual no livro, à vista da cidade, um dos passageiros, agita-se, pintado e mascarado como um palhaço. Em terra, contratam uma gôndola, que os leva ao Lido. À chegada, alguém os informa de que se tratava de um gondoleiro clandestino, “muita sorte tinham tido em não lhes acontecer nada”. E, no salão do “Grand Hotel”, depara-se-lhes “uma família polaca”, conta Katia Mann, “que correspondia, exactamente, à descrição que meu marido fez dela: meninas muito sérias e um rapaz de cerca de treze anos, encantador, lindo como o sol, sempre vestido à marinheira, com uma bonita blusa azul de gola branca aberta. A sua figura impressionou muito o meu marido. Logo nesse instante, se sentiu atraído pelo adolescente, que o encantou. E nunca mais deixou de o observar a ele e aos camaradas de jogos, na praia. Não o seguiu por Veneza, isso não, mas o rapaz fascinara-o e pensava constantemente nele”. Depois, Thomas Mann e Katia deixariam, episodicamente, Veneza. No regresso, reencontrariam os polacos. Uma epidemia de cólera obrigaria à partida definitiva e à separação. Anos mais tarde, a filha de Mann, Erika, recebeu uma carta de um aristocrata polaco a dizer-lhe que lera a tradução de “Morte em Veneza” e se reconhecera na figura de Tadzio.

O resto será ou não verdadeiro. Mann tencionava debruçar-se sobre Goethe e o seu último amor, em Marienbad, que, em 1939, lhe serviria para o romance “Lotte em Weimar”. Em vez disso, aproveitou, imediatamente, a experiência veneziana (a novela saiu em 1912). Uma história de amor e de beleza impossível porque a beleza se admira mas não se conquista. A decadência de Aschenbach e a juventude triunfante de Tadzio simbolizam o artista exausto de tentar fixar o absoluto e a cruel indiferença e impudicícia deste. Ou porque Aschenbach não ousa, ou porque o adolescente lhe foge, Tadzio limita-se a conduzir o artista ao desastre e à morte. Enquanto contempla Tadzio, despedindo-se, antes do fim, Gustav Von Aschenbach poderia deixar-lhe a mensagem que, em “Lotte em Weimar”, Mann registou: “Se me queres a luz contra a qual se precipita a borboleta, sê-lo-ei, mas, também, na recíproca mutação das coisas, serei a vela acesa, que sacrifica o próprio corpo para que a luz brilhe, a borboleta inebriada que se consume na chama”.


Aviso à navegação

Bater na tecla da ingovernabilidade é abrir o caminho do autoritarismo e fazer o jogo dos prepotentes.
Creio que não digo nada que não se saiba. Mas é sempre melhor lembrar certas coisas.
Sobretudo, num país com apenas 35 anos de democracia -arrancada a quase 50 anos de ditadura.

Pétala de Rosa, poema de Afonso Duarte



Pétala de rosa! Olha,
Do velho poeta, não rias;
Guarda-a na folha
Do livro que se lê todos os dias.

Amor, não o sacies,
Não venhas a perdê-lo;
Põe pelo sinal um fio de cabelo
Na carta que me envies.

Foges-me da vida:
E na menina dos olhos,
Achada ou perdida,
Ali sempre te encontre, de sonho vestida.

Que importa o sol tão alto,
Que dê a luz do dia?
O sonho, seja irmão da loucura,
É o que dá poesia.
in O Anjo da Morte e Outros Poemas

terça-feira, 21 de abril de 2009

O dia de hoje...


O Ocidente entrou em agonia... Quando se escrevem coisas destas, corre-se o risco de parecer que se enchem chouriços, com palavras soltas ou lugares-comuns pimpões. Mas eu queria dizer, e passo a explicar: o mundo ocidental, a Europa e o Norte das Américas, o mundo onde vivemos sacrifica, sempre mais, ao bezerro d’oiro: às coisas. Coisas descartáveis, perecíveis e ocas. De nós e dos outros não queremos saber –fugimos. A vida interior, o espírito, a Cultura vão-se apagando. Atiraram-nos para cima, impuseram-nos objectos, que nos divertem –nos distraem do essencial. Pois claro, amigo, penso no consumo –no consumismo frenético (agora, refreado pela tal crise que a ganância imoral dos plutocratas criou). E tudo acontece, vertiginosamente: um dia, uma semana, um mês, uma ano –não são nada. Ou fica-nos, deles, apenas, a insatisfação, a angústia, o sofrimento, que o vazio provoca. E as nossas vidas são vazias: escravos de um sistema no qual ou somos peça de máquina que produz, ou somos consumidores dos produtos produzidos. Em 1941, um romancista francês, Paul Morin, escreveu L’homme pressé, retrato do homem apanhado na velocidade gratuita do quotidiano em que não interessa pensar, interessa atingir, usar e deitar fora sensações superficias, suficientemente breves para que dêem logo lugar a outras novas e, também ,vazias, que não ocupem, também, demasiado espaço, nem nos obriguem a interrogar-nos sobre elas. De 1941 para cá (e deveremos ler o romance de Morand como relato ferido da vacuidade dos famosos “anos loucos”, que, por exemplo, o grande Scott Fizgerald fixou, na América, e correram de 1920 até 1939), desde a segunda grande guerra a este momento, a pressa do homem foi mais e mais explorada pelos tais ávidos compradores de almas -os donos do capital. Dirás, amigo, que a febre d’oiro, que lança o homem na acumulação de bens e consequente poder –é mais um modo de fugir de si próprio. Claro que é! Mas de forma eminentemente criminosa: à custa do próximo. Restam as elites. Choca-te, que o diga? Mas digo a verdade, não temo a palavra! Restam aqueles que se opõem à nova escravatura consentida, aos suicídio colectivo –à destruição da vida e do mundo. Aqueles que recusam o deserto dos dias, a degradação da paisagem, o egoísmo, a indiferença, a solidão. Apesar desses que o fazem sofrerem solidão: isolamento: e penso em mestres, como António Sérgio, José Régio, André Gide, Albert Camus, Thomas Hardy, Virginia Woolf, Doris Lessing, Ibsen, Tchekov, o santo Dostoievski, o imenso Antero de Quental -assim, ao acaso, penso... Recordo obras nossas, como A Velha Casa, do citado Régio, os contarelos geniais de Irene Lisboa, a poesia de Afonso Duarte, os Ensaios, de Sérgio, que dormem, esquecidos, nas prateleiras de bibliotecas ou daqueles, cada vez mais raros, que interrogam o sentido da vida e não querem transformar-se em objectos, cheios dos objectos que lhes impõem.
Tanto fica para discutirmos!... E é fundamental debater, discutir!

Talvez...

Talvez não seja uma infelicidade interessar leitores, ainda hoje, o texto Dialogar e abafar... A realidade da imigração é uma questão essencial, que tende a alargar-se e aprofundar-se. Haver quem se interesse por analisar e debater essa questão -é uma felicidade! A imigração, porém, pode não ser, muitas vezes, uma felicidade, para aqueles que imigram: porque o subdesenvolvimento e a miséria e a injustiça reinantes nos seus países é o que os obriga a imigrar; porque os países que procuram não sabem recebê-los... Se me perguntarem se, apesar disso tudo, o fenómeno da imigração é irreversível, não hesito: é ireversível e bem vindo. Há mundos mortos e mundos vivos e o Ocidente entrou em agonia (cultural e, por isso, demográfica) e a tendência é enterrar os mortos e ajudar os vivos..., que, aliás, pelo próprio pé, e por necessidade, irão ocupar os lugares que agonizantes e mortos deixarem vagos....

Dialogar e abafar

este texto foi escrito há uns anos, mas, infelizmente, parece-me poder interessar quem, hoje, o leia...

Dialogar e abafar são coisas muito diferentes. E, num artigo de “El País”, assinado por Hermann Tertsch, encontrei as razões de retomar o problema da imigração, na semana passada aqui abordado a propósito da menina marroquina a quem tinham proibido o uso do lenço árabe. Nada tem de fácil, antes pelo contrário, é assunto muito delicado; ora veja-se: deve-se permitir e encorajar o estabelecimento de grupos culturalmente diferentes, a enquistarem-se na diferença, em países que os recebem? Essa atitude não ameaçará a estabilidade do Estado? Não se constituirão tais grupos em espécie de “tribos” fechadas, incomunicáveis -intolerantes e agressivas e entrincheiradas na diversidade? E, vindas de sociedades politicamente desequilibradas, não se agravará o seu imobilismo e a permanência de injustiças e desigualdades, dogmatismos, uma vez que muitos chegam de países sem democracia? Eu não afirmo: pergunto, levanto a dúvida. O leitor pensará de outra maneira. Ainda bem -como diria Mestre António Sérgio-: se todos gostassem do amarelo instalar-se-ia o pensamento único.

Cabe, assim, ao Estado que recebe impor -“imperializar”- a sua cultura? Princípios, regras, costumes? Deverá ele proibir todas as exteriorizações da diferença? Deverá obstar à afirmação do Outro -do imigrante, que, afinal, aceitou por carência de mão de obra, por conveniência? E, depois de o atrair, recusar-lhe a individualidade, a singularidade? O imigrante não é uma simples peça de máquina, objecto desalmado, frio, e não o será nunca porque nenhum homem o é. Recusar ao imigrante a identidade -a diferença- significa, no fim e ao cabo, empurrá-lo para outro gueto, armazém de ferramentas -em que se quis transformar o Indivíduo-, de utensílios industriais ou agrícolas. Obviamente, o leitor também não aceita essa solução.

Hermann Tertsch distingue entre multietnicismo e multiculturalismo. Se eu entendi, o primeiro representa a convivência de mais do que um grupo diferentemente caracterizado; o segundo, a existência, na incompatibilidade, em dado espaço, desses grupos. E lá nos encontraríamos, no segundo caso, diante de “tribos”, fechadas sobre elas próprias, surdas e mudas no que diga respeito ao exterior, doentes de heterofobia: mais uma vez, de incapacidade de aceitar o Outro. Tersch acaba por nos deixar uma pista: a do diálogo. Porque a multietnicidade implica e exige respeito mútuo e diálogo, suprimir o racismo. Sim: dialogar -eis o motivo da evolução criadora das civilizações, que assentam na trocas e simbiose cultural, não em holocaustos.

O dia de hoje...


Estas linhas de Antero de Quental, colhidas nas preciosas -de leitura e meditação obrigatórias- “Cartas” (Universidade dos Açores/ Editorial Comunicação)

“O essencial é o mundo interior, porque o outro é em toda a parte para muito pouco”.

“Este trabalho é triste como todo o trabalho moderno, forçado, partido e dividido, desnatural e injusto.”

Pergunto: que é feito do nosso “mundo interior”, isto é, de nós próprios, dos nossos sonhos e vocações –escravos deste, de hoje, trabalho desumano, que nos dão por esmola e sujeitos a que nem isso nos dêem?

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Sónia e o Milord


Dizia-lhe sempre: Milord, e não aceitava gorjeta. Depois de três vezes, nunca mais lhe disse: Mi fai un regalino? Ele vinha por ali e viu-a esplêndida, com os cabelos de oiro. Estava à esquina e sorria. “Vem... Queres divertir-te?” Era frágil, na saia apertada, nos olhos azuis, nos sapatos altos. “Já aqui passaste tantas vezes”, continuou ela, “nunca me viste?” Ele já a tinha visto e, por isso, estava ali. Ela entrou e disse: “Cheira a novo o teu carro, cheira bem”, e pôs a mão no assento. Ele cortou à esquerda, deixando Santa Trinità dei Monti à direita. E lá foram para a pensão. Quando ela começou a despir-se, fê-lo com delicadeza: brilharam as coxas doiradas e o peito pequeno, também o olhar, que desviou do dele. Ela tinha escondido o olhar num canto do quarto. “Aqui é confortável”, disse. E ele pensou: o que é que é confortável?, o que lhe pago?, esta cama com molas?, ou o prazer que vou ter? A porta do quarto tinha uma bandeira de vidro e deixava passar a luz do corredor, mas ele nem reparava: Sónia ia-se despindo à sua frente. Viu como se despia: o sorriso, a mão que acompanhava a meia até ao calcanhar, o branco dos lençóis, por detrás do corpo. Viu como ela se deitou de costas, à espera dele. E ele deitou-se em cima dela. As mãos dele agarraram-lhe os ombros e a boca meteu-se-lhe na dela. Foi assim, muitas vezes. Uma vez, ficou-lhe a impressão de que também ela gozara: prendeu-o, com as pernas, depois de ele ejacular e continuou a mexer-se. No frenesim dos músculos que tremiam e do suor que lhe humedecia os seios, ela poderia ter dito: “Milord, és o Rei!” E a verdade é que ele lhe dissera: “Queres viajar comigo?” Talvez por isso já não fosse a preço, ou fosse a preço para os dois. Ele dava-lhe aquela companhia. “Queres ir a Veneza? Amanhã, vamos ver São Marcos e as pombas...” E ela respondia-lhe com o prazer que lhe pertencia e que era como o dele, mas um bocadinho depois. Ela era bela e ele estava bem ao pé dela. Se fossem a Veneza, ela podia deixar que a laguna lhe servisse de fundo e ele poderia olhá-la e ficar contente. E ela podia imaginar que ele a amava. Mas ela disse-lhe que não, que não iria a Veneza. Com o cabelo caído para a cara, a tapar-lhe as sardas, disse-lhe que não pusesse os pés descalços no frio do quarto: “Pode fazer-te mal...” Havia uma cama, um lavatório, um bidé e um candeeiro pendurado do tecto. Um bidé. Um cesto. Só então se apercebeu da pobreza. “Que importa?” E esperou que ela dissesse: “Sorri, ri, canta!” Ela não disse isso: enquanto tirava as pernas para fora da cama, espreitava-o e troçava: “Estás a chorar? Como devia ser bela a doce dos olhos meigos!... Destruiu a tua vida?” Ele não chorava: era o scirocco, o vento suão, que o perseguira todo o dia. Ele tinha consigo pêlos do seu corpo, um pouco da sua saliva, tinta na ponta do nariz. E o que é que ela sabia da sua vida? Que se levantasse, que tirasse as pernas da cama, que pegasse no dinheiro! Mas a bondade dos gestos, a maneira como ela começava a preparar-se para voltar à rua e aceitava separar-se dele, a linda cor do corpo, despertavam-lhe, outra vez, a ternura e o desejo na alma. “Vem comigo, está frio lá fora... e o amor faz chorar...” –dissera-lhe, a compor-lhe a gravata. Ela com os cabelos loiros, a roupa que não parecia dela, porque não parecia uma prostituta. Estavam-lhe todas as coisas a mais: a blusa acanhada, as pinturas na cara, a mala debaixo do braço. Parara o carro. Metera-a lá dentro. Tivera-a. Pagara-lhe. Ela, agora, ia embora. Ia pôr-se aos pés de Santa Trinità dei Monti, ali, encostada à esquina.

in Crónicas Italianas

Via dei Portoghesi


A Rua dos Portugueses, Via dei Portoghesi, é uma mini-artéria romana, perpendicular à Via della Scrofa e a acabar na Torre della Scimmia, que tem à sua direita a Via dei Pianellari e, à esquerda, a Via dell’ Orso. O nome da Torre -ali trabalhava e conversava (e talvez trabalhe e, se trabalha, continua a conversar) Maestro Peppino, o melhor barbeiro do mundo-, nome ou alcunha da casa-monumento, liga-se à lenda da criança que ia cair da janela e uma macaca salvou. Facto prodigioso: uma candeia de azeite, arde bem ao alto, a recordá-lo. Ao fundo da Via dell’Orso, está a Osteria dell’Orso, em que Michel de Montaigne se hospedou; na Via dei Pianellari, um dos melhores restaurantes de Roma: Da Piero. Mas a jóia da rua é a belíssima Igreja de Santo António dos Portugueses cujas raízes remontam ao século XV: um prelado português, António Martins de Chaves mandou ali erguer uma pequenina capela, em honra de Santo António de Lisboa. Depois, transformou-se, aumentou, embelezou-se. Integra-se -ou acompanha- aquele que, por volta de 1367, era um abrigo destinado aos peregrinos da nossa terra... e, hoje, se chama Instituto de Santo António dos Portugueses. Administrado pela nossa Embaixada junto da Santa Sé, tem, agora, perfil cultural.

É do Instituto que quero, brevemente, aqui falar. Vivi lá cerca de oito meses, em 1975, quando iniciei as minhas funções de Conselheiro Cultural, na Embaixada de Portugal em Roma. Com a Piazza Navona a dois passos, iniciei, então, a minha viagem espiritual e carnal pelo mundo maravilhoso italiano.

Já instalado na Via Cassia, Orti della Sibila, ao Norte de Roma, nunca perdi o hábito da Via dei Portoghesi, que visitava, praticamente, todos os dias. O Instituo, entretanto, fora albergando personalidades inesquecíveis, como a actriz Estrela Novais; o Doutor Carlos Carvalho, Professor na Universidade de Aveiro e, nesses tempos, jovem leitor de português, na Faculdade do Magistério de Roma, amigo do coração; bolseiros curiosos e alguns divertidos.
Havia um que se encostava à Igreja e, de mãos nos bolsos, peito às balas, se punha a treinar a voz.
Outro, figura chapada de Eça de Queirós, a quem chamavam de Periquito e ao qual aconteciam as desgraças mais absurdas.
O dito Periquito comprou uma máquina para adelgaçar a barriga. Abriu a caixa, leu as intruções, mas, falta de sorte!, constatou que precisaria de uma extensão que fosse buscar a electricidade à tomada do corredor. Comprou-a, também. Ligou a extensão, despiu-se e deitou-se, no quarto, de barriga para o ar e a massajadora aplicada. Ora os colegas acharam provocante... E, na segunda ou terceira sessão, desligaram-lhe o cabo, quando o desditoso, a agitar-se, a suar, finalmente feliz, começava a crer que emagrecia... E fizeram-lhe isso muitas vezes.

Amante das praias de Óstia, preparava de véspera uma merenda e lá ia, todos os domingos, de comboio, embrulho nos joelhos e o lacinho de cordel no dedo, bronzear-se. Ora aconteceu-lhe, nessa altura, dividir o quarto, com um fogoso brasileiro que não suportava os seus (do Periquito) ademanes. Chegou, assim, o domingo em que o infeliz foi ver da merenda e lhe encontrou o sítio. O Periquito perplexo, deu voltas e voltas ao quarto. Nada. O vazio. Angústia. Indecisão. Dúvidas. E procurou o brasileiro, olhou-o, duramente, como quem pede satisfações. Foi a gota de água, que entornou o copo: rapaz desempoeirado, do Nordeste, sem papas na língua, o outro levantou a mão: “Ai!, olha que levas!...” O Periquito fugiu, escadas abaixo, revoltado, indignado e a soluçar, dizem...

Havia, também, a “Nossa Senhora”, uma rapariga de muita fé, que tinha visões e, vai não vai, caía numa espécie de transe ou delíquio... Com essa, a Estrela Novais -a Estrelinha- não ia à bola. Mexia-lhe com os nervos, vê-la tão seráfica, tão solteira...
Onde isso, desgraçadamente, vai... Sic transit gloria mundi...
A Estrelinha era muito de nossa casa, onde passou fins de semana. Conversávamos, víamos filmes, ouvíamos música, comíamos a boa cozinha italiana, bebíamos vinhos dos Castelos e os whiskies ('Ninguém faz amigo em leitaria' dizia o Vinicius de Moraes...), sempre o Johnny Walker, Red Label, claro, que a vida custa... Aconteceu que, numa tarde de Junho de 1982, soou a Edith Piaff e o Milord. A Estrelinha adorava a canção e ouvimo-la várias vezes. Até que resolvi escrever o contarelo Sónia e o Milord, em que cito versos da poesia. Desci ao meu estúdio, que ficava na cave, com bandeiras para o jardim, e escrevi-o de um jacto. Estas linhas servem de introdução ao conto, que transcrevo a seguir. Dêem-me só tempo de o copiar...

O dia de hoje...

Vamos começar de outra maneira a vida desta semana? Escolhi uma canção, escrita por Guy Béart e cantada por Juliette Greco. Nem todos se lembram de certas coisas. mas há coisas que são imortais.

http://www.youtube.com/watch?v=vac7UxmaYS8

domingo, 19 de abril de 2009

O dia de hoje II ou a bestialidade...

Sempre que passo em frente da Batalha, sou obrigado a indignar-me -"Permitirem a passagem de uma autoestrada, em frente de uma maravilha destas!"- e a comentar: "Bem, era no tempo do Salazar..."-. Agora -no tempo dum governo "socialista", sem dúvida de "socialismo capilé"-, um viaduto vai atravessar o Choupal. O único comentário possível é: "Que bestialidade!

O homem da Ereira


Ou o homem de Montemor-o-Velho. Ou o poeta do mundo. António Duarte, nascido em 1884, falecido em 1958. Bacharel em Ciências Físico-Naturais. Professor do Liceu. Pedagogo. Em 1924, ele, Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões lançam a revista “Tríptico”. Compelido à aposentação em 1932 (a data salazarenta o diz: era um homem livre), continua cliente assíduo dos cafés de Coimbra, onde conhece e encanta presencistas e neo-realistas. Publica na “presença”, “Seara Nova”, “Vértice”. Publica onde se sente bem. A “presença” edita-lhe “Os 7 Poemas Líricos” (1929). As “Iniciativas Editoriais”, em 1956, publicam a 1ª edição da sua “Obra Poética”, com excelente estudo de Carlos de Oliveira e João José Cochofel. No mesmo ano, um grupo de homens de letras de todas as cores desloca-se à Ereira, a prestar-lhe homenagem. Restavam-lhe dois anos de vida e a sua poesia há muito conquistara o lugar devido -a primeira linha- na Literatura Portuguesa.

Mas quem conhece, quem lê Afonso Duarte? A Imprensa Nacional reeditou (2008) a sua “Obra Poética”, excelentemente organizada e apresentada por José Carlos Seabra Pereira. A tiragem insignificante -1000 exemplares- não dá a medida do poeta –dá a medida da nossa infeliz incultura. Julgo saber que a edição esgotou. Não basta! É preciso que venha mais! Que arranquem ao silêncio um artista singular –moderno e clássico; introspectivo e aberto ao mundo; severo e generoso. Aceitar a morte da poesia e o triunfo da banalidade é grave crime: é enterrar ainda mais o nosso país doente, abandonado, vítima de maus governos. Salve-se o poeta maravilhoso que disse: “Eu posso lá morrer terra florida!”

O dia de hoje...



O governo parece indiferente à crise, que vai corroendo, irreversivelmente?, a nossa economia, minando as pequenas e médias empresas, acumulando falências sobre falências? O governo optou pelo pseudo-optimismo, que consiste em sorrir e aconselhar esperança e não passa de dissimulação: esconde a brutalidade da realidade, empenhado na campanha eleitoral (3 eleições à vista: parlamento europeu; autarquias; assembleia da república)? Tudo indica que sim. É o único governo a ter escolhido essa atitude, esse caminho? Certamente, não –aliás, e no mundo latino, o governo italiano, com Berlusconi (quem é Berlusconi? é o homem mais rico da Itália, de fortuna recente, de cultura muito próxima do zero e de intenções muito definidas: salvar o próprio traseiro, quero dizer: os próprios privilégios cuja conquista não deve ter atentado em preciosos princípios éticos..) e com um novo “abrangente” partido, Popolo della Libertà (tão interessado no povo como nas primeiras cuecas que os seus líderes sujaram), anda muito de par com o nosso. Mas, não ser o único, não o absolve. Nem resolve uma dramática situação: o alastrar do medo, do pânico, entre o português comum, que vê o poder de compra minguar, vertiginosamente, o emprego desaparecer e o futuro ser, cada vez mais, um buraco negro, incerto, desconhecido. Em Espanha, em França, em Inglaterra, na Alemanha, nos Usa -alguns exemplos-, os governos pensam e governam de outra positiva maneira.

Simultânea e significativamente, reaparece a “cruzada” anti-esquerda. Surge com a má consciência daqueles (os beneficiários e os agentes assoldados do neo-liberalismo) que nos atiraram às ortigas da insegurança e, em muitos casos, da fome. É o medo de que o sistema se desfaça (ou, finalmente!, o desfaçam), que morra a galinha dos ovos de oiro (a qual, grão a grão, nos esvaziou os bolsos), a agitar os ânimos dos instalados na mama e no tacho. Assim, ei-los a anatematizar PCP, BE e a roer a imagem de Manuel Alegre. Tudo e todos que reclamem mudança são rotulados de perigosíssima associação de díscolos, capazes de impor ditaduras & etc... Como se o neo-liberalismo não fosse uma desavergonhada ditadura!... E logo esbracejam, espumam, gritam, aterrorizados, enquanto contam as libras (tão formosas!), as beijam, as escondem e as fecham, em cofres inexpugnáveis (julgam eles): “com gente dessa, não se fala!” Recusam o diálogo, quando ele é mais preciso do que nunca.

Há muitos anos que deixei a (aliás breve) militância partidária (no PS). Nunca fui do PCP nem do BE. Acrescentaria: nem do PSD nem do CDS. Também não sou um leitor apaixonado de Manuel Alegre –mas respeito o seu percurso humano. Nunca repudiei o diálogo. As ideias das outras pessoas são tão respeitáveis como as nossas –e é debatendo ideias que as sociedades avançam. Excomungar quem nos sugere novos caminhos, soluções, interpretações diferentes, quem repensa o contrato social (o velho e sempre jovem e indispensável contrato de que falava Rousseau); reivindicar e querer impor o imobilismo daria, definitivamente, cabo de nós.

Acredito na sociedade socialista: sociedade de igualdade de oportunidades, com um Estado que proteja os cidadãos, cuide da educação, da saúde, da velhice e impeça acabem as pessoas triturados pelas dentuças afiadas dos tubarões-chicos-espertos. Ora o “socialismo” deste governo é “socialismo capilé".

sábado, 18 de abril de 2009

O dia de hoje...




... dia frio, enevoado... Vou buscar um livro e releio o poema, corpo visível, que não me canso de reler e sempre me dói e exalta, violento e doce, desesperado e inconformado, carta atirada ao mar, paixão que rasga almas, consola desamados e amantes, confia o sangue redentor dos sonhos impossíveis, afinal, vividos e sofridos, aqui, na terra, úbere, prenhe, serena. implacável.

Começa, assim:

A esta hora entre os blocos de prédios enevoados a bela mancha
diurna dos calceteiros na praça
e os dois amantes que hoje não dormiram vão partir nos braços da
sua estrela
à beira do caminho ladeado de sebes de espinheiro
uma carta
uma letra muito fina extremamente caligrafia
onde a aventura do homem que devolve as palavras que lhe são
remetidas
deixou a sua marca
e o duque da terceira levanta o braço
comentando seguido pelas aves que acordam a duzentos e mais me-
tros de altura
o que não é ainda a grande altura
sim sim
não não
quem sabe

in Pena Capital

A Visita

Joaquim serviu-se de mais conhaque e espreitou à janela.
-Que tempo!
A chuva, em rajadas, batia nos vidros e dobrava os ramos das árvores. A única luz era a da candeia, que oscilava, pendurada de um poste, no largo em frente da casa.
-Ainda cai...
-O quê?
-A lanterna. O vento não abranda! Nem o frio...
-Pudera! No Inverno e no meio das serras! -respondeu Abel, que se aconchegou no sofá, junto da lareira. Era um homem pequenino e gordo, com uma barba de passa-piolho, óculos de tartaruga, um ar satisfeito.
-No meio do mato e longe da civilização!... Trouxe-te a um pobre carnaval!...
-Carnavais, na nossa idade... O sossego sabe muito bem.
-Há vinte anos tive carnavais especiais...-disse Joaquim.
Olhava, para o lume, encostado às portadas de madeira.
-Especiais?...
Joaquim não respondeu alheado, fixo nos grandes toros em brasa.
-É segredo? -insistiu Abel.
-Segredo? Não... É uma história esquisita... Queres ouvi-la?
Estava encostado à ombreira, impecável no casaco inglês e na camisola de caxemira de gola alta. “Um gentleman-farmer...”, comentou, para si, irónico, Orlando, a observá-lo do fundo da sala.
Abel agitou-se:
-Diz lá! Se calhar foram os carnavais mais divertidos!...
-Divertidos? Não... Absurdos!
Foi sentar-se do outro lado da lareira. O rosto fechara-se. O único ruído era o da chuva e o do crepitar da lenha, o assobiar do vento. Orlando folheava os livros nas estantes. Abel não desviava os olhos. Talvez não fosse uma brincadeira, talvez fosse uma coisa a sério. E o tempo custava a passar, naquele ermo. Uma história ajudava... “Aos cinquenta anos, eis-nos aqui às voltas com o nosso passado...”
Joaquim, saindo do recolhimento, que a Abel pareceu doloroso, seguro e jovial, ou fazendo por isso e como se tivesse adivinhado, concordou:
-Sim. Tens razão. É a idade das confissões...
E começou a história:
-As coisas aconteceram de uma maneira muito rápida, apesar de se arrastarem durante dois anos... Em 1978, resolvi passar o carnaval em Roma...
-Ora bem! Tu conheces melhor Roma do que Lisboa! Não foste à aventura e tiveste uma aventura...
Joaquim abanou a cabeça, impaciente.
-Não ia à procura de nenhuma aventura! Ia descansar. Estava farto da galeria, dos clientes e dos pintores... Qual aventura! Um desastre...
Abel acenou, a desculpar-se:
-Sim, sim...
-Encontrei amigos, andei por onde costumo andar... Fui a uma festa ou outra. Até que apareceu a Denise...
-A Denise?
-Denise Hadad, uma judia francesa, de Lyon. Conhecemo-nos num pequeno restaurante, junto à Piazza Firenze. Minúsculo, dez mesas, frequentado pela gente do sítio... Os únicos turistas éramos nós, eu e a Denise. Ela não falava italiano e, a dada altura, tive de a ajudar. Uma rapariga de dezanove, vinte anos, elegante, muito morena, o cabelo espesso em ondas, os braços finos, a boca vermelha, túmida. Mas o que me impressionou foram os olhos pretos, fundos, as sobrancelhas desenhadas.
-Bem cuidadas...
Joaquim condescendeu:
-Sim, bem cuidadas...
-E depois?... -disse a medo Abel.
-Depois..., o que me tocou foi a melancolia, a tristeza dos olhos. Expressavam carência, procura, descrença. Ainda vi mais: pessimismo, inquietação, uma alminha à espera... Vestia-se de maneira simples: calças de ganga e camisola de lã. Mas a roupa, muito justa, realçava as pernas altas e os seios adolescentes. Convidei-a para a minha mesa, pegou no blusão de couro e veio sentar-se à minha frente. Depressa se abriu. Abrir-se talvez não seja o termo certo... Se eu fizesse literatura, diria que me lançou uma corda, um apelo, do fundo da solidão que eu adivinhara nela. Era já a noite de quarta-feira e o carnaval acabara. Pensei que tinha sido uma desilusão para ela. Eu não pedira nada, contentara-me com duas ou três festas banais, mas ela se calhar, pedira...
-Agarrava a última oportunidade...
-Não creio. O modo como se confiou foi sincero. Hoje, não acredito que andasse à procura de uma última oportunidade. Escolheu-me, foi-me escolhendo, conscientemente, mas sem defesas, sem calculismo.
-E tu?
-Aceitei... Não a escolhi. Aceitei o que ela me deu. A partir de certo momento, pensei que devia fazê-lo. E que me apetecia fazê-lo... Não foi, apenas, o calor dos olhos, o veludo da pele, a elegância, a sensualidade do corpo. Pensei que nos faria bem aos dois e que não havia nenhuma razão para recusar...
-Estavas disponível...Aproveitaste a visita...
-Qual visita? O que é que tu queres dizer com isso? Meu caro Abel, apesar de ensinares na universidade, em Lisboa, vês tudo à maneira da nossa terra, putas e vinho verde... Enganas-te, mas não tens culpa, é assim que nós vemos as coisas: por baixo... Ela ofereceu-se e toca de aproveitar, à marialva... É isso que queres dizer? Dizes mal... Ela entrou na minha intimidade como eu entrei na dela, muito lealmente... A visita, e vais ver que visita!, foi no fim... E guarda os comentários, se queres ouvir...
Abel protestou:
-O que pensas do teu amigo!
E preferiu calar-se.
-Denise só conhecia a Roma dos turistas. Levei-a à outra, que já não existe... A cidade transformou-se, estragou-se... Precisamos de a imaginar... De andar por ela, como dantes, de nos entregarmos apaixonadamente e esquecer o lixo que lhe atiraram para cima! Mas quem é que se apaixona? Quem é que se entrega? Aí estão os nossos cinquenta anos! Mas nesse tempo não éramos assim... E, diferentes ou não, nada foi normal. Ou, melhor: nada foi consequente.
-Teve a consequência de ainda falares do assunto...
-Sim, é verdade... Levei-a à Piazza del Fico, ao Campo dè Fiori, ao ghetto. Aí é que me explicou que era judia e que os avós trocaram Marrocos pela França, em quarenta e oito. Disse-me, também, que estudava no Conservatório de Lyon. Referiu-se a um namorado, como quem não quer falar ou porque era água passada... mal passada. Deu-me a entender que, entre ela e os pais, as coisas não corriam bem. A diferença de idades, filha tardia, os irmãos tinham crescido e ela ficara para trás, a mais, em casa... Ia-me contando, aos poucos, quando lhe perguntava. Ia contente. Mas não reparava em Roma. O que lhe interessava éramos nós e o nosso encontro. E a mim o que me interessava era ela, a sua presença inesperada, a sua figura delicada e determinada, que se chegava, nas confissões e no corpo... Entrámos em cafés, caminhámos abraçados e, como mandam as regras, beijámo-nos numa rua deserta. Ela encostou-me o corpo, olhou-me com ânsia e paixão. Assustada e decidida. Como quem hesita antes de se atirar a um poço. Beijámo-nos, sofregamente, por onde calhou. Seguíamos o desejo. Não sei quem comandava. Mas não podíamos parar.
-Então sempre houve aventura! -riu Abel, incapaz de se conter.
Joaquim deu aos ombros:
-Se achas isso ... A verdade é que acabámos no meu hotel. Despimo-nos à pressa, os nossos corpos tomaram conta de nós, agarraram-se, misturaram-se... E tudo quanto possas imaginar aconteceu com eles. Não me lembro de duas pessoas se possuírem tão intensamente! Ela obedecia ao corpo, às mãos, à boca, às pernas, sem falar, sem pensar, como se receasse perder qualquer coisa. E eu fazia o mesmo... Assim até de madrugada. Sem nos cansarmos, sem pararmos...Com raiva, é verdade... Talvez com muito egoísmo... Mas fizémo-lo instintivamente. Isso a que se chama instinto impôs-se. E lá vem a literatura outra vez...
-Não! -disse Abel -Não há nenhuma literatura! Há vida!
-Talvez não tenha passado de uma prova de resistência... -disse Joaquim.
E corrigiu:
-De qualquer maneira, extraordinária. Inesperada. Inexplicável. Tão absurda como o que se passou no carnaval de 1979...
A sua expressão tornara-se amarga.
-...Durante um ano, telefonámo-nos. Não nos vimos, nem nos escrevemos. Falámos em encontrarmo-nos de novo em Roma. Era uma hipótese que não levávamos a sério. Ela dizia-me que a sua vida corria bem, a minha corria como de costume. Pensei que, afinal, nada nos ligava profundamente, para além da memória do frenesi daquela noite. Na manhã seguinte, tinhamo-nos separado sem problemas. Despedimo-nos à entrada da Piazza Navona, cada um para seu lado e talvez fosse verdade, que nos amássemos mas quiséssemos ver-nos livres um do outro...
Olhou os amigos:
- Admiram-se? O amor é uma coisa complicada. Tem caprichos...
-E medos... -disse Orlando.
Joaquim encolheu os ombros.
- Talvez. Denise ficou onde a deixei, a ver-me afastar, meia adormecida, sem entender bem, sem perceber. Eu ia-me embora. Fugia. E ela não se mexeu, não o evitou. Ficou parada, ainda não saíra da nossa noite e sorria. Pensei que aceitava. Não havia mais nada. Nem nenhuma obrigação. Por que é que, depois, lhe telefonei? Por que é que lhe falei num reencontro? Falei-lhe e aceitei, sempre, as desculpas que deu... Adiámos. Por que é que eu insistia? Era uma espécie de obrigação. Admirava a sinceridade dela. Lembrava-me e vibrava, a lembrar-me. Nem precisava de entender...
Levantou-se e abriu os braços, como se quisesse justificar-se ou afastar qualquer coisa, e exclamou:
-Devia-lhe gratidão! Nem todos têm essa coragem!
-A coragem de dormirem com quem lhes apetece? -perguntou, irónico, Orlando.
-Essa mesma! -gritou Joaquim, muito tenso- Nunca a considerei uma pega, uma ninfomaníaca! O seu corpo, o seu sorriso, os seus olhos eram os de uma mulher honesta, limpa!
-Com certeza! Quem é que pensa outra coisa! -protestou Orlando, que puxou uma cadeira para o pé do lume e começou a encher, lentamente, o cachimbo.
Alto, com um farto bigode e os cabelos brancos, ouvira toda a conversa, enquanto espreitava os quadros espalhados pelas paredes da sala. Era um velho camarada de liceu, notário na cidade vizinha. Joaquim esquecera-se dele que se metia, inesperadamente, na conversa.
-Não achas? -acrescentou Orlando- Talvez fosse uma mulher complicada...
-Complicada ou não, voltou. Quando decidi ir a Roma, telefonei-lhe e sugeri-lhe que nos encontrássemos. Não disse nem que sim, nem que não. Deixei-lhe o número do telefone do hotel e nunca acreditei que aparecesse. Sinceramente, confesso que nem estava muito preocupado. Uma questão de consciência? Sim. E de rotina... Não me esquecera de nada e sentia-me responsabilizado. Até perante mim próprio! E repetira um gesto, ao longo de um ano. Um jogo? Mais do que isso, eu sei: queria experimentar, outra vez, aquele momento que sempre me parecera extraordinário. Na raiz do meu pouco entusiasmo, da minha indiferença, estaria o medo de que não fosse possível? A ideia que me arriscava a um fiasco, a uma humilhação? Evitava a prova dos nove?... Não era só eu a evitar, de acordo, mas a mim é que me via... E não me sentia bem a adiar o que, no fundo, me apetecia, me atraía... De qualquer modo deixara, sempre, as coisas em suspenso, com o pretexto do carnaval e da magia de Roma. Poderia tê-la procurado, muito antes, em Lyon, ou em Paris, não é?... Também nunca me parecera muito interessada...
Joaquim hesitou. Custava-lhe.
-Quem me garantia que seríamos os mesmos? Tinha curiosidade e medo, esta é a verdade! Mas a inércia é que me empurrou... A rotina de um homem só... Cheguei na sexta-feira. Na manhã de sábado, havia uma mensagem: Denise dizia-me que apanhava o comboio dessa noite. Quase dez horas, de Lyon a Roma. Telefonei-lhe e combinámos encontrar-nos na Piazza Navona, no “Tre Scalini”. Ainda hoje me pergunto por que escolhi o “Tre Scalini”, um café de turistas... E não sei por que resolvi vestir-me a rigor, formal no sobretudo de caxemira, gravata Hermès e camisa de seda... Não sei se me defendia, se, inconscientemente, não queria marcar uma fronteira entre o que se passara e o que era... Da outra vez, tínhamos andado por lugares mais simples, tínhamos andado à vontade... Vinha cheia de sono, pálida. Quando a vi, o saco às costas, despenteada, a roupa amarrotada, achei-a muito menos bonita. Beijou-me na face e deixou-se cair na cadeira. Olhou-me surpreendida, a fazer um esforço para se lembrar. Disfarçou e não disse nada. Eu perguntei-lhe o que queria tomar e ela disse-me que queria ir dormir para o hotel, que estava muito cansada. Não sei se compreendi que tudo se modificara ou se o que me irritou foi o seu cansaço, frieza. Reagi mal, com uma cortesia despropositada. Hoje, pergunto-me se não desejava o que aconteceu e se tudo aquilo não caíu do céu... Se não queria mas era livrar-me de Denise... Havia também o meu orgulho, é certo, e a atitude dela, a distância, ofendeu-me...
-Imaginas! Dez horas num comboio! -disse Abel.
-Sim... Uma susceptibilidade idiota, exagerada...
Os dois amigos não tiravam os olhos dele e a curiosidade incomodava-o. Pareciam dois juizes, a espreitá-lo e a divertirem-se com uma história que o arreliava há vinte anos. A confissão apanhara-o. Quando começara, não esperara ir tão longe, mas agora não podia evitar.
-O hotel também não era o mesmo... E a hora era outra... Pelo caminho, do “Tre Scalini” ao hotel, reparei no seu nervosismo. Na insegurança. Não era natural, não era a Denise do ano anterior. Esquivava-se. No quarto, enquanto arrumava o saco e o blusão e tirava os botins, disse-me: “Não estou bem... Não sei se quero...” “Se queres o quê?...” -perguntei. Sabíamos os dois... “Deixa-me dormir, por favor...” Deitou-se numa das duas camas, que eu juntara. Andei de um lado para o outro, enervado, sem saber o que fazer. Ela não se mexeu. Dormia a sono solto. Cansei-me de esperar e deitei-me, ao pé dela. Encostei-me a ela, puxei-a. Empurrou-me, fugiu com o corpo. Insisti. Procurei excitá-la, depois, convencê-la. Tentei despi-la, disposto a obrigá-la. “Deixa-te de fitas! O que é que queres?!”, gritei. O corpo dela retesou-se e continuou de costas para mim. Murmurou, com um nojo que me desarmou: “Deixa-me!” Não lho perdoei... Acordou horas mais tarde e disse-me que partia nessa noite. Arranjou-se, e perguntou: “Vamos?” Fomos, calados, separados, evitando tocar-nos, em direcção à Navona, a um bar, para ela comer qualquer coisa e passar o tempo. Avisei-a: “Não te acompanho à estação...”. Ela respondeu, indiferente: “Não tem importância, sei lá chegar sozinha...” Depois, travou-me o braço: “Espera um bocadinho”. Parou, com os mesmos olhos fundos, tristes, cheios de lágrimas. Hesitei em abraçá-la e tentar ainda, ela disse: “Acabou, vamos...”. No bar, pediu um café e uma sanduíche. O que é que pretendia? Humilhar-me? "Bebe!", -gritei, "Acorda!" Bebeu o café, sem reagir, como se já não estivesse ali, mas as mãos tremiam-lhe. Soube-me bem a sua fraqueza...
E olhou para os amigos:
-Uma vergonha, não acham?
Abel e Orlando não responderam.
-Qual vergonha! Não te ponhas com moralidades! -disse, por fim, Orlando- Aconteceu e pronto! Que importa?
Abel hesitou, e, depois, encolheu os ombros:
-É a natureza...
-Pois, a natureza... -acrescentou Orlando, que apontou os vidros embaciados- Já não chove... Amanhã é capaz de estar Sol...
E deixaram-se ficar calados, a evitarem olhar-se, até que Joaquim levantou o cálice e exclamou:
-Força, rapazes! Que é isso?! Ao carnaval!
in Um Inverno em Marraquexe









sexta-feira, 17 de abril de 2009

Outro esquecido: Raúl Brandão



Escrevi estas notas, em Moscovo, há uns anos. Sempre me intrigaram o fio que sinto que nos liga aos russos, a nossa natural atracção pelos seus escritores, a simpatia quase (ou mesmo?) fraterna com que aceitamos as personagens das suas histórias. O que nos aproxima e une? Tão longe, uns dos outros... Lembro Camilo, Raúl Brandão (tão diferentes e próximos), quando me interrogo acerca do estranho parentesco. Talvez por isso me viesse à pena Brandão e me impacientasse o nosso modo irresponsável e um bocadinho imbecil de esquecer e querer construir a partir do nada –sobre areias movediças.

Em Moscovo [seria em 2oo5?], vejo a Cultura ferver, afirmar-se -sabemos que tudo aqui mudou, em 15 anos. As pessoas, ciosas de liberdade reconquistada, experimentam o “novo” a guardarem na memória e a revisitarem os grandes Mestres, Com amor e maravilhosa humildade. A paixão por Pushkine, o respeito por Gogol, Dostoievski, Tchekhov (sempre cartaz de teatro) não impede o gosto de ousar. E vice-versa. Não é isso que acontece em Portugal. Não há respeito nenhum. E o mais grave é que não se anda para diante. Até Almeida!, diz-se nas Beiras. Mas ficam pelo caminho: ajeitam-se, procuram a venda (comercializam) e o que é deles perdeu-se. É indiferente: vale só o dinheiro...

Reabri a maravilha: Os Pobres, de Raul Brandão. Li como leio Dostoievski: à maneira da Bíblia. Demorei a virar a página. Romancista? Novelista? Poeta? Que interessa? Confia a tua a sensibilidade e andarás, graças ao autor, sem nenhuma certeza e deslumbrado. Tive vontade de afagar as páginas –agradecer. Dera-me inquietação, levara-me a reconsiderar a vida.

Lembro Raul Brandão, perplexo: que é isto? Como é possível ignorarmos os melhores autores da nossa Literatura? A culpa de quem é? Já referi o canibalismo cultural; a inexistência de crítica responsável (a crítica morreu com Gaspar Simões?); a veloz superficialidade do mundo em que vivemos, que se entrega ao mercado das coisas vazias e trituradoras. E nós? Por que motivo facilmente desistimos e deitamos às ortigas a nobre luta de querer ser homem a tempo inteiro?

Livraria Lumière-II

Com muito gosto, e a satisfazer as dúvidas de Redonda e de outros eventuais interessados, que espero sejam muitos, aqui deixo a morada da "Gruta Encantada", que é a Livraria Lumière:
Travessa de Cedofeita, nº 64 A
Telefone: 222 085 654

Livraria Lumière

Quando desejarmos encontrar um livro esgotado, um livro esquecido, um livro bonito, há um lugar incontornável: é aí que deveremos ir. Se vivermos no Porto (o que seria saudável e inteligente) ou estivermos no Porto (o que é, sempre, uma excelente ideia). O lugar obrigatório é: a Livraria Lumière, na Travessa da Cedofeita... naturalmente, no Porto... É que, ainda por cima, acolhem-nos duas encantadoras tripeiras: Claudia e Alexandra, de apelido Ribeiro!

O dia de hoje...


João Gaspar Simões, em sessenta anos de ofício crítico, afirmou uma qualidade extraordinária e raríssima: nenhum dos escritores de mérito seus contemporâneos poderiam queixar-se de lhe terem passado despercebidos. Inclusivamente, Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa, os quais redescobriu e ajudou, decisivamente, a lançar e impor. Sobre A. Ferreira Soares, o autor do romance Casa Abatida, já aqui referido, Gaspar Simões, com a exemplar independência de sempre, comentava: ‘Não sei quem é A. Ferreira Soares. (...) Sei, contudo, que Casa Abatida é uma das obras mais sérias que me tem sido dado ler nos últimos tempos. Este homem, num país em que se soubessem valorizar as vocações literárias, teria sido erguido de um dia para o outro à categoria de grande escritor.’ (texto datado de 1943, que se pode encontrar em Crítica III, Delfos, certamente esgotado...). Hoje, ninguém sabe quem era A. Ferreira Soares; ninguém leu ou, sequer, ouviu falar de Casa Abatida. Exagero? Ainda bem! Mas onde se esconde o editor corajoso que recupere esse romance tão belo e tão cheio de humanidade?

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O português condenado...

Não, não me refiro ao cidadão cá do burgo, esse, já sabemos, condenado a apertar o cinto. Não me refiro ao professor, perseguido pela cómica e tragicamente célebre firma Lurdes & Lemos & Pedreira, Irresponsabilidade Ilimitada. Não me refiro aos aposentados, réus de continuarem vivos e exigerem que lhes paguem as (normalmente) magras pensões. Refiro-me à nossa bela Língua Portuguesa, vítima de analfabetismo galopante. Custa, às vezes, ouvir os comentadores desportivos, quando nos sentamos frente à TV: a cada cavadela, uma minhoca... E o nosso povo, ao Deus-dará, naquilo que diz respeito ao ensino -aprende, por outiva, a asneira. Hoje, na página on-line do responsabilíssimo A Bola, que leio e estimo, desde que me lembra de ler -lá aparece o disparate. Escrevem: Sem proposta por Katsouranis. Analfabético uso das proposições... Não se apresentam propostas por; apresentam-se para. E, já agora, ainda bem que não aparecem essas propostas para comprar e pagar Katsouranis: o grego é um dos raros (a contá-los, sobram dedos, até porque o Mantorras está afastado ou no banco ou só lá vai 3 minutos...) profissionais capazes e sérios que vestem a camisola do glorioso!

O Euróbarómetro


Esta nota foi transcrita do 'El Pais' de hoje. Vou passar por iberista? Filoibérico sou, mas cada macaco no seu galho, salvo seja...
El Parlamento Europeo hizo públicos ayer los resultados del último Eurobarómetro antes de las elecciones de junio. Los datos ponen de manifiesto que la Unión sigue sin despertar entusiasmo entre los europeos, aunque no quepa deducir que una mayoría se oponga al proyecto o que sea siquiera indiferente. Las elecciones al Parlamento de Estrasburgo se han convertido en el espacio idóneo para dirimir cuestiones de política interna, y de ahí que, según refleja el sondeo, sea elevado el porcentaje de europeos que no tiene decidido si acudirá a las urnas. La abstención, en cualquier caso, ha sido tradicionalmente alta, y puede que refleje más el desconocimiento sobre las consecuencias concretas del voto que un rechazo del proyecto de la Europa unida. Pero en esta ocasión existe un motivo adicional: los europeos están expresando, sobre todo, su preocupación ante la crisis económica.
Los líderes no pueden seguir limitándose a constatar las dificultades con las que tropieza la Unión para suscitar el interés de los ciudadanos. Se trata de un discurso repetido desde hace mucho sin que, por otra parte, se acaben de adoptar estrategias definidas y compromisos inequívocos. Eso explicaría la significativa caída en la confianza que depositan los europeos en el Parlamento, la Comisión y, de forma más acusada, el Banco Central. En este descenso de la confianza también tiene importancia la parálisis del proyecto europeo, pendiente del referéndum de Irlanda para seguir adelante. Pero la razón de fondo volvería a ser la crisis.
Una situación como la que atraviesan las economías desarrolladas constituiría una ocasión inmejorable para que los ciudadanos percibieran el importante papel contra la crisis que puede desempeñar la Unión, sobre todo en la zona euro. No es casualidad que, desde el anterior Eurobarómetro a éste, la coordinación de las políticas económicas, presupuestarias y fiscales haya pasado del sexto al segundo lugar en la jerarquía de cuestiones que los europeos consideran prioritarias. Tampoco es consecuencia del azar que los europeos esperen mayoritariamente una campaña electoral centrada en los temas económicos, empezando por el empleo y la inflación.
Los resultados del Eurobarómetro para España se aproximan a los del entorno cercano, puesto que los países de más reciente adhesión siguen arrastrando los sentimientos europeístas a la baja. Los españoles, como el resto de los europeos, desearían una campaña centrada en temas económicos. Y consideran como asuntos prioritarios de la Unión el empleo, el crecimiento económico, la inflación y el futuro de las pensiones. Además, prefieren una actuación coordinada ante la crisis antes que la acción individual. Junto a datos preocupantes, el Eurobarómetro ofrece otros que no es que resulten esperanzadores, sino que, sobre todo, exigen de los líderes una línea de actuación adoptada y ejecutada desde Europa.

O dia de hoje...


Ao ler, num jornal desta manhã, um opiniador reclamar contra o excesso de Estado e defender o liberalismo (ele omite o termo neo-liberalismo..., ele lá sabe porquê...), mais uma vez constatei o medo que têm os beneficiários desse neo-liberalismo -que nos pôs de tanga- de ver o sistema “saneado”. Tremem, protestam, agitam-se, exaltam-se. Excesso de Estado..., francamente! Nos últimos vinte anos (e desde o desastroso “consulado" cavaquista, que durou 10 pesados e cinzentos anos), o Estado tem levado pancada, tem sido desacreditado e o seu poder de intervenção sistematicamente limitado. O seu papel -indispensável- de fiscal e protector (a grande inovação do após-guerra de 1945) tem sido escondido ou boicotado. Defende o referido opiniador a "liberdade" liberal; penso que confunde liberdade com roubo. O que ele defende é a recomposição e a continuação de um sistema social em que os salteadores pilham à vontade.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Perfil de Afonso Duarte


Sobre o Afonso Duarte: procurar o livro de João Gaspar Simões, Retratos de Poetas que Conheci (Brasília Editora, 1974), em que o grande crítico evoca, magistralmente, o autor de Canto de Morte e Amor.

E, já agora: no mesmo livro, João Gaspar Simões recorda, também -com a inteligência e a força excepcionais de sempre-, Afonso Lopes Vieira, Fernando Pessoa, José de Almada Negreiros, Luís de Montalvor, Raúl Leal, António Botto, Mário Saa, António Ferro, Carlos Queirós, Francisco Bugalho, Alexandre de Aragão, Edmundo Bettencourt e Irene Lisboa. Em suma: 14 grandes figuras da Literatura Portuguesa, numa das muitas obras indispensáveis de João Gaspar Simões (tão injusta e mesquinhamente silenciado).

Soeiro Pereira Gomes

Lembrou-me os 100 anos do escritor notável que nos deixou uma pequena pérola, Esteiros, este blog:
Bem haja!

O dia de hoje...


Sei que há, no mundo, cobiça, ganância, ódio, inveja, hipcorisia. Que há, sobretudo, medo de amar e de nos darmos. Sei que tudo isso -nesta aventura, com estes ossos de estar vivo- custa e, por vezes, desanima. Mas, c’os diabos (ou com os anjos)!, não se começa um dia assim!
Nem só feras e peçonhas têm acção no mundo; nem só garras se crispam para o ataque: Há outras mãos...', escreveu o esquecido (vergonha!) A. Ferreira Soares, no seu romance maravilhoso (maravilhoso: é o adjectivo certo) ‘Casa Abatida’.

E estes versos de Manuel da Fonseca, que arranca à morte a Tuna?:

Ó meus amigos desgraçados
se a vida é curta e a morte infinita
despertemos e vamos
eia!
vamos fazer qualquer coisa de louco e heróico
como era a Tuna do Zé Jacinto
tocando a marcha Almadanim!

terça-feira, 14 de abril de 2009

O dia de hoje...


... o dia de hoje poderia ser isso mesmo: exaltar e defender o direito dos jornalistas à liberdade de expressão: a honra de jornalista. Porque há muitas formas de censura, pressão, proibição. Todos nós o sabemos. E também sabemos que precisamos da informação verdadeira, pedagógica, séria, isenta, vertical –como de pão para a boca. É um dos pilares das sociedades avançadas, livres e cultas. É o espelho da riqueza intelectual (a mais importante, ou a única verdadeiramente importante) do país. Ando nessas lides, vai para mais de 50 anos. E recordo um mestre: Jacinto Baptista, no extinto “Diário Popular”. Ele respeitava a profissão, que exercia superiormente; ele respeitava os camaradas de trabalho; ele respeitava os leitores. Exigente, delicado, generoso. Capaz de sacrifício, sempre solidário. Sempre gentil. Devo-lhe quase tudo o que sei que devo fazer, quando começo uma crónica...

Honra de jornalista


1. Ben Bradlee, ex-director de “The Washington Post”, do qual, hoje, aos 87 anos, continua ligado como vice-director, reafirmava: “o fundamento do jornalismo é procurar a verdade e contá-la”. Isto, que parece uma verdade de La Palice, custa muito mais de quanto se julga –e não apenas aos jornalistas: também a todos os que intervêm publicamente. Contar a verdade é árduo acto de coragem. Significa entrar no teatro da vida e, nem sempre, ou quase nunca, os comparsas o toleram. Custa-lhes engolir a verdade que lhes apresentam. Obviamente, a verdade paga-se. Em 1972, Ben Bradlee apoiou a luta dos então jovens repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein, para esclarecerem o chamado “caso Watergate” que levou à demissão do presidente Richard Nixon. O preço não terá sido baixo, resistir não terá sido fácil: pressões, ameaças, tentativas de corrupção. Vendeu-se mais o jornal? Certamente. Mas a candeia que iluminou o trabalho dos jornalistas foi outra, gravada na regra de oiro que sublinhei acima: dizer a verdade. A verdade não se negoceia: impõe-se. Custe o que custar.

2. Dir-se-à: nenhuma notícia falsa ou tendenciosa resiste à autoridade das opiniões expressas num jornal respeitável. Como se reconhece a respeitabilidade de um jornal? Sem dúvida, a partir da integridade, verticalidade e rigor ético dos jornalistas e de quem nele opina. Esses garantem o crédito do jornal. O bom ou mau perfil dos órgãos da comunicação social constrói-se a partir da redacção. E que se atente no que diz o incorruptível Ben Bradlee: “Decidimos ser jornalistas porque queremos endireitar aquilo que está torto”. Uma espécie de apostolado.


segunda-feira, 13 de abril de 2009

Irene Lisboa revisitada

Manuel A. Domingos indicou-me um novo blog de homenagem a Irene Lisboa, da autoria de Rute Mota. Bem haja, Manuel, bem haja Rute! À procura do blog de Rute, http:/irene-lisboa.blogspot.com, encontrei muitas referências à genial escritora, muitos admiradores entusiásticos de Irene Lisboa. Isso deu-me imensa alegria. Afinal, parece que só falta... o editor. Ou, melhor, o reeditor...

Economias, ideologias, democracia e moral...


Sarsfield Cabral constatou que 'o crescimento económico, na China, não trouxe a democracia'. Sarsfield Cabral é um homem honesto e informado. Sabe, certamente, que há crescimento económico e crescimento económico. Que há economia e economia. Em suma: sabe que, por trás da economia de cada economista, está uma ideologia e, consequentemente, uma ética, uma moral. A economia não é uma ciência pura como a matemática ou a biologia. Os sistemas económicos correspondem a sistemas sociais, correspondem a uma moral social. E, quando, agora, damos connosco à rasca e com uma megacrise em cima –concluímos que há um sistema que errou e que esse sistema tem de ser mudado, completamente. Esse sistema chama-se neo-liberalismo. É tempo de chamar as coisas pelos nomes. A China comunista é uma realidade que parece não tender para a democracia. Mas o neo-liberalismo e a democracia também parecem incompatíveis -porque o neo-liberalismo serve uma minoria e explora uma maioria.

p.s. não me surpreende que os promotores e agentes desse sistema -do neo-liberalismo- recusem o seu (do sistema) afastamento porque isso acarretaria a perda dos seus (deles, promotores e agentes) benefícios.
E, diante dessa tal megacrise, pergunto o que é que este governo fez, até hoje, para nos ajudar a vencê-la e a sobreviver-lhe? Parece-me que assistimos a uma campanha eleitoral e não ao combate contra a situação dramática em que vivemos. Corrijam-me, se erro!

Ainda (e sempre) Afonso Duarte

Aviso àqueles que ainda não conhecem ou querem conhecer a obra do grande Afonso Duarte (e aos que já a conhecem...): a Imprensa Nacional-Casa da Moeda (INCM) publicou, em Agosto do ano passado, a sua (dele) Obra Poética. O livro, indispensável aos amantes da Poesia e da Literatura Portuguesa, tem uma boa Introdução de José Carlos Seabra Pereira, que se encarregou da fixação do texto, registo de variantes e apêndices.

Roubei duas quadras:

Eu hei-de despedir-me desta lida,
Rosas? –Árvores! Hei-de abrir-vos covas
E deixar-vos ainda quando novas?
Eu posso lá morrer, terra florida!

E:

Os braços e a cabeça livre
É quanto basta.
A gente vive,
O amor é pela vida.


...os poetas nunca morrem, não é verdade?...

O dia de hoje ou Maria de Lurdes e o Benfica...


A ministra da educação reconheceu que não foram ainda distribuídos todos os (analfabetos) magalhães -boa notícia: atrasou-se o PAC (Processo de Analfabetização em Curso)!- e garantiu ser para muito breve a modernização total do ensino; por sua vez, os administradores do Benfica afirmaram que o treinador Quique vai ficar e que, para o ano é que é: ganham o campeonato. Portugueses! Benfiquistas! Não desanimem!

domingo, 12 de abril de 2009

O dia de hoje...


Cristãos ou não, celebramos hoje uma vitória: a do Espírito sobre a morte da alma. Porque é nesse deserto onde gelam os sentimentos, as paixões e o amor ao outro e se sufoca a esperança e se renuncia à aventura e à assunção do risco, deixando que se apague a luz de dentro, que se acende no acidente fantástico e difícil de nascer –é nesse glaciar que gelamos, sobreviventes esquecidos da vida, órfãos dela e de nós próprios. Hoje é só um dia, afinal tão eterno como todos os dias. Se o assumirmos e ousarmos descer fundo, talvez se reacenda -nem que só neste dia, já tanto!- a tal luz perdida, que, afinal, nunca se apagou.

sábado, 11 de abril de 2009

Chuva, poema de Irene Lisboa

Chuva nos vidros.
Nada, chuva nos vidros!
Espaçadas, casuais, agudas, oblíquas agulhadas.
Chuva que se anuncia, que apenas se anuncia.
Pingas que vão secando. Se vão arredondando,
tornando imateriais e invisíveis.
Vagas coisas. Como quê?
Como as coisas da minha vida.
Nem já chuva nos vidros...
Já não se vêem os sinais.

Maria Campaniça, poema de Manuel da Fonseca

Debaixo do lenço azul com sua barra amarela
os lindos olhos que tem!
Mas o rosto macerado
de andar na ceifa e na monda
desde manhã ao sol-posto,
mas o jeito
das mãos torcendo o xaile nos dedos
é de mágoa e abandono...
Ai Maria Campaniça,
levanta os olhos do chão
que eu quero ver nascer o sol!
in Poemas Completos

O Dr. Carlos Ferreira Soares, médico do povo, assassinado pela PIDE, em Julho de 1942



O livro que ilustra este breve apontamento, Casa Abatida, Quadros da Vida Aldeã, escreveu-o um pai, A. Ferreira Soares, a quem, havia pouco, tinham roubado o filho ainda jovem, 39 anos, o médico Dr. Carlos Ferreira, morto a tiro de metralhadora, pela polícia política salazarista. O livro, dedicado à vítima, edição de autor, data de 1943; o homicídio infame e covarde aconteceu a 4 de Julho de 1942. O Dr. Carlos Ferreira era réu de crime de altruísmo e amor à liberdade. Nada cobrava aos doentes pobres e contestava a ditadura do ex-seminarista de Santa Comba. Tudo isso me lembrou Tiago Santos, no seu blog Histórias da Minha Terra cuja leitura aconselho, vivamente. Ainda criança (5, 6 anos) ouvi, da boca de alguém muito bem informado, essa história terrível, que nunca mais esqueci. Por isso, décadas mais tarde, não deixei escapar o livro de A. Ferreira Soares, descoberto num alfarrabista lisboeta. É um belo romance, que se perdeu na bruma –seguindo a lei brutal do esquecimento injusto, tantas vezes!, alimentado pela desatenção, indiferença ou ignorância. Transcrevo, respeitando a ortografia, o último parágrafo de Casa Abatida, em que pulsa, dolorida, a poesia de um coração bom e ferido: ‘Por estrada poeirenta e sòlheira, vão também assim aos pulos de alegria os novilhos e tenras bezerrinhas a caminho do açougue, num ingénuo encantamento diante de tam risonha e aparatosa beatitude do mundo’. Quantos não caminharam, sem saber, para um açougue escondido, disfarçado, silenciado, nos anos da peste salazarista?

Escritores marroquinos e a verdade e a mentira


Poderia chamar a este apontamento Literatura Antiliterária -título a ilustrar quanto diz Lahcen Mouzoumi, em Le roman marocain de langue française (Publisud), a propósito dos autores tangerinos: “Os escritores de Tânger nunca pensaram que um dia seriam escritores. Aquilo que os preocupava era contarem a vida de um homem”. Cita os nomes de Mohamed Choukri, D. B. Cherardi e Mohamed Mrabet. Ao primeiro (do qual li, emocionado, a narrativa Le Pain Nu, François Maspero), a observação ajusta-se inteiramente: é a obra de um “marginal”, especialmente empenhado em testemunhar da sua experiência. Diga-se de passagem que os três escritores se viram aflitos quando tentaram publicar os livros na língua original, uma vez que os editores marroquinos recearam a irreverência e denúncia de aspectos da realidade, patentes nas suas obras (nos anos oitenta, fanáticos ameaçaram mesmo queimar as narrativas de Choukri). Traduzidos e publicados no estrangeiro, lêem-se e discutem-se, hoje, em árabe. Viram-se ainda acusados de egocentristas. Lahcen Mouzoumi comenta: “a melhor maneira de falar dos outros é falar de si próprio”. Houve quem os acusasse de mentirosos...

A ideia que me fica é que não tinham tempo a perder -cada instante lhes fora essencial e urgia-lhes comunicar esse arrebatamento. Creio que viveram a vida arrebatadamente -apaixonadamente, fascinados por todos os aspectos, sempre contraditórios mas complementares. Não por acaso Choukri conheceu Jean Genet e conviveu com ele. Berbere e rifenho, Choukri instalou-se em Tânger e frequentava o esquisito café Ritz, onde escurecia, obstinada e necessariamente, papéis, revia as provas da sua experiência, continuada no fio da navalha. Mentiroso? Claro que vou deixar em paz o estafado verso de Fernando Pessoa. Sabe-me a ridículo a questão e, para a afastar, não recorrerei a Proust e à sua ideia de que a verdade de um autor se afirma na obra. Serve, é certo; e se acrescentarmos: é verdadeira toda a obra que sentirmos verdadeira? Quero dizer: é autêntica a obra que nos empolgar e tomar conta de nós. Aceitam?

Assim sucede, em muitas páginas de Le Pain Nu. Chocam-nos? São difíceis de ler? Com certeza -a realidade, crua e nua, não é pera fácil, dói. Provavelmente, como doeu aos que no-la expõem, e sem rodeios. Caíu-lhes em cima e eles tranformaram-na em Poesia -a Poesia é pura e impura-, graças à linguagem, singular porque pessoal, única. Choukri, um Homem-Escritor. A propósito de escritores, o grande Edmond Amran El Maleh, não hesita: “É um homem que escreve; escritor não significa mais nada”.


Luciana Stegagno Picchio


Chegou-me, de Roma, enviado por mão amiga, o livrinho “La lingua altra, Una autobiografia in forma di intervista”, que ressuscita a voz de uma grande lusitanista, Luciana Stegagno Picchio, desaparecida há pouco. Alessandra Mauro, condutora desse apaixonante e precioso diálogo, realizou um trabalho perfeito. Quem conheceu a mulher extraordinária, professora universitária qualificadíssima e ensaísta criadora, capaz de se libertar das baias académicas; privou com Luciana e a ouviu dissertar, magistral e claramente, sobre Cultura; seguiu o seu trabalho, a paixão pela nossa língua e pelos nossos autores –guarda na memória e no coração uma lembrança comovida e grata. Ela ensinou, defendeu e divulgou, excelentemente, a Literatura Portuguesa. Apoiou autores, apresentou-os ao público italiano e esteve por detrás de muitas traduções de poetas e novelistas lusitanos. Era uma pessoa sedenta de vida e de conhecimento. Inteligente e sensível. Os seus olhos admiráveis -porque também era uma mulher bela- queriam abarcar e entender tudo. E aceitavam tudo e todos. A lição socrática marcava o seu convívio.

Este texto fez parte de um volume editado pelo Instituto Camões, em 2001: “A língua outra –Uma fotobiografia”. Verdade se diga, Portugal soube reconhecer o muitíssimo que lhe deve. Mas, agora, quando a recordo e já não posso conversar com ela, o voluminho muito cuidado, na língua original, com três fotografias que a fixam tal qual foi, toca-me de modo especial. Porque ela me deu muito: amizade e sabedoria e a reencontro, viva, irónica, tolerante. Superior.

O dia de hoje...


Claro que o estilo de Stendhal e o estilo de Irene Lisboa são completamente diferentes. Quando os aproximei, a propósito do osso: da essencialidade, da linguagem literária que rejeita efeitos fáceis -já lhes chamei farfalhudos-, retorcidos, afinal confusos, juntei-os porque o autor de Le Rouge et le Noir e a narradora de Esta Cidade (onde está uma das novelas de análise psicológica das mais profundas da nossa Literatura: a obra-prima O Amante) comungam de uma mesma preocupação: atingir, directamente, o nó do problema. Eram primos, em tempos afastados (Stendhal escreveu nos meados do Séc. XIX, Irene Lisboa, no segundo quartel do Séc. XX). Ora os primos, ainda que próximos, podem escolher estradas diversas mas tenderem a usar ferramentas aparentadas. Stendhal deixou romances e novelas; Irene Lisboa, crónicas que fixaram a vida –ambos com uma claridade magistral. Procuraram a própria originalidade, dentro de si –e, para isso, recorreram à estrada real, que sempre mais depressa e mais seguramente leva o caminheiro ao lugar de chegada. Eles sabiam que a originalidade está na singularidade do olhar de cada um –não está no malabarismo que se limita a esconder a aridez do imo do jongleur, do pelotiqueiro (o que não quer dizer que não haja jongleurs extraordinários, como Fernando Pessoa). Um exemplo que confrange: banir vírgulas, pontos finais, parágrafos, trocar sujeito e verbo e baralhar complementos... Deslumbra, apenas, os parolos –ou os inseguros de si, os maria-que-vai-com-as-outras e não ousam dizer: ‘olha a vigarice!, o homem vai nuzinho... e é feio!’ Agora, acrescenta-se-lhe a pornografia, assassinando o erotismo. Também resulta e não surpreende, neste deserto onde a interioridade secou e resta, apenas, a masturbação solitária ou acompanhada.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Computadorial Condição

O computador recusou Afonso Duarte!? A verdade é que não consegui compor devidamente o soneto do grande poeta, Humana Condição. Certamente, os meus interlocutores/amigos hão-de remediar a coisa...

A

Humana Condição, soneto de Afonso Duarte

Um sonhar-me distante, um longe incrível
É agora o meu estado: Eu sonho o Espaço
Que se fixa no mundo ao invisível
Como se o mundo andasse por meu braço.
Existo além: Sou o animal temível
De Jesus com o mundo-Deus na mão.
Sou para além do mundo concebível
Onde morre e começa a criação.
Eu, homem, sondo e meço o Infinito;
Sou corpo e espírito, esse corpo oculto,
E é só na mão de Deus que ressuscito.
E chamam a isto humana condição ...
Um nada, e tudo: — Vivo e me sepulto
Dentro e fora do próprio coração.
in Ossadas
c'os diabos! É tempo de lermos este poeta extraordinário! Discreto, humano, generoso e... do melhor oiro! Nasceu, em 1884, na aldeia da Ereira, freguesia de Verride, concelho de Montemor-o-Velho; morreu, em 1958, em Coimbra. Foi professor, foi pedagogo, foi etnólogo, foi um grande poeta. Atravessou 3 gerações, 'Orfeu", 'presença', 'sol nascente', admirado, escutado, acarinhado. E, agora, o silêncio? Que tempo pobre seria o nosso, se assim fosse!

Angústia à portuguesa


Desde sempre me surpreendeu a nossa independência, apesar de não existirem fronteiras naturais a separarem-nos dos vizinhos espanhóis, A razão só poderia ser -e é- uma: a diferença cultural. Somos outros. Aquilino considerava a Beira-Alta prolongamento da meseta castelhana. Mas ele pertencia a outro mundo, tal qual o transmontano Camilo; o “Purinho”, António Nobre, que poetava em Paris, saudoso de Coimbra e do mar da Póvoa do Varzim; o Eça de Queirós que, debruçado da janela do Rossio, em Lisboa, cocando os passantes, monóculo em riste, se interrogava: “Será esta gente obra de curioso?” Miguel de Unamuno dizia-nos “loucos e suicidas”.

Penso que nos distinguem paixão e febre –o arder interior que nos queima e consome. E aí está o suicídio (auto-destruição), a saída. A loucura e a lucidez trágica. Anthero Monteiro publicou, há tempos, um excelente trabalho: “O Misticismo Laico de Manuel Laranjeira” (Roma Editores). De facto, tudo isso está no suicida de Espinho. Não é pouco: é tudo. A biografia (o retrato) é uma batata e acontece dentro, espelha-se na obra, por escassa que seja. O acto final -o tiro na cabeça- representa a coerência, resultado do processo constante do extraordinário “Diário”. A curta vida de Laranjeira não foi banal: não andou a colher rosas que o ferissem nem isso o deleitou. Foi exemplar. No quê? Na impossibilidade de sobreviver em sociedade absurda, por corrupta e sem Espírito. De sobreviver à Escola Médica do Porto, ao Casino de Espinho, aos lares burgueses portugueses onde se buscava a “aurea mediocritas”. Laranjeira não se matou com medo da tísica: já não aguentava o viver dos resignados que o rodeavam e impediam a viagem para alto. Anthero Monteiro sublinha, inteligentemente: “fundo e premeditado desejo de afirmação de quem não perpassou leve e displicentemente pela vida”.

Não há renúncia: há protesto. E não será a surda denúncia da traição quotidiana, o sonho -reivindicação- do Paraíso Perdido que nos distingue? O insuportável que levou ao suicídio Camilo e Sá-Carneiro e a alcoolizar-se Pessoa? Não será a ânsia de absoluto a angústia que nos rói?

Ignoto Deo, soneto de José Régio


Desisti de saber qual é o Teu nome,

Se tens ou não tens nome que Te demos,

Ou que rosto é que toma, se algum tome,

Teu sopro tão além de quanto vemos.


Desisti de Te amar, por mais que a fome

Do Teu amor nos seja o mais que temos,

E empenhei-me em domar, nem que os não dome,

Meus, por Ti, passionais e vãos extremos.


Chamar-Te amante ou pai... grotesco engano

Que por demais tresanda a gosto humano!

Grotesco engano o dar-te forma! E enfim,


Desisti de Te achar no quer que seja,

De Te dar nome, rosto, culto, ou igreja...

– Tu é que não desistirás de mim!


in Biografia

O dia de hoje...


Cristo é Deus feito homem. Uma questão de fé. Mas, nesse caso, nunca antes Deus se aproximara tanto do homem, tão funda e boamente o amara e compreendera. Mas, provavelmente -e considerada a fé apenas uma opção pessoal ou um mistério de possuídos pelo que se chama graça-, Jesus era uma criatura de Deus, como todas as criaturas do mundo (aceitas a ideia de Deus e a minha consequente contradição). E, no entanto, no amor, na compreensão e na bondade, foi o homem mais humano –dessa humanidade que Deus revelaria, se, realmente, se tivesse tornado homem, em Cristo. No Evangelho de Mateus (X, 8), lemos estas palavras maravilhosas de Jesus: ‘Vós recebestes grátis, dai grátis’. Recebemos a vida, sem pagar; não é justo que exijamos um preço por aquilo que dermos.
Mas nós não damos: o nosso exemplo é o dos vendilhões do templo. Comerciamos. Exploramos. Especulamos. Roubamos. E ignoramos o outro. Virámos as costas à maravilha da vida e cultivamos a morte nela.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

A vida maltratada


Num livrinho praticamente desconhecido, “Notas de Inverno sobre impressões de Verão”, Dostoievski fala, revoltado, da sua primeira viagem à Europa (1862/63). Ataca, também, a situação do homem (o Império russo era mais que desastroso): a miséria moral e social, a hipocrisia e egoísmo –a vida maltratada. E a verdade é que Dostoievski a sofreu, e de que maneira!: injustamente condenado à morte, amnistiado no último minuto, degredado na Sibéria, humilhado e ofendido. À sua volta -e não só na Europa-, deparavam-se-lhe a desumanização, a prepotência, a indiferença. Contra isso tudo se ergueu, obstinada, corajosamente. Escrever foi, para ele, um combate.

É verdade que os seus romances vão muito além do circunstancial; mas, por estranho que pareça, a intervenção humanista, cristã, trouxe-lhe e garantiu-lhe leitores. Quando morreu, o último exemplar de “Diário de um escritor” (obra menor dentro da sua obra maior), vendeu 14.000 exemplares, coisa extraordinária ao tempo. A rebeldia do escritor custou-lhe até ao fim, a perseguição policial dos czares e, durante o comunismo, o limbo (publicava-se, quando se publicava, censurado). E a indiferença e o colectivismo asfixiadores repugnavam a Dostoievski, afligiam-no.

Passados mais de cem anos, o que mudou? Liquidaram-se (?) o nazismo e o fascismo; morreram (sem julgamento) Salazar e Franco; desagregou-se, desfez-se a União Soviética –e que trouxe de bom o neo-liberalismo, agora a entrar na agonia e a espernear para não desaparecer? Cuidou do terceiro mundo? Da saúde? Do acesso ao ensino –condição de plena realização humana? E o que é, realmente, a Europa? O que significa esta paralisia demográfica, sintoma de miséria e medo? O que quer dizer esta crise, esta hipoteca de nós próprios, atolados, condenados ao desemprego e à beira da fome –afinal, sempre, humilhados e ofendidos?

O osso


O osso é o âmago, o imo, a raiz –a verdade profunda de cada um. Os grandes artistas atingem-no e expressam-no. Exemplos: a harmonia simples de Miró, a candura maravilhosa de certos versos de Eugénio de Andrade, a sensualidade preciosa da escultura de Henry Moore... O contrário: os farfalhudos nadas que servem de manto aos reis que vão nus. Não vale a pena apontá-los; basta entrar numa livraria ou numa galeria de arte, folhear as páginas de cultura, telecomandadas pelos parceiros da feira literata. E a verdade é que essa multidão de autores desnecessários e invasores, chatos como pulgas, não merece a publicidade que lhe faria. Uma perda de tempo...

O dia de hoje...


A quem me perguntou: “como se escreve um livro?”, respondi: “não tendo medo de escrever mal”. Num país de prosadores barrocos, de inventores de formas pseudo-inovadoras para dar nas vistas e esconder a impotência –sugeria que se limitasse a contar aquilo que tinha de facto para contar, que se chegasse ao próprio osso. Prosadores, querem-se nas floreadas notícias necrológicas ou nos elogios de ocasião. A verdadeira literatura exige a simplicidade da autenticidade. Leiam Stendhal, leiam Irene Lisboa...

A quem me disse: “se calhar, aquilo que escrevo não vale nada”, ou me perguntou: “e se eu não for um génio?”, respondi: “ninguém tem a obrigação de escrever obras-primas nem de ser um génio; mas tem a obrigação de ser ele próprio e de contar a verdade: esta, sim, serve, sempre, para alguma coisa”. Pretendia combater as ambições malsãs e esconjurar os medos que impedem pessoas sérias de se arriscarem a levar por diante uma vocação
.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Poesia de Pedro Salinas

El alma tenías
tan clara y abierta,
que yo nunca pude
entrarme en tu alma.
Busqué los atajos
angostos, los pasos
altos y dificiles...
A tu alma se iba
por caminos anchos.
Preparé alta escala
-soñaba altos muros
guardándote el alma-
pero el alma tuya
estaba sin guarda
de tapial ni cerca.
Te busqué la puerta
estrecha del alma,
pero no tenía,
de franca que era,
entrada tu alma.
En dónde empezaba?
Acababa, en dónde?
Me quedé por siempre
sentado en las vagas
lindes de tu alma.

in Presagios

A Aranha

-Onde é que fica o Haiti? -perguntou-lhe a amiga.
-Na América Central. Estava a falar-te do Haiti por causa dele.
-Do pobrezinho?
-Não era um pobrezinho, era um homem acossado.
-Disseste-me que não tinha onde cair morto...
-Não tinha. Caía na rua ou no café. É um homem inesquecível!
-Por causa da miséria?
-Sim, talvez.
-Era um desgraçado?
-Não, um homem que a vida não deixava em paz.
-A vida?
-A de todos os dias. A nossa, a dele.
-Encontraste-o em Roma?
-Conheci-o em Roma.
-Onde?
-Num bar.
-Ele tinha dinheiro para ir a um bar?
-Tinha direito a sentar-se e a pedir uma cerveja.
-E quem é que pagava?
-Pagavam os outros.
-Com pena dele?
-Com pena dele. Mas, às vezes, tinha dinheiro para pagar...
-Já me falaste dele... Como é que era? Alto? Baixo? Jovem?... Velho?
-Não tinha idade.
-Não é possível!?
-Tinha a idade nos olhos, que eram os de uma criança assustada.
-Era um homem bonito?
-Era um homem bonito.
-Tão pobre, tão desgraçado!... Como é que podia ser bonito! Se calhar, cheirava mal...
-Era puro.
-Puro?
-...uma criança aflita...
-Ou um falhado?
-Falhado? Essas pessoas não falham, vão-se embora...
-De onde?
-De onde nós estamos.
-E onde é que estamos?
-Aqui, a conversar... Se quiseres eu conto, senão não...
-Conta... Onde é que o encontraste?
-Já te disse, em Roma, num bar do Campo dè Fiori, conheces o Campo dè Fiori?
-Conheço, não te lembras que me levaste lá?
-Ele estava encostado ao balcão, a beber um copo de vinho...
-Por que é que falaste com ele?
-Porque ele estava sòzinho.
-E o que é que lhe disseste?
-Boa-noite.
-E ele?
-Respondeu boa-noite.
-E depois?
-Ofereci-lhe outro copo de vinho. E começámos a conversar. Ele estava cheio de medo, nem olhava para mim, ia agradecendo...
-Era branco?
-Não, era um mestiço. Desatou a falar, sem propósito. Falava ao acaso, precisava de falar. Mas a verdade é que só começou quando acreditou que eu ouvia.
-O que é que te contou?
-Que vinha do Haiti, que fugira.
-Há quantos anos foi?
-Há mais de dez...
-Era um trabalhador clandestino?
-Tomara ele! Não, não tinha emprego. Estava sempre alerta, com medo que o levassem.
-Para onde?
-Para a cadeia.
-E o que é que ele te disse mais?
-Que queria sair dali.
-Do bar?
-Sim, queria que fôssemos a outro sítio.
-Ao buraco dele?
-Ao sítio onde vivia.
-Mostrou-to?
-Não, mas devia ser para os lados de Santa Maria Maggiore.
-Queria voltar para casa?
-Não tinha casa, tinha um sítio. Devia ter... Meti-o no carro e fomos. A meio do caminho, enganei-me, fui ao contrário e a polícia parou-nos. Ele saltou para o assento de trás, era um dez-réis de gente, agachou-se, escondeu-se. Os polícias eram simpáticos, deixaram-me continuar, virei na rua a seguir e ele ficou descansado e recordou a sua ilha:


“-Sabes?, deixei lá a minha noiva. Uma vez, estávamos os dois deitados, chegadinhos, ela tinha adormecido..., tão bonita!...”
Espreitou, a ver se o levava a sério e continuou:
“-Tão bonita! Uma crioula... Mestiça como eu! Deitadinha ao meu lado... Não deu por nada. Eu tinha acendido um cigarro e estava a descansar. E apareceu a aranha! Negra! Venenosa! Devagarinho, direita a nós! Se eu me mexesse, ela ainda andava mais depressa! Virei-me e pus as mãos em concha, a fingir que lhe fazia uma festa, se viesse, a ver se ela ia por outro caminho... Falei-lhe baixinho, com medo de a assustar. Quase me tocou. Parou, olhou para mim, a espreitar-me, e foi-se...”


Ela ficou calada.
-Se queres saber mais, fica sabendo que nunca mais falámos...
-De verdade?
-Ainda voltei ao bar do Campo dè Fiori...
-E o preto do Haiti?
-Estava lá, cansado, adormecido, enrolado a um canto...
-Pagaste-lhe uma cerveja?
-Não. Para quê?...
-Tens razão. O que é que podias fazer? Não podemos fazer nada.

in Um Inverno em Marraquexe



terça-feira, 7 de abril de 2009

O dia de hoje...


No que por aí se escreve e publica -em livros, revistas jornais- pululam os cabotinos. Não é de agora. O cabotino -o mau comediante, o engraçadinho, o literato que agarra, no voo, o lugar-comum e o usa, olho a brilhar e esperançado de atingir o alvo: fazer-se notável-, não nasceu hoje. Nem ontem. Vem dos séculos. Cândido de Figueiredo considerava a palavra um neologismo (o velho Moraes ignorava-a) e atribuía-lhe origem francesa. E o Larousse, de França, define o bicho: “pessoa que representa uma comédia para se destacar”. Ele -o cabotino-, ciclicamente, invade as feiras da vaidade –e acentua aquilo que realmente elas são: circos imundos de presunção. Quem os vê de fora acha-os patuscos. Mas, infelizmente, aleijam. Dominam a paisagem, desviam ou envenenam os bem intencionados. O bem intencionado é aquele que, como Lucien das Illusions Perdues, quer afirmar a sua poesia e se apresenta de alma aberta, sincero, verdadeiro. À primeira esquina encontrará o vendedor da banha da cobra; à segunda, o patriarca das mentiras; à terceira, a porta do clube onde se juntam os sábios, todos eles sábios (“só sábios éramos dez”). E, para vestir o uniforme de sábio, tem que decorar as tábuas da lei da vigarice: as regras do socorro mútuo dos cabotinos que comandam. Ou aceita, ou dão cabo dele. O Lucien, de Balzac, aprendeu e sofreu à própria custa. Maxime du Camp fartou-se de aconselhar o amigo Gustave Flaubert ( o de Madame Bovary e de Educação Sentimental), mais ou menos assim: “Vem daí! Deixa o teu retiro de Croisset e instala-te em Paris! É aqui que se conquista tudo! Mulheres e fama! É indispensável conviver! Almoços e jantares com os sábios, idas ao teatro, artigos oportunos, as gazetas! Se continuas na tua cabana de Croisset, estás feito!” Flaubert preferiu ficar feito –e deixar a obra superior, que deixou. José Régio -outro que viveu longe da multidão enlouquecedora (assim lhe chamava Thomas Hardy)- admirava e estimava muito o exilado de Croiset. Penso que a independência de Flaubert o impressionara –e o encorajara. No entanto, não há dúvida que o teatro da vida precisa de bobos, de cabotinos, de mentirosos. Eles são o contraponto da verdade, que talvez precise desse contraste para brilhar e guiar quem a busca. Por aqui, neste país que fez uma revolução e não soube usar a liberdade e, em vez de Cultura, distribuiu novas oportunidades de nova escravatura e deixou proliferar os corruptos –esse mundo cabotino transformou-se num cancro capaz de abafar aspirações e prostituir as boas intenções (delas está o inferno cheio, dizem).