Joaquim serviu-se de mais conhaque e espreitou à janela.
-Que tempo!
A chuva, em rajadas, batia nos vidros e dobrava os ramos das árvores. A única luz era a da candeia, que oscilava, pendurada de um poste, no largo em frente da casa.
-Ainda cai...
-O quê?
-A lanterna. O vento não abranda! Nem o frio...
-Pudera! No Inverno e no meio das serras! -respondeu Abel, que se aconchegou no sofá, junto da lareira. Era um homem pequenino e gordo, com uma barba de passa-piolho, óculos de tartaruga, um ar satisfeito.
-No meio do mato e longe da civilização!... Trouxe-te a um pobre carnaval!...
-Carnavais, na nossa idade... O sossego sabe muito bem.
-Há vinte anos tive carnavais especiais...-disse Joaquim.
Olhava, para o lume, encostado às portadas de madeira.
-Especiais?...
Joaquim não respondeu alheado, fixo nos grandes toros em brasa.
-É segredo? -insistiu Abel.
-Segredo? Não... É uma história esquisita... Queres ouvi-la?
Estava encostado à ombreira, impecável no casaco inglês e na camisola de caxemira de gola alta. “Um gentleman-farmer...”, comentou, para si, irónico, Orlando, a observá-lo do fundo da sala.
Abel agitou-se:
-Diz lá! Se calhar foram os carnavais mais divertidos!...
-Divertidos? Não... Absurdos!
Foi sentar-se do outro lado da lareira. O rosto fechara-se. O único ruído era o da chuva e o do crepitar da lenha, o assobiar do vento. Orlando folheava os livros nas estantes. Abel não desviava os olhos. Talvez não fosse uma brincadeira, talvez fosse uma coisa a sério. E o tempo custava a passar, naquele ermo. Uma história ajudava... “Aos cinquenta anos, eis-nos aqui às voltas com o nosso passado...”
Joaquim, saindo do recolhimento, que a Abel pareceu doloroso, seguro e jovial, ou fazendo por isso e como se tivesse adivinhado, concordou:
-Sim. Tens razão. É a idade das confissões...
E começou a história:
-As coisas aconteceram de uma maneira muito rápida, apesar de se arrastarem durante dois anos... Em 1978, resolvi passar o carnaval em Roma...
-Ora bem! Tu conheces melhor Roma do que Lisboa! Não foste à aventura e tiveste uma aventura...
Joaquim abanou a cabeça, impaciente.
-Não ia à procura de nenhuma aventura! Ia descansar. Estava farto da galeria, dos clientes e dos pintores... Qual aventura! Um desastre...
Abel acenou, a desculpar-se:
-Sim, sim...
-Encontrei amigos, andei por onde costumo andar... Fui a uma festa ou outra. Até que apareceu a Denise...
-A Denise?
-Denise Hadad, uma judia francesa, de Lyon. Conhecemo-nos num pequeno restaurante, junto à Piazza Firenze. Minúsculo, dez mesas, frequentado pela gente do sítio... Os únicos turistas éramos nós, eu e a Denise. Ela não falava italiano e, a dada altura, tive de a ajudar. Uma rapariga de dezanove, vinte anos, elegante, muito morena, o cabelo espesso em ondas, os braços finos, a boca vermelha, túmida. Mas o que me impressionou foram os olhos pretos, fundos, as sobrancelhas desenhadas.
-Bem cuidadas...
Joaquim condescendeu:
-Sim, bem cuidadas...
-E depois?... -disse a medo Abel.
-Depois..., o que me tocou foi a melancolia, a tristeza dos olhos. Expressavam carência, procura, descrença. Ainda vi mais: pessimismo, inquietação, uma alminha à espera... Vestia-se de maneira simples: calças de ganga e camisola de lã. Mas a roupa, muito justa, realçava as pernas altas e os seios adolescentes. Convidei-a para a minha mesa, pegou no blusão de couro e veio sentar-se à minha frente. Depressa se abriu. Abrir-se talvez não seja o termo certo... Se eu fizesse literatura, diria que me lançou uma corda, um apelo, do fundo da solidão que eu adivinhara nela. Era já a noite de quarta-feira e o carnaval acabara. Pensei que tinha sido uma desilusão para ela. Eu não pedira nada, contentara-me com duas ou três festas banais, mas ela se calhar, pedira...
-Agarrava a última oportunidade...
-Não creio. O modo como se confiou foi sincero. Hoje, não acredito que andasse à procura de uma última oportunidade. Escolheu-me, foi-me escolhendo, conscientemente, mas sem defesas, sem calculismo.
-E tu?
-Aceitei... Não a escolhi. Aceitei o que ela me deu. A partir de certo momento, pensei que devia fazê-lo. E que me apetecia fazê-lo... Não foi, apenas, o calor dos olhos, o veludo da pele, a elegância, a sensualidade do corpo. Pensei que nos faria bem aos dois e que não havia nenhuma razão para recusar...
-Estavas disponível...Aproveitaste a visita...
-Qual visita? O que é que tu queres dizer com isso? Meu caro Abel, apesar de ensinares na universidade, em Lisboa, vês tudo à maneira da nossa terra, putas e vinho verde... Enganas-te, mas não tens culpa, é assim que nós vemos as coisas: por baixo... Ela ofereceu-se e toca de aproveitar, à marialva... É isso que queres dizer? Dizes mal... Ela entrou na minha intimidade como eu entrei na dela, muito lealmente... A visita, e vais ver que visita!, foi no fim... E guarda os comentários, se queres ouvir...
Abel protestou:
-O que pensas do teu amigo!
E preferiu calar-se.
-Denise só conhecia a Roma dos turistas. Levei-a à outra, que já não existe... A cidade transformou-se, estragou-se... Precisamos de a imaginar... De andar por ela, como dantes, de nos entregarmos apaixonadamente e esquecer o lixo que lhe atiraram para cima! Mas quem é que se apaixona? Quem é que se entrega? Aí estão os nossos cinquenta anos! Mas nesse tempo não éramos assim... E, diferentes ou não, nada foi normal. Ou, melhor: nada foi consequente.
-Teve a consequência de ainda falares do assunto...
-Sim, é verdade... Levei-a à Piazza del Fico, ao Campo dè Fiori, ao ghetto. Aí é que me explicou que era judia e que os avós trocaram Marrocos pela França, em quarenta e oito. Disse-me, também, que estudava no Conservatório de Lyon. Referiu-se a um namorado, como quem não quer falar ou porque era água passada... mal passada. Deu-me a entender que, entre ela e os pais, as coisas não corriam bem. A diferença de idades, filha tardia, os irmãos tinham crescido e ela ficara para trás, a mais, em casa... Ia-me contando, aos poucos, quando lhe perguntava. Ia contente. Mas não reparava em Roma. O que lhe interessava éramos nós e o nosso encontro. E a mim o que me interessava era ela, a sua presença inesperada, a sua figura delicada e determinada, que se chegava, nas confissões e no corpo... Entrámos em cafés, caminhámos abraçados e, como mandam as regras, beijámo-nos numa rua deserta. Ela encostou-me o corpo, olhou-me com ânsia e paixão. Assustada e decidida. Como quem hesita antes de se atirar a um poço. Beijámo-nos, sofregamente, por onde calhou. Seguíamos o desejo. Não sei quem comandava. Mas não podíamos parar.
-Então sempre houve aventura! -riu Abel, incapaz de se conter.
Joaquim deu aos ombros:
-Se achas isso ... A verdade é que acabámos no meu hotel. Despimo-nos à pressa, os nossos corpos tomaram conta de nós, agarraram-se, misturaram-se... E tudo quanto possas imaginar aconteceu com eles. Não me lembro de duas pessoas se possuírem tão intensamente! Ela obedecia ao corpo, às mãos, à boca, às pernas, sem falar, sem pensar, como se receasse perder qualquer coisa. E eu fazia o mesmo... Assim até de madrugada. Sem nos cansarmos, sem pararmos...Com raiva, é verdade... Talvez com muito egoísmo... Mas fizémo-lo instintivamente. Isso a que se chama instinto impôs-se. E lá vem a literatura outra vez...
-Não! -disse Abel -Não há nenhuma literatura! Há vida!
-Talvez não tenha passado de uma prova de resistência... -disse Joaquim.
E corrigiu:
-De qualquer maneira, extraordinária. Inesperada. Inexplicável. Tão absurda como o que se passou no carnaval de 1979...
A sua expressão tornara-se amarga.
-...Durante um ano, telefonámo-nos. Não nos vimos, nem nos escrevemos. Falámos em encontrarmo-nos de novo em Roma. Era uma hipótese que não levávamos a sério. Ela dizia-me que a sua vida corria bem, a minha corria como de costume. Pensei que, afinal, nada nos ligava profundamente, para além da memória do frenesi daquela noite. Na manhã seguinte, tinhamo-nos separado sem problemas. Despedimo-nos à entrada da Piazza Navona, cada um para seu lado e talvez fosse verdade, que nos amássemos mas quiséssemos ver-nos livres um do outro...
Olhou os amigos:
- Admiram-se? O amor é uma coisa complicada. Tem caprichos...
-E medos... -disse Orlando.
Joaquim encolheu os ombros.
- Talvez. Denise ficou onde a deixei, a ver-me afastar, meia adormecida, sem entender bem, sem perceber. Eu ia-me embora. Fugia. E ela não se mexeu, não o evitou. Ficou parada, ainda não saíra da nossa noite e sorria. Pensei que aceitava. Não havia mais nada. Nem nenhuma obrigação. Por que é que, depois, lhe telefonei? Por que é que lhe falei num reencontro? Falei-lhe e aceitei, sempre, as desculpas que deu... Adiámos. Por que é que eu insistia? Era uma espécie de obrigação. Admirava a sinceridade dela. Lembrava-me e vibrava, a lembrar-me. Nem precisava de entender...
Levantou-se e abriu os braços, como se quisesse justificar-se ou afastar qualquer coisa, e exclamou:
-Devia-lhe gratidão! Nem todos têm essa coragem!
-A coragem de dormirem com quem lhes apetece? -perguntou, irónico, Orlando.
-Essa mesma! -gritou Joaquim, muito tenso- Nunca a considerei uma pega, uma ninfomaníaca! O seu corpo, o seu sorriso, os seus olhos eram os de uma mulher honesta, limpa!
-Com certeza! Quem é que pensa outra coisa! -protestou Orlando, que puxou uma cadeira para o pé do lume e começou a encher, lentamente, o cachimbo.
Alto, com um farto bigode e os cabelos brancos, ouvira toda a conversa, enquanto espreitava os quadros espalhados pelas paredes da sala. Era um velho camarada de liceu, notário na cidade vizinha. Joaquim esquecera-se dele que se metia, inesperadamente, na conversa.
-Não achas? -acrescentou Orlando- Talvez fosse uma mulher complicada...
-Complicada ou não, voltou. Quando decidi ir a Roma, telefonei-lhe e sugeri-lhe que nos encontrássemos. Não disse nem que sim, nem que não. Deixei-lhe o número do telefone do hotel e nunca acreditei que aparecesse. Sinceramente, confesso que nem estava muito preocupado. Uma questão de consciência? Sim. E de rotina... Não me esquecera de nada e sentia-me responsabilizado. Até perante mim próprio! E repetira um gesto, ao longo de um ano. Um jogo? Mais do que isso, eu sei: queria experimentar, outra vez, aquele momento que sempre me parecera extraordinário. Na raiz do meu pouco entusiasmo, da minha indiferença, estaria o medo de que não fosse possível? A ideia que me arriscava a um fiasco, a uma humilhação? Evitava a prova dos nove?... Não era só eu a evitar, de acordo, mas a mim é que me via... E não me sentia bem a adiar o que, no fundo, me apetecia, me atraía... De qualquer modo deixara, sempre, as coisas em suspenso, com o pretexto do carnaval e da magia de Roma. Poderia tê-la procurado, muito antes, em Lyon, ou em Paris, não é?... Também nunca me parecera muito interessada...
Joaquim hesitou. Custava-lhe.
-Quem me garantia que seríamos os mesmos? Tinha curiosidade e medo, esta é a verdade! Mas a inércia é que me empurrou... A rotina de um homem só... Cheguei na sexta-feira. Na manhã de sábado, havia uma mensagem: Denise dizia-me que apanhava o comboio dessa noite. Quase dez horas, de Lyon a Roma. Telefonei-lhe e combinámos encontrar-nos na Piazza Navona, no “Tre Scalini”. Ainda hoje me pergunto por que escolhi o “Tre Scalini”, um café de turistas... E não sei por que resolvi vestir-me a rigor, formal no sobretudo de caxemira, gravata Hermès e camisa de seda... Não sei se me defendia, se, inconscientemente, não queria marcar uma fronteira entre o que se passara e o que era... Da outra vez, tínhamos andado por lugares mais simples, tínhamos andado à vontade... Vinha cheia de sono, pálida. Quando a vi, o saco às costas, despenteada, a roupa amarrotada, achei-a muito menos bonita. Beijou-me na face e deixou-se cair na cadeira. Olhou-me surpreendida, a fazer um esforço para se lembrar. Disfarçou e não disse nada. Eu perguntei-lhe o que queria tomar e ela disse-me que queria ir dormir para o hotel, que estava muito cansada. Não sei se compreendi que tudo se modificara ou se o que me irritou foi o seu cansaço, frieza. Reagi mal, com uma cortesia despropositada. Hoje, pergunto-me se não desejava o que aconteceu e se tudo aquilo não caíu do céu... Se não queria mas era livrar-me de Denise... Havia também o meu orgulho, é certo, e a atitude dela, a distância, ofendeu-me...
-Imaginas! Dez horas num comboio! -disse Abel.
-Sim... Uma susceptibilidade idiota, exagerada...
Os dois amigos não tiravam os olhos dele e a curiosidade incomodava-o. Pareciam dois juizes, a espreitá-lo e a divertirem-se com uma história que o arreliava há vinte anos. A confissão apanhara-o. Quando começara, não esperara ir tão longe, mas agora não podia evitar.
-O hotel também não era o mesmo... E a hora era outra... Pelo caminho, do “Tre Scalini” ao hotel, reparei no seu nervosismo. Na insegurança. Não era natural, não era a Denise do ano anterior. Esquivava-se. No quarto, enquanto arrumava o saco e o blusão e tirava os botins, disse-me: “Não estou bem... Não sei se quero...” “Se queres o quê?...” -perguntei. Sabíamos os dois... “Deixa-me dormir, por favor...” Deitou-se numa das duas camas, que eu juntara. Andei de um lado para o outro, enervado, sem saber o que fazer. Ela não se mexeu. Dormia a sono solto. Cansei-me de esperar e deitei-me, ao pé dela. Encostei-me a ela, puxei-a. Empurrou-me, fugiu com o corpo. Insisti. Procurei excitá-la, depois, convencê-la. Tentei despi-la, disposto a obrigá-la. “Deixa-te de fitas! O que é que queres?!”, gritei. O corpo dela retesou-se e continuou de costas para mim. Murmurou, com um nojo que me desarmou: “Deixa-me!” Não lho perdoei... Acordou horas mais tarde e disse-me que partia nessa noite. Arranjou-se, e perguntou: “Vamos?” Fomos, calados, separados, evitando tocar-nos, em direcção à Navona, a um bar, para ela comer qualquer coisa e passar o tempo. Avisei-a: “Não te acompanho à estação...”. Ela respondeu, indiferente: “Não tem importância, sei lá chegar sozinha...” Depois, travou-me o braço: “Espera um bocadinho”. Parou, com os mesmos olhos fundos, tristes, cheios de lágrimas. Hesitei em abraçá-la e tentar ainda, ela disse: “Acabou, vamos...”. No bar, pediu um café e uma sanduíche. O que é que pretendia? Humilhar-me? "Bebe!", -gritei, "Acorda!" Bebeu o café, sem reagir, como se já não estivesse ali, mas as mãos tremiam-lhe. Soube-me bem a sua fraqueza...
E olhou para os amigos:
-Uma vergonha, não acham?
Abel e Orlando não responderam.
-Qual vergonha! Não te ponhas com moralidades! -disse, por fim, Orlando- Aconteceu e pronto! Que importa?
Abel hesitou, e, depois, encolheu os ombros:
-É a natureza...
-Pois, a natureza... -acrescentou Orlando, que apontou os vidros embaciados- Já não chove... Amanhã é capaz de estar Sol...
E deixaram-se ficar calados, a evitarem olhar-se, até que Joaquim levantou o cálice e exclamou:
-Força, rapazes! Que é isso?! Ao carnaval!
in Um Inverno em Marraquexe