domingo, 31 de maio de 2009

Escrever riscar eternidade (atenção ao post scriptum)


1. 'O homem escreve, inscreve o voo das aves na pedra dura'. A frase abre, essencialmente, o livro do tempo, Escrevo Risco (luzlinar/Bosq-ímanos), de Américo Rodrigues. É uma pequena obra, cheia de coisas –sobretudo, o combate do homem mortal e do universo infinito, feito de coisas mínimas e sagradas, essenciais, uma delas ele próprio. Escreve, risca, grava, vai fixando o tempo, onde tudo, afinal, já está inscrito: 'Descobri que nas minhas mãos está tudo escrito', há-de concluir. Jorge Reis (arranjo gráfico) e Zigud (capa e contracapa) excelentemente entenderam do que trata. O muito belo relato/poema da experiência milenária não se apresenta, assim, nem se desdobra, por acaso. A vida e a prática do caçador dos instantes cujo sentido tenta revelar no acto de os assinalar e fixar -surpreender- vai-se apresentando, enquanto lemos. E é a nossa curiosidade solidária (participamos da interrogação) que empurra, em diálogo, o movimento e lhe dá a forma que já existia e se refaz em nós.

2. 'Tenho pressa de escrever seja o que for o que dança na minha cabeça; deixo a minha memória impressa nas pedras porque sim' -antes que se apague. Nada escapa à eternidade impassível. Diz a Génesis: 'a terra era vã e vazia e as trevas cobriam a face do abismo'. A terra não pode ser vã e vazia, porque a Génesis também diz: 'o espírito de Deus era levado sobre as águas'. O artista/poeta 'arrisca uma palavra' e, depois, outra, e outra. O poeta é levado pelo espírito de Deus, que está na coisas: em todas as coisas. E arrisca, escreve. Gesto ancestral, ânsia e alegria: chamar ao firmamento Céu e à luz dia e sentir que isso é bom. Para sempre.
p.s. às 22.21- na antepenúltima linha, julgo que teria dito melhor o que penso, se, em vez de E arrisca, escreve. lá pusesse E aposta, escreve. Todos os escritos, inscrições, riscos -são apostas...




No tempo em que a Cultura falava ou o nascimento da Colecção Miniatura



Quando, em 1952 (salvo erro), os Livros do Brasil começaram a publicar a Colecção Miniatura, muita coisa se modificou. Eram, praticamente, os primeiros livros de bolso e de altíssima qualidade, graças aos autores escolhidos e aos capistas convidados. O primeiro múmero, O Livro das Lendas, de Selma Lagerlof, tinha uma linda capa de Mestre Bernardo Marques. Recordo bem a sua chegada a nossa casa, pela mão de minha irmã Maria Júlia, de férias na Guarda, porque quem lá vivia era eu, com a velha ama Beatriz e o cão Vick, no antigo Largo 5 de Outubro (o edifício ainda resiste, devoluto e à mercê da CMG...). Foi um acontecimento! Seguiram-se-lhe obras de Somerset Maugham, Steinbeck, James Hilton, Graham Green, Giovanni Papini, Katherine Mansfield, Clemence Dane... Virgínia Woolf. Hemingway, Thomas Mann, Balzac, Tchekov, Truman Capote… Sei lá! A fina flor da Literatura! Cada novo voluminho, a preço acessível, fácil de guardar, de trazer connosco, era um acontecimento. Um valor precioso. E tornou-se a Colecção Miniatura ponto de referência, modo de aprender a ler e a separar o trigo do joio. Essa função pedagógica tiveram, nesse tempo, outras editoras: a Portugália, a Inquérito, em que a influência positiva do grande crítico João Gaspar Simões se fez sentir... Apareceu, também, da Editorial Gleba (as Publicações Europa-América retomaram-na mais tarde), a Colecção os livros das três abelhas (1953?), dirigidos por Aurélio Cruz e Victor Palla –que publicaram, entre outros, Steinbeck (A um Deus desconhecido), Andre Kedros, Elio Vittorini, Manuel da Fonseca...

O livro não era, então, um “produto”, era obra de arte, que o editor queria levar ao leitor -e a tal preocupação pedagógica ainda não fora desbancada pela infame ganância do mercado, que puxa para baixo e desacredita a Cultura. Em suma: a Cultura valia –e, nos casos descritos, em oposição clara à mentalidade bota de elástico salazarista...

O dia de hoje: o regresso da extrema-direita


As sondagens que vão surgindo, na Europa, precisamente a propósito das eleições europeias (de 4 a 7 de Junho) apontam uma subida da direita e da extrema-direita. É, obviamente, esta última que acende a luz vermelha. E não tem nada de inesperado; ou, melhor: era de esperar. Bastaria a memória do que se passou, na Europa, a partir da segunda década do século XX –e, sempre de par com as crises económicas. Na Itália, Mussolini; em Portugal, Salazar, na Alemanha, Hitler; na Polónia, Hungria, Roménia, convulsões semelhantes; em Espanha, Franco... E, com eles, ditaduras, racismo, guerra. Pois bem, hoje, e aqui, quando vivemos a maior crise económica dos últimos 70 anos e não sabemos como ela irá acabar, os partidos sociais democratas, socialistas, os próprios liberais –tremem. De Inglaterra, chega a notícia que os trabalhistas não irão além dos 16%, em terceiro lugar, atrás do UKIP, partido nacionalista (19%) e longe dos conservadores (30%). O racista Partido Nacional Britânico obteria um razoável 5% -ou seja: UKIP e PNB somariam 24 %. Em França. Os socialistas encolhem, a olhos vistos. Na Hungria, -um exemplo avulso- um partido que exclui, da sociedade, os ciganos, conquistaria representação no Parlamento Europeu.

Inglaterra é o exemplo em que me demoro: é um pilar histórico da democracia. E, também, a pátria da tristemente famosa e funesta “3ª via para o socialismo”... Creio bem que o eleitorado pune esse “socialismo capilé”, que acaba por não ser carne, nem peixe. Um “socialismo capilé” que se dilui no neo-liberalismo e leva o eleitorado a pensar que é, sempre, mais do mesmo...

Os nacionalistas, os extremistas da direita oferecem soluções concretas, claras, erradíssimas mas capazes de mobilizar um eleitorado estafado, assustado, desprotegido, diante do abismo do desemprego e da miséria: mentem, com todos os dentes, mentiras que agradam aos desesperados: denunciam e responsabilizam os imigrantes, que roubariam o trabalho aos nacionais e acabariam com a segurança na via pública; desfazem na EU, que meteria o nariz nos negócios da casa de cada um; insultam os políticos, que encheriam a barriga e ignorariam os problemas reais, etc, etc, etc...

E, meus amigos, o que me parece é que a procissão ainda vai no adro...

Deixo o endereço de um excelente artigo do El Pais, cuja leitura recomendo vivamente:

http://www.elpais.com/articulo/internacional/Brown/avanza/humillacion/elpepuint/20090531elpepiint_1/Tes

sábado, 30 de maio de 2009

As manifestações...

A Fenprof diz que se juntaram 70000 professores; o governo diz que se juntaram só 50000... Continua a farsa, com o governo (socialista?) a olhar para todas as manifestações de protesto como se fossem um pecado... E quem paga é o mexilhão: o ensino continua a afundar-se, vertiginosamente, o ME cria uma geração de ignorantes. É o tal PAC, de que falei atrás...

As cidades mortas


Lugares cujo interesse histórico, arquitectónico, a singularidade do perfil levam a que se considerem património mundial, procurando evitar a sua degradação ou ruína. Assim acontece? Com certeza? Claude Lévy-Strauss já alertou: “Nem tudo quanto inscrito no amplo inventário do “património da humanidade” o foi por razões puras”. O aviso abre espaço à seguinte pergunta, oportuníssima: classificam-se esses sítios com desejo de preservar a qualidade –ou de alargar o elenco turístico e, no fim e ao cabo, transformar esses lugares em fontes de rendimento a correrem, sobretudo, para os bolsos daqueles que lá não vivem?

Não se põe em dúvida a importância da medida nem as vantagens múltiplas que acarreta. Nem se põe em dúvida os benefícios do turismo. Põe-se em dúvida a honestidade das intenções. Saturados e desacreditados certos “tesouros” (o Algarve, por exemplo), buscam-se outros? Nada melhor do que o exótico com selo de garantia -“património da humanidade”- arrancado, manhosamente, à UNESCO. Vende-se a lebre e comercializa-se o coelho.

Salta aos olhos que a preservação de tal património implica a preservação e dignificação das culturas que lhes deram origem. Não creio que o propósito assista a quantos, depois, os exploram. Defende-se a qualidade ou criam-se jardins zoológicos? Defende-se o ambiente ou prostitui-se? Revivifica-se ou desertifica-se? É uma questão cultural, sabemos; mas sabemos, também, o respeito que há pela cultura.


Um escândalo na Guarda: Adeus, Sr. Casimiro!

Quando a morte da Papelaria do Sr. Casimiro passou a facto consumado, escrevi estas palavras, que o Jornal de Notícias publicou

Ao ler no blogue “Café Mondego”, de Américo Rodrigues - exemplar director do Teatro Municipal da Guarda-, a notícia incrível de que a Papelaria do Sr. Casimiro fechou a porta, a amargura trouxe-me de volta o poético “Good bye, Mr. Chips”, de James Hilton. Precisamente, na loja do Sr. Casimiro comprei o livrinho cuja lembrança me dói, nostalgia da adolescência perdida. Nesse mesmo lugar das mil maravilhas, espaço aberto a todos quantos vinham, generoso, singelo, descobri Dostoievski, Proust, Steinbeck, Manuel da Fonseca, Thomas Mann e completei aquilo a que chamava Máximo Gorki, também lá encontrado, “as minhas universidades”. Serei um de milhares, porque a Papelaria do Sr. Casimiro viu passar gerações. Autodidacta, altruísta e sonhador, proporcionou-nos muito do que nos não deu nenhuma escola. E, agora? Ponto final? Um facto irremediável? Não. Inaceitável. A identidade duma cidade assenta na sua história e a sua história é a sua Cultura. E a Papelaria do Sr. Casimiro é um pilar da Cultura egitaniense.

A Câmara da Guarda tem cuidado a imagem da cidade, especialmente através do incremento cultural. O TMG, em apenas três anos e meio, transformou-se em pólo respeitadíssimo, com prestígio que ultrapassa fronteiras. Deve-se o TMG à inspiração de Maria do Carmo Borges, ao tempo Presidente da Câmara: soube querê-lo e deixá-lo em óptimas mãos. Mudaram os presidentes, o espírito não mudou. E a quem, hoje, preside à Câmara Municipal e ao responsável pelo pelouro da cultura não pode escapar a obrigação de salvarem o recanto mágico -histórico- do Largo da Misericórdia. Se o não fizerem, será imperdoável.

O dia de hoje: que saudades, Mr. Chips!...




No regresso do Porto, que deixo, sempre, contra vontade, reli um livrinho muito especial: Adeus, Mr. Chips, de James Hilton. Comprei-o na fabulosa Livraria Lumière, à Travessa da Cedofeita, onde há de tudo: sonho, poesia e as obras dos melhores autores, mesmo daqueles que não esperamos encontrar.

Mr. Chips foi meu herói, já lá vai meio século, quando, adolescente, descobria e aprendia a vida, na Guarda, dividido entre as aulas do Rocha, a braseira da Libaninha e a mínima Papelaria do Sr. Casimiro, que fechou há dois meses. Portugal é... Portugal e ainda se não curou do imobilismo mental salazarista: a Cultura é como as árvores: para abater. Reina a corrupção, o betão e a cabeça de amendoim –assistimos, aliás, ao PAC (Processo de Analfabetização em Curso), patrocinado pelo ME, em que sobressai o nosso conhecido trio Lurdes & Lemos & Pedreira, Sociedade de Irresponsabilidade Ilimitada. Porque, meus amigos, a Câmara Municipal da Guarda já deveria ter feito alguma coisa, isto é, tudo: já deveria ter criado condições que levassem à reabertura da histórica Papelaria, que formou gerações de egitanienses.

Dizer mal da novelinha de Hilton, Adeus, Mr. Chips, é uma heresia; não ultrapassar as suas (dele) fragilidades, pretenciosismo. O livro faz bem à alma: puro, generoso, poético. Traz de volta os sentimentos: amor, amizade, camaradagem, altruísmo, sacrifício. Marcou a minha adolescência, tal qual outro romance, de maior fôlego: o Jean Cristophe, de Roman Roland. E o extraordinário é que, tanto tempo passado, me pôs a fungar, outra vez... Que maravilhosa história de um homem bom
!

terça-feira, 26 de maio de 2009

O dia de hoje...



Vou uns dias ao Porto e ficamos sem conversa. Domingo já estarei de volta. É uma alegria voltar ao Porto –sou, visceralmente, do Norte. Desço, sempre, no mesmo hotel, o Inca, à Praça do Coronel Pacheco, vizinho da Cedofeita –e dou-me bem. Ficam perto os alafarrabistas e o Jornal de Notícias (31 anos, acolaborar...). E há os amigos, a viva humanidade da cidade e a sombra de Camilo. A dizer-se a verdade, a sombra do lisboeta por acidente, transmontano de gema, que se matou em Seide, no casal minhoto, herdado do marido da mulher raptada –a presença da besta genial anda por tudo o que é sítio, neste país. Afinal, a gema é portuguesa!...

Levo comigo as Novelas do Minho, que releio, mais uma vez (quantas?). Camilo lê-se e relê-se, nunca basta. É o milagre de uma companhia, um confidente, a falar das coisas do coração: o ódio e o amor, o ciúme. E a pôr-lhes em cima aquilo a que o grande Miguel de Unamuno, seu admirador incondicional, chamou, apaixonadamente, sentimiento tragico de la vida. Camilo é um mar –sem dúvida, o mar português. Camões, Antero, Nobre, Sá-Carneiro, outros...

Cheguei ao homem da Ribeira de Pena, de Friúme, do Marão, de Joaquina Pereira, Patrícia Emília, Fanny Owen e da menina tripeira que depois engordou, fumou charutos e botou bigode, Ana Plácido, a mãe de um doido e de um pateta alcoólico, Jorge e Nuno, com quem, no fim da vida, Camilo se correspondia, dentro de casa, por bilhetes; descobri Camilo, relativamente tarde: aos 17 anos. Na biblioteca de meu Pai, que era herdada de meu Avô, Acácio Lopes Cardoso, outro camilianista (sentava, no colo, a jovem mulher, uma menina do povo de Torre de Moncorvo, recitava-lhe Camilo e choravam os dois) sobravam os livros de Camilo e topei O Senhor do Paço de Ninães. Daí adiante, nunca mais larguei o Mestre. Conhecia outros Mestres, Dostoievski, Tolstoi, Thomas Mann... e, à mistura, Raúl Brandão, Gorki, o Purinho: António Nobre; atravessava um momento complicado: tinham-me trocado a Guarda por Lisboa; cortara relações com a minha primeira namorada, uma bonita raiana; deixara, atrás, os amigos d’alma e a Cova Funda. Logo o Torturado de Seide me agarrou e consolou. Também eu chorei e ainda choro, com ele. E os que não chorarem não são homens, não são nada! Nem percebem, da vida, coisíssima nenhuma –assim como se as cabeça fossem amendoins...

Uma linda capa, criação de uma mulher excepcional, Ilda Moreira, para um livro da sua amiga Irene Lisboa



Eis uma das capas que Ilda Moreira desenhou para Irene Lisboa. Esta edição (a primeira e julgo que única) de 13 Contarelos, data de 1926. Irene Lisboa e Ilda Moreira foram grandes amigas, amigas de coração, tendo vivido juntas, largos anos. Conheci Ilda Moreira, em 1974, na sua casinha da Rua de São Bernardo (em Lisboa). Era uma senhora encantadora, sempre presa à memória de Irene, que lhe deve muito. Conversámos sobre a grande escritora e dessa conversa saiu um dos meus programas d' O Livro à Procura do Leitor, na RTP. Não faço a mínima ideia do que terá acontecido às bobines do filme, e eram bastantes (lastimável). Quando penso em Irene, recordo Ilda Moreira e quis trazê-la aqui, ao nosso convívio. Nunca esquecerei a sua bondade e a sua generosidade.

Quantos aderem às greves?...

Os professores, através das suas associções, dizem um número "positivo"... O governo vem a correr e diz outro -quase que diz (vontade não lhe falta...): "não aderiu ninguém"... E é uma palhaçada. Já sabemos que acontece, sempre, isto. E o que parece é que se quer gozar com os cidadãos. Uma palhaçada que sabe a esturro -e nos deixa a desconfiar de que nos escamoteiam, sistematicamente, as verdades.

Manuel da Fonseca não é só um dos grandes contistas portuguese, também escreveu poesia...



Estio

Horizonte
todo de roda
caiado de sol.
Ao meio
do cerro gretado
esguia cabeça de cobra
olha assobios de lume
sobre espigas amarelas...
(...Campaniços degredados
na vastidão das searas
sonham bilhas de água fria!...)


a belíssima capa do belíssimo livro de contos, Aldeia Nova, tem um belíssimo desenho de Manuel Ribeiro de Pavia (sabe bem dizer bem..).



Três boas almas


Venho falar de um humilde professor do nordeste colombiano e dos seus dois burrinhos. O homem chama-se Luís Soriano -há que reter o nome e já vamos ver porquê- e as alimárias dão pelo nome de Alfa e Beto. Junte as palavras e lerá alfabeto. É que o professor anda pela selva, de povo em povo, a emprestar livros. Nos fins de semana, que o resto dos dias ensina na sua escola de La Gloria. Tem tempo: ao ensino, pode somar horas de leitura e distribuir, gratuitamente, sabedoria. Gostava de ouvir os comentários dos nossos docentes, tolhidos e engaiolados para avaliação... Sábados e Domingos, trotam Luís e seus jericos. Muito eles suam! Transportam um tesouro: a “Biblioburro”, que assim chamam ao carrego.

Esse samaritano nasceu em região pobre, atrasada e violenta, a de Aracataca, inspiradora de “Cem anos de solidão”, de Garcia Marques. Estudou noutro lado, onde aprendeu ofício de mestre escola. E voltou à origem –com a convicção de que a cultura é a riqueza maior e arma formidável contra injustiça e banditismo. Foi-se à corte e carregou de livros os dois burrinhos, em alforges, ao modo de almocreve singular, que empresta e não vende. A aventura começou com 70 livros e já vai em 4.800, que arrecada numa barraca, junto à casa: dicionários, romances, (“O Livro da Selva”, de Kipling), obras de história da América Latina e do mundo. Abre janelas, desvenda horizontes fabulosos. Obviamente -Luís Soriano tornou-se conhecido-, a maior parte da “Biblioburro” foi oferecida por instituições solidárias. Às vezes, elas existem e ajudam, não desespere, leitor! Que o digam Luís e os burricos, três boas almas (algum teólogo reclama?).

O dia de hoje: um círculo vicioso


É tragicamente simples: a actividade cultural -cinema, televisão, livros, teatro, etc-, na maioria dos casos não se afirma como é mas, sim, como deverá ser, para agradar ao público. Impõem-no produtores e editores –e os “artistas” aceitam e praticam de acordo com esses. Ora o grande público, inculto ou insuficientemente culto, busca o superficial e o que diverte –a exigência não vai mais longe. Assim, as obras medíocres encontram vasto público –vendem-se. E que aprende com as obras o público? Nada ou nada que já não saiba. Quer dizer que não se debatem ideias nem existe nenhuma preocupação pedagógica? É claro que não há debate nem pedagogia. Os produtores, editores limitam-se a apontar ao lucro e os “artistas” também. Justificada, pelos resultados comerciais, a “arte” vazia, insiste-se nela e já lançou raízes. É uma realidade trágica: satisfaz-se a ignorância, recorrendo ao medíocre, e a ignorância passa a reclamá-lo e consumi-lo. E esse círculo vicioso põe as sociedades a andar para trás.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

O homem um bicho da terra tão pequeno...


Uma manifestação de protesto que junta 85000 pessoas não tem importância nenhuma porque foi o PCP que as arrebanhou e é o PCP que diz que eram 85000... Uns milhares de pescadores que reclamam não têm importância nenhuma porque são só uns milhares... Umas centenas, dezenas de desempregados ou de “em vias disso” à rasca não têm importância nenhuma porque são só centenas, dezenas... Um homem sozinho, a gritar que morre de fome não tem importância nenhuma porque é só um homem...

Governo, políticos, comunicação social (também ela arrebanhada pelo poder? ou protectora dos poderes?) concordam: coisas dessas não têm, realmente, importância nenhuma.

E é, assim, que alombamos com a crise, o desemprego, a miséria e a infâmia dos dias...

O dia de hoje...



Há palavras boas, que nos ajudam a sobreviver ao cinzento, ao deserto dos dias. Georges Bernanos, autor da obra-prima Le Journal d’un curé de campagne, deixou escrito no álbum de uma menina brasileira (Bernanos refugiou-se no Brasil, após a invasão da França pelo exército alemão e breve exílio nas Baleares, de onde teve que fugir, depois de denunciar o franquismo, num livro incontornável: Les grands cimitières sous la lune):

Sê fiel aos poetas, permanece fiel à infância. Nunca te transformes numa pessoa crescida! Há uma conspiração das pessoas crescidas contra a infância e basta ler os Evangelhos para nos apercebermos disso...

Salinger dizia que todas as pessoas crescem... mas a maioria limita-se a envelhecer... Obviamente, dentro: na raiz da alma.

Bernanos, cristão e católico, também escreveu:

Fomos criados à imagem e à semelhança de Deus porque somos capazes de amar. Os santos têm o génio do amor.

Esse gesto de amar... Tão simples, precioso e tão difícil, que nos custa tanto! Em O Milagre de Milão, no belo filme de Vittorio de Sica, o herói dizia: Quero ir para o sítio onde bom dia queira dizer bom dia!
p.s. talvez não seja necessário explicar... , mas, just in case, aqui fica: não sou cristão, admiro e respeito a figura de Jesus, não sou católico e leio, frequentemente, os Evangelhos...

domingo, 24 de maio de 2009

Os alicerces culturais


Passaram 75 anos, sobre o artigo de Afonso Duarte, citado abaixo. E ele soa como actual. Isso interessa-nos, especialmente. Porquê? Quando Afonso Duarte lastima que o “desenvolvimento as técnicas, a arte do engenheiro e do físico” não fosse acompanhado do “necessário aperfeiçoamento da organização social”, toca no dente doente. O aperfeiçoamento da organização social, o desenvolvimento sociocultural estagnou, durante quase 50 anos, congelado pela ideologia salazarista. Ou seja: o acesso ao ensino e ao bem estar, indispensáveis a quem quiser crescer como se deve, permaneceram privilégio de alguns. O 25 de Abril mudou muita coisa. Os portugueses, hoje, vivem muito melhor, podem adquirir bens impensáveis há 35 anos: casa, roupa, carros. Têm outra segurança social, outro sistema de saúde –criticáveis, é certo, mas conquistas do 25 de Abril. Casas, carros, à custa de endividamentos? Isso é outra conversa e liga-se ao mau governo da riqueza, que se corrigiu muito parcialmente. O que nos importa, agora, são os alicerces culturais: o ensino. Aí, os governos post-25 de Abril meteram água –e este governo, que vai lançando as sementes de uma geração analfabeta, continua a meter água, escandalosa e criminosamente. O que aconteceu e acontece? Os portugueses chegaram e chegam ao uso de coisas, sem saberem usá-las. Há, neles, vazio interior, inconsciência, incapacidade crescente. O atraso cultural ficou e vai ficar quase na mesma. E um homem inculto é facilmente levado a engano: a portar-se tal qual querem que ele se porte os donos do dinheiro.
p.s. 15 m depois: quando escrevo "mau governo", como causa de endividamento de particulares, refiro-me ao mau governo da nação, porque acusar de gastadores as pobres vítimas desta crise -o Zé Povinho, que somos todos- foi o recurso safado dos plutocratas, que a fizeram a ela, à crise...

O dia de hoje... segundo Afonso Duarte...




A imagem acima reproduz a capa da revista presença, nº 41-42, Maio de 1934. Lá fui buscar as seguintes palavras de Afonso Duarte, que profetizavam o mundo em que vivemos: uma farsa trágica, sem nada dentro e sem nada fora, uma bola tonta, pejada de gente abandonada ao vazio espiritual e aos especuladores, que fazem a miséria e a fome:

O homem é, na verdade, e como nunca, uma inquietação universal.
E quem a criou?
O imprevisto desenvolvimento das técnicas, as maquinarias, a arte do engenheiro e a ciência do físico -dizem- e porque isso não foi acompanhado do necessário aperfeiçoamento social, -porque deixaram o homem para trás e com fome. Criou-se a questão económica e nela querem ver todo o mal estar social. Claro –como ouvi dizer um dia a uma mulher do povo –
quando a gente não tem nada é que o juízo se lhe vira... Mas o juízo virado que o mundo actual nos apresenta deve buscar-se antes no ritmo dinamogenizante do progresso mecânico em desequilíbrio com o espiritual”.

O progresso foi e é o de Tempos Modernos, de Chaplin: o homem comum transformado numa roda da grande máquina que alimenta o canibalismo da minoria privilegiada. O mundo do homem retransformado em escravo e vazio como uma pipa furada. Do homem sem horizontes: roubaram-lhe alma, tempo de amar e viver, realmente. Do homem entregue à agonia antecipada. O tempo do frenesi frenético da ganância apontada à conquista do lucro –arrancado aos cadáveres de biliões de pessoas. Afonso Duarte, o humaníssimo poeta da Ereira, sabia-o: isto não é progresso –é um crime, uma monstruosidade: a que pariu esta crise.

sábado, 23 de maio de 2009

Ainda o dia de hoje...

Em comentário a O dia de hoje... (de hoje mesmo) pergunta-se se estaremos condenados a "isto" (ver Comentário), que julgo significar, para o comentador: a descaracterização do PS e o seu afastamento do ideal socialista, o fortalecer do PSD, que se diz social-democrata e bebe na cartilha liberal/conservadora, o bloco central, afinal um bloco de direitas...
Não, não estamos condenados: o PS pode recuperar o discurso socialista que aflorou, em tempos; em qualquer momento, pode, também, afirmar-se um outro partido, depende apenas das pessoas: dos eleitores e da sua mais ou menos esclarecida consciência cívica.
Obviamente, preferia que o PS se recuperasse; naturalmente, preferia que o eventual novo partido fosse de esquerda.
Mas, sobretudo, queria ver afirmarem-se políticos transparentes, coerentes, a dizerem, realmente, o que são e a actuarem conforme. O que permitiria um diálogo constructivo e sincero, entre as partes, que desapareceu, há muito.
De "politiqueiros", estamos todos fartos, creio.

Requiem pela pedagogia...


Toda a “produção cultural” –fechemos os olhos e, por facilidade, aceitemos chamar-lhe isso- aponta ao lucro e assenta em sondagens (ou palpites) que envolvem o gosto (ou mau gosto, ou desgarrado gosto) predominante. Os “consumidores” (assim entendida a Cultura, não cabe ao público outro nome) querem coisas leves, pornográficas quantum satis, fantásticas, pseudo-históricas, românticas mas fáceis, etc, em suma, sopa de pedra, albergue espanhol, onde caiba um pouco de tudo menos aquilo que implique seriedade –profundidade, procura. Tudo menos o que incomoda: obriga a pensar. O consumidor -conclui o “produtor”- não quer maçadas –quer é ser embalado e o segredo está em adormecê-lo. Diria que não vale a pena –ele já dorme a sono solto. Mas de que sono?

Há um breve ensaio de André Gide, intitulado “Paludes”. O leitor traduza por palude ou pântano. Gide define a obrinha: “história de animais que vivem em cavernas sem luz e cegam à força de não usarem a vista”. O nosso “consumidor” prefere, também ele, o escuro? Não há é dúvida que, assim, perde vista. E o “produtor” não está interessado em iluminá-lo –não se tem por Santa Luzia e não se esforça por ajudá-lo no uso dos olhos. Será que -instrumento de neo-obscurantismo- o prefere ceguinho? Será que, a confrontar-se com ele acordado, o prefere a dormir no palude? Porque o “consumidor”, acordado, talvez deixasse de ser um “consumidor” passivo e perguntasse: “Que pouca vergonha é esta? Queria Arte e venderam-me tretas? Onde pára a lebre, se, aqui, só boceja o gato?”

Ou será que os responsáveis pela divulgação cultural deitaram às ortigas a pedagogia? O dever de iluminarem a caverna e eliminarem o pântano, de indicarem caminhos que cortam ao invés da escolha do superficial evasivo? Omite-se a qualidade, apresenta-se pechisbeque, que se faz passar por oiro. É utopia pedir o contrário? E se escutarmos o grande Aharon Appelfeld: “A nossa vida não é fácil mas tem um sentido”? Qual? Quando? E quem no-lo aponta? Uma certeza: a feira da ladra imperante é que não tem sentido nenhum.

O dia de hoje...

...é para descansar. Pois, com certeza... Mas é, também, para dar uma olhadela às sondagens e ver que o PS (cuja liderança é tão socialista como um ovo é parecido com um espeto) desceu, e bastante, e o PSD (que é tão social-democrata como o Mantorras é sportinguista) subiu, e o bastante para discutir, em futuro próximo (daqui a quase já só 4 meses) o governo ou um lugar no governo. Eu fiquei preocupado. Lembro-me dos desastrosos 10 anos de Cavaco primeiro-ministro e da moluscosidade dos blocos centrais. E, em suma, acredito no socialismo!

sexta-feira, 22 de maio de 2009

José Régio e Umberto Saba, os grandes poetas e e as coincidências



Em 1924, Umberto Saba, o poeta triestino de quem já falámos, publicava um volume de sonetos: Autobiografia. Em 1929, o nosso José Régio publicava o volume de sonetos Biografia. Régio escreveu, ao longo da vida, sobre a sua própria obra: Introdução a Uma Obra. Saba fez o mesmo: Storia e Cronistoria del Canzoniere. Nada mais do que essa coincidência os aproximará. Perdão; irmana-os o génio e serem dois dos maiores poetas do século XX.

(acima, ilustração de Júlio -também poeta, com o pseudónimo de Saúl Dias- para Biografia, de Régio)

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Eles nunca imaginaram...


A fé cândida do ministro Pinho, que Manuel A Pina sublinha, irónica, impiedosa e desassombradamente, no artigo abaixo, ilustra o momento que vivemos. Politiqueiros, ministreiros e etcetreiros nunca imaginaram que isto poderia ser a sério; sempre julgaram que era um passeio, discursatas, promessas, arranjatas, carreiratas e mais e mais, com música de fundo simpática e reconfortante e o povo a ver. Nunca lhes passou pela cabeça que haveria uma crise –esta, com falências, burlas ao léu, desemprego, miséria, fome e, afinal, com o povo, o tradicional manso borreguinho, o anho de Deus, o "pateta", a indignar-se, a agitar-se, a levantar a voz... E tragédia é que viraram a costas e continuam a fingir que são políticos, ministros, etc. Que governam. Quanto tempo vamos aturá-los, alimentá-los, vesti-los e calçá-los?...

O dia de hoje: o incontornável Manuel A. Pina

O dia de hoje, deixo-o nas mãos de Manuel A. Pina, sempre, como ninguém, o crítico de um Portugal atraiçoado e perplexo
A fé move montanhas
É uma notícia animadora: "Manuel Pinho acredita que a Autoeuropa vai manter-se em Portugal". Podem faltar-lhe outras coisas, mas fé não falta ao ministro Manuel Pinho:
"Manuel Pinho acredita que Portugal pode sair bem desta crise " ('Diário Económico', 30/9/ /08); "Manuel Pinho acredita na competitividade das empresas portuguesas" (TSF, 10/11/08); "Manuel Pinho acredita que défice pode ser reduzido a 3%" ('Jornal de Negócios', 2/10/06); "Manuel Pinho acredita no plano para salvar Quimonda" (RTP, 27/1/09); "Manuel Pinho acredita que o país pode passar de importador a exportador de energia" ('Sol', 30/6/07); "Manuel Pinho acredita que sector do turismo resistirá à crise" (TSF, 12/9/08); "Manuel Pinho acredita no cluster do mobiliário" (Paços de Ferreira, 30/5/08); "Manuel Pinho acredita que Douro será zona turística de 'altíssima qualidade'" (JN, 5/5/ 09); "Manuel Pinho acredita numa nova maioria do PS" (TSF, 10/5/09); e por aí fora, que a crónica não dá para mais…
Pode ser, quem sabe?, que a fé mova montanhas, e que mais valha ter fé do que fazer algo. Tenhamos, pois, fé em Manuel Pinho. Pode ser…
artigo de Manuel A. Pina in Jornal de Notícias, 22/o5/09

Um livro muito comprido com coisas dentro


Este livro chama-se Escrevo Risco, arranjo gráfico de Jorge dos Reis, capa e contracapa de Zigud. O autor é Américo Rodrigues, mais conhecido pelo “herói da Guarda”. Num alto monte da sagrada Beira -Augusto Gil dixit-, Américo luta, à maneira de David, com Golias. Só que os "golias" da Guarda são anõezinhos (no que diz respeito ao espírito, porque alguns têm cabedal e os que o não têm sabem municiar-se: a calúnia, a intriguinha, a safadice à chico-esperto, disfarçado de maquiavel de aldeia). O alto monte tem muitos aspectos ultramontanos –reaccionários. Desde a repressão do assobio à da ideia própria & etc. Arte, independência, vanguarda –vêem-se aflitas para entrar na Guarda. Quanto mais para se instalarem! Américo sugeriu o Teatro Municipal, ajudou à sua criação e dirige-o, exemplarmente. Com um senão, porém: ama e respeita a Arte, venera a independência e está, sempre, ao lado de todas as vanguardas –precisamente os movimentos que pretendem deixe a Guarda de ser vã (alguns sinónimos: oca, estéril, ineficaz, vazia, infrutífera). Até há minutos, ainda estava vivo, ainda mexia (mas, quando acabar esta nota confirmo, telefono à menina do lenço, à Margarida e, se houver azar, digo). Mais uma pedra no charco: acaba de publicar Escrevo Risco, um livro com muito que se lhe diga, que diz muitas coisas e é muito comprido. Mesmo comprido: podemos esticá-lo, assim a olho, cerca de três metros. Muita fruta. Não há nada como irem comprá-lo e lerem-no, se querem verificar. Eu vou dedicar-lhe mais espaço, noutro local. De Domingo a oito dias. No Jornal de Notícias, página da cultura, obviamente.

O dia de hoje...



Também é bom começar o dia com um grande escritor e, se o quisermos nosso, nada melhor do que abrir Camilo. Ele é o companheiro por excelência, depositário da alma portuguesa. José Régio tinha-o à cabeceira, nos últimos dias de vida. Consola e embala os sofredores; as lágrimas que provoca são lágrimas abençoadas.

Está aí acima a imagem da capa da 2ª edição de um romance, Amor de Perdição, que vale o que vale a Lírica de Camões e o , de Nobre –isso entende quem nasceu por aqui... Uma 2ª edição, na terra de Balzac e Proust!... É justo e envaidece.

Mas o que me traz é a seguinte passagem, d’ A Viúva do Enforcado, novela que encheu as primeiras horas da minha manhã. O herói, o jovem Guilherme Nogueira, aprendiz de ourives-gravador, diz, assim, a Feliciana Pereira, mãe de Teresa de Jesus, a sua paixão nascente: ‘meu pai é um ourives pobre, minha Senhora'. E a Feliciana, que a beleza das obras de Guilherme deslumbrara, responde: 'Pobre é o Demo, Deus me perdoe!, quem tem a graça de Deus não é pobre'.

A graça de Deus: o talento de Guilherme, o génio do ourives... E lembrei, no final da versão cinematográfica do Doutor Jivago, de David Lean, a rapariguinha da balalaica, a filha de Jivago... E o tio, a perguntar-lhe:
-Quem te ensinou a tocar tão bem?
E ela:
-This is a gift

É um dom... E lembrei o pobre Camilo, que mandava remendar as calças à filha Bernardina Amélia, porque não tinha dinheiro para comprar outras. E escrevia, escrevia, na noite de S. Miguel de Seide, à luz do candeeiro de azeite... Sustentavam-no a graça, o dom, o génio... Talvez, muito possivelmente; enchiam-lhe os dias e o coração, justificavam-lhe a vida. E foi o que nos deixou: as formidáveis obras de um louco iluminado –que enchem um vazio de almas penadas, a reclamarem beleza e absoluto.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Flaubert e os outros



Em 17 de Novembro de 1869, “Educação Sentimental”, aquele que se deverá considerar o terceiro e último romance de Gustave Flaubert, chega às livrarias. O acolhimento da crítica foi muito reticente, tal qual acontecera, sete anos antes, com “Salambô” e aconteceria, cinco anos depois, com “A Tentação de Santo António”. O sucesso de “Madame Bovary” (1857), ligado ao escândalo que o livro provocara, nunca mais se repetiu. E, no eremitério de Croisset, junto ao Sena, que, ali, costeava Ruão, “longe da multidão enlouquecedoura” (título dum belo livro de Thomas Hardy), acusa o golpe, revolta-se, esmorece. Os críticos agridem-no. E, por sua vez, “os amigos têm medo de se comprometerem e falam-me de outras coisas” –escreve Flaubert a Georges Sand (a “Correspondence” entre os dois, editada na Flammarion, densíssima, vale bem a pena ler). Mas ela sossega-o: “é de mestre e o teu lugar está conquistado para sempre”.

Albert Thibaudet, num ensaio sobre o romancista, assinala: “Flaubert disse: Madame Bovary sou eu, poderia ter dito: a Educação Sentimental é o meu tempo”. Por isso, reconheceram-se os amigos no romance e viraram-lhe as costas. No entanto, o livro, que a Relógio d’Água relançou há meses, vai fundo e é muito mais que um retrato de época –do mesmo modo que “Guerra e Paz” ou “A Montanha Mágica”, iluminados pelo génio de Tolstoi e Thomas Mann, o são. As obras que se aventuram nas profundezas da alma não têm tempo. E o destino de Frédéric Moreau, o seu amor a Madame Arnoux, a teia de contradições e infortúnios, os alçapões da vida, apaixonarão o leitor de hoje, que vibrará com eles. Afinal, uma obra-prima.




terça-feira, 19 de maio de 2009

O dia de hoje...


A gripe mexicana, ou gripe A, como queiram... Há cem anos, ceifou milhões de vidas a “espanhola”, e ninguém se ofendeu por a chamarem assim... A gripe mexicana, dizia, vai-se espalhando e fazendo vítimas. Tanto pode calhar-me a mim, como a ti, amigo –e, eventualmente, calhar-nos a morte, o cangalheiro e o gato pingado... É injusto: porquê, a mim? Porquê àquele ou àquela? A morte é absurda. Jorge de Sena achava que não há mortes naturais... Queria dizer que ela -a Negra- é um acidente, sem pés nem cabeça, a cortar a maravilha da vida –a vida, essa, é natural: é razão de ser do Universo...

Mas a nossa indiferença, o nosso egoísmo, a nossa obsessão de números e estatísticas e um ‘cientifismo’ que sabe a magazine chegam a conclusões monstruosas. Esta notícia: responsáveis norte-americanos ‘justificaram’, assim, a morte de um homem, vítima da tal gripe: “é normal, todos os anos morrem milhares de pessoas, com gripe...” Milhares. Aquela pessoa não era mais do que um número... previsto, calculado, lógico... Um dos milhares esperados. Soube-me tão mal! Com mil demónios: era um homem, uma criatura de Deus! Um como nós, amigo! Em África morrem crianças com fome e sida. É natural: são números que cabem, naturalmente, nas estatísticas, nas previsões... nos cálculos...

Acerca do absurdez da morte, escreveu, já lá vão séculos, o nosso Sá de Miranda:

Que la mia vida se assuele
sin razón que ansi lo quiera!
Yo me pene, yo me muera!
Que nadie no me consuele!

Y por qué así me acontece
ninguno me lo demande:
toda razón desfallece.

Capa da revista "presença", nº 40, Dezembro de 1933




O Enxoval do Menino

(Recolhido em Freixeda, Almeida-Guarda e extraído da obra de Afonso Duarte, O Ciclo do Natal na Literatura Oral Portuguesa)

Menino Jesus
Que estais no altar
Lindo enxovalhinho
Tenho pra vos dar

Eu por os pésinhos
Hei-de começar:
Lindos sapatinhos
Tenho pra vos dar.

Mas quem tem sapatos
Há mister meiínhas:
Eu vos las darei
De salvé-rainhas.

Mas quem tem meiínhas
Há mister calção:
Eu vo los farei
Com uma oração.

Mas quem tem calção
Há mister sertum:
Eu vos lo darei
De rico teçum
[tecido]

Mas quem tem sertum
Há mister casaca:
Eu vos la darei
De ouro e de prata.

Mas quem tem casaca
Há mister chapéu:
Menino Jesus
Levai-me pró céu

Miranda do Douro, nosso refúgio...


O ministro da Cultura (?) diz que há, em Miranda do Douro uns loucos portugueses que falam outra língua. Olha a sorte deles! Porque parece que o ministro anda, por aí, ansioso, com um projecto de novo Acordo Ortográfico -esse, sim, mais que louco: louquíssimo!- que nos vai pôr a falar e a escrever portuguis, ou portugus, ou protugueto, ou uma coisa assim... Bem hajam os bons mirandeses que optaram por uma língua escorreita! Vamos todos aprender a falar e a escrever mirandês? Enquanto é tempo!...

Quando um intelectual respeita os mais e se respeita




Desde a primeira hora, impressionou-me, em Sá de Miranda, a verticalidade. Naturalmente, apaixonei-me pelo estilo enxuto, certo, essencial e encantou-me a beleza dos versos. Porém, as cartas e a biografia tocaram-me fundo. Sempre admirei os homens honestos, pontos de referência. Sá de Miranda tinha uma ideia de si próprio e dos outros. Respeitava-se e respeitava os outros. Eu sei: há autores cuja biografia é um desastre e a obra formidável. Louis-Ferdinand Céline ou o nosso Botto, por exemplo e por motivos diferentes. Nesses casos, o fim infeliz quase os redimiu: Céline, morreu pobre, humilhado, homiziado; Botto, algures, no Rio de Janeiro, pobre como sempre, de modo não esclarecido... Eu sei isso. Todos sabemos isso. Mas a integridade faz muita falta –sobretudo, agora, aqui e por toda a parte, com os intelectuais a venderem-se e os autores a prostituírem-se –olho no dinheiro, olho no sucesso. Ainda há pouco havia nomes, aos quais nos podíamos referir: António Sérgio, Aquilino Ribeiro, José Régio -Mestres... Hoje, onde param os Mestres? Venalidade, literatice descartável, pornografia ridícula (seremos um povo de subdesenvolvidos sexuais?), prestígios que se compram e vendem. Traficantes de almas... Vendedores de banha... Sá de Miranda, retirado, na sua Casa da Tapada, dizem que a chorar por um Portugal decadente; pobre Sá de Miranda, se voltasse e visse oo país em que nos vamos tornando!

José Cardoso Pires incensurado



A recusa de Proust do “método de Sainte-Beuve”, crítico “oficial” do século XIX francês -seguir a biografia de um autor e, através desta, explicar a obra-, fez escola e tem a sua razão de ser. O autor revela-se, inconscientemente, naquilo que escreve; no seu dia a dia representa, apenas, aspectos do que realmente é –segundo Proust, não esssenciais. José Régio, impaciente, multiplicava o protesto: “Dispenso a vossa estima pessoal; tentem amar os meus livros!” E tinham os dois razão: Proust e Régio: a obra trai o criador e desnuda a verdade. Quem se mete nessas andanças arrisca-se a mostrar-se, involuntariamente, em camisa (ou mesmo sem ela). No entanto, o convívio com o homem ajuda a compreender as suas acções. Conheci e observei José Cardoso Pires cuja hombridade, generosidade e pureza de intenções me facultaram o entendimento dos romances, novelas e contos que escreveu. Acrescentaria: a humildade própria de quem é extraordinário –sai do comum e testemunha, superiormente, do seu tempo e do nosso destino.

Cardoso Pires liga-se à “geração de 50”, que juntou nomes como Agustina, Abelaira, Fernanda Botelho, Graça Pina de Morais. Cada um seguiu o caminho próprio mas todos deram um empurrão muito importante à narrativa portuguesa. Não aconteceu há muito tempo; estendeu-se pelos anos 70, 80. Deram-nos o que de melhor se publicou na segunda metade do século XX. O livro “Histórias de Amor” (publicado, na íntegra, pelas Edições Nelson de Matos, que sublinha os cortes da censura salazarista, que o retirou do mercado em 1955), traz de volta a magia de um grande contista. Usa a língua ao modo de um escultor: também ele grava em pedra.

O dia de hoje...


As sondagens apontam o crescimento da abstenção, nas próximas eleições para o parlamento europeu, um pouco por toda a parte. A abstenção é um erro. A União Europeia é uma realidade incontornável. Os fundos da UE, que afluíram aqui, durante o longo e desatroso consulado cavaquista e, apesar das múltiplas manigâncias e do mau uso daquilo que se salvou –ajudaram muito o nosso país pobre. Viramos as costas à UE? A UE é, ainda -e isso não é pouco-, uma garantia da democracia. Todo o mundo está metido numa crise, nós estamos metidos numa crise. Vamos resolvê-la sozinhos? Não parece. Vamos continuar a precisar da solidariedade europeia? Com certeza. Esquecer o voto significa esquecermos as nossas necessidades –ou tombarmos, mais uma vez, num nacionalismo serôdio de cacicagem barata. Em Portugal, mostrará a abstenção, também mais uma vez, ignorância cívica, atraso cultural

segunda-feira, 18 de maio de 2009

O meu Amigo Pablo Guevara



Foi daqueles raríssimos amigos, que dão, às nossas vidas, um sentido. Conheci-o, no Verão de 1958, em Paris, na Cité Universitaire. Pablo Guevara (1930-2006) era peruano, de Lima. Apareceu, com outros sul-americanos, estudantes e artistas. Convivemos dois meses. Chegámos a dividir, com mais dois sul-americanos e um catalão, um quarto no edifício patrocinado pela Fundação Deutsche de la Meurthe... Corremos Paris, procurámos trabalho nos Les Halles, discutimos literatura e cinema, o nosso futuro e as nossas paixões. Ele andava já apaixonado por uma jovem dinamarquesa, com quem acabaria por casar; eu suspirava por uma adolescente alentejana e descobrira Teresinha de Almeida, uma brasileira de Santos, licenciada em Direito, muito bonita, delicada e viva, arguta, suave, leitora de Aragon, que tinha um ‘noivo’ holandês e se desfez dele. Seria Teresinha a dizer-me: ‘Manuel, você gosta é dela...’, da tal alentejana, e a deixar-me, à partida (foi-se embora, antes de mim), o livrinho do poeta francês, Le Créve-Coeur, com a seguinte dedicatória: ‘Manuel, não esqueça Paris”. Não esqueci. Nem a esqueci a ela nem a Pablo. A vida meteu-se ao meio, o que tinha de vir veio –e perdi-lhes o rasto. Teresinha de Almeida ainda me escreveu e, depois, calou-se; Pablo Guevara desapareceu, na bruma. Tentei, em vão, recuperá-los. Há-de haver tantas Teresas de Almeida, no Brasil! Nunca mais soube dela. E as pessoas a quem perguntava por Pablo Guevara iludiam a resposta, não o conheciam. Cheguei a pensar que, homem de esquerda marcada, fosse um ‘temível’ guerrilheiro do Sendero Luminoso... Há anos –em 2003- consegui entrar em contacto com Pablo: tornara-se um famoso poeta e ensinava na Universidade de Lima. Ainda falámos pelo telefone –mas a vida meteu-se, outra vez, ao meio... Quando o voltei a procurá-lo, quatro anos depois, já não existia. Devo-lhe muito: deu-me muito e ensinou-me muito. Montaigne escreveu, a propósito da sua amizade com La Boétie: ‘parce que c’était lui, parece que c’était moi”. Connosco, o mesmo. E continuo a andar, com Pablo, no coração.

Mi Padre un Zapatero, poesia de Pablo Guevara



Tenía un gran taller. Era parte del orbe.
Entre cueros y sueños y gritos y zarpazos,
él cantaba y cantaba o se ahogaba en la vida.
Con Forero y Arteche. Siempre Forero, siempre
con Bazetti y mi padre navegando en el patio
y el amable licor como un reino sin fin.
Fue bueno, y yo lo supe a pesar de las ruinas
que alcancé a acariciar. Fue pobre como muchos,
luego creció y creció rodeado de zapatos que luego
fueron botas. Gran monarca su oficio, todo creció
con él: la casa y mi alcancía y esta humanidad.


Pero algo fue muriendo, lentamente al principio:
su fe o su valor, los frágiles trofeos, acaso su pasión;
algo se fue muriendo con esa gran constancia
del que mucho ha deseado.


Y se quedó un día, retorcido en mis brazos,
como una cosa usada, un zapato o un traje,
raíz inolvidable quedó solo y conmigo.


Nadie estaba a su lado. Nadie.
Más allá de la alcoba, amigos y familia,
qué sé yo, lo estrujaban.
Murió solo y conmigo. Nadie se acuerda de él.

O dia de hoje...


Às vezes, a nossa aceitação -a nossa resignação- impacienta. É o mistério do emigrante português, trabalhador honesto, requestado e respeitado. Durante os meus anos de estrangeiro, e por todo o lado onde andei, só ouvi dizer bem dos portugueses. E encontrei-os felizes, aventurosos, capazes de construir novos mundos, se fosse caso disso. E, agora, regressado, surpreende-me e revolta-me o conformismo deste povo: ajeitam-se, arranjam-se, afazem-se ao que o dia lhes dá. É um fenómeno cultural? Talvez, mas custa a entender. Há oitocentos anos?! E, simultaneamente, independentes, orgulhosos, de antes quebrar do que torcer... Romanos, espanhóis, franceses que o digam. E, se os ingleses nos chuparam muito tutano, lá acabámos por correr com eles, Beresford, a pontapé... Depois, acontece uma esquisita taciturnidade, mudez, misantropia. E o contrário, também: uma inesgotável humanidade. No século XVI, escrevia o ermita da Casa da Tapada, o ‘quase estrangeirado’ (quase, porque nenhum português se estrangeira, completamente), Sá de Miranda: 'não há de falecer quem me arremede. Os Portugueses [a maiúscula pô-la lá ele] sois assi feitos logo pola primeira, despois dareis o sangue dos braços'. Como quem diz: a prevenir, a mocada, logo a seguir, fraternos, os braços abertos...

Creio que anda no meio o masoquismo: pessimismo tornado flagelo –cada um a chicotear-se a si próprio. E, nisso tudo, a vontade de escurecer o céu ou de não nos afogarmos sozinhos.
Ora veja-se: ontem, fui comprar fruta ao lugar do bairro. A dona é beirã e tem um filho que quer estudar agronomia, e há por lá uma escola da especialidade. Mas ao rapaz não agrada a província. ‘É pena’, comentei eu, ‘as Beiras precisam de gente...’ E a mãe: ‘Não lhe apetece... afeiçoou-se ao sítio...’ O sítio é a grande Lisboa, monstruosa, desumana, incaracterística, que estafa quem cá trabalha e cá vive. ‘É pena’, insisto. E logo uma freguesa: ‘Se ele não arranjar aqui trabalho, p’ra lá tem de ir!' A vontade era responder-lhe: ‘Não tem nada que ir para parte nenhuma! Tem é que defender a vocação e exigir qualidade de vida, que é que não há aqui!O que eu percebera no dizer daquela mulher não era nenhuma solidariedade comigo mas, sim, outra vez a desistência, e alguma inveja. 'Temos de ir, não somos senhores do nosso destino' e, ainda: 'que exigências pode ter o filho de uma vendeira de hortaliça?!'
Em suma: incomodara-me estreiteza de espírito e mesquinhez. É não reagirmos ao “tem de ser” que nos atrasa a vida, nos diminui, nos empobrece.

domingo, 17 de maio de 2009

Um peregrino em Braga


Ir a Braga não significa mergulhar no esquecido e maltratado Interior. A cidade dos Arcebispos é a terceira do país. A sua Universidade impôs-se. A beleza, milenária, resistiu à impudicícia do betão: o excelente trabalho do arquitecto Domingos Tavares e a bela escultura de Zulmiro Carvalho, junto da Igreja dos Congregados, ilustram o mundo que intervém e cria. Fui, aliás, romeiro, em Braga, a convite de uma associação extraordinária: “Velha-a-Branca, Estaleiro Cultural”. É pólo dinamizador, alavanca que provoca e recebe quantos usam a cabeça e pensam. Na sede cultural mais irreverente que jamais visitei, de dentro de um tanque (sim, um tanque de lavar roupa, “reformado”), ao meu lado, António Levy Ferreira, moderador, conversei, horas, com a assistência viva, igualmente informal e inconformista.

Aquelas pessoas não andam a apanhar gambuzinos –e uma cidade que tem dessa gente não anda a ver passar os comboios. Aliás, no tempo que corre, seria crime. E, a talhe de foice: um dos presentes perguntou: “Como se explica, no momento em que a questão política é primordial e mais do que nunca incontornável, multiplicarem-se os livros sem nada dentro?” Que responder? Dizia verdades duras como pedras –denunciava a fuga, quando a casa arde. E trazia de volta a velha discussão: arte-pela-arte ou arte empenhada? E só esse franco debate justificaria o encontro. A arte-pela-arte não existe? O artista é, ele também, responsável pela sociedade em que vive? Discutiu-se, livremente, isso e o mais que tinha que se discutir. Cada um conforme a própria consciência, olhos na difícil realidade, que nos aperta e aflige.




Frémito do meu corpo a procurar-te, soneto de Florbela Espanca



Há uma grande poetisa portuguesa, se calhar um bocadinho esquecida...


Frémito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doído anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que não me amas...
E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas...

Irene Lisboa segundo José Régio


'Como é verdadeira alegria reconhecer a gente um estilo, uma arte (que só à primeira vista parece não ter arte) de escrever, nas suas frases ora ondulosas, ora, as mais das vezes, antes singelas, claras, duma brevidade ou concisão quase telegráfica -nesta época triste em que uns enaltecem a banalidade na escrita, outros debalde a pretendem ultrapassar, e ainda outros imbecilmente a confundem com a luminosa simplicidade dos Mestres-. E depois, é uma obra profundamente original e alheia a modas'.

Enquanto se gasta papel com as intriguinhas partidárias, vamos ao osso...

Una bomba de relojería en potencia,por José Manuel Calvo

Los inmigrantes sufren como nadie la crisis económica - Hace falta un gran debate para impulsar su integración y reformar las leyes

2009 está siendo, independientemente de los brotes verdes o signos optimistas en algunas economías de la Unión Europea y EE UU, el escenario de la peor crisis global sincronizada de los últimos 50 años.
2009 está siendo, independientemente de los brotes verdes o signos optimistas en algunas economías de la Unión Europea y EE UU, el escenario de la peor crisis global sincronizada de los últimos 50 años.
En una recesión profunda y simultánea en economías avanzadas y emergentes, los inmigrantes sufren el golpe más fuerte: el 14% de los latinos de EE UU están en paro, frente a la media del 8,6%; en España, el desempleo nacional del 17,4% sube al 28,4% en la población extranjera, según la Encuesta de Población Activa. Entre el último trimestre de 2008 y el primero de 2009, el paro creció un 7,1% para extranjeros y un 2,7% para los españoles.
Aunque los inmigrantes suelen ser el chivo expiatorio en las crisis, hasta ahora ha habido sólo casos aislados de protestas, como la de trabajadores británicos por la contratación de italianos y portugueses para la refinería de Total en Lincolnshire y la de La Naval, en Bermeo, por subcontratas en origen de rumanos y portugueses.
Pero, a medida que los efectos de la crisis repercutan más en el empleo, no pueden descartarse situaciones similares en Europa ni tampoco repercusiones políticas: en las próximas elecciones europeas, el Partido Nacional Británico, antiinmigración, podría conseguir su primer escaño en Estrasburgo; en Holanda y Dinamarca, formaciones similares esperan buenos resultados. La Cámara baja italiana ha convertido en delito la situación de los inmigrantes indocumentados. En otra dimensión, Suiza debate la posible activación de una cláusula de protección para recortar el número de inmigrantes en el país.
"En cualquier debate sobre inmigración, el miedo siempre es más atractivo que la esperanza. Eso favorece a los que quieren más limitaciones, más prohibiciones", según Jeremy Rosner, vicepresidente de una empresa de sondeos en EEUU. "Mi mayor preocupación es que haya de nuevo enfrentamientos, polarización", teme Rita Süssmuth, ex presidenta del Bundestag entre 1988 y 1998. "Es extraño que no haya más incidentes contra inmigrantes", reflexiona Demetrios Papademetriou, presidente del Instituto de Políticas Migratorias en Washington.
Los tres forman parte del Consejo Transatlántico para las Migraciones, que acaba de celebrar su tercer encuentro anual en Como (Italia). El Consejo es un think tank de líderes políticos, expertos y altos funcionarios europeos y americanos que buscan estrategias de reforma de la emigración y de integración de los inmigrantes.
La reunión de Como oscila entre la inquietud de debatir bajo la presión de la crisis -"la gente va a ser mucho más pesimista en todos sitios en los próximos seis meses, va a ser más difícil discutirlo", pronostica un político conservador presente- y la esperanza de que Barack Obama logre una esperada reforma de la inmigración en EE UU.
¿Qué hay que hacer para desactivar la bomba de relojería de la inmigración no integrada? Además de las medidas para paliar los efectos de la crisis, "es fundamental pensar a largo plazo, nunca a corto; España y la mayoría de los países europeos van a seguir necesitando inmigrantes", afirma Blanca Sánchez Alonso, experta en migraciones.
Ése es el debate que la reunión de Como quiere lanzar. "Necesitamos a los inmigrantes, pero durante mucho tiempo nos hemos dedicado a estudiar formas de evitar que vinieran o, si venían, que se quedaran a vivir con nosotros", según Rita Süssmuth, que lamenta que no haya un gran debate y que cree que "muchos países de la UE no están sabiendo preparar a sus ciudadanos para que cambien de actitud" sobre la integración de los trabajadores extranjeros.
¿Es España uno de esos países? Llama la atención la ausencia de un debate reposado -aunque eso no se limite a la inmigración- que no se produjo en los años de la gran llegada de inmigrantes, desde 2000, ni se produce ahora, pese a las consecuencias que tiene y va a tener la crisis. El Gobierno ha reducido la oferta prevista en el catálogo de ocupaciones de difícil cobertura, en vigor desde 2004. "Pero, como dice Joaquín Almunia, mientras no se reactive la contratación de emigrantes, no aumentarán los ingresos en la Seguridad Social", señala Elvira Pabón, de la ONG Aicode, que teme que el paro lleve a la pérdida del permiso de residencia: "Caeremos otra vez en la mano de obra esclava: trabajar en lo que sea y como sea con tal de quedarse aquí. Porque nadie se va; no hay 5.000 retornados, ésos son los que se informan sobre cómo volver, no los que vuelven".
"Esa irregularidad sobrevenida es gravísima", coincide Blansa Sánchez Alonso, preocupada también por los recortes de fondos para las campañas de integración. "El problema es que nos hemos tragado el elefante de la gran llegada de inmigrantes y antes de digerirlo queremos ya escupirlo, o por lo menos escupir un par de patas".
Desde 2002, más del 50% del empleo que se creó en la construcción fue ocupado por inmigrantes. Fuentes de la Secretaría de Estado de Inmigración subrayan que ésa es la razón básica de que haya un desempleo mayor entre esa población. "No se ha modificado el sistema de contratación legal, que identifica los empleos que no encuentran candidatos entre la población española o residente extranjera, pero es evidente que se identifican muchos menos empleos en una etapa de contracción que en una de expansión".
Remontando el vuelo por encima de la coyuntura, por muy angustiosa que se presente, ¿qué es lo que hay que tener en cuenta a la hora de reformar las líneas básicas de una política de inmigración? Desde la experiencia de sus 30 años en diferentes cargos en un país de emigración como Canadá, Mel Cappe, que presidente el Instituto de Investigación de Políticas Públicas, recurre a tres citas clásicas (al menos las dos primeras, pero pronto también la tercera): "El postulado de Hipócrates que dice, lo primero, no hacer daño; la afirmación del chino Sun Tzu en El arte de la guerra: hay que invertir a largo plazo. Y la frase de Rahm Emanuel, jefe de gabinete de Barack Obama: jamás desperdiciar una buena crisis".
Süssmuth cree que hay que dar la vuelta a las políticas que se han quedado anticuadas: "Cualquier país de la UE sabe que no puede resolver solo los problemas. Cambiamos porque vivimos en un mundo globalizado. No podemos seguir ignorando lo que nos afecta".
Alemania cambió su estrategia desde el año 2000, con el debate sobre una nueva ley de naturalización que superara el principio del ius sanguinis -el acceso a la ciudadanía sólo por la descendencia- en favor del ius solis, la ciudadanía lograda por el nacimiento en el país.
De contemplar a los inmigrantes como extranjeros (gastarbeiter, trabajadores invitados con permisos temporales de residencia y empleo), Alemania está pasando a verlos como parte integrante de la sociedad. Süssmuth cree que hay que ir más lejos "en integración y cohesión social" de lo que supuso la Ley de Inmigración de 2005, pero "lo más importante es que por primera vez tenemos una estrategia nacional de inmigración que forma parte de la gran coalición y así evita la polarización. Se resuelven las diferencias sin hacer de ello una cuestión de Estado". ¿Lo fundamental? "La participación de los inmigrantes, afianzar su sentido de pertenencia -que nos escuchen decir que les necesitamos, aunque haya problemas- y saber vivir con un equilibrio entre diversidad y cohesión". ¿Y funciona? "Cada vez mejor, en buena parte gracias al papel que juegan las autoridades locales".
En el Reino Unido ha habido en los últimos 15 años "los más altos niveles de preocupación en la opinión pública" sobre inmigración, según Ben Page, presidente del instituto de sondeos Ipsos MORI. Las cosas han cambiado, sin embargo, gracias a una política eficaz de retorno de inmigrantes a sus países. "Aunque sería ingenuo ignorar el crecimiento del Partido Nacional, que explota con éxito el descrédito de la clase política, y los brotes que ha habido de manifestaciones xenófobas", ha disminuido en Gran Bretaña la tensión sobre la inmigración, en opinión del líder político británico antes mencionado. Según Will Somerville, del Instituto de Políticas Migratorias, "debe mejorar el déficit de confianza pública sobre las políticas de inmigración y hay que invertir en integración a largo plazo y resolver la situación de los ilegales".
¿Y América? Canadá tiene un modelo migratorio envidiado, con un sistema de selección basado en criterios de cualificación y un gran consenso social sobre las ventajas de la diversidad: el 68% de los canadienses creen que la inmigración es buena para el país, a pesar de algunos problemas, como el aumento de la criminalidad ligada a la inmigración y la formación de guetos lingüísticos que se aíslan. En EE UU el clima en la opinión pública es globalmente positivo, según Roberto Suro, fundador del Pew Hispanic Center y profesor de periodismo en la Universidad de California. "La mayoría quiere que se resuelva el problema de los ilegales combinando medidas de control en los centros de trabajo con una reforma que permita a los actuales indocumentados -entre 8 y 12 millones de personas- seguir en el país".
Además de resolver la crisis económica y los diversos conflictos planetarios, ¿podrá superman Obama lograr la tantas veces intentada reforma de la inmigración? Frank Sharry, líder del Foro Nacional de Emigración de EE UU durante 17 años y fundador de America's Voice, un grupo favorable a la reforma, presentó en Como un llamamiento a Obama en el que le pide "una gran inversión de capital político". Sharry cree que la reforma de la inmigración "es el tipo de reto que le llevó a ser presidente, uno que tiene resonancias históricas".
Según Papademetriou, "a no ser que la recesión se profundice, es muy probable que haya una reforma del sistema de inmigración de aquí a dos años, antes de las legislativas de 2010. Y si esta reforma es sensata desarrollará un modelo que otros países puedan seguir".
Celinda Lake, socióloga y estratega del Partido Demócrata, comparte el optimismo: "Estados Unidos está en un momento adecuado para abordar problemas; y es ahora cuando Obama tiene credibilidad. No es tan complicado. El mensaje al indocumentado es éste: si violaste la ley, hiciste mal, pero la mayoría creemos que si trabajas duro, no tienes antecedentes criminales y pagas tus impuestos, no hay problema. No hay nada más americano que pagar impuestos, así que ¡bienvenido al club!".
in El Pais, de hoje

Fui buscar ao Público de hoje e acho que não tem comentário: diz tudo sobre o Ministério da Educação...


ME escreve as frases que os professores têm de dizer nas provas de aferição
por Clara Viana
Mais de 200 mil crianças entre os nove e os 12 anos vão mostrar amanhã e na quarta-feira o que aprenderam em Língua Portuguesa e Matemática mas, para as provas nacionais de aferição do 4.º e 6.º anos, quem precisa de levar cábulas são os professores.Estas têm a forma de um chamado Manual do Aplicador, através do qual o Ministério da Educação (ME) ensina aos professores o que têm de dizer aos alunos no início, no meio e no final das provas. As ordens do ME são claras: "Não procure decorar as instruções ou interpretá-las, mas antes lê-las exactamente como lhe são apresentadas ao longo deste manual". Com contagem de tempo, seguem--se as frases que os docentes deverão ler. São coisas como estas: "Em primeiro lugar, chamo a atenção para o facto de não poderem falar com os vossos colegas" ou "Acabou o tempo. Não podem escrever mais nada. Agora vão ter o intervalo". O conjunto preenche oito páginas. "No dia lemos tudinho como está no guião", confirma Paulo Guinote, autor do blogue Educação do Meu Umbigo e professor de História e Português do 2.º ciclo, que amanhã estará de novo entre os milhares de professores mobilizados para estas provas. A leitura demora tempo, é "entediante" e frequentemente os alunos não entendem o que se pretende. Nestes casos, depois da leitura obrigatória, os professores fazem o seu próprio resumo, com as instruções mais importantes. Todos os anos são enviadas as mesmas instruções, para serem lidas em todas as escolas, alegadamente para permitir uma situação de igualdade de condições. Para Guinote, esta prática constitui "uma espécie de atestado de menoridade que repetidamente é passado aos professores".Provas não são examesNas livrarias, por esta altura, não faltam os cadernos de preparação publicados pelas principais editoras escolares. É uma das partes visíveis de um efeito perverso que se tem vindo a consolidar. Professores, pais e alunos tendem a ver estas provas por aquilo que não são: como se fossem exames. Nas escolas, no último período, as aulas vão sendo convertidas em sessões de revisões, o que acaba por comprometer a possibilidade de se chegar ao fim dos programas. Mesmo quando estes são concluídos, tanto o calendário como o espírito das provas acabam por impor aos professores "estratégias de condensação da matéria no início do 3.º período", esclarece Guinote: as provas são realizadas em meados de Maio, mas o seu conteúdo recai teoricamente sobre todo um programa que deve estar concluído em meados de Junho.Apesar de tudo, "são um instrumento útil", frisa. É o terceiro ano consecutivo em que as provas de aferição, que começaram a realizar-se em 2000, são obrigatórias para todos os alunos do 4.º e 6.º anos. Os seus resultados não contam para a nota dos alunos. As provas são apresentadas como um instrumento para se avaliar competências e, em função disso, adoptar-se medidas de correcção das aprendizagens. "Leia em voz alta"Durante o ano, os professores estão na sala com os alunos. Quando chega Maio, o Ministério da Educação transmite-lhes as frases que terão de dizer nas provas de aferição. Alguns exemplos extraídos do chamado Manual do Aplicador:Primeira parte:"Leia em voz alta: 'Agora vou distribuir as provas. Deixem as provas com as capas para baixo'; 'Podem voltar as provas. Escrevam o vosso nome no espaço destinado ao nome'; 'Querem perguntar alguma coisa?'" "Desloque-se pela sala, com frequência", "Rubrique o enunciado no local reservado para o efeito"."Leia em voz alta: 'Ainda têm 15 minutos'; 'Acabou o tempo'. 'Estejam à porta da sala às 11h e 20 minutos em ponto'. 'Podem sair'".Segunda parte:"Leia em voz alta o seguinte: 'Agora vão iniciar a segunda parte da prova. Podem começar. Bom trabalho!'""Recolha as provas e os rascunhos". "Mande sair os alunos, lendo em voz alta: 'Podem sair. Obrigado pela vossa colaboração!"

O dia de hoje...


´Que valor teria a minha vida sem o sonho?´, pergunta-se Raul Brandão, n’O Pobre Pedir. Este seu livro -o último que escreveu- é um requisitório. Raul Brandão é réu e juiz. ‘Do que me acuso é do que não fiz, tomando a tangente e remoendo palavras. Qual foi a tua acção? Que atenção deste à tua alma?’ Pede-se responsabilidades. É o fim, à vista –e que sentido deu à sua vida? ‘Não menti talvez –mas não falei verdade’. Eis o que ao angustia e aflige: que andou a fazer? Andou a simular, a fingir –a fugir ao caminho certo? O fim está sempre à vista –e é o medo dele que nos mantém de pé. Instintivamente. Mas aquilo a que nos agarramos vale, de verdade? Andou a fugir? Cobriu-se de panos, para não ver, para não sofrer a responsabilidade? Sócrates, filósofo que talvez não passasse de um vagabundo de Atenas, dado à conversa e à interrogação, quando lhe acenavam com o oiro, dizia: “Ora aí está uma coisa de que eu não vou precisar!” E corria, em busca dos amigos, banqueteava-se com eles, que é uma maneira de dizer, bebiam vinho, comiam frutos, falavam do sonho. E que sonho era esse -tão indispensável a Raul Brandão-, que imaginavam eles, os convivas de um ágape tão singelo? Singelo mas essencial –porque no resto é que estava o silêncio... o frio... a indiferença... Quando sonhavam, partiam à descoberta do desconhecido: do equilíbrio do Universo, isto é: do motivo por que estavam ali e do modo certo de se assumirem, sujeitos de uma aventura fantástica: aquela mesma: atravessarem a vida, tocarem o mundo. E imaginavam. Isto e aquilo. Teorizavam. E amavam; com o vinho, bebiam os dias. Talvez o problema fosse esse: não se enganarem no cálice. O que viria a seguir, quando morressem? Aquilo que imaginavam? Ou o nada? Aquilo que sonhavam? Teria de ser o que sonhavam: o sonho era tão intenso, arrebatava-os... Ardiam com ele. Ah, sem o sonho, nada era nada. ‘Quero poder continuar a sonhar, a viver o outro lado da vida!’, exclamava, mais ou menos, Brandão. ‘As coisas que trazeis, o oiro e as sedas, as pedras preciosas, dispenso-as’, troçava Sócrates, mais ou menos assim. Eu tenho a casa cheia de quadros e livros e música. Acompanham-me, quando se animam. Abrem-me as portas do tal sonho. E, no entanto, são, apenas, coisas. O indelével está dentro de mim, dentro de nós. Sim: essas meras coisas -livros, pintura, música- deixam de o ser, ao metê-las eu cá dentro. Afinal, só vivem quando as sonho. Afinal a vida, o universo, o Infinito só existe porque eu o sonho –o animo, quando o recebo na minha alma.

sábado, 16 de maio de 2009

Um apontamento de Irene Lisboa, transcrito do livro com o mesmo nome



Esta pobre mulher vestida de preto, que me bateu à porta de manhã, e que anda a vender agulhas e alfinetes, era a mãe daquele infeliz rapazito...
O caso veio no jornal não há muito tempo. Mas eu ouvi-o da boca de um seu espectador, que ainda estava impressionado quando mo relatou.
O rapazito ia a fugir de um polícia, com medo da multa. Vendia limões. E um carro eléctrico colheu-o. Era no Aterro, onde os carros vão sempre desabalados. Depois o povo levantou o carro em peso, mas o pobrezito morreu.
Era um ladrão da riqueza pública, um contrafactor das leis. Fugia com o a sua leve carga no braço para nos lesar...
A sua vida era uma bagatela. Como nada a defendia, um carro do acaso lha levou. Coisas de tão grande evidência!
E hoje a mãe do pobre que exerce como ele um comércio de miséria, destes que enfadam criadas e donas de casa, responde à minha pergunta acerca do seu luto: morreu-me o meu filho!’ e dá-me os sinais dele. Como andava também por estes sítios... Ajuda-me ainda a identificá-lo: era um que tinha a cara miudinha...

A literatura humilhada


Quem levar a sério a criação artística -e a não tomar por mais um “produto” da vergonhosa sociedade de consumo que nos sufoca- deverá demorar-se na “Correspondência” entre Flaubert e Georges Sand (Flammarion), livro de cabeceira de muito boa gente. Os dois escritores abordam a Literatura: quando é ela vida ou não? Onde, a inteligência e a exigência ética? Transcrevo aquilo que afirma a Sand: “Desde que a literatura se tornou mercadoria, o vendedor só atenta no cliente que compra e, no caso deste desprezar o objecto, diz ao autor que a sua mercadoria não serve”. E protesta: “A república das letras não é feira onde se vendam livros!” Estávamos em 1872. Hoje, que se passa na república das letras?

A feira requintou: multiplicou-se e refinou-se a publicidade, impuseram-se os anúncios, compraram-se os “críticos”, meros agentes dela, que aviltam quanto aconselham e, submissos, escamoteiam o que, realmente, vale. A feira transformou-se em coelheira prolífera e sem escrúpulos. Enterram-se vivos e entronam-se mortos –ilusão pensarmos que se está vivo numa farsa assim, trágica, asfixiante, castradora.

Servem-se e impõem-se obras menores, inventam-se reis nus. A vida é curta e todo o tempo pouco para o perdermos com banalidades –entendem, justamente, alguns leitores. Mas que tempo, espaço e liberdade nos deixa o caldeirão onde caímos –a tal aldeia global, praça florescente de vigaristas obcecados pelo tal lucro, pela banha sacada à morte viva que nos impõem?

Quem procura sempre encontra...


Vale a pena procurar, nos tabuleiros onde se expõem e vendem livros usados, esta edição de Voltar atrás para quê? Já a vi, por aí...

Quando saíu, vendeu cerca de 13000 exemplares, ao tempo, um grande sucesso. Mas estava incluída numa colecção, teve publicidade e 2 ou 3 programas na RTP...


De qualquer modo: é uma obra-prima da Literatura Portuguesa.

O dia de hoje...



Irene Lisboa: como é possível que uma escritora da sua qualidade, inteligente, hábil, capaz de fixar os instantes, a beleza e a dificuldade, a maravilha e a violência –ande pela “segunda linha”, esquecida, menosprezado, nem sequer tenha editor, nem sequer seja possível encontrar-lhe os livros? É um escândalo. Um escândalo cultural. Uma vergonha. Não há quem a ensine os adolescentes? Não há programas de ensino de Literatura Portuesa? Eu sei que há: desastrosos. Não há quem lhe dedique páginas? Não há revistas culturais, literárias? Imbecilizámos, chuparam-nos o cérebro por uma palhinha?

Bem escrevia ela: ‘O meio literário ser pequeno acarreta muita outra pequenez. Como aqueles que escrevem, escrevem com a mira naqueles que os lêem, e todos mais ou menos se conhecem, directa ou indirectamente, o círculo fecha-se logo muito depressa.’


Irene Lisboa não faz parte desse círculo de socorros mútuos ou de invejas e ódios mesquinhos. Eu sei: já morreu. Mas nunca fez: foi uma isolada, independente, por natureza. Tinha uma obra a levantar – e esse trabalho não é compatível com a intrigueta literata.

As suas páginas... A pungente humanidade das suas páginas! Tão actuais! Assim:

Os bairros-das-latas à vista...
Parece que estes bairros andam a ser demolidos. Mas para onde se escoará essa população?
(...) A miséria não acaba, por mais que a espanquem, é certo, mas pode perder os rumos conhecidos”.

E a miséria continua a disfarçar-se, a ser atirada para guetos, para longe da vista e do coração dos privilegiados... Prédios e prédios desumanos, frios, aqui e ali, encostados às autoestradas, longe, periféricos, arrumados à margem, betão e betão, nem árvores nem relva. Os pobres, os remediados (esta palavra é monstruosa), os de 2ª e 3ª classe são marginalizados -evita-se que a sua miséria incomode, inquiete, mexa nas consciências dos que estão por cima -desinfecta-se o ambiente.

Um dia... podem perder “os rumos conhecidos”. Sabe-se lá o que pode acontecer! E o pior é que “a miséria não acaba, por mais que a espanquem”... A ironia de Irene Lisboa quer dizer: a miséria continuará a atirar-nos à cara o crime cometido (a nossa responsabilidade): ou a criámos nós, ou consentimos que a criassem, ou é-nos indiferente.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O grande Umberto Saba



Umberto Saba (11883-1957) e Italo Svevo (1861-1928) foram considerados os maiores escritores do século XX italiano. Ambos são de Trieste, cidade que só voltou à Itália em 1918. Pertenceu ao império austro-húngaro, e a fronteira, a leste, abriu-a à Eslovénia. E já agora: é, também, a terra natal de Claudio Magris (o autor de Danúbio, editado, entre nós, pela Dom Quixote). Mas vamos ao sodo, como se diz em italiano; vamos ao osso, ao essencial. Quem ouviu a entrevista de ontem, que António Levy Ferreira me fez, para a Rádio Universitária do Minho (aliás, podem ouvir-está guardada- no site, programa Livros com Rum), talvez se lembre da minha frase seguinte: ‘As nossas razões são tão respeitáveis como as razões dos outros”. A única condição que punha era que fossem elas sinceras, autênticas. Desculpem citar-me mas (Pessoa recorria ao mesmo expediente) sou o exemplo que tenho mais perto... Admiro, profundamente, Umberto Saba. O seu Canzoniere é meu livro de cabeceira, há mais de 30 anos. Tenho a sorte de poder lê-lo no original (traduzir poesia é quase impossível... e ressalvo, aqui, a excelente tradução que José Bento fez de Pablo Neruda, Antologia de Pablo Neruda, Editorial Inova, defunta, julgo...). Admiro o grande poeta e admiro o homem de uma cara só. Ora leiam o que segue, tirado de uma carta do pintor Gottuso, militante do PCI, ao libertário Saba: “nunca foram tão necessários homens como tu, que se preocupam com os outros, que transmitem aos outros a sua consciência humana, os seus sofrimentos e a sua luz –e não importa de que coisas fales porque falas, sempre, como homem e falas do coração humano”. Escrevi, sobre Saba, em Novas Crónicas Italianas (Teorema) e noutros lugares. Como há horas felizes, aqui deixo uma belíssima poesia sua (quem sabe?, talvez alguém leia italiano):

Notte d’Estate

Dalla stanza vicina ascolto care
Voci nel letto dove il sonno accolgo.
Per l’aperta finestra un lume brilla,
Lontano, in cima al colle, chi sa dove.

Qui ti stringo al mio cuore, amore mio,
Morto a me da infiniti anni oramai.

p. s. existe tradução portuguesa de uma pequena obra-prima de Saba: a novelinha Ernesto