segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O aniversário de uma cidade

Teatro Municipal da Guarda


Não é uma cidade qualquer: é o alto monte da sagrada Beira que faz 811 anos! A Guarda, a festejada, é um monumento. Talhada em granito, resiste a tudo. Sobreviveu aos invernos, ao granizo e aos maus costumes de ultraconservadores e oportunistas que a queriam e querem engrolar e de que ri, a reinventar-se e a recusá-los, a capeá-los. Tem-se a si própria, nem feia, nem farta: fiel e nobre. Aguenta a crise, graças ao bucho, à febra, à bondade das últimas vacas do Jarmelo, às verduras verazes e à água cristalina que lhe manda a Serra. E à alma inquebrantável dos que lá vivem. Celebra, também o centenário da “sua” República. Aqui, onde vim compartilhar a alegria, há cem anos, um tal António Bigodes declarou ter-se tornado Portugal República e a Guarda, republicana. A República da esperança e do sonho. E, saída do génio e da cabeça de alguns, surgiu a ideia de materializar a labuta da libertação. Ei-lo apresentado no fabuloso Teatro Municipal da Guarda, que rivaliza com todos e se afirma mundo fora. Desfilaram e desfilam quatrocentas figuras genuínas, artistas, gente da terra, a recuperarem a História e os heróis. A recriarem de modo superior uma fábula que passa a vida viva. Há que destacar os nomes dos principais responsáveis: Américo Rodrigues, coordenador e encenador; Pompeu José, encenador e curador dos actores; César Prata, o homem da música. O guião da grande aventura é de Américo Rodrigues (cuja polimórfica criatividade enerva os broncos arrivistas locais, no desespero da própria incultura, a reclamarem-lhe a cabeça) e de José Tavares e Pompeu José. Um espectáculo empolgante, inesquecível, exemplar.
Publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de 28/11/10

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

À despedida: um poema de Constantino Cavafy (1863-1933)



Círios

Os dias do futuro estão em frente a nós
como uma longa fila de círios acesos.
Dourados, quentes, vivos, pequeninos círios.
Os dias do passado ficam para trás,
uma triste fileira de apagados círios:
ainda fumegantes os mais próximos,
os outros frios, derretidos, corcovados.
Não quero vê-los: essa imagem fere-me –
dói-me lembrar a luz que foi a deles.
Olho na frente os meus círios acesos.
Não quero voltar-me e ver, horrorizado,
quão rápida se amplia a fila escura,
como se multiplicam os que se apagaram.

(tradução de Jorge de Sena)

Até à volta!



Queridos companheiros bloguistas: amanhã de manhã, sigo para a Guarda, a fim de assistir a este maxi-espectáculo: 400 personagens invocam e recriam a Guarda e a implantação da República! Por que não vens também e... trazes uma amigo???

O neoliberalismo selvagem não ama a Cultura...

As "mauser" andam por aí à solta (Goebbels: "quando oiço falar de cultura, levo a mão à pistola!")...



Há dias, em Itália, os teatros fizeram greve, pelo entisicar dos subsídios que lhes dá o Ministério da Cultura do governo de Berlusconi. Vale a pena ler o artigo abaixo: por cá as ajudas estão também a emagrecer...



La Cultura non è commestibile



Il teatro della vita (e della politica)

por Claudio Magris



Fa una certa impressione, e non solo agli appassionati, pensare che, anche solo per un giorno, in tutta l’Italia il teatro taccia, sia chiuso. Non è solo una preoccupazione culturale in senso stretto; quei palcoscenici — grandi o piccoli, sacri templi dello spettacolo o ardite e fugaci messinscene di gruppi avventurosi, opere classiche o provocatoriamente dissacranti — fanno parte del paesaggio d’Italia, del paesaggio della nostra vita. Attori o cantanti che entrano o escono dalla scena, parole immortali o amabili battute scacciapensieri che vivono sul palcoscenico e restano nell’aria, sono — anche a prescindere dalla grandezza di alcuni capolavori — uno sfondo della nostra esistenza come il mare o la collina della città natale. Anche quando non si va a teatro o al cinema, fa piacere sapere che comunque ci sono.



Naturalmente si può benissimo vivere anche senza teatro e ci sono beni immediatamente più necessari e indispensabili, dal pane alle cure mediche. Il teatro sciopera per protesta contro i tagli ai finanziamenti senza i quali non può sopravvivere. Non ho alcuna competenza per valutare se e fino a qual punto quei tagli siano inevitabili, in che misura potrebbero essere mitigati, con quale giustizia o ingiustizia colpiscano l’una o l’altra istituzione, quali altri spese invece inutili potrebbero essere limitate a beneficio del teatro e dello spettacolo in generale. Spesso, inoltre, quando si parla di cultura la si identifica arbitrariamente con alcuni suoi settori — la letteratura, l’arte, la musica, il teatro, il cinema — come se il diritto, l’economia, la medicina, la matematica e la fisica e tante altre attività umane non fossero altrettanto «cultura» e non richiedessero quindi creatività, spirito critico, capacità di osservazione e di analisi quanto il romanzo.



Il teatro, tuttavia, ha da millenni un ruolo fondante non solo nell’arte, ma anche nella vita comune della Polis, ossia, nel senso più alto del termine, della politica. È un’arte in cui l’irripetibile e insostituibile creatività individuale (dell’autore, del regista, dell’attore, dello scenografo e via dicendo) si fonde in una coralità che, senza mortificarla, va al di là di essa e ne fa un’opera sovraindividuale, un’espressione insieme personale e collettiva o meglio corale. Quest’ultima, a sua volta, instaura un dialogo non solo con ogni singolo individuo, ma con la società e la civiltà da cui essa nasce e che essa interpreta, per celebrarle o per criticarle.



Dalle origini rituali e religiose alle sacre rappresentazioni, al teatro totale wagneriano, a quello epico brechtiano a ogni forma—anche la più iconoclasta e lacerata, o l’esperimento più solitario e ribelle — il teatro è un evento pubblico ed è un fondamento della comune vita civile. Il teatro classico contribuisce in misura determinante a fondare la democrazia della Polis greca, a sua volta fondamento della civiltà occidentale. Le «leggi non scritte degli dèi» di Antigone, ossia i princìpi universali che nessuna legge positiva può violare, essenza dell’umanità, nascono non a caso sulle scene di Atene, con la tragedia di Sofocle, e traggono la loro forza anche da quest’origine.



Quando, nella tragedia di Eschilo, Oreste, il matricida, viene assolto — sia pure con formula dubitativa — si afferma il luminoso principio di valori laici superiori ai tribali legami di sangue ed è ancora il teatro dinanzi al pubblico di Atene a fondare questo universale-umano.

Non occorre essere Sofocle o Eschilo per essere riconosciuti nella dignità del lavoro teatrale che, come ogni lavoro, nasce non solo dai geni ma dall’opera, più o meno nota o oscura, di tutti coloro che vi contribuiscono. Certo, è meglio vivere senza teatro che senza pane. Ma la vita sarebbe triste senza il teatro e siamo nati non solo per sopravvivere, ma anche per capire qualcosa della vita e, se possibile, pure per goderla.


transcrito, com a devida vénia, do Corriere della Sera, 23/11/10

Com a saudade dentro: Piazza della Rotonda

Esta é uma das praças mais bonitas e mais delicadas de Roma, com a força serena do Pantheon, a fechar-lhe um dos lados... Melhor: a prolongar-lhe o encanto. Trouxe-a aqui, em homenagem à amiga que entendeu isso tudo

O futuro dos nossos filhos... e o nosso?

Erlich in El País de hoje

A pouca vergonha das "excepções"...

Os sacrifícios, na crise, estão destinados ao peixe miúdo...




Como era de esperar

por Manuel António Pina


Vai ficando à vista aquilo que, desde que foram anunciados os famosos e igualitários "sacrifícios para todos", era de esperar tendo em conta a cultura político--partidária dominante: que alguns "todos" seriam mais "todos" que outros.

Poupada, primeiro, a Banca, apesar dos escandalosos lucros que tem obtido com a crise (crise de que foi e é o sistema financeiro, com esse nome ou sob o fantasmático pseudónimo de "mercados", o principal responsável), seguiram-se os grandes grupos económicos, que se preparam para distribuir dividendos antes que os "sacrifícios para todos" entrem em vigor e sem que seja visível a olho nu, da parte do PS ou do PSD, qualquer medida para impedir a fuga aos impostos de muitos milhões de euros (1100 milhões, só por conta da PT, Portucel e Jerónimo Martins/Pingo Doce).

Agora, aprovado que foi o Orçamento na generalidade, começam a aparecer na discussão na especialidade mais "excepções", dos funcionários dos grupos parlamentares (isto é, funcionários partidários) aos "trabalhadores das empresas públicas", das "entidades públicas empresariais"e do "sector empresarial regional ou municipal" (poisos privilegiados de "boys" e "girls"), onde poderá haver não se sabe que "adaptações" desde que "autorizadas" não se sabe por quem.

Se a aprovação do Orçamento demorar muito mais, "todos" acabará por significar só a arraia miúda e gente sem poder económico ou político.

transcrito, com a devida vénia, do Jornal de Notícias de 25/11/10

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Os nossos pintores

'Mercado da Ribeira', óleo de Abel Salazar (1889-1946)




Para te aproximares desta estranha -e muito bela- maneira de pintar, deixo-te este link:




Para saberes quem foi, este outro:



Este governo é ridículo

O governo devia ter vergonha de dizer tanta mentira!



"Sindicatos situam adesão entre 85 e 90%, Governo reduz para 19,4% "

título do Público

O rico que mama e o pobre que trabalha, sua e é mal pago... até que o ponham na rua

A nova escravatura está aí, em força!



Patrão atropela grevistas

por Alexandra Lopes



O proprietário do Intermarché de Vila Nova de Famalicão avançou com o seu jipe, hoje de manhã, quarta-feira, contra um piquete de greve que se encontrava no passeio junto ao supermercado. Duas pessoas ficaram feridas.


Os feridos não são trabalhadores do Intermarché mas ter-se-ão juntado à manifestação. Segundo testemunhas, depois de atropelar os grevistas, o homem terá saído da viatura e apontou, ainda, uma arma à cabeça de um grevista.


O homem foi levado pela PSP e está, neste momento a ser ouvido sobre o incidente.


transcrito, com a devida vénia e há 5 min. do Jornal de Notícias de hoje



E onde é que está o governo? Abre e lê:




Histórias de uma vida

Sé da Guarda: a cidade onde a vida se me revelou em toda a maravilha e mistério




Roma: Piazza Navona, meu lar italiano...



São Tomé e Príncipe: a descoberta da humanidade imaculada



Telavive: a vida pode não chegar até amanhã, ama e tenta entendê-la


Marraquexe: um mundo inesquecível, feito de dignidade e aventura


Aqui vos deixo esta conversa com o Nuno Costa Santos, amigo querido, espero que a sigam até ao fim... Não é muito longa...


terça-feira, 23 de novembro de 2010

Os nossos pintores

'Caminho da Pena, Sintra', 1860, óleo de João Cristino da Silva (1829-1877)

"Guarda: a República": a estrear na próxima 6ª feira, dia 26, no TMG




Estas fotografias podem dar uma ideia do extraordinário que vai ser esse espectáculo único. Roubei-as, mais o texto abaixo, do blog Teatro Municipal da Guarda. Todos à Guarda, para ver e ouvir uma história das mil e uma noites!



"Mais de 400 participantes vão subir ao palco do Grande Auditório do TMG para o espectáculo "Guarda: a República". Grande parte deles são oriundos das colectividades do Concelho que uma vez mais aderiram a esta actividade comunitária! Ficam os nomes: Egitúnica; Associação Cultural e Desportiva do Jarmelo – Ronda do Jarmelo; Associação Guarda para Sempre (GPS); Associação Cultural Social e Recreativa da Sequeira; Centro de Cultura e Desporto da Aldeia do Bispo – Camponeses da Aldeia do Bispo; Associação de Jogos Tradicionais da Guarda; Centro Cultural da Guarda – Rancho Folclórico e Coro Sénior; Rancho Folclórico de Videmonte; Associação Desportiva Recreativa e Cultural da Rapoula – Grupo de Gaita de Beiços; Grupo de Cantares de S. Miguel da Guarda – A Mensagem; Conservatório de Música de São José da Guarda; Grupo de Cantares “Ontem, hoje e amanhã” de Maçainhas; Grupo de Cantares da Arrifana Associação Cultural; Grupo Coral Pedras Vivas; Raiz de Trinta Associação Juvenil - “Trinta por uma linha”; Aquilo Teatro, Grupo de Teatro Gambuzinos e Peobardos (Vela); Alunos do curso de Animação Sócio-Cultural do Instituto Politécnico da Guarda e Clube de Montanhismo da Guarda."

Ajuda aos países pobrezinhos...

Erlich in El País de hoje



Na folhinha /isca, está escrito: "Ajuste".

Acertamento, ajustamento?...

Ou é o ajuste de contas que o capitalismo selvagem se regala a fazer com o odiado Estado Providência?

Ainda as palavras de Bento XVI que já se discutem no próprio Vaticano

O livro chegará hoje às livrarias




Editorial
Condones y doctrina


La filtración de las opiniones del papa Benedicto XVI sobre la pertinencia del uso del condón "en algunos casos", que aparecen en un libro-entrevista que llega hoy a las librerías, ha vuelto a poner la lupa sobre la controvertida posición de la Iglesia en relación con el uso de los preservativos en la lucha contra el sida. El sorprendente comentario del Papa, que choca abiertamente con la habitual cerrazón del Vaticano en esta cuestión, ha sido interpretado desde distintas instancias como un paso adelante y significativo de la Iglesia para adecuarse a la dura batalla contra la devastadora enfermedad. En pocas horas, sin embargo, el portavoz vaticano ha matizado las palabras del Pontífice y limado sus aristas heterodoxas para hacerlas compatibles con la doctrina tradicional católica.


Al formar parte de las opiniones informales que recoge un libro, las palabras del Papa no tienen valor de magisterio. Pero es lógico que su comentario sobre moral sexual haya sido acogido favorablemente, sobre todo si se lee como una corrección de las declaraciones que realizó durante su viaje a África en 2009, en las que alertó contra el uso de preservativos y sostuvo que, más que ayudar a combatir el sida, "aumentan el problema".


La inmediata reacción vaticana para restaurar el orden frente a cualquier lectura aperturista de las palabras del Papa parece confirmar que la Iglesia sigue sosteniendo su anacronismo sexual y que mantiene el rechazo al control de la natalidad por métodos artificiales, profilácticos o anticonceptivos. Para que la jerarquía católica deje, efectivamente, de actuar de espaldas a los problemas de la sociedad y de caminar en sentido inverso al sentido común, las palabras de Benedicto XVI sobre el uso del condón tienen que salir del ámbito coloquial y empezar a formar parte de las recomendaciones de un credo sensible a los desafíos de su tiempo.


transcrito, com a devida vénia, do El País de 23/11/10

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Monet em Paris


Naturalmente... mas, extraordinariamente, com 200 obras, no Grand Palais... Tão extraordináriamente que se esgotaram os bilhetes até ao último dia... Vai haver umas facilidades, mas o melhor é reservar já...

O que diz o Papa

Estas chaves não me pertencem


Sobre o que disse Bento XVI, não digo nada.

Tomo conhecimento.

O que vier a seguir, virá.

É uma abertura, sem dúvida.

Tão significativa que já dentro da cúria a interpretaram e comentaram e reduziram.

Não é comigo.

Não sou católico.

Sou humanista e, por consequência, religioso.

Penso, no meu cantinho, que Bento XVI,

disse uma coisa boa.

E fico por aqui.


Penso, também que se deve respeitar as opiniões de cada um.

E fico contente, quando vejo portas a abrirem-se.

E o roubo continua...

Cuidado com a carteira, eles não dormem!




"Os donos de Portugal"
por Manuel António Pina


Três grandes grupos económicos anunciaram já a antecipação para este ano da distribuição de dividendos (e mesmo de reservas) que só deveriam ser pagos em 2011.
A razão é escandalosamente simples: em Janeiro entram em vigor, juntamente com os aumentos de impostos e reduções de salários, pensões e prestações sociais que atirarão para o desemprego e a miséria muitas centenas de milhar de portugueses, também várias alterações às isenções de tributação de que gozam as SGPS.


Pagando antecipadamente os dividendos de 2010 antes de findo o ano económico, a PT, a Portucel e o Grupo Jerónimo Martins/Pingo Doce (que ainda recentemente instituiu uma fundação com uma "carta de princípios" cheia de expressões como "solidariedade social" e "responsabilidade social") escaparão pela porta do cavalo aos "sacrifícios para todos" com que enchem a boca Governo e PS.


Sobre a fuga aos impostos de 1 100 milhões de euros num momento crítico como o que o país atravessa, o que o Governo, pelo perplexo ministro das Finanças, tem de substantivo a dizer é que é "legal". E se calhar é. Só que quem fez as leis que o permitiram e não fez as leis que o impediriam foi o mesmo Governo (que às vezes mais parece um Conselho de Administração do país por conta dos grandes grupos económicos e da banca) que tanto gosta de mostrar "coragem e determinação" quando se trata de exigir sacrifícios aos mais pobres e às classes médias.


transcrito, com a devida vénia, do Jornal de Notícias de hoje

A nova vigarice: o Campeonato do Mundo de Futebol de 2018

A taça: depois, mudam o número...


Eu não quero cá disso!

O Campeonato do Mundo de Futebol de 2018.

Nada me garante que ainda cá esteja, mas não quero mais droga, para o meu país, onde começa a haver duas únicas soluções: o alcoolismo ou o suicídio.

Não quero mais estádios, que ficam vazios.

Nem turistas: não quero que os portugueses sejam criados de ninguém: deixem-nos ganhar o pão com o suor do seu rosto, no que é deles.
Turista vem e vai -e tapa as misérias.

Quero que se recuperem a pesca, a agricultura, as pequenas empresas.

Quero que se gaste ainda muito mais dinheiro, com a educação, com a investigação.

Com os ordenados de quem trabalha.

E já são tão poucos os que encontram trabalho!

Estou a marimbar-me para o tal Campeonato: não resolve a tragédia da fome.

Dos desempregados.

Dos que não conseguem sustentar a família.

Dos que devem mais do que o tamanho do Himalaia.

Dos que não têm dinheiro para pagar os remédios.

Dos que dormem na rua.

Quero que o Campeonato do Mundo de Futebol de 2018 vá dar uma grande volta ao bilhar grande e não me apareça por cá.

E que se amanhe com os da sua laia.

Aqui, quero um país feliz.

Com trabalho, com pão, com casa, qualidade de vida.

domingo, 21 de novembro de 2010

A República e a Guarda



Pois, já passou o dia... Não passou nada! Este é um lembrar o muito que se fez! E se continua a fazer: sexta feira, 26, estreia, no TMG, o maior espectáculo do mundo: a República celebrada e representada pelo povo da terra, 400 personagens, pela gente de terra mais... bem, se ficam sentidos se eu disser "a mais pura", digo: a que é a cidade, a que é a terra mais alta e que tem o ar mais puro!... Ok? Sobre o acontecimento, único e inimitável, deixei, aí abaixo, notícia.

811º aniversário da Guarda

Capela do Mileu, século XI



A Guarda faz 811 anos no próximo sábado, 27.

Lá estarei.

Era o que faltava que faltasse!

Cresci no "sagrado monte" (Augusto Gil dixit): em todos os sentidos: desde o Professor Roxo ao Professor Rabaça e ao "Rocha", o Colégio, onde fui aluno externo e aprendi que bastasse até à Universidade (melhor: para além da Universidade).

E, com a Libânia e as suas bailarinas, aprendi que o amor é um bem de Deus.

Ensinaram-me muito para além de todas as universidades: ainda hoje consulto o manual.

Porque as coisas divinas...

Adiante.

Ilustro esta memória, de lágrima mesmo ao canto do olho e o nó no gorgomilo, com a imagem da Capela do Mileu.

Ia eu de romagem a essa capelinha onde, creio, o meu querido e saudoso Padre Pôpo disse missa -o bom homem, que também era Padre, e me aconselhou os grandes escritores, na Biblioteca Municipal, que dirigia: o Tolstoi, o Dostoievski, o Raul Brandão... o Nobre...

Ela já não é a mesma: tiraram-lhe o sol!

Alguma vez alguém, algum "poder", algum Presidente da Câmara a libertará das garras dos patos bravos, que a macularam?

Alguma vez alguém afastará a infâmia da gasolina?

Pobre capelinha!, a sorte dela é não ser asmática!

E, daí, quem sabe?

Isso queriam eles!

O povo unido jamais será vencido!


Há dias, apareceu um título, num jornal:

“A crise do Estado Providência”.

Não, não há nenhuma crise do Estado Providência.

Há a crise do neo-capitalismo, do neo-liberalismo selvagem, que tem uma barreira e a quer abater:

o Estado Providência.

Julgam os galifões que podem continuar a chupar o frango.

O frango és tu e eu –quem anda a ver se vive (hoje: se sobrevive), neste mundo.

Que, realmente, se associou no Estado Providência.

O Estado somos nós –só não sabe quem está a ver se rouba.

O Estado é o Contrato Social, o entendimento entre as pessoas que dividem o mesmo espaço.

Criámos isso porque temos os mesmos direitos e quisemos chegar a um acordo e viver em harmonia.

Isso não serve os esclavagistas: os que querem viver à custa do sangue, do suor e das lágrimas dos que põem a trabalhar para eles.

E que os “escravos” recusem e se organizem estraga-lhes o arranjinho.

E, aflitos, querem derrubar aquilo que lhes condiciona o roubo.

Ora bem..., como diz o Sr. Cara de Anjo, alentejano de gema:

“A crise é deles, e tirem a mão do capote, senão...”

Bom dia!





Hoje festeja-se o Dia Internacional da Saudação.

Saudar: cumprimentar.

Não negar a saudação, diz o povo,

dizia-se -e diz-se- onde ainda vive gente humana,

que reconhece a existência de outro ser... humano.

Vittorio De Sica, sobre um texto de Cesare Zavattini, realizou, em 1951, um filme maravilhoso:

Miracolo a Milano

Maravilhoso e simbólico

e acusador:

denuncia o egoísmo, a indiferença: a solidão crescente, galopante...

a desumanização do homem.

A monstruosa injustiça de uma sociedade em que a minoria enriquece e enche a barriga com o sacrifício da maioria.

Uma sociedade em que a minoria reinventa o escravo: cria a nova escravatura que trabalha para ela, minoria, e a enriquece.

Nega a saudação ao outro –ignora que o outro também é um homem: uma criatura de Deus.

Sabem para onde fogem essas pessoas que vão atrás dos namorados a cavalo na vassoura, no poster que reproduzo?

Pois bem, eles explicam, no filme:

“Para um país onde bom dia queira dizer bom dia”.

Bom dia! Bom dia! Bom dia!

amigo que não conheço, amigo que estás longe, amigo que tens de o ser, estejas onde estiveres, porque és uma pessoa humana, porque somos pessoas humanas, porque todos somos criaturas de Deus!

BOM DIA!

sábado, 20 de novembro de 2010

Os graus da indiferença

Haiti: apenas uma notícia?



Os desígnios do egoísta são compreensíveis: enraízam no medo. Tudo quanto está além do próprio pequenino universo, do sossego e da segurança que agasalham, representa mar revolto, incerto, desconhecido. E o conhecido é, para cada um, e apenas, o lugar -o seu lugar- em que finca os pés e não treme, não se agita, garantindo o dia a dia harmonioso –fiador do pão que ele não partilha. O mais desinteressa-lhe: é-lhe indiferente. Há, para o egoísta, neste mundo, um único horizonte: aquele que divide com os outros cuja avareza e a desumanidade acata, se não agredirem as suas. Acaso lhe cheguem notícias de fora escuta-as, discute-as, comenta-as. Pode fazer um, dois, três gestos, dar uma esmola, protestar contra as injustiças, ao borralho ou à mesa de café, ou mesmo numa folha qualquer. Graus de indiferença. Isso, quando não recusa as novidades (que devia adivinhar, se olhasse à volta a miséria galopante) e as ignora. Deita-as às ortigas, se o desautorizam, desnudam –e apontam a sovinice, a imoralidade, a mesquinhez, que erigiu como modo de vida. Saltam-lhes dos olhos e saltam aos olhos a crocodilidade das lágrimas espremidas. Tu fitas o vizinho, e pensas: “Ali vai o bandido”; eu imito-te. Ou exagero? Temos consciência? Vencemos a indiferença? Não sei. Gostava de responder que não virámos as costas e queremos remar contra a maré que desvaloriza a vida. Concedo -temendo ceder à justificação do egoísmo-: querer é já apetecer outra atitude, reconhecer um valor, ir mais longe do que a esmola ou o lamento inconsequentes. Mas nós queremos de verdade? Olha para o Haiti, o terramoto, a cólera. Sim, é nisso que estou a pensar. O que fizemos? O que deixámos fazer? O que deixamos fazer?

Publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de 21/11/10

É uma afirmação cujos reflexos não se podem prever



L’ Osservatore Romano anuncia a saída, no próximo dia 23 deste mês, de um livro/ entrevista de Peter Seewald ao Papa Bento XVI.

E o OR transcreve a seguinte frase do Papa:

“...em casos especiais justifica-se o uso do preservativo”.

É uma afirmação importantíssima, sinal de viragem cujos reflexos não se podem prever –e entendi que devia divulgá-la, aqui.




Podes abrir o link e procurar a notícia:


Um pintor de quem Aquilino falou...

Óleo de Pierre-Cécile Puvis de Chavanne (1824-1898)


A propósito de Manuel Jardim, Aquilino Ribeiro refere, entre muitos outros, Puvis de Chavanne, tal qual leram nos textos que publiquei.

Confesso que nunca reparara nele e o desconhecia.

Provavelmente, vi obras suas nalgum museu –mas não dei nenhuma importância.

Aqui vos deixo um exemplo da sua pintura que me recorda -e não apenas neste quadro- os... pré-rafaelitas.

No link abaixo encontram dados desenvolvidos.

A Guarda faz anos e lembra que (ainda) continua a afirmar e a defender a democracia!







Claro que não faltarei!


Porque foi na Guarda que aprendi o valor da liberdade, da democracia e da solidariedade social.

Que aprendi a separar o trigo do joio.

Na companhia de Mestres e muitos outros jovens que lutavam contra o obscurantismo que reinava nesse “Sagrado Monte”, até há pouco tempo (lê: até ao dia 25 de Abril de 1974)...

Quando aqueles que ditam dogmas repetem os processos de Galileu Galilei e Giordano Bruno e metem a pata na poça...

Leão Tolstoi




La Iglesia Ortodoxa rusa no perdona a Tolstói


por Rodrigo Fernández


Las autoridades ortodoxas recuerdan que fue el propio escritor ruso, de cuya muerte se cumple el centenario, el que renegó de la fe


La Iglesia Ortodoxa Rusa se niega a perdonar a León Tolstói. Esto es, al menos, lo que sienten millones de rusos, que parecen equiparar inconscientemente la excomulgación del gran escritor con las represiones de la época estalinista y que no se explican por qué, si se ha rehabilitado a miles de personas, la iglesia no quiere rehabilitar ahora al autor de Guerra y paz.


Este sentimiento, este ver a Tolstói como una víctima de la iglesia -que no lo es; si acaso, de sus propias ideas- lo ha recogido el ex primer ministro y actual presidente del Tribunal de Cuentas, Serguéi Stepashin, que encabeza también la Unión Rusa del Libro. En esta última calidad, Stepashin escribió una carta al patriarca Cirilo en la que le pide, con ocasión del centenario de la muerte de Tolstói, que "manifieste hoy, a este hombre que vivía en la duda, esa piedad que precisamente la Iglesia es capaz de mostrar".


"La aclaración de la posición de la Iglesia ante este problema, la manifestación pública de sentimientos de compasión por parte de la Iglesia hacia el gran escritor en vísperas del triste aniversario, sería recibida positivamente tanto por la sociedad ortodoxa como por toda la rusa en general", dice Stepashin en la carta.
Cirilo encargó su respuesta al archimandrita Tijon, quien deja en claro que nadie pone en duda la talla de Tolstói, que sea "una de las cimas de la literatura rusa y mundial" y que, por eso mismo, "es comprensible el dolor y la perplejidad de los numerosos admiradores" de su obra, que no comprenden por qué el Sínodo del 20 de febrero de 1901 lo excomulgó.


Tijon recuerda que el sínodo simplemente constató lo que ya era un hecho. Fue el mismo Tolstói el que rompió "con la Iglesia que se autodenomina Ortodoxa", como escribió; era él quien subrayaba que en su testamento pedía a sus familiares que, cuando estuviera en su lecho de muerte, no permitieran que los popes se le acercaran. Las ideas e intervenciones de sus últimos años fueron, según la iglesia, "destructivas para los cimientos espirituales y sociales de Rusia". Al mismo tiempo, el archimandrita aclara que "ni antes ni después de su muerte se pronunciaron anatemas o maldiciones" contra él. "Los ortodoxos siguen venerando el gran talento literario de Tolstói, pero también continúan rechazando sus ideas anticristianas", escribe Tijon.


No deja de ser curioso que los rusos pidan la rehabilitación y el perdón para Tolstói, cuando él mismo nunca los pidió. Y con razón, pues el gran escritor no creía en los sacramentos, de los que se burlaba, como tampoco creía en la resurrección ni en la divinidad de Jesús. Otra cosa sería que pidieran la rehabilitación de aquellos seguidores de Tosltói que fueron desterrados, deportados y privados de sus hijos.
Sea como fuere, Tolstói hoy, en el centenario de su muerte, está muy presente en Rusia con sus libros, con películas basadas en sus obras, con exposiciones y veladas consagradas a él. Y entre los acontecimientos más simbólicos figura la reapertura de Astápovo -la estación de tren donde falleció el genial escritor después de huir de su casa de Yásnaya Poliana-, y la inauguración allí de un pequeño museo.


transcrito, com a devida vénia, de El País de hoje

Tolstoi morreu há 100 anos

A gare de Astapovo, onde Leão Tolstoi se refugiou, para morrer, em 20 de Novembro de 1910



UM ESCRITOR FORA DO TEMPO

A febre canibalesca de apagar os mortos encontra, às vezes, muros de granito, que resistem. Foi na pedra que Rodin eternizou Balzac. Outros dificilmente resistem ao silêncio criado pela ganância dos arrivistas. Por isso nada ou quase nada se vai sabendo de Afonso Duarte ou José Régio, de Branquinho da Fonseca ou Irene Lisboa –e morreram “ontem”. Há horas felizes. De visita ao Porto, dei um pulo à preciosa Livraria Lumière, Travessa de Cedofeita, e vi entrar um jovem estudante que procurava “Guerra e Paz”, de Leão Tolstoi –apesar do homem de Iasnaia Poliana ser nome de que se fala e por aí se fica. Não se estuda, sempre mais tísicos e chochos os programas do ensino. Acontecia que o rapaz escolhera por si e tinha bom gosto: comprou e levou a obra-prima. Escolheu o Mestre do romance? Talvez sim ou não. O que ninguém discute é a grandeza dos seus livros. A um principiante, depois Nobel -Ivan Bunine-, diria: “Escreva, já que o deseja, mas não pode ser esse o fim nem a justificação da sua vida”. E, no “Diário”, anota: “Por que razão temos de viver? Se não tem sentido nem objectivo, se vivemos por viver, não há razão para continuar a viver”. Bunine fala do sorriso de Tolstoi, encantador e triste; outros denunciam paixões atormentadas e o calvário dos seus dias com a mulher, Sofía Andreievna (o ensaio de Ramón Jose Sender, em Tres ejemplos de amor y una teoria, Alianza Editorial Madrid, analisa, superiormente, o drama); nós lembraremos a fuga final, agonia e morte, a sofrer sozinho, recusando receber familiares e amigos, no apeadeiro perdido de Astapovo. Erguera-se contra as injustiças sociais, publicara panfletos violentos, e a longa novela militante, Ressurreição, obra menor, em que se entrelaçam a denuncia social e o misticismo e se consagra o tolstoismo, espécie de doutrina que marcou o seu tempo e levou o republicano Jaime Magalhães Lima a Iasnaia Poliana, já então lugar de peregrinação de intelectuais e seguidores. E, afinal, tudo somado, deixava, aquilo de que quisera separar-se e a que confiara alma e sangue: o formidável romance da tragédia das almas. Tal qual o nosso desesperado Camilo.


Publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de 20/11/10

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O pintor que Manuel Jardim não queria imitar

'Retrato de Mulher', óleo de Léon Bonnat (1833-1922)

Para que se saiba... ainda que não importe... senão à minha saudade...

Maria Schell: esta era a actriz que me punha a chorar, quando ia ver, ao Cine-Teatro da Guarda (tinha 15 anos) os filmes super-românticos em que ela era a principal...

Manuel Jardim e não para finalizar, se me ajudarem...

Cabeça de perfil, 1920




Manuel Jardim era um homem apaixonado pela mulher –a mulher valor absoluto, musa indispensável ao seu trabalho, sinal único e insubstituível da beleza.

Várias atravessaram a sua curta vida, em paixões tumultuosas, absolutas e com a morte na raiz, le mal d’amour, de alma instável, insatisfeita, ansiosa, artista pobre, exilado incurável, que voltava à terra a encher os alforges, que é como quem diz, à cata dos vinténs familiares, e logo regressava à pátria de eleição, parigot, presa de Montmartre, do Louvre e da Closerie des Lilas.

De quem será o rosto acima esboçado?

Da flamenga Gina Valeska, ‘alta morena, pretensiosa, tinha mau génio. Bem feita de corpo e fausse-maigre, grandes olhos expressivos, pele finíssima”, cujo ‘influxo na carreira do pintor devia ter sido, se não funesto, sáfaro’?

Do pardalito parisiense, a bailarina Lili, ‘uma rapariga miudinha, de face angulosa e seca, um pouco escanifrada, mas que tinha pernas espirituais e dançava divinamente’?

Ou da mocinha lionesa, Renée, ‘rapariga loira, simpática, sardenta, levemente gorducha’, alma boa e, ao que parece, generosa a ponto de o prender mais duradouramente?

A Renée que o Mestre de “Terras do Demo” -as citações atrás vêm do tal “Por Obra de Graça’- identifica como a comparsa feminina de “Retrato de Mulher ou Le Déjeuner”? E sobre cujo encontro sublinhou Aquilino: 'O olho educadíssimo do pintor não se enganou. Não se enganou com a estampa e teve a sorte de acertar com a bondade. René era o que se chama a excelente rapariga".

É difícil destrinçar.

Manuel Jardim apaixonava-se e renovava as paixões, inevitavelmente fatais, do mesmo modo que saltava de experiência pictórica para experiência pictórica, sempre insatisfeito.

Doente de exigência suicida.

Trouxe de uma viagem a Itália ‘paisagens, marinhas, pochades de todo o género’ -escreve Aquilino- ‘cantavam em gama mais saborosa que Ziem a terra versicolor. Veneza, mormente, explendia numa cromática deliciozíssima verde-alga e oiro velho.

Mas é Aquilino que lhe põe na boca estas palavras:

“-Como vocês me vêem e eu dou conta que poderia ser, eu lhes digo: um pintor bem conceituado, género oficial, da classe Bonnat. Mas estão muito enganados; ou serei eu, ou não serei ninguém. Pintor como há mais, não!

Deixei-vos três reproduções. Aquilino acena a outras. Não sei delas. Mande dizer, quem sabe, por onde andam! Muito agradecia.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

De como é diferente o génio em Portugal

A feira das vaidades...



Ia eu a fechar o blog de hoje, quando, prosseguindo a releitura de “O Pintor Manuel Jardim”, como sabemos, o primeiro de três constituintes de ‘Por Obra e Graça’, de Aquilino Ribeiro, se me deparou este brinco, a propósito das dificuldades de Jardim em vencer na vida de artista e da miríade de génios, via láctea lusitana, que nos ilumina de Norte a Sul, sempre a expandir-se, com breve sobressalto no Chiado lisboeta.

Ora aqui está esclarecido o que me pareceu justo e bastante recreativo:

escreve Mestre Aquilino:

‘Manuel Jardim não trabalhava de olhos em Portugal, onde são fáceis de satisfazer as exigências de arte e a individualidade se obtém por meteorização própria ou por meio de cana metida no rabo, a que vêm soprar amigos e confrarias”.

A terrível irresponsabilidade das massas ou a Cultura não é feijoada com chispe...

Todos ao molhe e fé em Deus...



Se queres saber por que é que os programas das TVs são uma desgraça, abre o link abaixo e pensa sobre o que lá está:

O país e o futuro

in Público de hoje

Ainda Manuel Jardim

'Retrato de mulher ou Le Déjeuner", 1910




Aquilino Ribeiro era fiel aos amigos e generoso: zelava por eles. Eis qualidades admiráveis. Não só procurou salvar do esquecimento Manuel Jardim, de quem, ontem, aqui falámos. Há outros. Por exemplo, Brito Camacho, longamente evocado em ‘De Meca a Freixo de Espada à Cinta”. Não precisaria este tanto quanto Jardim do empurrão de Aquilino? Certamente que não: quem tem olhos para ler e elementar bom gosto reconhece em Brito Camacho um dos melhores contistas do Alentejo e um dos primeiros novelistas do nosso século dezanove.

A Jardim, levou-o o tempo e o desaparecimento das obras. Andam por aí, ignoradas? Perdeu-as ele? Deitaram-nas fora os alarves que as tiveram nas mãos?

Não sei responder. Quem mais souber, que diga. Consegui desencantar três, online. A reproduzida ontem, a de aí acima e uma outra, que vos mostro amanhã –a fazer render o peixe, bem na espinha...

Quero, ainda, transcrever dois parágrafos magistrais do estudo de Aquilino, inserto, como vos disse, em ‘Por Obra e Graça’:

‘Manuel Jardim caiu neste turbilhão de arte [Paris], de vida, de clima, como um tremedal. Nos primeiros tempos o esforço que fez foi descobrir-se. Ter individualismo como Manet, como Puvis [Pierre Puvis de Chavannes], como Cézanne! Qualquer outra coisa que não fosse realizar-se singularmente valia a pena?

No rodar dos anos, com os invernos parisienses de céu forrado de zinco; a primavera alegre de sedas e de flores pelos parques; o estio: inglesas de baedeker aberto na palma da mão como estante, o sol a estalar no zimbório doirado dos Inválidos –foi embebedando-se de Paris. Pela alma e pelo corpo passaram-lhe as dura vicissitudes de homem desterrado: dias felizes de mão fácil e olho esperto com um corpinho vibrátil de rapariga ao lado para tocar como um violino; dias aziagos, sem amor, sem fé e sem pão, longos como eternidades. Mas ainda nas horas do Diabo a personalidade lhe crescia. A senhora vizinha, o
rapin d’en face, a mulher da crémerie não só não vinham meter o nariz na sua ânsia e desespero como nem se davam ao incómodo de o carpir. Ficava ele só a bracejar com as suas misérias.’

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

No Porto, está a 3ª melhor Livraria do Mundo

Livraria Lello, no Porto



No guia Lonely Planet de 2011, encontrarás uma nova lista das melhores livrarias do mundo.

Em 3º lugar -a seguir à City Lights, de São Francisco, e à El Ateneo Grand Spelndid, de Buenos Aires; e à frente da Shakespeare & Company, de Paris, e da Daunt Books, de Londres- aparece essa verdadeira pérola de arquitectura, que poderás encontrar na Rua das Carmelitas, no Porto:
a Livraria Lello,
obra genial de Francisco Xavier Esteves, que a desenhou com esse fim.

Inaugurada em 1906, terá 105 anos, quando o guia sair.

Dá para consolar os desesperados da crise –os desesperados de um país à deriva?

Dar, não dá –mas dispõe bem.

Os abusos de poder

Jim Morrison (1943-1971)



Florida quiere perdonar 41 años después a Jim Morrison por enseñar su pene en directo


por Manuel Cuéllar



El músico murió con dos causas penales abiertas por escándalo público y lenguaje obsceno

Todo ocurrió en la noche del primero de marzo de 1969. The Doors, que ya se habían convertido en un fenómeno de masas en Estados Unidos, se subieron al escenario del Miami's Dinner Key Auditórium para dar un concierto. Jim Morrison, como otras muchas veces, se plantó frente al público absolutamente borracho y, probablemente, bajo el efecto de alguna de las drogas de las que era consumidor habitual. Sus tres compañeros de banda comenzaron a tocar y Morrison decidió darle un discurso a la audiencia. Un discurso sobre los derroteros que tomaba el movimiento juvenil de finales de los sesenta, sobre una masa dirigida y dominada... La cosa degeneró hasta el insulto: "Sois todos una panda de gilipollas", gritó el músico y supuestamente se bajó la bragueta y le mostró de manera desafiante y desdeñosa su pene a la concurrencia.



El concierto terminó como el rosario de la aurora tanto que el suceso desembocó en la detención del cantante que fue acusado de conducta lasciva y libidinosa, un delito grave, en el Estado de Florida.



Morrison fue juzgado y hallado culpable en 1970. La fiscalía presentó como pruebas unas fotos de aquella velada en las que se muestra al líder de The Doors pasado de rosca y tocándose su zona genital o a cuatro patas mirando fijamente y muy de cerca las cuerdas de la guitarra de su compañero Robby Krieger. La sentencia: multa de 500 dólares y seis meses de trabajos forzados. Una condena que nunca cumplió ya que sus abogados apelaron y la nueva vista no pudo celebrarse puesto que el músico ya había sido encontrado muerto en la bañera de su piso en París en 1971 a la edad de 27 años.:



El martes el gobernador de Florida, Charlie Crist, dijo que presentará oficialmente el nombre de Morrison a la junta de indultos de su estado como candidato para ser perdonado por las dos condenas de la estrella de rock. Crist dijo en una entrevista telefónica concedida a The New York Times : "He decidido hacerlo simplemente porque creo que es lo que hay que hacer. En cierto modo parece una conclusión trágica que el legado en la vida de un joven sean esas condenas. Y ni siquiera estamos seguros de lo que realmente ocurrió. Cuanto más he leído sobre el caso y más me ha informado sobre ello, más convencido estoy de que tal vez se haya cometido aquí una injusticia".



La cosa en la ultraconservadora América del Tea Party tiene lo suyo y, además, se une a la rabiosa actualidad ya que Tom Dicillo estrena el próximo 10 de diciembre en España su documental When you are strange , sobre The Doors y Jim Morrison en el que se cuenta de manera muy fiel y con gran derroche de imágenes lo ocurrido en Florida la noche de aquel concierto.


transcrito, com a devida vénia, do El País de hoje

Os emigrantes

'La femme à l'éventail', de Manuel Jardim, s.d.


E foi ao acaso das vendas ‘a retalho’ que topei um livrinho muitíssimo interessante ‘Aquilino em Paris’ (Vega, 1988), de Jorge Reis, o autor de “Matai-vos uns aos outros”, Prémio Camilo Castelo Branco de 1962, outro exilado e convertido em parisiense e, maldição da nossa raça, a amar, obviamente revoltado, a terrinha distante (http://www.apagina.pt/?aba=7&cat=152&doc=11302&mid=2).

A páginas tantas, cita Jorge Reis o Mestre d’ O Malhadinhas o qual, Aquilino, nomeia, num artigo publicado na ‘Ilustração Portuguesa’ de 19 e 16 de Abril de 1909, alguns dos artistas portuguesas que haviam escolhido Paris como refúgio.

A pátria sufocava.

“Portugal tem aqui uma colónia relativamente numerosa de artistas. Uns aclimataram-se ao meio, produzem para o povo francês e para a república, como Leal da Câmara, como os irmãos Sousa Pinto, não sei se Pratt, como Sousa Lopes, cujas mulheres amoravelmente elegantes hão-de enamorar dentro em pouco das vitrinas do Bernheim Jeune. Outros vão na embalagem a tomar posse do métier, o estudante já longe. Sales, Jardim, Alberto Silva, Viana, Cândido de Almeida. Desembarcaram ainda há pouco na gare d’ Orsay, Teixeira, Ruivo, Maltuisson, Nunes, Plantier, cujas marinhas eram já em Lisboa o enlevo das meninas da Lapa. E ‘dilettanti’ não faltam, como Rodrigo Soares que hoje pinta por amor apenas, como Leitão que compõe nus sobre a sua tatuada pele de tigre de atelir...”

Quantos ficaram e hoje se conhecem e admiram?

Falta-me, aqui, o meu queridíssimo amigo José Luís Porfírio, que tudo sabe da Arte e das artes plásticas. Ele me diria.

O Jardim, que Aquilino refere, a meio dos outros, era um pintor admirável, de vida e obra breve.

Aquilino dedica-lhe o primeiro (estupendo retrato: 110 densas e vivas páginas) dos três estudos de ‘Por Obra e Graça’.

Interessou-me e reproduzo, acima, um quadro seu.



para saber mais:



http://www.infopedia.pt/$manuel-jardim

terça-feira, 16 de novembro de 2010

F.eira M.undial da I.ncerteza


in Público de hoje


Vamos a ver se entendemos

Em risco de arder?...



Editorial

Miedo al contagio

La crisis de Irlanda amenaza con arrastrar a Portugal y frena la recuperación española

A pesar de que las primas de riesgo se han moderado, la estabilidad económica y financiera de la zona euro sigue sometida a la intensa presión de la crisis irlandesa. Solo razones políticas explican que Irlanda no haya invocado todavía el Fondo de Rescate Europeo, pero la intervención es prácticamente inevitable y sería deseable, además, que fuera urgente. Y lo que más urge es proceder a una recapitalización de los bancos irlandeses, que Dublín no puede afrontar. Por ello, la propuesta de la Comisión es proceder a una salvación rápida del sistema financiero irlandés y recuperar así, con un coste elevado pero medido, una parte de la confianza de los mercados. Pero el desorden no se limita a Irlanda; ha contagiado a Portugal, perjudica a Grecia, a quien Eurostat ha descubierto un déficit superior al previsto, y amenaza con contaminar a España si las autoridades españolas no gestionan el nuevo episodio de crisis con la debida competencia.



Actuar con competencia significa aceptar que existen probabilidades de contagio. Las autoridades portuguesas admitieron ayer que Lisboa podría verse obligada a recurrir al Fondo de Rescate, porque la presión de los mercados no reacciona ante las meras declaraciones de intenciones. Los ministros de Economía de la zona euro se enfrentan hoy a una situación compleja, porque en interés de la moneda común deben recomendar a Irlanda que acelere la petición de ayuda, al menos para los bancos, y porque la economía portuguesa se precipita hacia una situación parecida.


Hoy, como cuando empezó el proceso fatal que acabó con la intervención de Grecia, no basta con decir que "España no es Irlanda". No lo es, entre otras razones, porque la prima de riesgo en España ronda los 200 puntos básicos y la irlandesa supera los 600. Pero con cada episodio de crisis el diferencial de deuda estabilizado después de la vorágine es superior al anterior. La prima de riesgo no ha vuelto a los 100 puntos básicos después del repunte de la primera crisis ni a los 150 puntos después de la segunda. Y esta situación refleja el recelo latente de los inversores y encarece el coste de financiación de las empresas.



La situación de España es delicada, aunque esté todavía lejos del abismo. Su solvencia financiera depende de los planes de ajuste, de las reformas a medio camino (en especial de la reforma del sistema financiero, que debe sustanciarse de inmediato) y de las expectativas de crecimiento económico, porque es la condición imperativa para reducir el paro y el déficit.



La recuperación es difícil cuando la financiación de la economía se encarece constantemente debido al recelo de los inversores. De ahí que la gestión política tenga que ser muy cuidadosa; debería evitarse cualquier gesto que implique que los recortes del gasto no se respetarán, cualquier indicio de que la reforma financiera no se cerrará a tiempo, o cualquier sugerencia de que las reformas laboral y de las pensiones quedarán aplazadas. Pero, desgraciadamente, esta última torpeza ya se ha cometido.



transcrito, com a devida vénia, de El País de hoje

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O assalto ao mar

O atum colonizado



João Coimbra: "Chegou a hora de colonizar o mar"

Título do Jornal de Notícias de 16/11/10



João Coimbra, Presidente do Cimar-Centro de Investigação Marinha e Ambiental e Vice-Presidente do Cluster-Mar fez uma declaração histórica:

“chegou a hora de colonizarmos o mar!”

Os peixes e restantes habitantes dos abismos registaram logo a notícia que corre de boca em boca.

É que eles sabem o que foi a colonização por esse mundo fora

e têm-na sentido na carne cortada às postas.

A esperança da peixeirada é que o discurso do sr. Coimbra não passe de mais um... arroto de pescada.

Ou de mais uma arengada para encher os ouvidos.

Porque eles também sabem que, por cá, pesca e investigação... foi chão que já deu ou nunca deu uvas...

No tempo em que os homens falavam...

Vista de Lisboa, quadro de Carlos Botelho (1899-1982)



Sempre que topo alguma obra da qual constem páginas de Raúl Brandão, compro-a e devoro-as.

Desta feita, encontrei o Mestre d’ Os Pobres na casa dos milagres: a Livraria Lumière, à Rua de Cedofeita, no Porto.

É um livrinho intitulado Raul Brandão & Columbano, antologia mínima que Manuel Mendes publicou nos idos de 1959 (Jornal do Foro) e junta artigos esquecidos de Brandão e cartas trocadas entre este e Columbano.

Transcrevo algumas linhas de abertura a “Uma visita a Columbano", que me encantaram e afligiram:



O ilustre pintor vive numa velha habitação, para as bandas da Rua da Alegria. É um grande casarão amarelo, metido dentro de um pátio, e que, entre os horrorosos prédios de Lisboa, conserva ainda carácter. Outrora as casas eram quase como pessoas: havia-as simpáticas e alegres como velhinhas; havia-as com feitios de birra, sardentas e insolentes... Hoje o ideal é este: o prédio, a uniformidade, o horror...

Pois a habitação de Columbano tem ainda individualidade. Na Primavera, uma trepadeira, que corre as janelas, enverdece. As traseiras dão para um quintal ensolhado, para um jardim derrubado e triste, onde velhas fruteiras indiferentes continuam a reflorir e a crescer. Chegando a Agosto o pátio sombrio e fresco tem um ar conventual, e tudo aquilo, perdido no rumor de Lisboa, repousa, como um pedaço de campo, a seis passos da Avenida...’



Deslumbrou-me a força e a delicadeza da evocação; afligiu-me verificar, mais uma vez, que vivemos num mundo morto.

O artigo data de 28 de Dezembro de 1898. Passaram 112 anos. E, agora, nós vivemos em coelheiras, em caixas de sapatos, umas em cima das outras, com buraquinhos que mal deixam passar a luz, não nos mostram nem o Sol nem a Lua nem as estrelas, presídios gelados, ao correr de estradas vazias ou apenas cheias de barulhos desconexos e fumos envenenados, desconhecendo tudo e todos e desaprendendo a conhecermo-nos a nós.

domingo, 14 de novembro de 2010

De regresso...




Agradeço do fundo do coração as palavras do Rialto (ver comentário ao post Ausente 7 dias...) e interessar-se ele por este humilde escriba, viciado em escurecer papéis. Aqui estou de volta, amigo!

De regresso para retomar o diálogo com todos aqueles que têm a paciência de me lerem e aturarem...

Foi uma excelente viagem: deu para trocar ideias, reencontrar amigos de sempre, fazer novos amigos, rever lugares muito belos.


Revisitar a sagrada Livaria Lumière, Travessa de Cedofeita, onde as irmãs Ribeiro pontificam, e...


conhecer, em carne viva, a Dona-Redonda, cujo blog há muito sigo atentamente...

Comer e beber, de alegria para nova alegria e de surpresa em surpresa: à tripa-forra...

É que, tal qual sabem, estive no Porto.

Mas o que não sabiam é que dei um pulo a Aveiro!

Admirei, pela primeira vez, uma cidade que se respeita a si própria.

Além da beleza natural, admirei o cuidado urbanístico, a conservação e recuperação exemplar do Centro Histórico...

Também, ali, comi e bebi do melhor.


Até aconteceu, a completar o milagre da gastronomia tripeira e aveirense, uma sangalhense, Mestra de Alta Culinária, proporcionar-me uma revelação divina: uma chanfana de comer e chorar por mais!
Há horas de sorte.

Mas é preciso regressar ao blog!

Vamos a isso!

Como ia dizendo...