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quarta-feira, fevereiro 10, 2016

Eu que te olho com este medo

Eu que te olho com este medo
de animal no fim da cadeia alimentar
que me aproximo do teu coração
como de uma armadilha ocultada
eu que estou desenhada para descobrir
esses sons na mínima folhagem
perante ti fico tão desamparada
que toda a floresta fica desflorestada
e não há sítio onde a noite se saiba sossegada.
Ana Salomé

quinta-feira, agosto 07, 2014

Comecei a fumar

Comecei a fumar para te pedir lume. Para arranjar um motivo. Para. Tens lume? Perguntei-te. Sim. Disseste. Levaste a mão ao bolso. Engatilhaste o zippo. Todo prateado. Abeiraste-te e fizeste concha com a mão direita. Eras canhoto, como o coração. Agora. Disseste. E levei o cigarro até à chama.
Já está. E sorriste. Importas-te que te acompanhe? Perguntaste. Não, Claro que não. Claro que não. Está frio. Disseste. E esfregaste as mãos. O cigarro sempre aquece. Sim. Tossi. Estás bem? Perguntaste. Estou muito bem. Óptimo. Disseste. E sorriste. Aquele café além é acolhedor. Não tomas nada? Um chá fazia bem à tosse. Perguntaste. E disseste. Sim, Um chá calhava bem. Estava mesmo a apetecer-me. Parece que adivinhei. Disseste. E aí sorri eu. Tomámos chá e de imediato fizemos planos de vida Que correram mal, imediatamente mal. Comecei a fumar para te pedir lume. Para passar o frio. Descobri que não viria a morrer Nem de cancro pulmonar, nem de amor, mas da própria morte, mal o lume se apagou e o café fechou as portas. Para sempre. Ana Salomé

Mas...


(De repente, lembrei-me do filme "My blueberry nights".)

O amor é lindo mas
são horas de fechar o bar,
são horas de te salvar um pouco, miúda,
de te levar daqui para bem perto da felicidade,
de retribuir todas as tuas esperas
com o melhor sorriso e uma Lisboa
que amanheça a céu aberto
num pernilongo vagar traçado,
dois cafés e só um copo de água,
um oásis no deserto das próximas manhãs,
de te salvar um pouco, de riscar os templos,
de prolongar a música além do minuto final,
de te mostrar a faixa escondida.
Ana Salomé

(Surripiado daqui.)